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Tópico: Existência muda, surda e cega

  1. #1
    Avatar de Bela~
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    Padrão Existência muda, surda e cega

    O início deste conto já estava largado na minha área de trabalho por semanas, esperando por um espasmo de vontade e de inspiração para ser concluído. Mas aí eu peguei uma pneumonia bizarra, fiquei internada e o texto quase caiu no esquecimento.

    Hoje é que consegui resgatar a ideia e terminá-lo. Não sei o que achei dele. Foi mais uma tentativa de expor uma visão minha.

    Existência muda, surda e cega

    "Prefiro este eterno grito de desespero a essa angústia sufocada, essa existência muda"
    ...

    - ...por isso é que as vanguardas europeias foram a ruptura de paradigmas, de padrões vigentes. Vamos estudar, primeiro, a corrente expressionista, que buscava...

    Mando à merda as vanguardas do século passado. Entre um bocejo entediado e uma piscadela demorada, afundava-me cada vez mais em minha cadeira. Você, metido a intelectual, precisa admitir que uma sala de aula escura em que se exibe uma projeção não ajuda em nada a vigília. Para completar, ainda tinha aquele professor - de cujo nome eu sempre me esqueço - que parecia ter vivido a época que lecionava. A voz arrastada e grave e monótona e não sei mais o quê. Meus cochilos é que eram interessantes.

    - ...nesse caso, a intenção do pintor não é a de representar fielmente a realidade visível, mas seu próprio estado de espírito. Como podem ver, temos...

    Apertava uma tecla com seu dedo mole, passava ao próximo slide. Tinha sempre uma pintura, alguma coisa assim. Recostei-me à parede e fechei os olhos longamente. Limitei-me a escutar o sujeito de cabelos grisalhos falando lá na frente, balbuciando qualquer chatice.

    Senti por sob as pálpebras uma mudança na iluminação do projetor, troca slide de novo. Mecanicamente, levantei o olhar à apresentação e vi um quadro conhecido. Não, "conhecido" já é exagero. Familiar, eu diria. Era aquele homem com a boca aberta, um homem meio verde, meio retorcido, com as mãos no rosto.

    -...esta é a mais famosa obra de Edvard Munch, um ótimo exemplo de tela expressionista. O Grito, que...

    Isso mesmo, era esse o nome. Então, descoberto o título do trabalho, voltei à minha morbidez e recostei a cabeça nos braços apoiados sobre o tampo da mesa.

    Mantive-me assim por meio minuto, talvez. No entanto, ao escutar o berro, ergui o corpo em um sobressalto. O som estrídulo continuou se propagando durante um tempo considerável, mas, para meu assombro, ninguém parecia tê-lo escutado. Só eu.

    Desorientado, olhei para os lados e procurei a origem do barulho. Para surpresa maior ainda, notei que a figura infeliz de O Grito fora tomada por um movimento ondulante e trêmulo, que me provocou um arrepio profundo. Olhos escavados pela agonia, rosto esquálido de sofrimento. A boca, para meu espanto total, moveu-se e escancarou-se precariamente.

    - Confesso que isso tudo me deixa confuso, sabia? - assim que o sujeito começou a falar, identifiquei em sua voz rouca e fúnebre o tom da exclamação de instantes atrás - Nunca sei se sinto pena ou raiva de vocês todos.

    Com medo de que meus colegas me vissem falando sozinho, balbuciei quase que para mim mesmo - De... nós todos?

    - É, sim, garoto. Eu, que nasci já faz uns decênios, sempre achei que vocês fossem melhorar, que fossem evoluir. Mas não. Prefiro este eterno grito de desespero a essa angústia sufocada, essa existência muda - embasbacado e duvidando de minha saúde mental, deixei escapar um murmúrio de incompreensão. Ele continuou - Esses rostos em branco, que não se surpreendem mais com nada. Essas mãos oscilantes, que agora só servem para levar comida à boca. Esses olhos vazios, que só enxergam o que for conveniente! Quanta decepção!

    Aparentando cansaço, o homem de Munch começou a distanciar-se. Cabisbaixo, saiu andando pela ponte banhada em pôr do sol.

    -...então nós vamos parando por aqui. Semana que vem eu continuo com Cubismo e Impressionismo. Até mais.

    As frases arrastadas do professor ecoavam em algum recanto da minha cabeça, distantes. Eu, que estava distraído, assustei-me com o sinal que anunciava o fim da aula. Não me despedi de ninguém. Recolhi às cegas minhas canetas e meu caderno e saí dali atordoado.

    Na rua, o cenário de sempre. Movimento, trânsito de pés e de cabeças. Como ainda estivesse imerso no estranho episódio da aula de Literatura, fui incapaz de desviar de um homem que seguia acelerado no sentido oposto. Fui jogado ao chão com o impacto e, finalmente, pude me livrar do estado de transe. Olhei para o sujeito que se chocara comigo e vi que sua maleta de executivo abrira-se com o impacto. Ele recolhia febrilmente os papéis espalhados pelo cimento e tentava eliminar um arranhão da pasta que levava.

    - Você tá legal, garoto? - sem pausar a arrumação dos documentos ou lançar-me um rápido olhar, o homem perguntou maquinalmente. Levantei-me, e, sacodindo a poeira da calça, respondi que estava bem. O sujeito, tendo terminado de coletar suas folhas, secou o suor da testa, ajeitou o caimento do paletó e virou-se, retomando apressado seu caminho. Não se voltou para mim nem disse mais nada.

    Fui incapaz de olhá-lo direito, pois logo se perdeu em meio aos transeuntes. No entanto, tive certeza de que veria um rosto em branco, mãos oscilantes e olhos vazios. Naquele momento eu descobria que O Grito tinha razão.

    (Isabela de Almeida Pinheiro - 08/09/12)

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    Última edição por Bela~; 11-09-2012 às 22:09.

  2. #2
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    Quem é vivo sempre aparece. E apareceu bem, diga-se de passagem, com um conto bem bacana.

    Ratifico aqui algo que já disse num outro poema seu: tenho tendência a gostar dos seus contos. Puxando pela memória, esse aqui foi o que mais gostei.

    Só não poderia deixar de salientar algo que noto em seus textos e nunca tive a oportunidade de comentar: sempre parece que estou lendo algo que foi traduzido de outra língua para o português, com direito à censura dos palavrões. Longe de mim querer incentivar alguém a usar palavras de baixo calão em seus textos, mas existem alguns momentos que simplesmente pedem por uma expressão mais chula ou ríspida. Me lembra os filmes dublados, em que o original "fuck you, asshole" é traduzido pra "vá se ferrar, desgraçado". Dá um nervoso do caramba.

    E que se danassem as vanguardas do século passado.
    Danassem? Porra, aí não, né. Ainda mais vindo de um garoto puto com a aula de litaratura.

    Também queria chamar a atenção pra um fato curioso: esse não é o primeiro conto aqui no fórum que aborda "O grito", do Munch. O Ace of Manaus já proseou sobre isso em outras eras. Digo isso só a título de curiosidade mesmo. Provavelmente deve ser pelo mistério que ronda a pintura.

    Por último, mas não menos importante: me amarro em literatura fantástica, e esse conto matou a pau. Gostei do quadro falante, da mensagem passada, do diálogo entre narrador e leitor, da ambientação e da leveza do conto. Se servir, ficam aí as mênçãos elogiosas como estímulo.

    Abraços.


    "Este tem sido o problema dos místicos. Alcançam o Definitivo, mas não podem relatar aos que lhes vêm após. Não podem relatá-lo a outros, que gostariam de ter essa compreensão intelectual. Tornaram-se um com o Definitivo. Todo o seu ser o relata, mas a comunicação intelectual é impossível. Poderão dá-lo a ti, se estiveres pronto para recebê-lo, poderão permitir que o alcances, se também o permitires, se fores receptivo e aberto. Mas as palavras não farão isso, os símbolos não ajudarão, teorias e doutrinas não serão de uso algum."

  3. #3
    Avatar de Bela~
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    Pois é, imagino como deve dar nervoso você estar lendo um negócio que tem tudo pra terminar em um "fodam-se as vanguardas" e aparece um bendito "danassem". Eu, Isabela, digo que não gosto de sair falando palavrão a torto e a direito na vida real e sei que acabo transpondo isso para os meus textos, o que é uma coisa besta. Prometo que, à medida que for amadurecendo minha escrita, vou saber discernir e apertar a mão da verossimilhança externa sem medinho de usar vocabulário baixo quando necessário.
    Veja, eu até já mudei ali pra um menos irreal do que o primeiro. Já tá melhor? :3

    Muito obrigada pelo comentário, L. E, sim! Elas serviram como um belo estímulo, que vai me fazer querer ter outra boa ideia pra botar no papel - ou na tela do Word - em breve.

    Até mais (;



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