Resultados da Enquete: Que Facção deveria Ireas Escolher?

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  • Marid (Blue Djinns)

    17 60,71%
  • Efreet (Green Djinns)

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Enquete de Múltipla Escolha.
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Tópico: A Voz do Vento

  1. #411
    Avatar de Motion Flamekeeper
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    Olá, boa tarde !

    Será que vai ter treta de Batesh com o Ireas ? kkkkk

    Meus sentimentos pela perda, Iridium.

    Fica bem !

    Publicidade:
    Got to stay high, all my life, to forget i am missing you !
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  2. #412
    Avatar de Shirion
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    Hola Iridium eu botei em dia de novo as leituras da sua fic hue

    Meus sentimentos pela morte do seu amigo. Se não me engano ele até tinha começado uma fic aqui na sessão mas depois não continuou.

    Olha, to aqui na torcida para que o filho do Ireas vingue e a Lisette consiga viver plenamente fora da água. Espero que não baixe um espírito de Esquecimento Eterno em você e você judie mais ainda do coitado. Deixa ele ser feliz com a sereia dele.

    Xauuuu ate os proximos capítulos

  3. #413
    Avatar de Kerrod
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    Champz

    Agora que Big Mamma is gone, tá na hora do lesk desfrutar de algumas coisas boas da vida.

    Já que ele pescou um peixão deixa ele ser feliz e correr pra galera.


    Leitor é chato paca né? Quer sempre dizer ao autor o que fazer ahhauhauhauhauhau
    o morcego perguntou ao outro ambos pendurados de cabeça para baixo

    _qual a pior situação que vc ja viveu dormindo de cabeça para baixo?

    o outro morcego respondeu:

    _caganeira



  4. #414
    desespero full Avatar de Iridium
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    Padrão Terceiro Pergaminho, Capítulo 10

    Saudações!

    Gostaria de agradecer uma vez mais pelos comentários e pelos bons votos; isso significa muito para mim. De verdade. Foi f*da essa última semana... E tá tendo greve dos vigilantes no meu trampo, então as coisas vão ficar tensas nas minhas manhãs kkkkk

    Enfim, vamos ao que interessa: o capítulo novo. Com esse postado, o mini-arco final se inicia e ficam faltando 5 capítulos para o adieu final. Espero que ainda estejam comigo para a hora final.

    Vamos aos Comentários:

    Spoiler: Respostas aos Comentários



    Agora, sem mais delongas, o Capítulo de Hoje!


    ------

    Spoiler: Bônus Musical


    Capítulo 10 — Segredos e Enganos (Mentiras não Duram para Sempre)

    O amor que um nutre pode dar poder o suficiente para construir… Ou destruir. E um coração partido, o que ele traz?

    (Narrado por Ireas Keras)



    — Keras?

    Eu não deveria ter brigado.

    Eu não deveria ter acusado.

    Eu não deveria ter dito nem metade das coisas que eu havia dito.

    Principalmente com a situação da forma como estava… Especialmente com a condição em que ela se encontrava…

    — Keras? — A voz grave insistia em me chamar, e senti uma mão encostar em meu ombro.

    Até quando eu continuaria a sabotar a minha própria sorte? Por que eu insistia em agir daquela maneira? Por que eu insistia em ser um grandioso imbecil? Respirei fundo e lentamente virei na direção da mão que me segurava.

    Era Yami, e seu olhar parecia demais com o mesmo que ele me dera anos atrás quando estávamos a caminho de Yalahar. Seus olhos dourados estavam fixos em mim, aguardando algum tipo de reação de minha parte. Qualquer uma que fosse.

    — Você não tem culpa, Keras. — Falou o Efreet em tom baixo.

    — Não sei se posso concordar. — Falei vagarosamente, tentando controlar o turbilhão de emoções ruins que eu estava sentindo. — Eu estraguei tudo. Eu sempre faço isso.

    Olhei rapidamente para Yami, que parecia ter engolido em seco e voltado seus olhares para o horizonte.

    — Keras, ela passou mal e gritou por socorro… — Relatou o Djinn calmamente, certamente preocupado com a minha reação — E depois daquilo…

    Respirei fundo; aquela situação toda era frustrante demais para aguentar. Eu não conseguia, pela primeira vez em anos, entender o que os deuses queriam de minha vida. Especialmente, naquele momento, não conseguiu entender o que Nornur, Crunor e provavelmente Bastesh queriam de mim para continuar a me dar nada além de sofrimento e tristezas.

    Esquecimento Eterno já havia sido eliminada pela minha mão: eu já não havia sofrido o suficiente?

    — Você sabia. — Repliquei, ríspido, com as palavras dele passando longe de minha mente. — Você sabia que Lisette era uma Sereia e não me contou.

    — Se eu contasse, você não acreditaria. — Yami replicou e eu senti que ele engoliu parte de sua frustração para dirigir-me a palavra. — Você acharia que eu estava falando tais coisas por maldade e ciúme. É o que você normalmente assume que eu faço.

    — Não comece com essa palhaçada! — Virei em sua direção, com fúria em meu semblante.

    — Estou mentindo? — Yami me encarou de volta, igualmente raivoso. — Olhe-me nos olhos e diga que sou mentiroso! Desde o dia que vocês começaram a ficar juntos, foi como se um feitiço tivesse caído sobre você e nada mais interessasse! Você voltou a me olhar com descrença, da mesma forma como costumava ser anos atrás!

    — Com razão, pelo visto! — Esbravejei, frustrado — Porra, Yami! Por que você me escondeu isso?

    — Porque você sabotaria tudo! — Explodiu Yami. — Já te conheço há tempos, Keras! Você a largaria por medo e confusão! Você deixaria de experimentar algo por medo de conhecer a felicidade de novo e perder! E você ficaria nesse teu lenga-lenga, já que você já tinha feito sua escolha e alegaria “estar confuso”! — Ele fez sinais de aspas com os dedos, chateado. — E eu preferiria a morte a te ver infeliz daquele jeito de novo!

    Engoli em seco, ainda fitando Yami com raiva, mas não ódio. Em outras circunstâncias, eu o teria odiado. Provavelmente eu o teria matado por uma traição daquelas; por ter me feito viver um relacionamento baseado em uma mentira e por ter perdido a possibilidade de ter uma família de forma apropriada. No entanto, já havíamos vivido muitas situações juntos, e eu não podia ignorar o fato de que Yami, em outros tempos e na atualidade, vinha me ajudando e apoiando em vez de me fazer mal.

    Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, Yami saiu do recinto apressado. Suspirei e voltei a olhar para o horizonte, melancólico, deixando a minha mente, mesmo ali no Reino dos Sonhos, levar-me a um local mais distante do que eu já estava….


    ****

    Dois Meses Antes…


    Eu olhava para Kinahked incapaz de acreditar no que ele havia acabado de me dizer; comecei a andar de um lado para outro, com a mente fervilhando com as informações recém-adquiridas.

    Lisette não era humana. Era uma Sereia, tal qual Marina.

    Entretanto, ela não era viva: Lisette havia morrido no mar e foi convertida em Sereia por Bastesh, a deusa do Mar.

    E estava, assim como o Mortalheiro, atrelada a ela.

    E estava procurando por uma forma de se libertar: e eu era, no fim das contas, a chave.

    — Ireas, eu sinto muito… — Falou o pirata após beber um grande gole de rum. — Sinto muito mesmo…

    — Ela é não-viva… E não me contou! — Resmungava, dando pouca atenção às palavras de Kinahked. — Ela mentiu… Ela me disse que era humana e…

    — Ireas, não tinha como você saber. — Kinahked falou, pousando a mão em meu ombro. — Achei que, quando ela tinha te falado que era pirata, anos atrás, eu realmente achava que ela já tivesse te contado… Unna também é uma Sereia, mas….

    — Ela é viva e nasceu Sereia, é diferente! — Repliquei, frustrado e de orgulho ferido. — Lisette não, ela foi… Transformada, ela… Ela morreu… E não morreu… Ela mentiu pra mim!

    — Tenta se acalmar e entender, Ireas… — Falou Kinahked. — Lisette nunca quis mentir para você, mas ela não podia te contar! Além disso, ela te ama de verdade, tenho certeza disso! Ela não estava te usando para se libertar, pode ter certeza!

    — Então por que ela não me contou nada?! — Esbravejei, desnorteado e furioso — Nós perdemos duas crianças, Ked! A primeira… A primeira se chamaria Aslaug e… — Rugi de fúria e corri até uma parede, golpeando-a com os punhos nus — Era por isso! Esse tempo todo, era por isso!

    As cenas de meus momentos com Lisette, tanto bons quanto ruins, começaram a passar em minha mente; desde a primeira vez que nos vimos aos primeiros desentendimentos sérios que passei a ter com Yami por causa dela, nunca eu havia suspeitado que havia algo diferente nela; quando nos aproximamos em uma festa em Nargor, sequer suspeitei que sua pele e seu cheiro eram diferentes de outras mulheres, no sentido de revelar que ela não mais pertencia à superfície.

    Soquei a parede de pedra com raiva. Eu a conheci por cinco anos e a amei por três… E ela nunca havia me dado a mesma confiança que eu a dei.

    — Ireas, calma! — Kinahked protestou após um grande gole de rum. — Entenda: Lisette tinha pouco tempo de terra firme quando te conheceu e teria menos ainda! Bastesh não é mais uma deusa bondosa como já foi um dia! Ela quase matou a Lisette de vez e a criança de vocês junto!

    — Eu fui usado! — Rugi, com os punhos cerrados, virando em direção a Kinahked, espumando de raiva — Três anos, Ked! Três anos que estamos juntos, cara! Passamos por uma porrada de coisa e… Desde o Wind, eu… Eu confiava nela! Eu…

    — Você deixou de amá-la? — O pirata de Nargor me indagou, sério como nunca o vi antes.

    — Claro que não! — Repliquei, insultado. — Eu amo Lisette! Eu não deixei de amá-la, mas… Mas, porra, Ked! Como ela pode não confiar em mim?! Como ela pode fazer isso comigo e me matar de preocupação?!

    Furioso como estava, não deixei Kinahked tentar explicar mais: fui correndo até onde Lisette estava descansando para tirar satisfação. Mal sabia eu que me arrependeria depois.

    — LISETTE! — Urrei quase ao mesmo tempo que abri a porta de meus aposentos.

    — Ireas?! — A pirata morena de sardas douradas arregalou seus olhos, assustada.

    — Como pode?! — Esbravejei, completamente fora de mim. — Como pode me enganar assim?! Eu não passo de um peão, de um objeto para você?!

    — C-como assim?! — Ela indagou, assustada com minha reação. — Ireas, isso não é do seu feitio! Você não é assim!

    — Eu sei como sou! E você, sabe como você é?! — Continuei a destilar a minha fúria, com o olhar fixo nela. — Você me usou!

    — Ireas, eu posso explicar! — Lisette replicou, levantando da cama de sopetão. — Eu juro que queria te contar, mas…

    — Mas o quê?! Você teve inúmeras chances ao longo de todos esses anos, Lis! — Repliquei, frustrado e ainda furioso. — Isso é traição, Lis! Eu fui cem por cento honesto com você todo esse tempo! Eu nem sei o que pensar nesse momento!

    — Eu tinha medo que isso viesse a acontecer! — Lisette estava já com a voz embargada, acuada e afetada pelo tom que eu empreguei. — Ireas, eu nunca quis mentir para você, mas entenda: eu tinha… Eu tenho muito medo da deusa que me salvou! Eu tenho medo dela… Eu não quero morrer! Eu morri dez anos atrás e ela cobrou um preço altíssimo pela minha segunda chance! Eu me apaixonei perdidamente por você, ireas, e vi em nós dois a chance para eu ter um lugar na superfície de novo! Por favor, me perdoe! Eu queria te proteger da fúria do Mar! Me perdoe!

    — Você podia ter confiado em mim. — Falei entre os dentes, engolindo gradativamente a minha fúria. — Lisette, eu te amo, mas te perdoar… Vai ser difícil. Para não dizer impossível.

    Saí de meu recinto furioso, espumando de raiva; abri um portal dentro do Reino dos Sonhos e entrei lá para ficar sozinho com minha fúria e pensamentos negativos.


    ****


    Tempo Atual.

    (Narrado por Yami, o Primeiro)



    Longe dos aposentos de Ireas, fui até o outro pátio que ainda estava em construção; havia alguns adeptos convertendo a força de seus sonhos em matéria etérea, em longos e grossos fios de um material frágil e ao mesmo tempo resistente como os fios de teias de aranhas; entre eles, havia seres mais altos, que lembravam elfos, mas com peles amareladas e que brilhavam em tons distintos quando a luz incidia sobre suas peles, como se houvesse uma fina camada de cristal sobre elas. Seus cabelos eram esbranquiçados, mas não de velhice, e sim por escolha própria. Suas roupas mudavam de cor conforme a sua vontade, e seus olhos volta e meia exibiam brilhos distintos conforme o humor do corpo ao qual pertenciam.

    Eram parte do povo de Tameran. Eram os Teshial de que Ireas tanto falara tempos atrás. O elfo me vira andando a esmo e sinalizou para que eu parasse. Ele veio em minha direção, agitado.

    — Yami! Yami! — Chamou o Teshial, correndo. — Viu Ireas por aí?

    — Ele está em sua residência. — Falei, aéreo, apontando para a edificação sem muita vontade de conversar. — Ele não está conversando com ninguém no momento. E acho que nem vai querer falar com alguém.

    — Aconteceu algo? — Indagou Tameran, preocupado.

    — Sim… — Repliquei com um suspiro. — Lisette teve… Ela perdeu o bebê que esperava. — Calei-me com um gosto amargo na boca, sem saber porque diabos falei o que havia acabado de falar.

    — Oh… — O elfo deixou o semblante ser tomado pela compaixão e notei suas orelhas descerem um pouco, abalado. — Nossa…

    — É a vida. Acontece. — Repliquei, cruzando os braços e odiando aquela parte da conversa como um todo. — Faz parte, suponho.

    — De fato… — Suspirou Tameran, que pigarreou logo em seguida em uma tentativa de mudar de assunto. — Queria falar sobre a Ponte que Ireas e Jack estão construindo. Ela está indo bem, mas…

    — Mas? — Já havia percebido, àquela altura, que nada de bom viria do uso daquele advérbio.

    — Não sei se dará tempo. — Falou o elfo, preocupado. — Digo… Estou tendo dificuldades em trazer todos para cá… O nosso esconderijo aqui… É em uma parte muito densa e… Alguns de nós estão presos… De certa forma, no mar etéreo daqui.

    Cruzei meus braços e ergui uma de minhas sobrancelhas.

    — Bastesh está… Impedindo o avanço de algumas das barcas. — Falou Tameran por fim, engolindo em seco logo em seguida. — Não sabemos ao certo o porquê disso, e nem sabíamos que ela também tinha acesso a esse Reino…

    — De certa forma, fomos todos sonhos ou pesadelos dos deuses algum dia. — Falei, reflexivo e levemente frustrado. — Seria estranho se não tivessem acesso a esse plano de existência.

    — Faz sentido… — Replicou Tameran com um suspiro frustrado e preocupado. — Ainda assim, são dois problemas… A situação com os mares e Roshamuul…

    Engoli em seco; a lembrança daquela cidade ainda estava fresca em minha memória. Roshamuul foi um dos poucos locais que me deu arrepios do início ao fim de minha estada, fazendo eu repensar sobre meu aprendizado do Caminhar dos Sonhos: considerando a existência de um local tão nefasto e perturbador, talvez a Criação tivesse sido sábia eras atrás ao negar aos Djinns a habilidade de sonhar.

    — De fato… — Falei, desconfortável. — Bom, como o segundo não pode ser resolvido a duas mãos apenas, acho que seria melhor você focar na questão das barcas com Ireas. Talvez seja mais fácil pensar em uma solução para esse problema, e rápido.

    O Teshial concordou comigo e retirou-se com uma reverência. Eu, por outro lado, aproveitei para me aproximar do local de construção.

    Era a maior das Pontes que Ireas e Jack haviam planejado; naquele momento que eu observava, ela era um andaime grande que já se estendia por quinze metros acima de uma grossa camada de nuvens que escondiam o chão e o que quer que houvesse abaixo dela.

    Parei para observar, com os olhos semicerrados e o olhar distante, pensando nas últimas horas que passaram. Eu estava exausto; estava sendo um péssimo dia. Aliás, as últimas 14 horas haviam sido péssimas como um todo. Pisquei devagar enquanto via alguns sacerdotes auxiliados por minha irmã continuarem com seu árduo, intrincado e delicado trabalho criativo, deixando meus pensamentos tomarem conta de minha mente já bem exausta.


    ****


    Quatorze Horas Antes…

    Estava tudo tranquilo; tudo quieto. As tochas iluminavam os corredores do palácio de Ireas a meia luz. Dirigia-me até uma das salas de banho construídas pelo Vento do Norte, onde Lisette se banhava. A moça morena e sardenta passava a água perfumada por seus braços nus e deteve-se quando me viu entrar com algumas toalhas à mão.

    — Boa noite, Yami. — Falou a sereia com um semblante amistoso, sorrindo para mim.

    — Boa noite, Lisette. — Repliquei com um sorriso de canto, mexendo as toalhas em meus braços. — Aceita?

    A pirata fez que sim com a cabeça e sinalizou para que eu deixasse as toalhas perto de sua cabeça, onde ela estava. Deixei as toalhas no local pedido e sentei perto dela, um pouco sem graça.

    — Então… Trinta e quatro semanas. — Tentei puxar assunto, olhando de soslaio para ela.

    — Trinta e quatro semanas. — Sorriu Lisette, contente. — Conseguimos passar a marca do primeiro trimestre.

    — Então… Dessa vez você acha que vai nascer? — Falei da maneira mais casual que eu podia.

    — Estou confiante que sim. — Replicou a moça, virando em minha direção e colocando os braços sobre a beirada da piscina de banho. — Por que a pergunta?

    Soltei um largo suspiro; a conversa casual havia acabado ali.

    — Lisette, quando você e o Ireas começaram a sair sério, eu descobri que você era Sereia sem fazer muito esforço. — Falei, sério, com o olhar fixo nela. — Percebi, também, que sua condição era diferente da de uma Sereia convencional, e, mesmo não gostando do fato de vocês estarem juntos, eu ocultei isso de Ireas para que ele pudesse ser feliz. Por algum acaso você pretende contar a ele de sua condição?

    Apontei para as pernas dela, que haviam se convertido em um grande rabo de peixe com belas escamas brilhantes. Ela mexeu a cauda e exibiu um pedaço da barbatana com uma feição melancólica.

    — Ainda não… — Suspirou Lisette, voltando seu olhar para mim logo em seguida. — Contarei na hora mais oportuna. A forma como virei sereia não foi convencional e Ireas não precisa ser envolvido nisso.

    — Bom, vocês vão ter um filho juntos, acho que ele já está envolvido independente do que você opte por ocultar dele. — Repliquei, irritado.

    — Qual seu problema, Yami? — Lisette indagou, irritada. — Desde a primeira vez que conversamos, você já demonstrou desgostar de mim. Eu sei do histórico anterior do Ireas e não me incomoda nem um pouco. No entanto, essa sua atitude me incomoda e muito. Tire os olhos do meu namorado.

    Engoli em seco. Além de petulante, estava tentando me dar ordens. Um absurdo. Absurdo!

    — Não se trata disso. — Me inclinei para perto dela, irritado e insultado — Ireas sofreu muito por enganos e erros de comunicação perfeitamente evitáveis. E, se você diz saber tanto sobre a vida amorosa dele, sabe que a razão pela qual o relacionamento dele com Wind desandou. E, para sua informação, eu respeitava muito o cara. E não, eu não estou de olho no Ireas, se é que a sua absurda hipótese possui algum fundamento.

    Não era tão absurda a possibilidade. Mesmo depois de tanto tempo. Eu sabia. E possivelmente ela também.

    — Tsc. Que seja. — Replicou Lisette, estalando a língua, irritada. — Pode me ajudar a sair?

    — Claro. — Repliquei, respirando fundo e oferecendo minhas mãos para ela.

    Assim que eu ajudei a gestante a se levantar e se cobrir com os panos, tudo ocorreu muito rapidamente. Em um momento, após nossa conversa cheia de farpas e diretas-indiretas, estávamos conversando mais amigavelmente; em cinco minutos, tudo mudou. Ela começou a sentir dor. Muita dor. A bolsa de água dela estourou, e eu vi o líquido incolor e grosso escorrer por suas pernas, cujas escamas ainda estavam em evidência; coube a mim carregá-la em meus braços e levá-la ao quarto mais próximo.

    As dores aumentaram; logo os gritos começaram a vir. Ela estava em sofrimento. A criança provavelmente estava também. Ireas não estava no palácio, e tive que achar alguma outra pessoa para ajudar. Estava tudo indo rápido demais; trinta e quatro semanas eram muito pouco para uma criança sobreviver, até onde eu sabia. Tentei aliviar sua dor com magia; conjurei medicamentos, chás, pomadas, para poder aliviar sua dor e tentar retardar o processo. Houve efeito, mas pouco.

    Quando consegui alguém, Lisette estava quase parindo sozinha; conjurei um portal à Ankrahmun e tirei minha irmã de seu sono. Ela assumiu por mim e eu fui ao encalço de Ireas, que estava cuidando de refugiados Teshial que sobreviveram às torturas infligidas pelos Bichos-Papões; contei do sofrimento de Lisette. “Seu filho está chegando”, foi o que eu disse. “Lisette precisa de você e Yumi está com ela”, lembro de ter completado.

    Chegamos à porção Norte da Sociedade das Teias Infindas com pressa; Ireas entrou no quarto e eu ouvi um urro de tristeza e dor; eu entrei no quarto e vi Yumi, Ireas e Lisette arrasados. A criança viera ao mundo dormindo. Ela jamais abriu os olhos. Ela nunca chorou. Era um menino. E era perfeito. Mas nunca chegou a respirar.

    Atrás de Lisette, eu vi a figura do Mortalheiro segurando o que parecia ser uma ampulheta d’água brilhando com uma matéria etérea dentro dele. Senti uma mão forte me segurar o ombro. Era Kinahked.

    — A Deusa reclamou mais um. — Falou o pirata em tom fúnebre. — Eu não pude fazer nada. Eu não sei o que vai ser dessas almas, Yami.

    — Bastesh… É cruel. — Sibilei, furioso. — Tudo o que Ireas sempre quis… Foi uma família. Ter alguém para dividir a cama e talvez ter filhos com essa pessoa. O que ele fez para merecer tamanha crueldade?! Ireas por acaso precisa sofrer pelos pecados da mãe?!

    — Não… Mas Lisette cometeu um erro achando que poderia fugir da deusa do mar. — Replicou Kinahked, com os olhos marejados. — Talvez haja uma forma de recuperar as almas das crianças que Ireas perdeu, mas… Eu não sei como ele vai fazer.


    ****


    Tempo Atual.


    Senti uma mão encostar em meu ombro com certa força. Virei em direção a ela e encontrei Ireas lá, sério e determinado.

    — Vou precisar da sua ajuda. — Falou o druida. — Eu não esqueci da ajuda que você prestou a Lisette naquela hora tão horrível. Estou determinado a acabar com o jugo de Bastesh sobre ela e sobre os Teshial que estão vindo. Preciso ir até o coração das águas aqui do Reino dos Sonhos, e eu quero que você venha comigo. Mais do que nunca, para salvar a mulher que eu amo e talvez as almas dos filhos que perdi, eu vou precisar de você.



    Continua.

    -----

    E é isso aí, galera! Espero que gostem e aguardo ansiosamente pelo feedback de todos!

    Até o próximo capítulo!



    Abraço,
    Iridium.

  5. #415
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    É isso aí gatona.

    Não rola fazer um ou outro sketch pra ilustrar de vez em quando? Faz tempo que não vejo um desenho seu.







    Clica na imagem mané!

  6. #416
    Avatar de Edge Fencer
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    Ireas... Ta aí um protagonista que nasceu com uma nuvem negra por cima da cabeça kkkk

    Ótimos capítulos novamente, Iridium, especialmente esse mais recente. Eu imaginei desde quando soube dessa história da Lisette como o Keras reagiria a isso, e, principalmente, como descobriria tudo. Foi uma reação um tanto inesperada pra mim, mas totalmente aceitável pelo histórico de pindaíba que é a vida do coitado. Ainda presenciou a perda de mais um filho... Que judiação.

    Também gostei da participação do melhor personagem, vulgo Yami, no capítulo. Segurar um segredo desses foi um ato de compaixão sem tamanho dele, de alguém que entende os sentimentos do Ireas. Talvez fosse o certo falar a verdade de início? Sim, mas aí nada garantiria que o Ireas seguiria em frente, ou mesmo continuasse minimamente feliz por esses anos. Só quero ver como eles vão tentar resolver essa treta com a Bastesh...

    Caramba, já ta no fim mesmo a história. Espero que você consiga terminar do jeito que planejou e que te deixará satisfeita com o resultado. Vou dar um jeito de não perder mais capítulos agora kkkk

    É isso aí, aguardando a reta final!

    Abraço!
    Conheçam minha história: Leon, o Covarde xD

  7. #417
    Avatar de Senhor das Botas
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    Bom, acho que devo fazer o meu tão devido comentário neste Terceiro Pergaminho; comentário este que estou há muito lhe devendo.

    Vem sendo um turbilhão de emoções este Terceiro Pergaminho. Não irei me alastrar muito em meu comentário, pois acho que devo ter compartilhado um pensamento ou outro sobre os capítulos e os acontecimentos importantes que cairam sobre Ireas, PORÉM, TENHO de comentar sobre estes últimos três.

    A história tomou um rumo muito inesperado nos último três capítulos. Temos o Reino dos Pesadelos, e toda essa trama com Lisette. Pelo que intendi, a deusa Bastesh detém as almas dos filhos de Ireas, pegará a alma de Lisette... E Ireas irá embarcar em uma odisséia para matar nada mais, nada menos, do que uma fuckin deusa...

    Enfim, vamos ver como as coisas ocorrerão. Você mencionou que as coisas não iriam se alastrar muito neste Terceiro Pergaminho, e a história estava chegando em seu fim. Acho que talvez as coisas se encerrem com a luta de Ireas e da deusa, e suas repercussões no mundo.

    BTW:

    Não era tão absurda a possibilidade. Mesmo depois de tanto tempo. Eu sabia. E possivelmente ela também.
    Wow... Didn´t see that coming.

  8. #418
    desespero full Avatar de Iridium
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    Padrão Terceiro Pergaminho, Capítulo 11

    Saudações!

    Demorei, mas enfim vou postar. O último arco do último Pergaminho se inicia hoje e, com efeito, eu provavelmente vou finalizar a história mês que vem ou no aniversário de cinco anos d'A Voz do Vento, ou seja, dia 02/07/2017.

    Queria novamente agradecer a todos que acompanhavam e acompanham essa história. Minha trajetória tibiana e da RL mudou muito nessa meia década e fico contente que tanto essa Seção quanto os leitores e o próprio Ireas foram parte disso. Com esse capítulo, faltam quatro. E eu nunca achei que seria tão difícil escrever cada um deles. Vai ser complicado, mas necessário.

    Agora, aos Comentários:


    Spoiler: Respostas aos Comentários



    Agora, sem mais delongas, o Capítulo de Hoje!

    -----

    Spoiler: Bônus Musical


    Capítulo 11 — Levante, Levante (Bastesh)

    Um xamã vai a extremos em busca de uma segunda chance para aqueles que nunca tiveram chance alguma.

    (Narrado por Lisette, a Amante Pirata)



    Mesmo no reino dos Sonhos, estranhas, turvas e turbulentas eram aquelas águas. Já haviam se passado duas semanas desde a perda da criança que eu carregava. O Caçador de Almas passava pelas ondas etéreas enquanto Ireas e Yami olhavam o horizonte ao meu lado. Respirei fundo e olhei para uma tatuagem que eu tinha em meu braço: 252.

    — Ked, falta muito tempo? — Ireas gritou para Kinahked, virando a cabeça em sua direção.

    — Estamos quase… — Replicou meu capitão, estranhamente calmo. — Vocês têm certeza disso?

    — Absoluta. — Ireas replicou, determinado. — Ela tirou de mim três filhos e está tentando tirar de mim minha amada. — O druida de cabelos azuis voltou seu olhar para o horizonte. — Já fui sacaneado demais pelos deuses. Isso acaba aqui.

    Ele segurou minha mão; sua mágoa com tudo ainda era perceptível. Em todos esses anos, não imaginava que as coisas teriam aquele resultado. Suspirei entrelacei meus dedos aos dele.

    — Ireas, eu sinto muito. — Falei, por fim.

    — Por…?

    — Por tudo. — Suspirei, ressabiada. — Por ter omitido. Por ter feito Yami mentir. Por não ter lhe dado a família que eu prometi.

    — Não foi culpa sua. — Replicou o Norsir. — Bastesh resolveu que, para ela, deve ser divertido atormentar mulheres de uma maneira tão cruel. Eu não te culpo por nossos filhos: eu culpo o mar.

    — É muita ousadia…

    A voz era feminina e soava como ressaca do mar; de repente, ouvi o barulho de madeira estalando, e Kinahked arregalou os olhos.

    — Oh, merda… — Reclamou o pirata, soltando o velame. — Preparem-se!


    (Narrado por Ireas Keras)


    Ouvimos um som gorgolejante vindo do mar e logo uma onda mais alta acertou a estibordo do navio, fazendo-o vergar; Kinahked agarrou-se à primeira corda que encontrou, e eu fui, assim como Yami e Lisette, arremessado às águas. Não soube, naquele momento, o destino ao certo dos demais tripulantes.

    Abri meu olho e as águas estavam turvas, escuras e frias; senti algo como cordas a me prender; Yami estava se debatendo nas águas com desespero latente: ele não sabia nadar. Lisette estava desacordada ao meu lado, inerte. Pela primeira vez pude ver seu corpo como realmente era: humano da cintura para cima e aquático dela para baixo, com uma grande cauda de peixe cinzenta com escamas que luziam por si mesmas.

    Senti o ar de meus pulmões começar a se esvair em pequenas bolhas que eu teimava em inutilmente não deixar escapar. O último halo de luz que eu vi passou rápido pelo corpo dela, revelando algo perturbador em seu antebraço: uma tatuagem com o número 152.

    Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, senti as águas ao redor de nós três se afastarem em um brusco movimento; quando dei por mim, estávamos dentro de uma enorme bolha de ar. Caí pesadamente sobre a camada de água que ficara abaixo, e por muito pouco meus ossos não se arrebentaram. Yami e Lisette estavam ali também.

    Além da bolha, em meio às águas frias e escuras, brilhava um corpo em tons de azul. Era uma mulher colossal, de corpo escamoso, com tentáculos saindo dela e cercando a bolha, cabelos esverdeados como algas e uma parte de seu rosto queimado e derretido, enquanto a face sadia era a mais bela que eu havia visto em toda a minha vida. Seus olhos eram azuis escuros e cintilavam por dentro com pequenas manchas brancas, como se carregassem seu próprio céu noturno. Fiquei de joelhos com dificuldade, espumando de ódio pela experiência de quase-morte.

    Era a Deusa viva. O mar em forma de mulher.

    Bastesh. — Sibilei, rancoroso em meio à dor da queda sofrida.

    — Ireas… — A voz da mulher era macia como veludo, mas firme como a de uma soberana. — O filho de meu sacerdote mais querido enfim veio a mim. Tal pai, tal filho.

    — Quê?! — Indaguei, franzindo o cenho. — Kaisto servia o Vento, e não o Mar.

    — Errado. — Replicou a deusa, apática. — Kaisto era um dos meus. “Pai Chyll” é só uma das maneiras equívocas às quais muitos Norsir escolhem se referir a Nornur quando, na realidade, falam de mim. Se for parar para pensar, faz muito mais sentido seus ancestrais rogarem proteção aos mares por seus barcos modestos do que pedir sorte ao Vento, não?

    — Pai Chyll é Nornur, e você é um monstro. — Repliquei, ríspido. — E isso acaba aqui. Exori Mas Frigo!

    Arremessei uma estaca de gelo em sua direção mirando em sua testa, e um de seus tentáculos espatifou minha magia como se não fosse nada.

    — Presunçoso. — Falou Bastesh, levemente irritada. — Eu lhe salvo a vida, e o semideus acha que pode me matar de um tiro só. — Ela aproximou o rosto para a bolha, e eu pude ver, com horror, a extensão de suas feridas e queimaduras no rosto. — Eu sobrevivi à inveja de Fafnar. O que te faz crer que você seria capaz de me fazer algum dano?

    — E quem é você para arrancar tudo de mim?! — Esbravejei, colérico. — Que mal eu lhe fiz?! Que falta eu cometi?!

    — Não foi você, Ireas Keras. — Replicou Bastesh, séria. — Foi ela. — Um de seus tentáculos apontou para Lisette, que estava desacordada e em sua forma verdadeira de Sereia. — Lisette tentou me enganar. Tentou fugir dos mares e reabitar a superfície mesmo depois de ter sido dada uma segunda oportunidade por minha mão. Ela não aprendeu que a superfície não é mais o lugar dela? Que nada de bom viria da terra?

    — O lugar dela é onde ela quisesse! — Vociferei. — Meu lugar era com ela!

    Bastesh abriu um sorriso irônico e cruel em meio ao meu olho marejado por lágrimas que queriam, mas não podiam, naquele momento, sair.

    — Curioso… — Bastesh replicou com um tom de voz menos ameaçador. — ...Pois foi um homem que julgou que o lugar dela era comigo, largada à própria sorte e à morte. Um homem que ela tentou roubar e matar.

    — Quê?! — Indaguei, incrédulo. — É mentira!

    Olhei para trás, e Lisette ainda estava desacordada. O número em seu braço havia mudado: agora marcava 105.

    É a verdade. — Replicou Bastesh com decepção em sua voz. — Lisette não era má, mas não era santa. Era pobre; nasceu no mar e ia à superfície para roubar. Um dos roubos deu… Particularmente errado. E, bem… Foram duas tentativas e um homicídio. E de um cara inocente, ainda por cima!

    Voltei meu olhar para Bastesh, incrédulo.

    — Mentira… Lisette não é uma assassina! as pessoas que ela combateu foram sempre em situações justas!

    — É a verdade, Ireas…

    Olhei novamente para trás. Lisette estava acordada, apoiando os braços na superfície da bolha para se firmar. Ela estava pálida e fraca, e a trança havia sido desfeita. Seus cabelos estavam soltos e cobrindo seus seios. Ela estava linda, mas estava morrendo.

    — Na minha vida toda, só fiz coisas erradas. — Falou a pirata, arfando de cansaço. — Escolhi os lugares errados; amei os homens errados e furtos foram os menores dos meus pecados… Mas… Bastesh, eu imploro… Ao menos deixe Ireas ter a família que ele merece… Esse homem foi a melhor pessoa que apareceu na minha vida… O Vento do Norte é digno de toda a felicidade do mundo. Se puder aceitar minha alma em troca das almas de nossos filhos, por favor…

    — Lis, não! — Eu fui em sua direção, desesperado. — Eu… Eu não posso fazer isso sozinho! Eu não consigo! Não posso… Não vai ser a mesma coisa sozinho… Eu não vou me perdoar por isso.

    Bastesh ficou nos observando; ela parecia ponderar sobre a proposta de Lisette em meio à sua desconfiança natural.

    — Ireas, eu não tenho muito tempo… — Ela me mostrou a tatuagem em seu antebraço, que marcava 40 naquele instante. — Ao menos você vai ter três pedaços de mim em vida… Para sempre se lembrar. E eu… Eu sei que você será o melhor pai e o exemplo para eles. Confie em mim… Por favor.

    Eu a abracei, chorando. Eu não queria escolher. Eu não queria ser forçado a isso; independente da escolha, a família estaria incompleta. Se fosse Lisette, não poderia reaver a alma de meus filhos e jamais saberia como eles seriam. Se fossem eles, eu perderia Lisette para sempre. Se voltasse de mãos abanando, eu não aguentaria mais viver. Eu não sabia o que fazer.

    — E se… E se as crianças tiverem algo para se lembrar da mãe? — Era Yami falando, também muito ferido. — Se puder ser assim… Você os entregará aos cuidados de Ireas? Se elas puderem reter memórias de Lisette… Você as deixa viver?

    Olhei para o braço de Lisette. Aparentemente, a marca parara de funcionar e continuava a marcar o número 40. Bastesh parecia interessada no que Yami tinha a dizer.

    — E você, filho de Fafnar*? — Bastesh parecia confusa. — O que é você no meio dessa história toda?

    — Alguém igual à Lisette. — Replicou o Efreet. — Eu fiz escolhas erradas. Eu escolhi o ódio ao amor… O poder à família. Eu quase matei Ireas e matei muitos em nome de Esquecimento Eterno. — Ele voltou o olhar para mim, como se procurasse o fundo de meus olhos. — Djinni não podem sonhar ou intervir na vida e morte. Mas ele me ensinou a sonhar. Ireas me deu um propósito e uma segunda chance… E o mínimo que eu posso fazer é interceder por ele… — Yami voltou seus olhares para Bastesh. — E implorar que o permita ter uma família. É só o que eu peço. — Ele se ajoelhou em respeito à deusa, esperando dela uma resposta.

    Bastesh olhou para mim e para Lisette por um momento que pareceu eterno. Ela então piscou devagar e moveu levemente os lábios em algum tipo de muxoxo descontente.

    — Não posso ceder Lisette. — Falou, por fim. — Ela descumpriu seu trato e ficará no mar para sempre. Entretanto… Seus filhos são inocentes, e eu errei em fazer o que eu fiz.

    Um de seus tentáculos passou pela bolha e foi em direção a Lisette, tirando dela uma mecha de seu cabelo e três de suas escamas.

    — Isso será o suficiente… — Falou Bastesh, levando o material para si. — Uma vez que eu coloque um pouco das mechas e as escamas em cada alma, os três terão memórias da mãe: ao menos as positivas. Se eles quiserem saber mais algum dia, que perguntem ao pai.

    Arregalei meu olho e as lágrimas saíram desimpedidas. O contador de Lisette havia voltado a funcionar e marcava 35 em seu braço. Naquele mesmo instante, Yami se aproximou de mim com três esferas luminosas em seus braços.

    — Quando o tempo de Lisette acabar, os invólucros revelarão seus filhos mais ou menos com a idade que deveriam tem. — falou a deusa. — Eles terão memórias da voz, do sorriso, do corpo e rosto de Lisette, e de uma canção de ninar que ela costumava cantar. Eles estarão atrelados ao Mar, e serão Tritões ou Sereias, mas eu não os forçarei a nada. Agora… Despeça-se de Lisette, Ireas. É hora de você, seus filhos e o filho de Fafnar saírem de meus domínios. Fiquem na superfície, que é o lar de vocês.

    A última coisa que me lembro daquele momento funesto foi beijar os lábios de Lisette uma última vez antes que ela fechasse seus olhos mortais para sempre, quando vi seu contador indicar o número zero e desaparecer. Depois disso, lembro-me de quase nada.


    Continua...

    ----

    Glossário:

    (*): Fafnar é, assim como Suon, o fogo primordial. Na mitologia árabe pré-islâmica, Djinns, tanto Marids quanto Efreets, foram feitos a partir do fogo. Portanto, é até lógico pensar em Fafnar, ou sua essência, como geratriz dos Djinns em Tibia.

    ----

    Spoiler: Considerações Finais do Capítulo


    ----

    E é isso, galera! Até o próximo capítulo!



    Abraço,
    Iridium.

  9. #419
    Avatar de Edge Fencer
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    E aí!

    Excelente capítulo, Iridium. Incrível como você conseguiu dar toda essa carga dramática mesmo com um capítulo curtinho... Tô vendo que os capítulos finais serão caprichados

    Finalmente uma luz na vida do Ireas. Pior que mesmo nas coisas boas ele sempre acaba apanhando de alguma forma, e terá que lidar com a perda da Lisette... Mas já estamos bem acostumados a essas situações. Tomara que agora ele consiga reencontrar alguma alegria na vida com as crianças e pare de sofrer um pouquinho haha

    Gostei demais da abordagem sobre a personalidade da Bastesh, da relação dos djinns com Fafnar, do Yami brilhando como sempre... Enfim, até complicado comentar alguma coisa. Só posso deixar meus parabéns aqui, e aguardar pelos capítulos derradeiros dessa belíssima história.

    Abraço!
    Conheçam minha história: Leon, o Covarde xD

  10. #420
    Avatar de Motion Flamekeeper
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    Padrão

    Nossa Iridium, li o outro episódio meio que atrasado, mas puta merda em, ficou muito bom. Senti o ódio de Ireas, sem falar na emoção de "ver" Batesh aparecer.

    Muito obrigado!

    Ansioso pelo próximo.

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