Capítulo 1
O Festival
- Parte 1
Dalek retirou o manto do capuz acinzentado que cobria sua cabeça e ombros. Seus cabelos escuros e ondulados alcançavam o ombro, tinha os olhos azul-acinzentados e a pele clara, levemente bronzeada. Ao longe, já podiam ser avistadas as muralhas de Thais. Após todos estes anos, retornaria para sua terra natal, a qual havia deixado após perder os pais, quando ainda era jovem.
Não demorou em alcançar a larga ponte de madeira que dava acesso ao portão sul da cidade. Nada ali havia mudado, tudo estava exatamente como se recordava de oito anos atrás. Ignorou o olhar curioso do guardas ao atravessar o alto portão que levava ao interior da cidade, e seguiu rumo ao norte, pela rua que, segundo se lembrava, levava ao grande depósito da capital.
Não pôde deixar de constatar a decoração que predominava na cidade, conforme avançava, devido ao Festival organizado pelo próprio Tibianus III. Havia todo tipo de gente, desde arruaceiros, pedintes e prostitutas, a nobres, ou simplesmente comerciantes vindos de todas as partes do reino. Em geral, viam no Festival uma oportunidade para se dar bem e lucrar em seu negócios. E não era por menos: se soubesse onde procurar, podia-se encontrar praticamente tudo, ali.
Preenchiam boa parte das ruas com tendas e barracas, repletas de compradores que tomavam conta de toda a rua. Por todo o percurso, em cada canto nas ruas, Dalek deparava-se com vendedores anunciando seus produtos, e havia de tudo. Enquanto uns vendiam artesanato, comidas, e variados equipamentos, outros prometiam armas encantadas, ou frutos capazes de curar enfermidades. Pedintes e mendigos aglomeravam-se nas ruelas e becos, parando alguns dos que passavam na esperança de conseguir um pouco de dinheiro ou, quem sabe, algo para comer. Havia, aqui e ali, crianças que corriam umas das outras, de um lado para o outro, embrenhando-se na multidão sem cessar a brincadeira um momento sequer. Dalek reparou em uma velha gorda e suja dizendo, aos berros, ser capaz de ver o futuro através da palma das mãos, em troca de meros tostões, mas ninguém parecia tolo o suficiente para parar e lhe dar atenção.
Havia também, em cada esquina, guardas armados, a Guarda Real, empenhados em manter a segurança. Usavam cotas de malha, revestidas com coletes de couro fervido, e empunhavam longas lanças, além de espadas, embainhadas, assim como o guarda junto do portão pelo qual passara antes de entrar na cidade.
Mas o guerreiro não havia vindo pelo Festival, aliás, estava apenas de passagem. Viajava para Venore. Mas esta era a oportunidade de rever seu lugar de origem, reencontrar velhas amizades. Quem sabe.
Atravessou o depósito, apinhado de gente, e seguiu para além da avenida principal. Como esperado, lá estava ela, a Cabana do Frodo, a mais requisitada taverna e estalagem na cidade, onde pretendia passar a noite. Parou por um instante em frente à estalagem, sorrindo. Dalek adiantou-se em abrir a porta, torcendo para que, meio a tantos turistas, ainda restasse ao menos um quarto para que pudesse se hospedar. O salão, assim como se lembrava, era amplo e bem iluminado, com o chão revestido em um piso de madeira já bem antigo, porém em bom estado. Havia diversas mesas e cadeiras ali, onde pessoas conversavam e riam, bebendo ou comendo alguma das iguarias preparadas pelo velho Frodo. O próprio, parado arás do balcão, analisava atenciosamente um velho e grosso livro, quando Dalek se aproximou.
– Em que posso ajudá-lo? – abordou Frodo, sem reconhecer o rapaz.
– Ainda há quartos vagos? – perguntou, já prevendo a resposta.
O velho franziu o senho, analisando-o, antes de prosseguir.
– Estamos lotados, como era de se esperar graças ao Festival – então sorriu. – Mas, considere-se um sujeito de sorte, houve uma desistência ainda há pouco, temos um último quarto livre.
O rosto de Dalek se abriu em um sorriso.
– Só preciso que assine seu nome aqui, por favor – pediu Frodo, entregando-lhe o pesado livro que tinha em mãos, repleta de nomes. Dalek apanhou o tinteiro, ao lado, e assinou. –
Dalek Samnuel Phelaia? – mostrou-se surpreso o velho – Não pode ser, é você mesmo?
O rapaz sorriu mais uma vez.
– Enfim me reconheceu.
– Pelos deuses, é você mesmo! - o taverneiro retribuiu o sorriso. – Por onde tem andado, rapaz? Não o vejo há anos.
– Mudei-me para Fibula, e me tornei um guerreiro, como pode ver – respondeu. Frodo só então pareceu reparor nos trajes de Dalek; sob a manta acinzentada, usava uma cota de malha metálica negra segmentada com ombreiras e manoplas de um aço alaranjado. Uma Armadura de Cavaleiro, como era conhecida entre os ferreiros. Trazia consigo uma espada presa à bainha.
– Bela arma – elogiou o taverneiro, sorrindo. – Veio para o Festival, não é?
Dalek suspirou. – Na verdade, não. Estou apenas de passagem, amanhã partirei para Venore.
Frodo torceu a boca, fazendo uma careta frustrada.
– Por que não fica, oras? – disse. – Você finalmente retornou, deveria ao menos aproveitar a festança.
– Não posso, mesmo – respondeu o guerreiro, seu compromisso nem era assim tão urgente, mas não gostaria de permanecer muito tempo ali, pois, apesar das boas lembranças, também havia as que preferia não se lembrar. – Bem, foi bom revê-lo, mas preciso descansar – despediu-se o guerreiro, precisava ficar um tempo sozinho. – Vou me retirar.
– Subindo as escadas –, Frodo apontou para o outro lado do salão – siga em frente pelo corredor, seu quarto é o terceiro à direita, não tem erro – sorriu, e então virou-se, apanhando uma pequena chave de cobre, a última pendurada no grande chaveiro preso à parede. – Aqui está a chave.
– Obrigado, Frodo – Dalek apanhou a chave e enfiou-a em um dos bolsos sob seu manto. – Vejo você mais tarde.
O quarto não era dos melhores, mas tinha de admitir, parecia bastante confortável. Dalek espreguiçou-se e se virou, encarando a cama logo adiante. Retirou a cota e ombreiras, juntamente com seu manto e botas de couro. Apanhou o cinto com mantimentos e colocou-os sobre o criado-mudo, usando o mesmo como apoio para sua espada. Então se estirou sobre a cama macia.
Não demorou para que caísse no sono.