"O Ernest Hemingway dizia que um conto deve ser como a ponta de um iceberg. O iceberg é o que não está escrito, é o que o leitor infere do que está escrito. Da ponta que aparece. Na verdade, quem escreve o conto é o leitor, induzido pelo contista. O contista induz, o leitor deduz. Hemingway escreveu o melhor exemplo da sua própria teoria, o conto Os Assassinos, sobre um homem à espera dos pistoleiros que irão matá-lo. O homem sabe que seus assassinos estão chegando mas não foge nem faz nada para evitá-los. O conto é isso. Não se fica sabendo por que o homem será executado ou o motivo da sua resignação. Isso está no iceberg. Quando fizeram o filme da história do Hemingway, filmaram o iceberg.
Como a moda na era da linguagem digital dos computadores, que é quase uma volta aos hieróglifos, é a concisão, as pontas dos icebergs literários ficam cada vez menores e o trabalho dos leitores cada vez maior. Proponho ao leitor disposto a trabalhar a coautoria dos contos que seguem, todos eles com a parte que me cabe – ou a ponta que aparece – completa, só faltando a parte submersa. Que pode ser do tamanho que você quiser, leitor. São todos variações do conto do Hemingway."
-Luis Fernando Verissimo
Enfim, a proposta é essa daí. Seguem abaixo as opções de contos:
A Babi
Alguém sentou ao seu lado no bar. Ele não olhou para o lado. Sabia quem era. Ouviu a voz conhecida dizer:
– Você não é fácil de encontrar...
– O que você quer?
– A Babi mandou entregar isso. Disse que está pronta para voltar, se você a aceitar. Que está disposta a esquecer tudo.
E o homem colocou uma aliança no topo do bar.
Ele olhou a aliança, depois levantou a mão esquerda e mostrou que tinha cortado fora o dedo anular.
– Diga à Babi que nunca mais.
Depois ouviu o ruído inconfundível de uma arma sendo engatilhada. E a voz do outro:
– Então eu tenho outro recado da Babi.
Destino
Através do alambrado, ela viu a velha Noca se aproximando com a faca na mão. Não sabia se ela seria a escolhida, desta vez. Já vira a velha Noca em ação, sabia o que a esperava. Pensou em se refugiar no fundo do galinheiro, em se esconder da velha Noca, mas desistiu. Não adiantaria. Se era para ser a sua vez, que fosse. Ela não filosofava, mas em algum lugar do seu pequeno cérebro se formou um pensamento: espécie é destino.
Como eu sei que quaseninguém vai realmente se dar ao trabalho de confeccionar um texto, eu vou apresentar o meu. Avaliem, postem os seus, a casa é de vocês :rolleyes:
Matuba
– Pô, Matuba. Você pegou todas. Até o pênalti.
– É. Tava numa tarde boa, né?
– E o que nós combinamos com o Trombinha?
– O quê?
- Era pra amolecer. Deixar passar umas três. E você pegou até o pênalti que eu fiz.
– Pera aí. Acho que essa reunião eu perdi. Era pra amolecer?
– Estava todo mundo combinado. Nós atrasando bola envenenada a tarde inteira e você pegando todas. Até o meu pênalti! O que é que nos vamos dizer pro Trombinha?
– Vamos dizer a verdade. Que eu sou surdo e não entendi a combinação.
– E você é surdo, Matuba?
– Hein?
– Quer um conselho? Foge do país.
– Pra onde?
– Uma das Guianas.
(Foi meio que feito às pressas, olhem o horário que estou postando, então, não precisam de algo realmente concreto. O meu foi piração pura.)
Destino
Através do alambrado, ela viu a velha Noca se aproximando com a faca na mão. Não sabia se ela seria a escolhida, desta vez. Já vira a velha Noca em ação, sabia o que a esperava. Pensou em se refugiar no fundo do galinheiro, em se esconder da velha Noca, mas desistiu. Não adiantaria. Se era para ser a sua vez, que fosse. Ela não filosofava, mas em algum lugar do seu pequeno cérebro se formou um pensamento: espécie é destino.
No entanto, ela reparava como sua mãe, a Natureza, era engraçada: mesmo a mudança de espécies não permitia uma mudança no destino. Ela sabia, inconscientemente, qual era seu destino; preferia adiá-lo, como todos no universo, mas conhecia-o; a velha Noca também conhecia o seu e se aproximava cada vez mais do dia em que encararia a cara sarcástica e torta do destino. É como um ciclo vicioso que repetia por gerações e gerações; traços eram mudados, mas a essência permanecia a mesma e permaneceria até que as duas espécies fossem extintas.
Não antes, porém, de que um sujeito, com pinta de intelectual, encarasse uma folha de papel em branco; sua mente, todavia, era como a 25 de março em horário de pico: as ideias eram como o ir e vir do povão.
Pensava numa história que iria mudar para sempre a visão do mundo a respeito das galinhas; era como se aqueles minutos de reflexão concentrassem as peças-chave que chocariam seus leitores, que confundiriam crítica literária e que tomariam as rédeas da humanidade para novos horizontes.
As tortas linhas do destino eram claras para esse paulista arrogante e escroto: “escreva sobre galinhas”.
Em dias como esse, o cheiro do medo das galinhas era, talvez, o odor mais forte presente no galinheiro, mais forte até do que o cheiro de titica de galinha. O olfato do escritor sentiu esse cheiro.
Tal medo era provocado pela faca da velha Noca; ou pela velha em si, já que a faca era mero instrumento da necessidade e, por que não, perversão humanas. Se preciso fosse, mataria sem faca nem pranto. Sublimes momentos de decisão da velha Noca silenciaram o local temporariamente.
A sortuda escolhida não fora ela, felizmente: cacarecos aliviados tomavam conta do galinheiro.
Num átimo, o escritor se vê diante de sua obra-prima; uma lágrima rola pelo seu rosto suado e, naquele momento, ele entra em um momento de êxtase indecifrável e absoluto. Nada poderia alcançá-lo, nem mesmo as possíveis falhas do seu texto.
Nossa sobrevivente estava numa felicidade equivalente à do escritor: êxtase, júbilo, nirvana, são todas palavras que descrevem bem o tão-logo momento de amor à vida. Ela havia sobrevivido por mais algum tempo, mesmo que indeterminado; ele havia escrito a história que salvaria sua pele, por tempo indeterminado.
Passado a breve apoteose, ela vai cumprimentar as amigas, timidamente. Mal tem tempo de olhar para alguma delas quando, de súbito, uma bicada simplesmente a leva para as entranhas da ex-colega. Seu corpo roliço é triturado e deglutido, enquanto seu destino é selado.
Ele, contudo, é mais sortudo; percebe que seu destino fora selado e salta, do décimo quinto andar de um prédio, rumo às nuvens; afinal, ele mesmo já havia lido: “asas são dádivas”. Suas asas tinham sido usadas para produzir, com muito esforço, a obra que mudaria a concepção de toda a humanidade. Estava, enfim, livre para voar.
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