Verdade Wu Cheng, cairiam como uma luva, das bem cabeludas e assustadoras.
Capítulo 2 - Estática
– Trudy, pega cereal na outra seção, por favor.
A mulher de vestido púrpura com flores de todas as cores bordadas pegou o carrinho de supermercado e deu a volta na estante de laticínios. Do outro lado, um balcão de madeira ostentava uma série de opções. Cereais de mel, chocolate, aveia e outros sabores estranhos. Ela parou e pensou qual escolher durante um instante. Foi o suficiente para ouvir o discurso ruidoso que vinha de um rádio. Ao lado do aparelho estava sentado um velho de cabelos cumpridos e brancos em profundo silêncio. Os cotovelos apoiados sobre os joelhos e as mãos cobrindo as maçãs do rosto. Parecia desesperado.
– ... na inocência foi preparado para conhecer o nosso rei da glória. Então, nós temos isso. Você o tem em suas janelas secretas. Você está entendendo a entender isso para trazê-lo para trás. Isso necessita pequenos minutos. Isso necessita uma sagrada vida. Isso necessita emoções. Isso necessita dedicação, isso necessita dedicação! – berrava a voz esganiçada enfatizando as frases. – Isso necessita de uma morte. E somente, SOMENTE, Deus pode permitir isso.
Trudy se aproximou da bancada e colocou a mão sobre o ombro do velho. Ele levantou a cabeça ressabiado e a olhou com seus olhos fundos. Os olhos repletos de sujeira e cansaço. Ela enfiou a outra mão na bolsa e sacou uma nota de cinqüenta dólares. Aquele senhor olhou o dinheiro e como quem foge da cruz levantou-se e correu gritando. Ela, muito assustada, devolveu de antemão a nota para a bolsa. Respirou fundo e colocou o cereal de aveia no carrinho.
Observou que um pouco distante de onde estava dois seguranças haviam pego o velho pelos braços. O dono do mercado gritava palavras horríveis e apontava o dedo gordo para o inválido que nesse momento já não tinha mais forças para falar. Após uma calmaria, os dois seguranças arrastaram-no para fora. Trudy sentiu-se mais tranqüila, apesar de sentir mal pelo velho.
O discurso do rádio tinha acabado. Agora, um barulho alto de estática fazia seu ouvido doer. Foi ficando mais alto e mais alto. Chegou há um ponto que Trudy mal conseguia se mover. Permaneceu assim por vários minutos, quando por fim o aparelho escangalhou de vez. Aliviada com o fim repentino daquela tortura, voltou a empurrar o carinho. Finalmente seu marido apareceu de novo com dois engradados de cerveja. Ela sorriu ironicamente e ele beijou seu rosto.
O carinho foi posicionado atrás de uma fila com outros. Enquanto esperavam sua vez ela contou do incidente com o velho e o rádio e o homem riu como uma criança. Quando o assunto cessou, Trudy apanhou uma revista de fofocas de uma estante de ferro e passou os olhos pelas páginas. O alto-falante do mercado anunciou uma promoção relâmpago de conhaque, o que fez seu marido sair em disparada assim como outros clientes.
A moça da bancada pediu a ela as horas. Trudy abaixou o queixo e informou que eram três e quinze. Houve uma bufada irritadiça da senhora a sua frente. A novela começava as três. Ela também costumava assistir a esses programas, mas a que estava sendo transmitida no momento não tinha prendido sua atenção.
– Boa tarde, senhora. É a sua vez – disse a atendente.
– Ah, me desculpe. Distrai-me lendo a revista – respondeu, embora já tivesse percebido que era sua vez.
Ela colocou todos os produtos em cima da esteira e um a um foram registrados pela máquina. Começara a se perguntar o porquê da demora de seu marido. Eram quase três e meia e tinham de buscar as crianças no colégio as quatro, antes disso tinha que passar em casa para deixar as compras. Trudy estava irritada e quase berrou o nome dele. Ela então se cansou de esperar e pagou a moça. Decidira ir para o carro e esperar por ele lá mesmo. Voltara a empurrar o carinho pelo mercado. Quando chegava ao portão de saída ouviu um barulho de multidão e correria. Entraram correndo, brandindo revolveres e escondidos em máscaras negras. Mandaram-na voltar. Desesperada, largou o carinho ali mesmo e voltou correndo.
Como imperadores, os homens que haviam entrado, ordenaram que esvaziassem as caixas registradoras. Um deles, alto e forte passou com um saco enorme por cada atendente. Elas iam colocando todo o dinheiro dentro, moedas e notas. Enfim passaram por todos os balcões. O saco foi amarrado por um pedaço grosso de arame e dois homens o levaram para fora.
– Agora quero todas as bolsas de todas as mulheres. Meus companheiros vão passar para pegá-las. Se alguma de vocês reagir, eles vão atirar – comunicou o que aparentava ser o líder.
O processo novamente foi cumprido com perfeição. Aqueles assaltantes tinham se preparado muito bem para aquele assalto em particular. Embora não estivesse altamente armados, cada um deles tinha uma pistola.
Na vez de Trudy, pediu ao homem se podia pegar as fotos que havia na sua carteira. Seguindo o padrão mandado, ele a negou. Cheia de lágrimas nos olhos, ela pediu mais uma vez. O bandido, com a pistola em punho tremeu um pouco e olhou a nos olhos. Era uma mulher linda, daquelas que se vêem poucas na rua. Cabelos loiros, olhos lindíssimos e lábios vermelhos como sangue. Sua consciência pesou ao pensar no que faria com ela. Quando, na realidade, gostaria de estar fazendo outra totalmente diferente. No entanto, ele puxou o gatilho e a pólvora exalou por todo mercado. Ouviu-se um grito e depois falação.
Trudy caiu de costas. As luzes do mercado ofuscavam sua visão, ela queria que tudo ficasse escuro. E aos poucos isso aconteceu. Falharam as luzes do estabelecimento. Os homens se assustaram. Houve mais uma falha. Então, todas as luzes se apagaram. Poucos segundos de silêncio para o início de uma gritaria. Disparos e desespero.