Obrigado, Giralho.
Parte II
E se falou de morte e vida; para sempre
Capítulo 1 – Tempestade
– Hei Mahoney, dá uma olhada nisso aqui.
Os dois operários olharam o sinal vermelho dispersando-se em ondas na tela do computador. Aguardaram alguns minutos esperando o sistema tentar estabilizar o erro. Ambos com copos de café frio e seus capacetes amarelos. O rádio posicionando em cima de uma prateleira torta, ligado em uma AM qualquer. Ruidoso, mal se conseguia ouvir alguma coisa, mas ninguém tivera paciência para arrumar sua antena. Duvidavam da sua integridade, ficou muitos anos ali servindo de passatempo aos funcionários. Teve seus grandes momentos entre quedas e derramamentos de café.
O sinal não dava descanso. O pobre Mahoney olhou pela janela a tempestade que ensopava os aviões. Los Angeles era um lugar propício para chover assim e quando começava desse jeito era certo que não acabaria bem. Trovões e relâmpagos cortavam as nuvens negras que pairavam sobre o Aeroporto Internacional, parecia que uma lâmina amarela cairia como um tridente e despedaçaria todo aquele prédio. Afinal, a torre de comando era o ponto mais alto.
Mahoney passava a mão calejada sobre a testa grudenta. Depois dava umas goladas no café. Em seguida, sentou-se ao lado de seu companheiro numa cadeira de escritório bem vagabunda. Ele colocou os finos punhos sobre o ombro do outro homem e tossiu forte.
– Mike, tenta entrar pelo software A.R.C.O, senão eu vou ter que consertar essa porra na mão.
Mike abaixou os óculos fundos e afastou a franja negra da cara, abrindo uma janela para os olhos. Teclava veloz e pouco passava a mão no mouse. Abrira alguns programas que jaziam na tela principal. Várias letras e números se misturaram a símbolos e outros códigos, como se o computador tentasse desvendar um segredo. A chuva apertava lá fora e as viagens começavam a ser canceladas nos alto-falantes.
Ele se esforçava bastante para eliminar a falha, mas não tinha solução pelos comandos. Mike botou os dois cotovelos sobre o painel a sua frente e apertou o cenho. Os óculos remendados agora estavam sobre o teclado, quieto como os dois homens. Já sabiam o que devia ser feito. Entretanto, a tempestade lá fora fazia desse procedimento algo perigoso. Mesmo havendo pára-raios em diversos pontos do aeroporto, a torre ficava a uma boa distancia da última estação. E por motivos técnicos, não podiam haver pára-raios sobre seus telhados.
O clima pesava sobre os ombros dos dois. As viagens estavam canceladas, porém havia outros aviões nos céus. E caso o sistema caísse estes se perderiam no radar e a culpa seria dos dois técnicos. Seria arriscado acreditar na sorte para ambas situações, mas seriam incompetentes se ficassem esperando Deus tomar uma decisão.
– Agente vai fazer o seguinte: eu vou até o galpão, você desliga tudo por um minuto, conserto o defeito e volto para cá. Certo, Mike?
– Parece perfeito. Mas tente não se molhar tanto pode te atrapalhar na hora de puxar os mecanismos para fora. Porque mesmo desligados ainda há corrente passando. Então, cuidado.
Mahoney pegou uma lanterna e um balde de plástico onde guardava algumas ferramentas. Colocou uma capa de plástico sobre o balde e prendeu o com fita preta. Bebeu o último gole do café e saltou dentro das botinas. Ouviu-se um estalo alto como se tudo tivesse estourado. Barulhos de metal colidindo com metal no andares superiores começaram a ficar intermináveis. A tempestade ficava ainda mais violenta.
Quando ele estava pronto para sair, o homem de óculos lhe trouxe um guarda-chuva. E, assim ele partiu. Fora da torre um vento do leste batia contra seu corpo e dificultava o manejo dos objetos em suas mãos. A chuva acompanhava o vento e se chocava contra ele. Por hora, os relâmpagos tinham cessado. Apenas via-se luzes em nuvens distantes. Quase dois quilômetros a frente estava o Aeroporto Internacional. Um pouco mais longe seis boings se arrumavam nas garagens. Homens vestidos em macacões laranja dirigiam seus carrinhos entre as rodas das aeronaves.
Mahoney deu a volta na torre e caminhou pela passagem repleta de barras de ferro. Ele passou os olhos rapidamente pelo céu escuro como se a noite já se aproximasse. Tentou olhar o relógio, mas mal conseguia parar sua mão. Finalmente chegou a um cercado oval onde no meio havia uma escotilha cor de prata. Rodando sua maçaneta ela se abriu para cima e dentro veio um cheiro de mofo terrível. O homem sacou a lanterna e a coloco entre os dentes. Em seguida, saltou para dentro segurando-se na escada construída na lateral do galpão. Fechou a escotilha e a chuva do exterior foi sufocada.
Com muito cuidado para não escorregar as botas molhadas na finíssima escada, ele desceu. Ao chegar ao fim estava numa sala igualmente oval. Havia oito corredores se projetando ao redor dele. Cada um com um número marcado em vermelho. O seu era o corredor número quatro. Sentou-se no chão e pode enfim fechar de vez o guarda-chuva. Deixou exatamente abaixo da escada e partiu andando veloz pelo corredor. A lanterna na mão direta começava a dar sinais de fraqueza, as pilhas deviam estar acabando. Isso fez Mahoney apertar o passo. Em poucos segundos, chegara numa saleta apertada onde duas enormes máquinas repletas de botões vermelhos, verdes e amarelos estavam. Colocou o balde de ferramentas no assoalho de metal e rasgou o plástico que o selara, depois pegou o nextel preso a cintura, apertando o botão lateral. O barulho do aparelho apitando ecoou pelas diversas câmaras do galpão.
– Mike pode desligar – disse.
Fez-se cinco minutos de pura solidão. Só ele e aquelas máquinas com seus botões coloridos. Mal se dava para ouvir a chuva ou o som dos aviões. Havia uma paz sombria naquela câmara. Estava tão sossegado que por pouco ele não fechou os olhos. A luz falhou por vezes até finalmente se desligar. Rapidamente Mahoney pegou a lanterna e apontou para um pequeno quadrado de prata. Tomou na mão uma chave de fendas e desparafusou-o. Quando ele o puxou para fora viu os fios de todas as cores dançando dentro da máquina. Enfiou a mão pelo buraco e esforçou-se para empurrar o mecanismo solto. Pronto, estava feito. Fechou tudo direitinho e levantou-se para ir embora. A luz voltou num flash e os corredores se iluminaram.
De volta a sala oval, Mahoney improvisou uma proteção nova para o balde. Pegou o guarda-chuva e começou a subir a escada. De novo, com muito cuidado chegou a superfície. Empurrou a escotilha e ela se abriu. Colocou o guarda-chuva para fora e o abriu. Ainda olhou para baixo conferindo se os pés estavam prontos para sair. Após isso, não houve mais nada. Um clarão esverdeado irradiou do céu e um estrondou altíssimo foi ouvido por todo o aeroporto. As luzes foram embora de vez e a chuva de raios cessou. Ainda chovia muito e um cheiro de fumaça exalava por toda extensão.