O Grupo Brasileiro de Transexuais ameaça entrar na Justiça contra a equipe de médicos do Hospital de Base (HB) de Rio Preto, que realiza cirurgias de mudança de sexo, para pedir indenização por danos morais e materiais. As transexuais estão revoltadas com o resultado da operação, e também querem fazer a denúncia ao Conselho Regional de Medicina. Pelo menos cinco transexuais sofreram complicações após a cirurgia e dizem ter ficado “estragadas” por causa da má qualidade dos profissionais de Rio Preto. A presidente da entidade e historiadora, Astrid Bodstein, diz que elas ainda estão se recuperando física e psicologicamente, para depois enfrentar a batalha judicial. Astrid é uma das vítimas do problema. Ela conta que teve a vagina construída em posição invertida, descobriu o problema três meses depois da cirurgia e pagou outro médico para resolvê-lo. “Quando mantive minha primeira relação sexual depois da operação, percebi que o pênis penetrava para baixo, e não para cima ou para a frente, como dizem que é o normal”, critica. A operação da presidente da entidade aconteceu em março deste ano.
Ela diz que os transtornos começaram antes mesmo da cirurgia, por causa do valor cobrado. Para se submeter à mudança de sexo, as interessadas devem apresentar laudo psiquiátrico e psicológico confirmando a disforia (incompatibilidade entre os sexos mental e genital). Astrid lembra que apresentou documento assinado por uma psiquiatra de São Paulo, mas teve de pagar R$ 1,2 mil para ter o problema atestado também por dois médicos da equipe de Rio Preto. “O psiquiatra do HB cobrou R$ 600 e atestou minha transexualidade perguntando apenas meu nome, endereço e CPF”, denuncia a paciente. O coordenador da equipe do HB, Carlos Cury, confirma que o problema precisa ser constatado e atestado pelos especialistas do hospital, mas a disforia é diagnosticada depois dois anos de acompanhamento, e não com uma simples consulta.
Logo depois de realizada, a cirurgia de Astrid foi considerada um sucesso. “Fui a vigésima operada e o doutor Cury disse que fui a primeira a não ter nenhum problema. As complicações, para ele, são regras, e não exceções.” Cury também confirma o grande índice de intercorrências provocadas pelas cirurgias. O problema de Astrid foi diagnosticado três meses após a operação. Depois de consultar médicos de Cuiabá (MT), onde mora, ela falou que ligou para Cury. “Ele não reconheceu o erro. Disse que, aos poucos, eu iria me acostumar com o novo órgão”, lembra. Sem confiança no coordenador da equipe de Rio Preto, ela procurou outro profissional e adequou a posição da vagina. “Ao todo, tive de gastar mais de R$ 8 mil. Mas nem todas as vítimas têm dinheiro para consertar o erro.” Cury diz que não há erros, mas complicações previsíveis. Ele afirma que também teria feito o reparo, sem custos, com uma nova intervenção, e critica a presidente da entidade por não ter retornado para acompanhamento após a operação. Apesar das complicações serem consideradas comuns, Cury afirma que a maioria das 28 pacientes operadas por sua equipe está satisfeita. Ele também mostra termo de responsabilidade assinado por Astrid, em que ela reconhece os riscos da operação.
Conceito ainda gera confusão
O conceito e a síndrome dos transexuais começaram a ser diferenciados da idéia genérica de homossexualismo a partir da década de 50, mas ainda hoje são motivo de preconceito e confusões entre as pessoas. A especialista em sexologia e autora de livro sobre o tema Wal Torres esclarece que homossexualismo é uma orientação, seguida por quem se sente atraído por pessoas do mesmo sexo. “O homossexualismo é como o amor. A gente não escolhe e não controla. Ele acontece e a gente segue”, explica. Já o problema do transexualismo está relacionado à síndrome de disforia, em que a pessoa tem a formação neurológica de um sexo e a genitália de outro. Wal também é membro do Harry Benjamin International Gender Dysphoria Association (HBIGDA), entidade internacional, com sede nos Estados Unidos, que estuda e define protocolos a serem seguidos em todo o mundo. Segundo ela, no Japão já existe tecnologia para fazer o diagnóstico orgânico da síndrome no cérebro. “Antigamente, acreditava-se que a pessoa era moldada na primeira infância (até os dois anos de idade). Hoje, está comprovado cientificamente que a disforia é um problema na formação neurobiológica da pessoa”, afirma.
Wal diz também que estudos realizados na Holanda mostram que a síndrome atinge uma a cada 10 mil pessoas nascidas com genitais masculinos e com a formação neurológica de uma mulher. A probabilidade da inversão de gêneros em transexuais com órgãos femininos é de uma a cada 30 mil pessoas. Segundo a especialista em sexologia, o avanço das cirurgias de mudança de sexo é fundamental para que as transexuais possam adequar seu corpo. “Antigamente, as cirurgias eram péssimas, porque a única preocupação era estética, e não funcional”, lembra. Wal também destaca a importância da funcionalidade da mudança de sexo. Segundo ela, preservar a sensibilidade do órgão é indispensável para que a pessoa sinta prazer e, conseqüentemente, satisfação na vida. “O orgasmo nada mais é do que um alívio de pressão, sentido no cérebro, depois de acúmulo de sangue em tecidos. A pessoa precisa de prazer para sentir felicidade.” De acordo com ela, é preciso cuidados e critérios para se fazer a cirurgia, porque a insatisfação pode gerar ainda mais conflitos na pessoa e culminar com suicídios. “As pessoas com disforia devem fazer a cirurgia o quanto antes. É uma mudança que pode representar vida ou morte”, finaliza.
Cirurgia gravada mostra preconceito
A cirurgia de mudança de sexo da webmaster Marcele Veiga foi a primeira a ser transmitida pela internet. O que deveria ser motivo de orgulho para a profissional da rede acabou revelando o preconceito contra as transexuais. Durante a cirurgia, também gravada, ouve-se o técnico informar o médico Carlos Cury que milhares de pessoas estavam acompanhando o procedimento ao vivo pela rede mundial de computadores. O comentário sobre a informação foi surpreendente e documentado. “Nossa, como tem ‘viado’ nesse mundo,” disse uma voz masculina. Para Mercele, a declaração revela o descaso como as pacientes são tratadas. O médico garante que a voz não é dele. Cury diz também se lembrar do comentário durante a operação. Ele afirma que a frase foi dita por um curioso que passou pelo centro cirúrgico. “O centro cirúrgico é aberto aos profissionais do hospital. Uma pessoa passou pelo local e teve essa atitude, que nossa equipe condena”, declara.
A denúncia do preconceito, com a reprodução da fita, chegou a ser transmitida na segunda-feira passada por um site da internet. Ontem, no entanto, o endereço não pôde ser acessado, porque a página estava fora do ar. Cury disse que iria pedir ao responsável pela página para a retirar a declaração, que estaria prejudicando a imagem da equipe de Rio Preto. “A gente trabalha e tenta ajudar a esclarecer a confusão entre os conceitos de homossexual e transexual. Aí uma pessoa faz um comentário desse, que é divulgado para prejudicar nossa imagem”, declara. Além de ser vítima de preconceito, Marcele diz ter precisado refazer 95% de sua cirurgia com outro profissional. Ela afirma ter sofrido muitas dores no pós-operatório e ficado internada uma semana a mais do que a previsão feita inicialmente pelos médicos. A webmaster também teve gastos superiores aos que imaginava. Mesmo com todos os transtornos, ela diz não se arrepender de ter feito a operação, e indica o procedimento a outras transexuais. “A cirurgia deve continuar sendo feita, mas de forma correta e com seriedade”, critica.
Vagina de paciente fechou
A tradutora e intérprete E.A.F ainda se emociona quando fala de sua cirurgia de mudança de sexo, feita há um ano no Hospital de Base (HB) de Rio Preto. A transexual diz sentir-se enganada e envergonhada, e está na fila de atendimento do Hospital das Clínicas de São Paulo para solucionar o problema. “Meu órgão ficou horrível e não há nenhuma possibilidade de penetração. Não houve resultado estético e nem funcional”, conta. E.A.F lembra que sentiu muitas dores durante seis meses após a operação. Depois de terem a vagina construída a partir do pênis, as transexuais devem usar um molde para assegurar a abertura do órgão. “O tamanho mínimo do molde é de 10 centímetros. A cada consulta, o médico reduzia o tamanho, e cheguei aos cinco centímetros. Hoje, a vagina que ele fez praticamente fechou”, afirma.
Revoltada com o resultado da operação, E.A.F diz ter abandonado o tratamento coordenado pelo médico Carlos Cury. Ela faz acompanhamento psiquiátrico e espera uma oportunidade para fazer nova cirurgia. “Vou precisar fazer cerca de três operações, mas ainda não há previsão de data. Também vou precisar fazer depilação definitiva a laser, mas não tenho dinheiro para isso.” Cury alega que a transexual foi informada sobre o problema com o tamanho de sua vagina. Segundo ele, o canal ficou pequeno por causa do tamanho do pênis. “Ela fez cirurgia de fimose, sabia que não havia pele para fazer uma vagina maior.” A solução, segundo ele, é retirar pele da coxa ou do abdômen para aumentar o canal vaginal.
Rubens Cardia
O urologista Carlos Cury diz que problemas são resolvidos com intervenções ambulatoriais
80% dos pacientes apresentam problemas
Cerca de 80% das pessoas que fazem cirurgia de mudança de sexo em Rio Preto sofrem complicações após a operação, segundo o urologista e coordenador da equipe de cirurgia de mudança de sexo do Hospital de Base (HB), Carlos Cury. O índice de problemas registrado na cidade é o dobro apontado em experiências internacionais. O cirurgião plástico e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí, Jalma Jurado, diz que a média mundial de retoques é de 40%. “A maioria das correções ocorre em virtude de problemas estéticos. Falhas funcionais são raras, não chegam a 10%”, afirma o especialista. Jurado tem 25 anos de experiência na área e fala que as operações de reparo na funcionalidade do órgão tendem a ser cada vez menos comuns. Ele foi o primeiro a realizar a operação em Rio Preto. “As cirurgias estão cada vez melhores”, afirma.
Já o coordenador da equipe do HB aponta 13 tipos de problemas detectados nas cirurgias feitas na cidade. Em três anos, o hospital realizou 28 operações. Outras 60 pessoas estão na fila de espera. Cury diz que a maioria dos casos é resolvida com intervenções ambulatoriais, mas também há exemplos em que novas cirurgias são necessárias. “Dificilmente a transexual passa ilesa pela cirurgia. Há caso em que foi preciso fazer sete reparos”, afirma o médico. De acordo com ele, a operação é ilegal, mas reconhecida e autorizada como experiência por portaria do Conselho Federal de Medicina. “A cirurgia é um procedimento ético para a medicina, mas vista como mutilação pelo Código Penal. Estamos sujeitos a penalidades porque nossa lei é antiga, de 1940.” A alteração do Código Penal está tramitando no Congresso Nacional.
Segundo Cury, as complicações são comuns porque as cirurgias ainda são experimentais. Ele diz que a construção de uma vagina a partir de um pênis é um procedimento complexo, que precisa manter a funcionalidade do órgão genital e ainda buscar a perfeição estética. “A cirurgia foi liberada pelo Conselho Federal de Medicina em 1997. Ainda temos uma curva de aprendizagem”, ressalta. O coordenador da equipe afirma que as complicações não podem ser chamadas de erros médicos porque são intercorrências previsíveis. “O erro é imperícia, e não é isso que acontece nesses casos”, garante. Depois de três anos coordenando a equipe, Cury diz sentir-se mais preparado e bem informado sobre o procedimento. “Com a experiência, sei que as complicações vão acontecer.” Para ele, o acompanhamento das pacientes deve ser permanente. “Elas nunca devem perder o vínculo com o médico.” O médico da faculdade de Jundiaí compara a operação de troca de sexo com a cirurgia plástica, em que o cirurgião deve se responsabilizar pelo resultado da intervenção. “O médico tem de prometer que o órgão a ser construído vai funcionar como o da mulher”, declara.
Encontro comemora a primeira cirurgia
O Hospital de Base (HB) vai promover na próxima sexta-feira um encontro entre todas as transexuais operadas por sua equipe. O objetivo é comemorar os três anos da realização da primeira cirurgia, em 18 de dezembro de 1999, e lançar o Centro de Apoio ao Transexual de Rio Preto. O Centro terá sede própria, próxima ao hospital, para receber as interessadas durante os trabalhos realizados com o grupo de preparo para a cirurgia. A Casa da Transexual, como vai chamar a sede, deve estar pronta no primeiro semestre de 2002. A entidade vai atuar na busca de ajuda financeira para as pacientes, a fim de que elas agilizem a realização da cirurgia.
O coordenador da equipe, Carlos Cury, explica que o procedimento não é subsidiado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) porque ainda não é reconhecido pela lei. O hospital, inclusive, pagou as três primeiras cirurgias porque tinha interesse em realizá-las para divulgar seu trabalho. As pacientes pagam apenas o custo operacional da operação, de R$ 3,3 mil. “Os médicos não recebem pelas cirurgias”, afirma Cury. As interessadas em fazer a operação precisam passar por acompanhamento psicológico e psiquiátrico durante dois anos antes da cirurgia. No encontro de sexta-feira, pacientes de Rio Preto e de outros Estados vão dar depoimento sobre suas experiências e níveis de satisfação. A equipe médica vai falar, ainda, sobre técnicas e avanços na área. O encontro será no anfiteatro da Faculdade de Medicina de Rio Preto.
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FONTE: http://www.diarioweb.com.br/noticias/imp.asp?id=13425
Oque vocês pensam sobre isso?
Na minha opinião: Tenque se foder mesmo, ninguem mandou querer cortar o pinto fora. Ainda mais pelo sus, que se você quebra o pé, sai da sala de cirurgia com uma tesoura dentro da barriga.
Sem mais.
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