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Capítulo IV
Frágil

Num domingo ensolarado, enquanto toda família participava de um banho de sol, Carlos estava trancado em seu escritório. Tão negro e vazio quanto seu coração. Em suas mãos, a foto de Valentinna sorrindo com uma expressão sufocante - de ser obrigada a parecer alegre - desenhada em seu semblante.

Bastava olhar aquela figura para que seu humor aprumasse. O olhar fundo e perdido de sua amante lhe trazia paz verdadeira, diferente dessas pregadas em manifestações. Sentia sua alma alegrar-se.

Mesmo assim foi inevitável. Ele voltou a pensar naquela crise na escola das crianças. Não era o tipo de pessoa que aceitava as coisas pelo que são. Sempre procurava as respostas. Só depois de obtê-las podia descansar. Isso servia para qualquer coisa. Doenças, problemas, mistérios. Sua mente funcionava como um grande centro pesquisador de quebra-cabeças. Tentando solucionar todo tipo de caso invencível.

Exatamente nesse dia Carlinhos encontrou um novo quebra-cabeça. Estava congelado na sua frente. Durante os anos em que conheceu Valentinna ele nunca soube muito sobre sua vida. Sabia do trabalho dela como modelo de roupas intimas e do maltês enraivecido. Fora isso, absolutamente nada.

Na eminência de descobrir ele se esqueceu. As semanas foram passando e logo se tornaram meses. Nem por isso uma angustia deixava de brotar nele toda vez que parava para pensar no assunto. Pouco a pouco, o esquecimento se tornou paranóia. Valentinna ligava menos e menos.

No entardecer de um sábado, quando o sol estava quase se pondo, o celular da gaveta tocou em seu bolso. Nem precisou pensar para saber quem era. Só tinha de atender. Carlos sacou o aparelho das calças e contemplou a tela brilhante com o nome dela saltando. Em seguida, travou uma batalha consigo, atendê-la ou não? Num impulso, apertou o botão verde, o que recebia as ligações. Ainda ouviu o “alô” tímido de Valentinna, antes de novamente por impulso, apertar o vermelho. Seu corpo estava pesado assim como sua cabeça. Ele queria encontrar Amanda pelo corredor da casa mais do que qualquer coisa naquele momento.

Cavalgando, como se atrás de uma presa, Carlinhos vagou pela – agora coberta de sombras – mansão. Batidas de pés no assoalho vinham da sala de jantar, dirigiu-se para lá e assim que passou pela porta trancou-a. Amanda olhou-o atônita e um pouco assustada.

– Carlos? Está tudo bem, meu amor? – perguntou com medo da resposta.

Não houve tempo para conversa, ele a segurou pelo pescoço e arremessou seu corpo sobre a mesa da sala. Em seus olhos uma nuvem cinza de raiva pairava e algo animalesco dominava seu ser. Embriagado pelos gemidos verdadeiros de Amanda, Carlos sentiu-se no controle do mundo. E, quando ela disparou um “eu te amo” mergulhada no seu suor, sentiu seu coração desacelerar rapidamente. Seus movimentos foram parando e parando, tornaram-se tão lentos que tudo pareceu eterno.

Amanda sorriu ainda deitada, dessa vez um sorriso sincero. Não queria admitir, mas nunca sentira tanto prazer como havia sentido naquela mesa. Ela suspirou e apoiou suas mãos sobre os ombros de Carlinhos Baptista.

– Foi incrível – disse.

Ele sorriu. A nuvem cinza desapareceu de seus olhos.

Depois da tensão do sexo sobre o lugar onde normalmente jantavam, ele foi até o escritório. Tomou nas mãos o celular prateado e ligou para Valentinna. Ela atendeu e Carlos teve a impressão de que chorava.

– Valentinna? Tudo bom?

– Tudo bem, Carlos. – sentiu que ela estava num impasse e que fazia força para falar. – Me encontra no Harvey daqui a meia hora?

– Claro que sim, meu amor.

Desligou em seguida. Não conseguia esconder a felicidade ao ouvir a voz chorosa de Valentinna. O quebra-cabeça não tinha sido resolvido, mas Carlos Baptista vingou-se amargamente naquele dia, tanto de Amanda quanto de sua amante. Naquela noite, ele dormiria tranqüilo. Carlinhos estava mudando.