Capitulo I - O Contrarregra
Já dizia um velhaco amigo meu que a vida não é só a dramaturga, mas também contrarregra. Então antes de mais nada (ou de tudo, não sei) vamos colocar os objetos em cena, arrumar as luzes e esperar o abrir das cortinas rubras, o inicio da peça...
Foi num final de ano em 2006. O telefonema, a noticia da minha aprovação no instituto, a alegria dos meus pais, tudo isso passa disforme e enevoado em minha memória, tanto que se me perguntarem hoje diria que não sabia do que se tratava ou que antes era mentira. Fato é que todos ficaram alegres. Lembro-me ainda da felicidade e das cortesias que recebia em casa e dos parentes, não digo amigos porque não me lembro de tê-los com exceção de uma prima de infância e dois ou três de outro colégio. Nunca fui um garoto para amigos, chegava a ser simpático mais não mister nesses casos. Durante uns anos até tive muitas pessoas ao meu redor, e sorrisos também, mas nenhum que diria meu amigo. Certo é que hoje vejo na exaltação de ânimos dos meus pais, dos meus parentes, uma comemoração fúnebre como se esse fosse meu Austerlitz e o restante fosse destinado a Waterloo.
Os meses passam tão rápido quanto as semanas, as semanas quanto os dias, os dias quanto as horas, as horas quanto os minutos, e estes só perdem para os segundos e os instantes. E nesse trejeito os meses, que agora são instantes, voam como uma folha da arvore da genealogia. Vualá! Estamos finalmente terminando. O ano de 2007 chegou com ares de novidades, o período de chuvas cessara e o verão nasce nesse paradoxo ao mesmo tempo infinito e anual. Nessa correria da troca de roupa das estações chega fevereiro e o inicio das aulas. Com isso as luzes apagam, o silencia aumenta e as cortinas vão se abrindo devagar até que das sombras se ouve uma menina dizendo...