Capitulo III – Tolo e sem amor
Quem não é tolo aos 14 anos? Fato é que somos, e hoje nos escondemos em fachadas melhores, sempre na tenebrosidade do passado. Acho-me hoje mais triste, mais depressivo, mais cansado de pormenores que não tinha conhecimento antes, entretanto agora sei me entregar menos, fazer com que os sentimentos ressoem pouco em mim, sendo eles maus ou bons.
Sabe quando você começa a pensar demais, e tanto, que se perde neles e por mais que você tente se concentrar eles continuam ali, flutuando e enevoando a incerteza do real para iluminar o ilusionável. É triste dizer mais eu sempre fui assim, mas sonhador que pé no chão, e por isso sempre pensei demais para minha idade. Isso me rendeu muitos frutos intelectuais, mas nenhum social. Não digo que fui isolado, apenas não participava dos mesmos gostos das pessoas da minha idade, aliás, sempre me dei bem com pessoas mais velhas e os de meia-idade. Foi neste sentimento imerso que eu a observava de longe, e aquele nome que não me saia da cabeça. Bianca, Bianca, Bianca...
Lembro-me ainda exatamente como foi. Ela estava sentada na mesa do professor, com os pés balançando e com uma presilha no cabelo que a deixava com aquele ar infantil e risonho que ilude até o mais bestial dos homens, que atiça o lado mais primordial de proteção num macho. Eu, entretanto não estava iludido, ainda não, apenas estava querendo-a como se faz normalmente com qualquer mulher. Amor, paixão, palavras que eram ditas sem as compreender ainda, ainda não. Eu cheguei e comecei a falar com ela, acabei falando que achava ela bonita ao passo que sorriu com os olhos no chão, depois olhou para mim de lado e acanhada ficou ali, pelos segundos da minha eternidade. Mas como disse, aos 14 todos são tolos e eu não fugi a regra. Fiz tudo que não deveria fazer, optei por não fazer nada. Tive a oportunidade mais a deixei, com medo de algo que não entendia, parado e com os pensamentos gritando na minha cabeça. Ela resolveu desistir, disse que éramos amigos e que não nos conhecíamos direito além de todas aquelas coisas que ou você já disse ou já ouviu de um outro alguém. Despedimos-nos casualmente como se nada tivesse acontecido e retornamos aos nossos mundos respectivos, mas antes de tudo enfim desaparecer na poeira das idéias ela me sorriu, dos sorrisos de lado que uma mulher só dá quando algo ressoou lá dentro. E aquele sorriso me fez sorrir sozinho, como se eu soubesse que ela continuava sorrindo enquanto caminhávamos em sentidos contrários pelos corredores abertos do instituto.
Não, você deve imaginar que passei a amá-la naquele sorriso, mas não fora. Na verdade até o sentimento eu tive que perder e ganhar muito, mais isso é para outro capitulo, fica aqui apenas a observação de um escritor que romantiza cenas que em nada são românticas, mais é impossível repassá-las de forma real se não for pela forma como eu mesmo vi tudo e então hoje as interpreto. Sim, devo ser um tolo.