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Tópico: Contos do Concurso Melhor Conto 2008

Visão do Encadeamento

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  1. #13
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    Sobre Tiaras e Joaninhas



    Santoro subiu apressadamente as escadarias, tomando cuidado com as poças de água remanescentes da chuva que caíra horas antes. Cada salto necessário para escalar os degraus de pedra fazia seu chaveiro tilintar qual um guizo dependurado em um animal de pastoreio. Chegando ao final da escada repousa a mão sobre o bolso da calça, fazendo cessar o barulho. Era hora de se aprumar. Pente ao cabelo, lenço à face, bala de menta à boca. Pelo reflexo da porta de vidro se alinha, ajeita a gravata, fecha o paletó, sobe a cintura da calça. Ah, estava ali um bom partido, pensou. Não que queira se gabar, mas Santoro se sabia o tal. Entretanto, caro leitor, não havia nenhuma mulher agarrada às suas pernas, suplicando atenção. Bem, talvez porque era apenas 9:00h de uma manhã nublada de domingo.
    Deslizou em direção à entrada. Percebeu que o serviço já estava sendo proferido. Redobrou os cuidados para não se fazer notar e, esgueirando-se junto à parede caiada, postou-se entre uma pilastra e um vaso enorme com uma planta densa de folhagens. Seus olhos vasculharam o ambiente, notando os cabelos loiros, ruivos, negros; as carecas brilhosas, os meninos com seus bonés; os penteados elaborados, as permanentes com prazo vencido, as moscas sobrevoando os pouco asseados; brilhosos pelos cremes ou pela oleosidade, vastas e ralas cabeleiras formavam um mar irregular que contrastava com o teto reto daquela igreja.
    Contava já às centenas quando seu olhar repousa em uma singela mas importante tiara vermelha. Só podia ser ela. Coincidiu o momento com a ação do Pastor que conduzia o culto desde o altar. Com um gesto ergueu a todos do conforto rígido dos bancos em que se encontravam assentes, inclusive a garota de tiara vermelha.
    O que era procura virou fascinação, imersão, hipnose. Sentia-se imergindo em outro plano, abstraindo-se da realidade. As palavras professadas pelo Pastor eram como sons sem sentido que compunham o pano de fundo de um ato em que só havia dois personagens: Santoro e Ângela; sim, agora sabem o nome da garota sobre a qual nosso protagonista dirigia toda atenção.
    - Em nome do Pai, do Filho... – o costume era que levava as palavras do Pastor aos ouvidos de Santoro, pois sua concentração estava centrada naquele ponto vermelho que estava postado uma dezena de fileiras à sua frente.
    Os cabelos presos pela tiara deslizavam em direção aos ombros, onde se mostravam libertos. Originalmente negros, agora coloridos em um vermelho discreto. Compunham um contraponto à blusa de cor clara.
    - Glória à Deus acima de todas as coisas... - exalado por caixas postadas nas laterais do recinto, de uma gravidade que parecia que vinha do próprio Criador, o som trouxe nosso herói de volta à realidade.
    Como naquele dia seu espírito era mais de flores que de louvores, resolveu sair pela porta lateral. Alguns passos o levaram para o jardim paroquial. No instante em que a porta se fechou, instalou-se um silêncio feito de cricris, zumbidos e farfalhar de folhagens. Os insetos, alheios às necessidades espirituais cuidavam da sua subsistência e perpetuação. Uma joaninha que havia se instalado no ombro do paletó de Santoro foi ejetada por este com um peteleco, o que denotou sua descrença à suposta boa-venturança trazida por este inseto.
    Quem o visse de longe, logo imaginaria ali um cara discreto, equilibrado, centrado. Mas se esse observador conseguisse se aproximar até poder ouvir a respiração de Santoro, perceberia que esta estaria curta e pesada, os olhos com a retina pronunciada, os dedos nervosos. Em verdade, Santoro estava recuando. O medo de ser recusado o intimidava. Sabia que não retornaria ao ambiente onde Ângela, sem o saber, o esperava. Mais alguns minutos e fugiria covardemente rumo à mesma escadaria por onde subira confiante minutos antes.
    Lágrimas da covardia já haviam se instalado em seus olhos e os fluidos internos faziam santoro ter que engolir. Baixinho, entre soluços, seus lábios pronunciaram:
    - Eu te amo Ângela.
    Quase inaudível, a frase teve um ouvinte inesperado.
    Em coisas de amor, há um pouco de sobrenatural, senão como explicar as coisas relacionadas ao coração? E essa sobrenaturalidade havia ali sido expressa.
    Quem se postava atrás de Santoro era a dona de seus sentimentos. Contrapondo o choro de covardia de um, havia o início tímido de um choro de alegria do outro. Ambos se olharam e com um sim declarado apenas pelo olhar e pelo gesto de aceitação no movimento da cabeça, cancelaram seus choros em um abraço pleno, onde suas almas se converteram em uma só.
    Bem caros leitores, iria relatar ainda da joaninha que veio repousar sobre a tiara vermelha, mas poderiam achar a historia piegas demais. Mas posso garantir, eles viveram felizes para sempre.
    Última edição por Emanoel; 31-07-2009 às 08:00.



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