logo logo eu postarei o novo capitulo dos sete cruéis.
O Baú Se Abre
Das três irmãs, só Jane estava em casa no dia do aniversário de Alice, em férias. Janice e Jesse haviam se casado ido embora; ambas moravam a uns trinta quilomêtros dali. Jane era diferente. Ela tinha ganhado uma bolsa de estudos que a levara para uma faculdade do leste, onde arrumou todo tipo de ideias.. Uma delas incluia criticas tudo o que Alice May dizia ou fazia e contar os dias até o trem partir da cidade e voltar ao que chamava de "civilização".
- É melhor você estudar mais para ter um chance de sair deste lugar - disse Jane, quando se sentaram na varanda para comer o bolo de aniversário e ver a vida passar. Nada tinha passado, a não ser que se considerasse o gato dos Prowell.
- Eu gosto daqui - disse Alice. - Por que eu iria quere ir embora?
- Porque aqui não tem nada! - protestou Jane. - Nada! Não tem vida, não tem cor, não tem ... coisas acontecendo! Nunca acontece nada. Todo mundo se casa, tem filhos e começa tudo de novo. Não há romantismo em nada nem ninguém!
- Nem todo mundo se casa - retrucou Alice, depois de uma pausa para engolir um pedaço de bolo grande demais.
- Você está falando da Gwennifer Korben - disse Jane. - Ela é professora primária. Todo mundo sabe que essas mulheres sempre são solteironas. Você não que ser professora primária.
- Talvez eu queira! - respondeu Alice May. Ela lançõu um garfo no ar, traçando uma mancha prateada, e agarrou-o pelo cabo antes que ele caísse.
- Quer mesmo? - perguntou Jane, momentaneamente chocada. - Uma professora primária!
Alice May franziu a testa e jogou o garfo na parede. Ele ficou preso, tremendo, junto aos buraquinhos na madeira, marcas dos vários anos de prática da nobra arte do arremesso de garfos.
- Não sei - ela disse. - Eu realmente sinto... sinto que quero ser alguma coisa, só não sei o quê.
- Estude - Jane aconselhou, firme - Dê duro. Faça uma faculade. A educação é a única forma de uma mulher ter vida própria.
Alice May assentiu, para evitar que a discussão se prolongasse. Era seu aniversário e ela sentia raiva e aborrecimento, em vez de alegria. O bolo estava delicioso e haviam tido um almoço bastante agradável com a família e alguns colegas da escola. Mas, de certo modo, seu aniversário parecia incompleto e inacabado. Alguma coisa precisava ser feita, mas ela não sabia o quê. Algo mais urgente que decidir seu futuro.
Ela não precisou de mais que duas horas na cadeira de balanço da varanda para descobrir o que tinha de fazer e a aguradar o momento certo de fazê-lo.
O baú. Fazia tempo que nem sequer olhava para ele. Ao longo dos anos ela tentaria abri-lo muitas vezes, sozinha ou acompanhada. Houve épocas em que ia diariamente ao sótão para ver se por acaso ele não teria aberto sozinho. Em outras ocasiões, passara meses para ver se por acaso ele não teria aberto sozinho. Em outras ocasiões, passara meses sem se lembrar dele. Mas não importava o que acontecesse, ela sempre tentava abri-lo em seu aniversário.
Mesmo quando se esquecia de tentar abri-lo, a presença taciturna do baú permanecia com ela. Era um lembrete de que ela não era igual às outras garotas Hopkins. Às vezes era uma sensação agradável, mas em geral não era, especialmente à medida que ficava mais velha.
Alice May suspirou e resolveu fazer mais uma tentativa. Àquela altura, já entardecia e o ar esfriava. Pegou sua lamparina, cortou um pedaço do pavio e entrou em casa.
- Baú? - perguntou-lhe o pai adotivo, Jake, quando ela passou pela cozinha. Ele estava preparando uma conserva de limão, a cuidadosa atividade de sua farmácia transferida para as artes culinárias. Ninguém em Denilburg fazia conserva de limão, nem saberia o que fazer com os limões uma vez que estivessem conservados.
- Baú? - perguntou Stella, que costurava na sala de estar.
- Baú? - perguntou Jane na escada , quando Alice May passou por ela. - Baú?
- É claro, o baú! - soltou Alice May. Com raiva, ela baixou a escada que levava ao sótão e subiu os degraus.
Era um sótão muito limpo, numa casa muito limpa. Só havia o baú ali, escostado em uma janelinha que deixava entrar os últimos raios do sol quente de verão. Um brilho vermelho clareava a fechadura de latão e as lustrosas correias de couro.
Alice May ainda estava com raiva. Deixou a lamparina no assoalho, pegou uma das correias e puxou. Quando ela se soltou, Alice caiu de costas e bateu a cabeça no chão. O som da queda ecoou pela casa. Houve uma hesitação perceptível e então as três vozes falaram em coro:
- Você está bem?
- Estou! - gritou Alice May, ainda mais zangada. Deu um puxão violento na outra correia e ela também se soltou, mas dessa vez Alice May estava preparada para isso. Ao mesmo tempo, a fechadura de latão fez um "clique". Não era um tipo de clique suave que fizesse você pensar ser fruto da imaginação. Foi um clique lento, como se as poderosas engrenagens de metal estivessem girando devagar.
A tampa do baú se levantou um centímetro.
Alice May sussurrou:
- Está aberto.







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