Tragou longamente do cachimbo. Soltou uma baforada de fumaça e esperou até que os outros tivessem fumado uma última vez. Bateu com o anel do anelar três vezes na mesa até que obtesse silêncio total.Capítulo 1
- Não... – começou um homem também sentado na gigantesca mesa redonda, arregalando os olhos.
Um homem, de pé, vestindo preto, fez um rápido movimento segundos antes da morte do infeliz. Ouviu-se o baque quando a cabeça sangrenta bateu na mesa. Um homem da mesma idade que o detentor do cachimbo – não tão jovem para ir para escola, tampouco velho o suficiente para estar no asilo – demonstrou tremenda força ao pegar o recém-defunto pelas axilas e o transportar até a porta preta ao fim da sala. Estivera esperando, acocorado no chão.
Todos permaneciam sentados, fora os dois que agora sumiam pela saída e o homem da bata preta. Tal bata cobria quase seu corpo inteiro, fora as mãos e grande parte do rosto, principalmente o nariz, que se salientava esbranquiçado na imensidão negra.
Luís – o nome do homem do cachimbo (que coincidentemente colocava o objeto na boca e fumava naquele momento) – sentiu o gosto amargo de tabaco misturado com vitória e frieza descer-lhe o estômago.
De um pulo, um homem com cara fechada e óculos retangulares – Henrique - levantou-se. Trajava um terno preto, levemente manchado de sangue. Sentava-se na metade da mesa – no mínimo dez metros de distância de Luís, que acompanhava o evento sentado na ponta.
- Isso é um ultraje! Não admito que isso aconteça! – gritou, indignado. O homem de preto fez menção de pegar a pistola, mas logo Luís respondeu:
- Pare, mercenário. Não é a hora. – dirigiu um olhar fulminante ao homem de terno, esbaforido, que o encarava com o punho fechado. – Não vejo o motivo para tamanha histeria. Se eu me demorasse mais dois segundos, você não estaria vivo. Então, mostre-me um pouco de gratidão, seu inútil.
- VOCÊ NÃO TEM IDEIA DO QUE EU SOU CAPAZ! VOU SUJAR SEU NOME PARA SEMPRE! ESCUTE-ME...
Foi interrompido pela sua própria voz que falhou e abafou-se quando sua calça emplastou-se do líquido rubro. O mercenário não prestou explicações ao chefe – e nem precisou, pois ele permanecera em silêncio até que voltou a discursar:
- Posso dialogar por muito e muito tempo. Mas estou aqui para coisas mais interessantes... Temos horas, talvez dias. Se eu ocupasse horas falando, não haveria o porque de ter encontrado vocês – pigarreou por cima do que talvez seria uma risada fraca, em algum tempo distante em que o ódio não já fizesse parte de seus pensamentos e ações.
- Isso é ridículo! – começou um magro executivo, levantando-se e com a mala em mãos – Não temos ideia do que vocês estão fazendo e estamos apenas esperando por nossas mortes. Há horas! E ainda, essa fumaça...
- Tem algo contra essa fumaça? Eu adorei-a. Achei que seria o único a trazer o fumo. Mas concordo, a sala está um pouco neblinosa demais para meu gosto.
Estupefato, o homem da maleta tentou responder, mas não sabia exatamente o que falar. Sentou-se, cabisbaixo.
Da porta preta, o velho que transportara o corpo voltava. Luís gritou, para que ele pudesse escutar, do outro lado do recinto, para levar o homem ferido. Henrique parecia estar muito mal, com uma careta de dor e as duas mãos frouxas tentando apertar a coxa ferida.
O faxineiro de corpos (como seria chamado pelo chefe) fazia seu trabalho enquanto os homens sentados à mesa cochichavam. Não ousavam sair muito do tom, pois sabiam muito bem o que acontecia quando falavam o que não deviam. Estavam entre cinquenta pessoas; todos estariam impacientes pelo que viria se não estivessem mais preocupados com sua vida. Não sabiam o que fazer: Corria entre eles o desejo de se levantar e avançar contra o assassino, além do chefe. Mas ninguém queria ser o primeiro a se levantar. Pura questão de coragem.
E, quando um se levantou, bravamente gritando “ATACAR!”, uma lâmina gigantesca projetou-se da sua cadeira e cortou-o ao meio.
Sete ou oito pessoas se sobressaltaram pois estavam demasiado perto do ex-vivo. Poucos demonstraram reação maior do que nojo ou medo. Houve um segundo tiro e uma mulher gorda caía no chão com um taser em mãos. “Ameaça” falou com voz rouca o homem de preto.
Luís tossiu e repousou o cachimbo:
- Alguém quer jogar pôquer? – gritou em meio ao silêncio aterrorrizado.







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