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Tópico: O Outro Lado da Lua Cheia

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  1. #1
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    Padrão O Outro Lado da Lua Cheia

    Bem... Cá estou. Ia soltar a história só em Maio, mas refleti e refleti e achei melhor deixar sair logo de uma vez (parece que eu estou falando de outra coisa ._.). Ok, não quero e não posso me delongar muito, sendo assim, algumas bobas considerações iniciais:

    1 - Vamos por um fim naquele estereótipo RIDÍCULO de que toda história de Tibia é uma merda ridícula só porque "o jogo é podre", "todas são iguais", e qualquer merda boba e sem justificativa. Não existe isso de "eu não gosto de histórias de Tibia porque Tibia é bobo >.<". Tibia é Tibia, história é história e ponto final.
    2 - Como acho que deu pra entender, é uma história que se passa em Tibia, mas não necessariamente tibiana. Com ela eu pretendo mostrar que existem sim pessoas normais nesse universo, não só os cavaleiros da armadura reluzente ou os magos poderosos. Temos civis, gente com eu e como você, caor leitor. Gente que ama, que sofre, que ri, que chora. Gente.
    3 - Alguns elementos inexistentes no Tibia forma incluídos na história. Cavalos, por exemplo. Mas relevem; é pra dar mais naturalidade ao texto. Ou queria que eu pusesse minotauros puxando carroças? xd

    Sem mais delongas, vamos aos trabalhos:
    O Outro Lado da Lua Cheia

    Mas que pretensão eu tinha, pensar que a lua era minha
    E que me namorava naquela noite.
    E uma lágrima escorreu pelo rosto como o orvalho na flor
    E a lua se fez tua, a lua se fez nua e a lua se fez amor.

    (Versos da noite e lua, Edimarlos dos Santos Kappke)
    ----
    Prólogo

    - VEJA! COMO ELA É UMA MENINA BONITA, não é mesmo?! - Disse com empolgação uma voz rouca feminina em meio à multidão. Houve um rebuliço e alguns poucos viventes concordaram. Outros soltaram suspiros de admiração enquanto se perdiam pela pele branca como um algodão daquela menina. Confusa, olhava nervosamente para todos os lados. Não sabia o que fazer, aquilo que deveria ser feito por ela. Veio um homem mais velho dali do meio e olhou feio para as pessoas. Disse algumas palavras que machucaram os ouvidos da menina e puxou-a para longe do grupo, pelo pulso. Acomodou-a em uma carruagem sofisticada que por ele esperava e partiu. Cuidaria dos quesitos legais apenas no dia seguinte.
    - Precisa descansar. - Disse ele em simplicidade. Fez uma pausa enquanto o veículo fazia uma curva. - Sabia que é uma sobrevivente? Uma grande abençoada! Seu destino é iluminado, é como as faíscas de sol que emanam do horizonte pela manhã! Você é uma rainha minha querida, a rainha do amanhecer!

    ***

    Tão logo vem e tão logo se vai. Essa era a filosofia cruel que a vida dura na cidade ensinara à Dawn Evans. O que fora um dia a “garota do milagre”, a “abençoada dos céus” e a “sobrevivente do massacre” era agora nada. Uma contradição de ser humano, ora desafiadora aos princípios sociais e ora uma sujeira esfarrapada largada ao vento. O que há de belo na vida que todos a amam tanto? Insistia ela em pensar. Aprendeu desde muito cedo que a vida é frágil como um copo de cristal. Um mero toque pode ser lhe fatal dependendo de sua força. Mas o que via-se de tão bom naquela existência miserável, cruel e desigual? A justiça dos homens era superior a justiça da ideologia. Na verdade, justiça era só uma palavra usada para designar inexistência.

    Lembrava-se como se tivesse acabo de ocorrer. Estava lá, parada, o olhar fixado na imagem dos pais sendo mutilados, esfaqueados, perfurados, decapitados. O sangue deles pintava o teto e a parede de uma cor vermelho-escura assombrosa. Gritos de dor e pedidos de piedade ecoavam pelo pequeno casebre da agrícola Greenshore. O fogo consumia cada pedaço daquele antro. Os agressores - aqueles seres verdes que transpiravam intolerância e maldade - sequer notavam a presença da menina. Abraçada ao criado-mudo, calada como este. Nem uma lágrima escorreu de sua face ao ver a cena. Nunca pôde compreender exatamente o que sentiu ou pensou na hora. Tinha só sete anos.

    Então veio-lhe a salvação. Cavaleiros gloriosos armados com machados e espadas arrombaram a porta da casa, invadindo-a sem pensar duas vezes, desafiando os monstros e o fogo. Passaram pelas chamas e lutaram bravamente com os seres verdes, enquanto um outro tirava-a dali. Ficou do lado de fora, sendo “protegida” pela multidão de curiosos. “O acaso a salvou”, “foi pura sorte”, “é o destino dela!” diziam. Ouviu dali de onde estava que o mais poderoso e conhecido dos cavaleiros fora morto tentando defende-la. A fragilidade de sua inútil e agora solitária existência custou a glória, o poder e a soberania de um homem importante. Que miserável era sua vida!

    Somente dez anos depois foi saber que o homem corajoso que a salvara era seu pai.
    ***

    Naquele mesmo dia conhecera Sir Isaac Evans. Um homem de idade avançada, cabelos escassos - os poucos que ainda residiam em sua cabeça manchada eram brancos como os pêlos dos cavalos dos estábulos de Thais - e de expressão séria e postura exemplar na sociedade. Vestia-se com requinte, desfrutava do melhor que a vida podia oferecer. Tinha mais dinheiro do que podia contar e fazia questão de partilhar sua “pequena fortuna” com quem quer que precisasse. E naquele dia, essa pessoa era Dawn.

    Sem cerimônias ou apresentações prévias, Sir Isaac adotou-a ainda naquela tarde e levou-a para morar em sua gigantesca mansão. De uma madeira caríssima, janelas e portas com detalhes de ouro e composta pelos mais finos móveis que o dinheiro podia comprar, o casarão era visto à distância por aqueles que entravam na cidade. De localização privilegiada - na rua mais movimentada da cidade, entre o porto e o agitadíssimo bar do baderneiro Frodo, logo perante o Centro de Reuniões - era conhecida por todos, o que, ano pós ano, foi inflando o ego de Dawn.

    Sir Isaac ensinou-a como portar-se na sociedade, o que devia falar e comer, como deveria tratar a todos. Também fez questão de passar-lhe os principais valores morais e éticos, certo de que a filha os aceitaria como uma duquesa. E tal foi. Dawn cresceu como uma verdadeira rainha, tendo tudo que queria e que precisava. Sentia aquele homem até então desconhecido como o maior herói de sua vida. Alguém em quem podia confiar.

    Até aquele dia fatídico.

    ***

    Uma dura revelação segurada por dez longos anos. E que ainda por cima não foi dirigida diretamente à podre órfã desamparada. Como de costume, Dawn inocentemente passava pelo corredor do subsolo, rumo à biblioteca para desfrutar de uma leitura como fazia em todas as gélidas noites do branco inverno thaiense. Parou logo à frente da porta, a luz crepitante da lareira chicoteando as sombras ocultadas por trás da fechadura. Por meio desta, com seu belo e luminoso olho azul como o céu, pôde ver o pai postiço sentado na poltrona verde, uma xícara de café pousada em sua mão. Alguém falava com ele. Deve ser um de seus amigos da alta sociedade. Não sabia dizer bem como, mas a conversa tomou o rumo que dizia respeito ao seu passado. Sir Isaac, meio inocente e meio preocupadamente, deixou escapar que o tal cavaleiro que salvara Dawn no dia do ataque dos orcs era o próprio pai biológico dela.

    - Conhecia a família de longa data já. - Disse com a voz pesada que tinha. O outro provavelmente arregalara os olhos, mas era impossível saber. Estava de costas. - Acredito que deixou ela para que os camponeses a criassem. A mulher morrera no parto e sua vida incerta não lhe permitia, nem que quisesse, o luxo de criar um filho. Mas também não pode dizer que era um pai relapso. Visitava o casal de quinze em quinze dias, ou até talvez de trinta em trinta. Dava-lhes aquilo que faltava, mas nunca entrava em contato direto com a criança. Como Greenshore estava praticamente vazia naquele dia, graças à invasão Orc, deve ter ido apenas assegurar-se de que tudo corria bem. E foi aí que deparou com a cena. Deve ter entrado primeiro, alguns minutos depois vieram os reforços que o aguardavam nas montanhas. Estranharam sua demora e foram checar. Quando entraram, este já estava morto.

    Ela não sabia como ele obtivera tais informações. Sabia sequer se eram verdade. Mas não podia continuar ali, morando na casa do homem que mentira para ela por tanto tempo. Na mesma noite, Dawn, abalada pela primeira vez na vida, pegou algumas poucas peças de roupa. Cobriu-se com o grosso cobertor de pele de mamute e saiu pela noite, em meio à nevasca. Começava ali a vida miserável de uma desiludida.
    - Eu nunca fui ninguém, eu nunca tive nada! - Praguejava ela com uma voz dura e o olhar derretendo a neve pela qual caminhava. - Tudo foi uma ilusão!

    --
    Espero que gostem.
    Manteiga.

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    Última edição por Manteiga; 27-05-2009 às 19:07.
    Dezesseis anos depois, estamos em paz.

  2. #2
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    Padrão

    Postagem prematura, eu sei. Não me sinto bem deixando o prólogo sozinho por muito tempo, acho até um milagre eu ainda não ter postado ._. Antes disso, considerações sobre o capítulo.
    1 - Nele fica evidente que a história se passa antes do Tibia atual. Muitas deficiências históricas podem ser notadas, como a inexistência de Carlin e existência de Venore, mas isso não vem ao caso, falha minha :S Usei a desculpa da guerra pra transformar Venore em um forte, o que quase justifica essa falha. Mas enfim, nada prova que Carlin é mais nova que Venore fora o tempo de inclusão no jogo, não é? ._.
    2 - Alguns NPCs atuais são citados na história, como Hugo e Frodo. Considerem eles como antepassados dos atuais (afinal, vendo Tibia pelo foco medieval, seria comum dar sue nome aos seus decendentes).
    3 - Considerei como se tivesse existido uma outra linhagem real antes de Tibianus I.

    Vamos lá...
    LIVRO UM
    __________________________________________

    Capítulo Um
    O Céu Está Caindo

    A NEVASCA ERA INTENSA NAQUELA MEIA-NOITE. O branco que despencava dos céus pintava a paisagem fantasmagoricamente, transformando a cidade num palco de assombrações. Poucos vultos transitavam pelas vias cobertas de gelo naquela noite. A grande maioria eram mercadores ou andarilhos de passagem pela cidade, que encontraram logo naquela noite o momento perfeito para a fuga perfeita.

    A figura tremulante mais notória àquela hora era a da jovem andando curvada pela neve. Coberta com um material sujo, esfarrapado, que combinava com o estado deplorável de suas roupas. Começara a chover granizo dos céus. O gelo afiado que cortava a costumeira calmaria das noites thaienses perfurava as vestes da jovem e a transformava em uma mendiga congelada. Lentamente, as extremidades do corpo começaram a ficar duras e insensíveis. A visão foi ficando turva, embaçada e o andar trôpego. A respiração estava difícil, e cada vez menos ar era puxado para o corpo. O sangue quase dormia nas veias e a pele assemelhava-se a uma borracha sem vida. Se continuasse ali, em poucos minutos Dawn Evans morreria de hipotermia.

    Andara poucos metros desde que saíra da enorme mansão de Sir Isaac Evans. Provavelmente ele nem notara que ela fugira. Só notaria na manhã seguinte, quando fosse chamá-la para o suntuoso café da manhã. Por que fui abandonar os luxos da minha vida? Questionava-se em pensamento. Mas sabia exatamente a resposta. Não podia continuar vivendo sob o teto de um homem que não a amava, que apenas a via como instrumento para a escalada social. “O ricaço que acolheu a órfã.”. Não houve sentimento em seu resgate dos corvos sociais dez anos antes.

    Começava a morrer por dentro. E por fora também. As pernas fraquejantes não aguentavam mais o peso do corpo. Vacilava a cada passo. Se não alcançasse logo um estabelecimento aquecido, morreria. Foi então que, por uma janelinha de pedra, viu o fogo dançante dentro da igreja. Seria tolice fugir da mansão para o estabelecimento religioso que ficava exatamente ao lado, mas não podia esperar algo melhor. Se a nevasca melhorasse pela manhã, fugiria de Thais. Iria tentar a vida na distante Carlin, nova colônia do Rei Tibianus I. Fora construída para servir como bode expiatório aos Orcs que moravam por ali. Eram tempos difíceis, tempos de guerra.

    Arrastou-se mais alguns metros antes de despencar à soleira da grandiosa porta de madeira ricamente decorada em ouro. Sem forças para bater, jogou o peso de seu corpo contra o portal, provocando um baque longínquo, quase inaudível. Mas o “iluminado” do seu destino agiu pela segunda vez, e a porta abriu-se de leve. Pela fresta, um velhote com expressão dura na face a examinou.
    - Não há futuro para você. Apenas ser uma pobre mendiga. Não há lugar para você na casa dos deuses sua infame! Vá definhar no inferno de gelo que se constitui aí! - Disse ele cruelmente, batendo a porta e deixando-a para morrer.

    ***

    Acordou já em um ambiente mais aquecido, aconchegante. Era uma ampla casa de um cômodo só, feita aparentemente de mármore e decorada com um bom gosto exemplar. Piso reluzente, paredes ricamente embelezadas com quadros de artistas famosos expressando os mais diversos estados de espírito e com tapeçarias luxuosas de várias cores e com muitos detalhes, geralmente dourados. O espaço central era ocupado por infinidade de balcões e criados-mudos cobertos por folhas e mais folhas de papéis. Muitas e muitas camadas de tecidos diversos cobriam o mais longo dos balcões, que cortava transversalmente o ambiente. Estava ela deitada sobre uma confortabilíssima cama de casal com lençóis de linho e grossas cobertas caríssimas. Ficava em um canto à parte do cômodo, junto à estantes de livros e mesas com mais e mais papéis. O “quarto” era cercado em três lados com paredes, o que a impossibilitava de ver o resto da casa.

    Pela janela fechada com uma cortina pôde ver o ambiente externo - ou parte dele: um longo pátio situado em uma península, aparentemente com uma horta vazia. Um poço de pedra e uma fonte simples com uma ciranda de anões enfeitavam a imensidão de neve. Havia uma cabana do outro lado, com algumas árvores supostamente frutíferas já sem folhas. Por outra janela, logo à sua frente, viu a entrada com dois colossais pilares de mármore com trepadeiras secas enroladas. Uma trilha de árvores demarcava o caminho central e levava o visitante até a cerca de carvalho que delimitava o terreno.

    - Vejo que acordou. - Trovejou uma voz forte logo atrás dela. Virou-se de sobressalto com o coração em disparada. Em pé, logo atrás da cama, viu um homem extremamente alto, elegante. Não era muito jovem, os cabelos grisalhos e algumas rugas na face já demonstravam isso. Trajava um longo robe arroxeado com detalhes em ouro e com as iniciais “AF” bordadas no peito. Nos pés, pantufas de coelhinhos rosas quebravam a seriedade transmitida pela face dura. Os olhos castanhos estavam sem brilho.
    - Onde... Onde estou? - Indagou, a voz meio rouca e não passando de um sussurro. Forçou a garganta e sentiu um despejo de catarro descer por esta. O homem a encarou por alguns minutos.
    - Está em minha suntuosa residência, nos campos ao sul de Thais. Teve muita sorte de eu estar passando pela frente da igreja quando desmaiou.
    Sorte... É o que todos dizem.
    - Por que... Por que me acolheu?
    - Não se acostume. Apenas não consigo ver uma bela jovem com muita vida pela frente como você largada à soleira de igrejas de uns velhos ridículos com suas crenças surreais.
    - Bela?
    O homem pareceu surpreender-se com a resposta da jovem. Ergueu uma sobrancelha e a examinou bem. Tinha os cabelos negros muito longos, caindo pelo corpo. Eram extremamente lisos, assim como sua pele tão branca quanto a neve que caía do céu. O nariz curto enfeitava a face com os lábios humildes. Tinha belos olhos claros como as águas que rodeavam seu jardim. Os cabelos que desciam em sua face lhe davam um charme à parte, um mistério sedutor e ao mesmo tempo torturante. Os seios não muito pequenos nem muito grandes eram exuberantes e o corpo era muito bem moldado. Por baixo das cobertas dava para se ver as vestes esfarrapadas e imundas que usava, que lhe davam um ar mais selvagem, de indiferença. O que essa garota tem de tão mágico?
    - Ninguém nunca chamou-lhe de bela antes?

    A pergunta pareceu fixar-se na mente de Dawn. Titubeou por alguns instantes antes de balançar a cabeça de leve, indicando uma negação. Os cabelos tremularam tal como fazem as cachoeiras.
    - Onde andou por todos esses anos que nunca a vi pelas ruas de Thais?
    - Eu... Não tenho saído de casa muito... - E acrescentou em sussurro: - Pelos últimos dez anos...
    - Ou sua família buscou preservar sua aparência angelical, ou temia uma nova invasão dos Orcs. Á julgar pela sua anterior negação, posso dizer que foi o temor que a aprisionou em seu lar, não é?
    Ela não respondeu. Ergueu seus olhos sem fazê-lo com o rosto, fitando as letras bordadas no robe.
    - O que é “AF”?
    - Arthur Fletcher. Meu nome. - Disse com um breve orgulho na voz, o peito inchando-se, como se esperasse ser reconhecido. - Já deve ter visto meu nome nas mais belas grifes da capital.

    - Na verdade... Não.
    O argumento murchou o ego de Fletcher.
    - Esqueci que não anda muito por aí. Ao menos conhece Hugo Carville?
    Ela assentiu, de leve. Provavelmente Sir Isaac citou-o uma ou duas vezes nas rodas sociais que freqüentava, onde exibia Dawn como seu troféu majoritário de preocupação social. Hugo Carville era o maior estilista da longínqua cidade de Venore – que na realidade nada mais era se não um forte de guerra cercado por uma vila boba. De renome mundial, Hugo produzia as mais finas peças de vestuários que se permitiam ser usadas pelos ricaços das mais altas classes. Conhecido por sua aspereza, Hugo era reservado e pouco saía de seu estabelecimento na cidade onde nasceu.

    - Pois então. Eu o ensinei tudo que sabe. - Disse, buscando uma cadeira ali próxima e sentando-se nela, cruzando as pernas. Dawn fechou rapidamente os olhos, o que provocou um risinho forçado no estilista. - Pode abrir, estou devidamente vestido por baixo.
    - Ok... - Hesitou. Abriu-os aos poucos, fechando-os repentinamente vez ou outra. Após algum tempo manteve-os escancarados. Arthur sorria. - Sério? - Não estava muito interessada nisso.
    - Claro! Eu o conheci logo no começo da carreira, numa taberna na periferia venoriana. Papo vai papo vem, acabamos fazendo uma sociedade, e foi graças a mim que ele chegou à fama. - Ou foi quase isso... Pensou ele. - Enfim, já faz uns anos que nos desentendemos e aí resolvi romper. Vim pra cá recomeçar, sabe.

    Manteve-se um cruel silêncio, enquanto ambos buscavam um assunto. Ele resolveu disparar primeiro.
    - O que fazia largada lá?
    - Não tenho família. - Apressou-se em responder.
    - Órfã?
    - É. - Era impressionante como sua imagem de “a órfã mais famosa de Thais” sumiu da noite para o dia. Hoje em dia ninguém sequer a reconhecia quando ia comprar leite. Isto é, quanto Sir Isaac a deixava sair. Parecia ter medo de perder sua garantia de sucesso.
    - Que lastimável. Onde morava?
    - Com eles. Em Fibula, conhece?
    - Sei, já ouvi falar. Aquela ilha na costa sul, não é? Soube que foi atacada recentemente pelos Orcs. Malditos, não se cansam...
    - Isso. Morreu toda minha família. Aí vim pra cá tentar recomeçar. Tentei buscar abrigo na igreja, mas não consegui... Fui expulsa por um velhaco e... - Sentiu como se estivesse se abrindo demais com o estranho.
    - Eu sei quem é. É um eremita esquisito... Vem de outra cidade, só não sei dizer qual é. Veio passar uns tempos aqui na capital. Tem fama de bondoso, mas na prática deve ser um ríspido.

    Ela nada disse.
    - Bem... - Ele encarou as pantufas e brincou com as orelhinhas dos coelhinhos com os dedos dos pés. - Já que estamos em pleno inverno, enfrentando uma guerra e você é órfã... Acho que posso lhe ceder abrigo aqui por algum tempo. Quer dizer, até arrumar um lugar melhor. E se quiser é claro.
    O rosto dela iluminou-se um pouco, e a sombra de um sorriso formou-se no canto de sua boca. Até esqueceu-se de que nem sabia como fora parar ali.
    - Terá comida e tudo mais que precisar. Mas não será de graça. Terá de trabalhar para mim.
    Era a mudança nos ventos! Finalmente a luz de sua estrela brilhava para algo útil. Sua vida enfim tornar-se-ia algo, enfim teria um rumo a seguir! Seria modelo de um dos mais famosos estilistas do mundo!

    Arthur foi ao balcão maior e buscou alguns folhetos, largando-os sobre a cama, ao lado dela.
    - Amanhã bem cedo pegue esses papéis e vá até a rua principal de Thais e entregue aos passantes. São propagandas. Vai espalhar por aí a notícia de que vou abrir uma alfaiataria por esses lados.
    E o sorriso em sua face murchou.
    @Thomaz
    Ando meio sem tempo e ainternet cai direto, mas promeot que assim que der eu comento na sua história. Já salvei os caps no word e vou ler logo :p

    Valeu pelos elogios =D

    Manteiga.
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  3. #3
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    Desculpe Manteiga se até agora não lí. Foi o meu tempo ocioso e minha força de vontade que não me deixaram fazer isto antes.

    Primeiramente vem as critícas. O inicio(Prólogo) é uma parte importante da historia e que deve ser prezada. Não digo aqui que ficou ruim, ao contrário, ficou muito bom. No entanto ficou um pouco confuso, quem não conhece tibia iria ficar meio perdido. Além disso o inicio não foi lá emocionante e não me daria vontade suficiente para continuar a ler.

    O primeiro capitulo foi bom, bem descrito e detalhado de forma correta (detalhamento correto é aquele que é descrito de forma possivel a imaginação). Porém o que deixou a desejar um pouco foi as conversações, não sei o que exatamente mais deixou não ficou muito bom.

    Pronto, criticas terminadas e vamos aos elogios!

    Muito bem feito e me deixou vontade de ler o proximo. Isso é um otimo sinal pois eu não sou muito de ler Rp's. Elogios não são meu forte por isso acho melhor parar por aqui!

    Boa sorte e espero continuação...

    Ehhh...

    Até~

  4. #4
    Avatar de Manteiga
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    Ah que bom, achei ter cometido um erro :x

    Mas não deixa de ser, já que a história se passa no reinado de Tibianus I, e Carlin já começa a ser construída. Não que vá danificar a história, mas é apenas pra dar mais realismo. (E porque o escritor burro fez merda =D)

    Manteiga.
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  5. #5
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    Pode ser, mas ela estava em uma casa em chamas invadida por orcs e saiu ilesa, custando a vida do maior cavaleiro do Castelo. Isos daria um prestigiozinho bobo né? :x

    Sem falar que se soubessem que Sir Isaac adotara uma órfã desafortunada e de quebra tirando-a da colônica rebelde (viu, até fica melhor) ele certamente iria ter a ganhar.

    E Lucius... Cruze,s o que o roleplay não faz hein? Andow afanando muita coisa da biblioteca de Thais foi?

    Manteiga.




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  6. #6
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    Hora de atualizar! Eeeee. Bom, comparando com minhas tramas anteriores essa ficou curtíssima, pelo meu planejamento deve ter entre 20 e 25 capítulos. Mas devem ser uns 23 =p

    Mas não quer diser que será curta. Já to com 65 páginas no world e quinze capítulos escritos, tem muita coisa pra acontecer ainda XD

    Bom, sobre o capítulo. Apesar de não parecer, o que ocorre nele é realmente muito pouco. Mas ja nos dá uma boa idéia da sociedade da época (na minha concepção) e apresenta o segundo personagem principal da história.

    Capítulo Dois
    Encontro

    - O CÉU ESTÁ NO CHÃO. - Dissera Sir Isaac Evans certa vez, parado junto à janela do corredor do segundo andar. Seu corpo voltava-se em direção à varanda, mas a face permanecia paralisada na visão do horizonte. Os olhinhos pretos se perdiam na imensidão. Dawn estava com ele, abraçada à sua perna, a cara sofrida. Forçava a face na vã tentativa de fechar os ouvidos ao som dos trovões do lado de fora. Sir Isaac afanava sua cabeleira desgrenhada com aquela mão seca. Só agora ela percebia como não havia emoção naquele gesto tão falsamente paternal.

    Sir Isaac fechou os olhos e baixou-se, ficando na mesma altura da jovem Dawn. Encarou-a e em sua face formou-se um leve sorriso quando viu a expressão de medo em seus grandes olhos.
    - Venha cá. - Disse em um tom mais de ordem. Não foi uma necessidade ou um pedido, um carinho à parte. Foi sim uma ordem. Sequer esperou uma resposta e puxou-a para perto de si, abraçando-a meio sem vontade, como que por obrigação. - Tudo ficará bem. Eu prometo que nada nunca irá te acontecer, minha rainha.

    Chovia. Não era uma chuva forte, tampouco uma simples garoa. Os pingos d’água do tamanho de grãos de arroz despencavam do céu, esborrachando suas formas no chão de pedra tão frio. Ainda chicoteavam nas paredes com certa força, provocando estalidos fantasmagóricos. A neve já havia derretido. Não caía mais gelo do céu. O céu já não está mais caindo, afinal. Pensou a jovem Dawn, em um desamparo melancólico. Pelo menos não literalmente.

    Queria voltar para casa. Se é que podia chamar o canto que Arthur lhe dera em sua mansão campestre de casa. Estava morando no pequeno depósito no jardim, afastada de todo o contato possível com ele e, sobretudo com os convidados, que gostava de chamar quase que todas as noites. Mesmo sem poder, Dawn gostava de aproximar-se da casa na calada da noite, enquanto Arthur trabalhava em seus modelitos. Observava-o trabalhar e sentia-se dentro dos vestidos de veludo, calçando os sapatos finíssimos para a noite e as jaquetas de couro tingido. Usava ainda jóias caras e exuberantes, grandes como seus expressivos olhos.

    A simplicidade deprimente de seu casebre nos jardins enlameados agora lhe parecia tão aconchegante... Tinha pelo menos como se aquecer, tinha uma cama... Mas ainda assim, de um jeito ou de outro, não vivia com seus méritos. Era uma abrigada como sempre fora, uma miserável que só ganhou abrigo e comida por uma dose de pena que provavelmente passaria logo. A única coisa que mudara é que Fletcher tivera a hombridade de admitir que só a estar acolhendo por pena.
    - Regresse apenas quando todos os folhetos forem entregues. - Dizia todas as vezes que saía de casa para trabalhar. Nos primeiros dias fora difícil, estava vestida ainda como miserável e era atormentador distribuir porcarias na rua mais movimentada da cidade, ironicamente a em que se localizava a varanda que conhecia tão bem, onde Sir Isaac gostava de passar o fim de tarde. Apesar disso, nunca o vira lá depois de sua partida. Perguntava-se como estava, se estava bem, se sentia sua falta de verdade. Pro inferno com ele! Era o que queria pensar.

    Com o passar do tempo, foi ficando pior.
    Mesmo com roupas mais adequadas, uma postura melhor e a face limpa, Dawn era enfrentada com olhares frios e intolerantes, como se os cidadãos thaienses reprimissem um ódio aos mendigos ou trabalhadores das ruas, ou ainda a ela própria. Vivia afastada demais para saber se o fato de sua fuga vazara, se as pessoas a procuravam ou a tinham como morta. Só via refletidos nos olhares impiedosos daqueles que nela esbarravam os sentimentos mais cruéis que já imaginara.

    E a distribuição dos folhetos ia de mal à pior. Nos três primeiros dias conseguira distribuir alguma pouca coisa, mas nada significativo. Voltara diversas vezes para a residência e tentara persuadir Arthur.
    - Não terminou ainda. Como quer pagar pela sua incômoda estadia se não trabalhar direito? Volte lá! - Era tudo o que ele tinha a lhe dizer, quase expulsando-a. A partir daí, em uma injeção de ousadia e uma coragem de desafiar as regras que sequer acreditava ter, habituou-se à esconder uma grande parte dos papéis nos esgotos, vendendo o resto para algumas lojas de reaproveitamento. Com o dinheiro comprava alguma coisa para comer, geralmente na taverna do Frodo, às vezes de viajantes que não conheciam sua história. Dizia a Arthur que as coisas estavam melhorando e que até recebera trocados de algumas madames após certos dias de espera.

    Mas o prometido dia em que sua situação melhoria não chegava. Pelo menos até aquele fim de tarde melancólico.

    Sons vieram da distância, ecoando. Dawn estava sentada na lama, escorada à mansão que por anos habitou, abaixo da sacada. Não que o teto improvisado ajudasse muita coisa. A chuva vinha transversalmente. Com os dentes batendo e a pele arrepiada, ergueu os olhos por entre os cabelos sujos e molhados para ver uma suntuosa carruagem ricamente decorada com o selo real parar perante o estabelecimento logo à frente. Dawn ergueu-se, caminhando para junto do cocheiro, estendendo para ele um dos folhetos. Ele negou. Ao som do relincho dos cavalos brancos, deu a volta na carruagem e viu a porta dourada abrir-se. Do prédio de pedra saiu um homem coberto por uma capa preta. Vestia-se bem, andava bem. Era alto, corpulento. A face trazia uma expressão dura e os olhos de cor indecifrável buscavam as escadinhas para entrar. Ele parou ao ver Dawn. Indecorosamente, ela estendeu um dos folhetos molhados para ele, os olhos carregando uma súplica. Ele pegou carinhosamente o papel e o enrolou com todo o cuidado, guardando-o nas vestes negras. Devolveu um olhar complacente e entrou na carruagem, sem dizer uma palavra.

    E o veículo partiu, perdendo-se na distante névoa.

    ***

    Varkhal Lins era um homem de sorte. Tinha uma posição privilegiada em relação à sociedade thaiense, tinha mais dinheiro do que sua conta bancária podia manter, tantos flertes quanto podia e de quebra uma acomodação invejável. Tinha uma capacidade intelectual acima da média e um corpo esculpido pelos deuses. Eu sou perfeito, costumava pensar.

    Era o mais jovem, mais popular e um dos mais importantes parlamentares da capital. Eleito já há três anos com uma esmagadora vantagem de votos, Varkhal sabia perfeitamente que sua popularidade repentina dava-se única e exclusivamente pela sua beleza física estonteante. E daí? Pegava-se pensando. Pelo menos eu sou um dos homens mais poderosos de Thais. De fato, sua posição política e os poucos milhares que recebia mensalmente lhe tornavam um ser temido pela grande maioria. Além disso, tinha uma capacidade de raciocínio rápida e monstruosa, que lhe permitia sair por cima em qualquer situação, fosse ela favorável ou desfavorável. Não era à toa que em poucos meses o rei Tibianus I pediu-lhe que assumisse uma cadeira um pouco mais importante no parlamento. Um ano depois ele já trabalhava diretamente com o rei e era responsável por muito mais do que podia cuidar, o que o fazia silenciosamente negligenciar alguns casos menores. Nenhuma queixa nunca fora registrada, então não havia problema.

    Na verdade, nenhuma queixa era registrada simplesmente porque todas as pessoas na cidade atingidas direta ou indiretamente pelas ações de Varkhal sabiam que era uma tolice desafia-lo. Ele era - e sabia disso - uma das poucas pessoas no mundo que sabiam verdadeiramente usufruir do poder que possuíam. Suas influências e conexões o tornavam suficientemente perigoso a ponto de jamais sequer ser contrariado. No parlamento, porém, ainda encontrava dificuldades em superar os membros mais antigos. Mas mesmo tendo muito mais do que podia, Varkhal ainda achava-se pequeno.

    Suas liberdades terminavam onde começavam as implicações reais. Não tinha poder para comandar o exército, a economia, os templos ou qualquer outro estabelecimento público. Não podia mandar nas pessoas que passavam na rua, apenas esfregar na cara delas a superioridade que tinha, mas que mantinha reclusa por questões óbvias. O povo o botara lá, e, o mínimo que ele podia fazer, era fingir que estava agradecido por causa disso. Como se eu sozinho não pudesse chegar a tanto...

    A guerra de Thais contra os orcs se arrastava já há mais de dez anos e graças a isso vinha castigando o desenvolvimento da capital. E com o Projeto Carlin, a situação ficava cada vez mais insustentável. Varkhal sabia que Tibianus estava sobre pressão constante do parlamento e dos civis, o que fazia da guerra o momento perfeito para dar o bote e afastar o velhote da monarquia de vez. Um golpe bem planejado não poderia ser detido, e, se o exército se aliasse à Varkhal, a hegemonia thaiense jamais seria quebrada e enfim ele teria um pouco mais do que tinha antes. Mas ainda seria pouco.

    O problema era que, até que chegasse esse dia, era preciso calcular tudo com extrema calma. E até lá, era de extrema necessidade manter as aparências e delongar as relações do rei com a “diplomacia” orc. Era justamente por isso que Varkhal descera de sua magnífica carruagem naquela tarde chuvosa para ter com o rei. Mas foi barrado logo na entrada do castelo, por um guarda metido. Costelloe devia ser seu nome.

    - Preciso de imediato ver o rei. - Tentara argumentar, com a cara mais lavada do mundo.
    - O rei está em reunião secreta com os líderes diplomatas. Tenho ordens de impedir a entrada de qualquer um no castelo hoje.
    - Mas eu sou Varkhal Lins!
    - Qualquer um. - Costelloe disse com tamanha imposição que Varkhal teve que ceder. Era melhor não criar intrigas com os empregados diretos do rei. Não ainda.
    - Diga a ele então que estive aqui. E que é relativo à guerra. Sabe como me importo com essas circunstâncias terríveis, não é?

    Voltou para sua bela casa de dois andares, feita de tijolos caríssimos e decorada com o melhor que a decoração estrangeira podia oferecer. Tapeçarias coloridas e religiosas do deserto de Ankrahmun desenhavam um museu à parte na parede. Vasos e esculturas de Darashia enfeitavam as mesas de madeira de lei extraída de Rookgaard e diversos móveis caros entalhados por mestres anões de Kazordoon ocupavam os demais lugares. No cair da noite, preparou-se para dormir em sua gigantesca cama de ouro puro, no segundo andar. Despiu-se e, ao retirar as calças, percebeu um som estranho. Enfiou a mão no bolso e logo retirou um punhado de farelos de algum papel estranho. Varkhal tentou e tentou recordar-se quando e como o tal escrito fora parar ali, mas nada veio à sua mente.

    Largou os farelos em um vaso de porcelana pintado à mão com figuras religiosas do deserto de Jakundaf e deitou-se, cobrindo-se com o cobertor de linho. E nunca mais voltou a pensar naquele papel.
    Uma consideração sobre o parlamento: eu decidi amparar o governo de Tibianus I com um parlamento, por motivos futuramente revelados.

    Manteiga.
    Dezesseis anos depois, estamos em paz.

  7. #7
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    Esse último capítulo foi mais informativo, admito que gostei mais do capítulo I, mas está bom sim, espero os próximos =D
    Inri-Locke.
    Pode acreditar... eu fui enviado pelo ''meeeu PÁI''

  8. #8
    Avatar de Manteiga
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    Viva o double post...

    Capítulo Três
    O Devaneio

    - EU GOSTARIA DE LHE DIZER... - Começou Sir Isaac um dia, enquanto travava uma batalha épica com um bife mal passado em seu prato de porcelana. - Que adoro a forma como você sorri.
    Dawn estava sentada na outra extremidade da gigantesca mesa de carvalho ricamente enfeitada com arranjos florais exuberantes e estátuas de ouro puro. Os mais requintados pratos foram servidos naquela noite. Os quinze anos dela. Dawn sorriu ao ouvir o comentário, enchendo os olhos de Sir Isaac Evans com seus belos dentes brancos e perfeitamente alinhados.
    - Você é o meu maior tesouro, Dawn. - Disse ele ao fim da ceia, sem fita-la. - Não sei o que seria de mim se te perdesse. Agora vá buscar seu presente na biblioteca.

    Sem quaisquer cerimônias ou um agradecimento, Dawn ergueu-se e seguiu em disparada para as escadarias, descendo-as em velocidade exemplar para encontrar, repousando em uma das poltronas da riquíssima biblioteca da mansão, um vestido negro, aveludado, que aparentemente caía pelo seu corpo, dando-lhe formas belas. No momento em questão ela não entendeu exatamente porque um vestido tão sensual. Só entendia agora.

    Ventava muito. Um vento gélido e cortante, que uivava pelas ruas incertas da cidade. Arrastava algumas sujeiras bobas pelo caminho, junto com algumas porcarias e galhos secos partidos. O vento varreu a cidade de leste a oeste, anunciando a tempestade que cairia naquela noite. A última do inverno. Dawn recordou-se de seu qüinquagésimo aniversário por breves momentos, enquanto comia algo que parecia ser um peixe torrado com uma salada fortemente temperada, sentada em um banquinho de madeira junto ao maior balcão da casa de Fletcher. Ele tinha saído e deixara aquilo para ela jantar.

    Aproximou o xale avermelhado dos ombros, tapando-os. Estremeceu quando um braço do vendaval entrou pela janela e percorreu sua pele macia. Batendo os dentes, empurrou o prato e começou uma longa travessia pelo pátio morto até seu casebre de madeira torta. Podia até tentar, mas sabia que Arthur não deixaria que ela dormisse na mansão.

    Deitou-se sob o que podia tentar chamar de cobertor, em uma cama mal construída de ferro num canto do quarto. Desligou a lamparina que era a única fonte de luz ali e descansou a cabeça sobre o travesseiro pinicante. Fechou os olhos com força e desejou estar de volta à sua casa humilde, dez anos antes. Antes daquele ataque. O ataque que mudaria sua vida para sempre.

    O dia seguinte amanheceu de fininho. O sol brotou aos poucos das nuvens negras e pesadas que estavam travadas no céu, cobrindo-o. Pouco a pouco seus raios quentes como o fogo penetraram na terra toda, iluminando os caminhos dos viajantes. Ninguém tinha nada a reclamar. A tempestade anunciada não caíra, apenas atormentara. E agora todos podiam voltar à suas rotinas, alegres.
    Dawn devia ser a única pessoa na cidade infeliz com a idéia.

    Arthur batera três vezes na porta da “casa”, chamando-a com a voz impaciente. Levantou-se melancolicamente, como se estivesse indo para a forca. E estou. Vestiu-se com uma saia cinza escura que descia-lhe até os joelhos e com uma simples blusa branca que enfurnava seu corpo. Pouco penteou os longos cabelos negros e passou uma água proveniente da pia improvisada ao lado da cama pelo rosto. Saiu de casa mais tarde do que de costume, e, para seu infortúnio, Arthur já havia ido embora. Juntamente com a chave, o que impossibilitava seu café da manhã.

    Pulou atrapalhadamente a cerca da propriedade, caindo no gramado logo após passar metade do corpo por ela. Raspou-se de leve na canela. Ficou em pé e praguejou baixinho, ajuntando os folhetos que deixara cair. Sentindo um filete de sangue escorrer por sua perna, dirigiu-se à cidade.

    ***

    Varkhal Lins acordou às nove em ponto, com o sol da manhã iluminando sua face através de uma fresta na janela. Espreguiçou-se e saiu da cama, analisando a bela jovem que dormia nua ao seu lado. Soltou um risinho de satisfação e vestiu-se demoradamente, cuidando para que tudo saísse perfeito. Um fio de cabelo fora do lugar e poderia por tudo a perder. Desceu ao primeiro andar e roubou uma pêra de uma bela cesta deixada sobre uma mesa de mármore. Mordeu-a fazendo uma careta. Saiu e fechou a porta, jogando a pêra em um riozinho atrás da residência. No caminho ao castelo, cruzou com um guarda abobado.
    - Vigie direito a casa. - Disse-lhe simploriamente, seguindo seu caminho. Ora ou outra cruzava com belas jovens. E em momento algum deixava de explorá-las com seus olhos indescritíveis.

    Em questão de minutos estava parado perante o castelo, os olhos viajando pelas muralhas brancas e pousando sobre os portões de entrada feitos de bronze. Costelloe estava ali, parado, na ponte que ligava a ilha onde ficava o castelo com a cidade.
    - Perdoe-me a insolência Sr. Lins... Mas que tem de tão importante para falar com o rei?
    - Não diz respeito à sua pessoa, guarda. - Respondeu asperamente, sem olhá-lo. Costelloe resmungou alguma coisa e depois falou, num tom mais imponente:
    - O rei está em reunião.
    Sempre está.
    - Estranho não é Costelloe? Sempre que venho ter com ele, vossa majestade está em reuniões das quais eu, um dos mais importantes parlamentares, nunca tenho conhecimento...
    - Está tentando insinuar alguma coisa Sr. Lins?
    - Não. - Disse prontamente, espiando pelas grades de bronze. - Estou afirmando. O rei não quer me ver, certo?
    Costelloe demorou-se um pouco. Saboreou o tom de derrota na voz de Varkhal Lins por alguns segundos antes de responder afirmativamente. Já está na hora de você se foder.
    - Pois bem... Ele que perde.

    Varkhal partiu, com o sangue aglomerando-se em sua face, os punhos cerrados trêmulos. Aquele velho medíocre...

    Do outro lado da cidade, Dawn Evans espiava pelas janelinhas quadradas o interior da taverna de Frodo. A água surgia-lhe à boca quando via os pratos de carnes, saladas, pães e os copos de leites e chás serem servidos aos viajantes que ali paravam para matar a fome. Como eu preciso disso... Inutilmente, enfiou a mão em um dos bolsos da saia, buscando alguma moeda qualquer. Nada. Não posso ficar sem comer nada!

    A exigente barriga clamava por um pão de milho quentinho, por um filé macio como as almofadas de um sofá caro. Sentiu o gosto de um champanhe leve aveludar sua boca e quase chegou aos berros desejando um pudim de leite. Mas nada disso é meu agora... Nem nunca foi. Eram ilusões... Lambendo os lábios pequenos, tomou a decisão que impediria sua vida de voltar a normalidade.

    Largou os folhetos que segurava no chão. Estavam marcados de suor transpirado por suas mãos suaves. Esgueirou-se pela parede de tijolos áspera, sentindo pontadas em sua pele extremamente branca. Chegou sem demora à porta do estabelecimento. Mas não entrou. Seguiu ao norte, enfiando-se em uma passagem muito estreita que separava a taverna de certa outra loja. Ao fim do corredor havia um pátio perante a mansão de Sir Isaac, onde Frodo costumava depositar mesas e cadeiras para os fregueses mais sofisticados. Não sem antes pagar para Sir Isaac permitir que a frente da casa fosse usada.

    Evitou encarar a antiga morada e sobretudo pensar no que seu “pai” estaria fazendo lá dentro naquele instante. Limitou-se a entrar pela porta dos fundos, o mais perto possível das escadas que levavam à uma pensão existente no segundo andar. Silenciosamente, esgueirou-se por trás das mesas, rente à parede, parando na curva desta. Pousou os olhos sobre os pães empilhados em uma cesta belamente decorada na mesa à sua frente. Lambendo os lábios, deu alguns passos à sua frente e largou sua formosa mão sobre um dos pães. E quando foi puxá-lo para si, sentiu que uma mão maior, forte e áspera pousara sobre a sua. Um arrepio percorreu sua espinha e ela ergueu os olhos, temendo pelo pior.

    - Uma bela dama como você não deveria estar surrupiando pães em uma taverna. - Disse o homem parado à sua frente, encarando-a com uma expressão complacente. Sorria de um jeito carinhoso. Dawn teve a ligeira impressão de já te-lo visto antes.
    - Eu... Eu não...
    Ele riu. Tinha um riso encantador. Passou a mão pelos espessos cabelos alourados, revelando sua face estranhamente oblíqua. Mas o que revelou sua identidade foram os olhos sem cor, misteriosos como uma sala escura.
    - Se está com tanta fome assim, posso convidá-la para um banquete? - Sua voz era mágica, atraente.
    - Ah... Mas...
    - Eu faria tudo para não precisar ver uma bela criação divina como você passar por situações constrangedoras como essas.
    - Algum problema aí? - Ecoou a longínqua voz de algum empregado que provavelmente estivera de olho em Dawn desde que ela entrara.
    - Não, está tudo bem. - Disse ele, sem alterar a voz. Sorriu novamente e retirou sua mão dos pães. - Me encontre esta noite no parque, Srta...
    - Dawn... Dawn Hedgens.
    - Um belo nome. Então te vejo hoje logo que a lua cheia estiver ao topo do céu. - Beijou-lhe a mão carinhosamente e retirou-se. Já perto da porta, pareceu lembrar-se de alguma coisa. Virou-se com uma cara meio envergonhada. - A propósito, sou Varkhal Lins.

    --
    Manteiga.
    Dezesseis anos depois, estamos em paz.

  9. #9
    Avatar de zack746
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    Gostei do pegador em massa...

    Sinceramente...

    Dá pra ler, mais não daria pra um livro...

    apenas legal!

  10. #10
    Avatar de Manteiga
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    Sei-te os passos noutros caminhos, entre outras pessoas.
    Sei-te os gestos e os olhares, noutros lugares que não este,
    Sei-te as palavras, as mesmas que me dizias, que não mais para mim.
    Sei que não estás e ainda assim procuro-te...

    Capítulo Quatro
    O Selo da Lua Cheia


    A NOITE ESTAVA ESPLÊNDIDA. A lua cheia, em sua formosura completa, banhava as terras todas com sua luz prateada, no topo do céu. O manto negro era perfurado por faíscas de luz chamadas estrelas, o que aumentava incontavelmente seu fascínio. Casais apaixonados andavam pelas ruas e becos de mãos dadas, trocando beijos e juras de amor sob a luz do luar. O clima de perfeição inundava a capital.

    Varkhal Lins estava escorado junto aos longamente conhecidos portões de bronze do castelo. Costelloe não estava, o que fazia Varkhal considerar seriamente a hipótese de arrombar o lugar. Esse velho maldito deve falar comigo. Não que estivesse preocupado com as conseqüências em caso de uma negligência relativa à mensagem que trazia, apenas precisava passar uma boa imagem ao rei. E naquele momento isso era crucial. Sabia que se as tais reuniões existiam mesmo, eram entre Tibianus I e o resto do parlamento. Os invejosos o estão colocando contra mim!

    Varkhal ergueu os olhos para apreciar a noite. Ao pousar seus olhos sedutores na lua, teve a breve impressão de que estava esquecendo alguma coisa. Mas provavelmente era apenas uma sensação.

    ***

    Dawn adiantou-se naquele dia. Antes mesmo de o sol chegar perto de se pôr ela já havia pegado a trilhazinha que levava até a mansão de Fletcher, fora da cidade. Em questão de minutos estava pulando a cerca discretamente, correndo ao redor da propriedade. Não havia uma segurança rígida pelo fato de que pouca gente conhecia o lugar - escondido atrás de uma montanha pouco visitada - e de que quase sempre Arthur estava em casa, saindo vez ou outra para comprar comida, materiais ou matar o tempo. Quando ele se ausentava, normalmente Dawn ficava por ali. Pelo menos até alguns dias antes, quando ambos se encontravam ausente e a casa quase fora arrombada. Por precauções e pela garantia de refeições melhores, Arthur contratou Tom Gorgel, um amigo distante, para trabalhar na casa como cozinheiro. Tom, ao contrário de Dawn, tinha perfeitos privilégios e podia dormir dentro da casa. Passava vinte e quatro horas por dia lá dentro, fazendo geralmente nada.

    Naquele dia ele estava colhendo as hortaliças - ou o que sobrara delas - na horta dos fundos. Dawn teve todo o cuidado de desviar-se dos jardins, esgueirando-se por perto da parede da cozinha. Sem emitir ruídos ela entrou pela janelinha, fazendo algum esforço para conseguir passar sentada. Já dentro da casa, seguiu pé ante pé até o balcão principal, onde buscou um belo vestido vermelho vivo, com um decote ousado e extremamente justo. Era lindo e macio, mas não fazia muito o estilo de Dawn. Mas esta noite eu serei outra pessoa! De alguma forma ela sentia que Varkhal Lins podia mudar a sua vida.
    E ela não fazia idéia de como estava certa.

    Atrás da casa, em um longo pátio ao lado dos jardins, ficava um laguinho artificial banhado pela água tirada do poço. Quase aproximava-se do mar que cercava quase toda a casa. Arthur disse que o havia feito pelo conforto que a imensidão de águas salgadas não lhe propiciava. Todas as noites ele costumava banhar-se ali, com exceção dos dias muitos frios. Dawn ficava trancada na cabaninha nesse meio tempo. Como se eu quisesse ver alguma coisa.

    Mas naquele instante de ousadia e insanidade quem iria se banhar ali era ela. Precisava ser rápida e silenciosa, do contrário Tom Gorgel poderia notar. E na pior das hipóteses, contaria tudo a Arthur, que parecia ter uma intolerância inexplicável à indisciplina. Rapidamente ela despiu-se, olhando furtivamente para todos os lados. Ocultou as veste sob uma pedra enorme junto ao lago e mergulhou. A água estava fria. Não, congelante. Os seus dentes começaram a bater e o resto do corpo a reclamar. Male mal deu algumas mergulhadinhas e logo saiu. O vento gelado que vinha do mar apenas serviu para piorar a situação. O que é que raios eu estou fazendo?

    - Dawn...? - Veio uma voz energética, não muito forte e com um sotaque engraçado. Dawn virou-se pasma para dar de cara com Tom. Por um breve momento de vergonha esqueceu que estava inteiramente nua. - Mas o que é que...? Oh céus! -
    - Tom... Mas... Ah! - As palavras entalaram em sua. Ela buscou o vestido cuidadosamente disposto sobre uma pedra perfeitamente plana ao seu lado. Cobriu a frente do corpo com ele. Sentiu-se trêmula, completamente envergonhada. Eu me sinto uma vadia...

    - Ah, lamento muito... Peguei você no meio do banho! - Sua voz afável transmitia uma profunda preocupação. Então ele nem faz idéia da verdade!
    - É... Eu acabei um pouco mais cedo hoje e resolvi me banhar. Sabe que não deveria estar aqui há essa hora e achei que se usasse a banheira lá dentro Arthur poderia desconfiar...
    - Bobagem. Conheço-o há anos. Faz pose de durão, mas na verdade é uma manteiga derretida por dentro. Posso convencer ele com algumas palavras bobas. Sou bom nisso. - Fez uma pausa. Virou-se brevemente para observar seus vegetais. - Bem... Acho que agora já nem adianta muito não é?
    - Pois é. - Esforçou-ser para manter um tom de decência, mas breve indignação. Percebeu-se estranhamente firme. - Bem... Não diga nada a ele tudo bem? Não me sentiria muito confortável.
    - Ok. - Ele fez um breve aceno com a cabeça e virou-se. Já ao lado da horta, citou alto: - Belo vestido!

    Dawn correu para a cabana e vestiu-se rapidamente. Parou perante o espelho oval na parede adjacente à sua cama. Fez algumas posas rindo. O vestido dava-lhe um poder indescritível, uma firmeza incomum. Pela primeira vez, Dawn sentia-se uma mulher de verdade. Esta será a melhor noite da minha vida. Pensou ela. Esta noite começa uma nova parte da história de Dawn Evans!

    ***

    Os ventos sopravam furiosamente no topo dos prédios, provocando sussurros atormentadores e altos. Nuvens acinzentadas com uma aparência rígida cobriam as estrelas impiedosamente. A grande dama de prata dos céus fora poupada, permitindo-lhe banhar as ruas com seu brilho fascinante.

    Não havia uma só alma vivente perambulando pelas ruas frias naquela noite. Estariam todos provavelmente sentados em suas casas, saboreando uma xícara cheia de um fumegante chocolate enquanto contavam histórias bobas de rotinas ridículas ou enquanto deleitavam-se com a companhia familiar propiciada pela época invernal.

    Mas não havia nada disso esperando por Dawn quando ela regressasse para o lar. Se é que uma cabaninha fétida no jardim dos fundos da mansão de um estilista pudesse ser chamada de lar. Era mais uma acomodação tosca, um galpão para guardar ferramentas. Ele não me valoriza... Pensou então no homem que conhecera há tão pouco tempo. Vira algo nos olhos dele. Algo misterioso, excitante. Algo que a impedia de dizer não. Ele sim saberá me dar valor!

    Já era passado da meia noite. A lua cheia brilhava incandescentemente no topo do céu. O reflexo prateado projetava uma imagem sofrida e aflita na face da tão jovem mulher sentada no único banco da praça. Ele deve ter tido um compromisso... Pensava Dawn, tentando inutilmente enganar seu coração. Sim, está ocupado...

    Alguns passos ecoaram pela via principal. Ela ergueu-se, o coração em disparada. A claridade da noite projetava uma sombra disforme gigantesca. A boca secou e os olhos se arregalaram. Iria morrer ali. Só podia ser um maníaco!

    Mas então o que era terror revelou-se uma tranqüilidade absurda. Deixou um sorriso engrandecer sua face quando viu que o homem que vinha por ali era Varkhal Lins, com um formoso buquê de rosas brancas em mãos. Sentiu-se corar.
    - Lamento o atraso, tive muitos compromissos. – Havia um admirável arrependimento em sua voz, que derreteu Dawn por inteira. Estendeu o buquê para ela, que vacilou um pouco antes de aceitá-lo e devolver um sorriso terno. – Está há muito tempo esperando por mim?
    - Ah... Não, imagine. – Apenas há umas duas horas...
    - Esplêndido! Ficaria realmente muito triste se a tivesse feito esperar muito. Mas... Bem, suponho que esteja com fome. Por que não comemos alguma coisinha?
    - Está tudo fechado e...
    Ele soltou uma gargalhada discreta.
    - Vamos à minha casa. Pode não parecer, mas eu sei cozinhar suficientemente bem. Não para um banquete maravilhoso, mas quem sabe para... Uma reunião entre amigos?
    A última palavra citada por ele a vez desmanchar o sorriso rapidamente.

    ***

    Estava sentada em uma confortabilíssima cadeira estofada na residência de Varkhal, perante uma mesa de mármore coberta por uma toalha belíssima com detalhes em linho dourado. A louça que repousava sobre ela era uma porcelana pintada à mão. Dois pratos simples, um recipiente para sopa do tamanho de um cachorro, talheres dourados com jóias incrustadas e duas taças de cristal. Dawn sentiu-se novamente em uma casa digna dela.

    Degustaram uma sopa de legumes notável, uma especialidade dele. Cenouras, pimentões, tomates, cebolas e tantas outras coisas que ela nem mesmo conhecia foram postas em um caldo perfeitamente temperado. Há muito tempo que ela não tinha uma refeição tão esplêndida. Bebericaram alguns goles de vinho branco enquanto trocavam olhares e algumas palavras sobre passados, planos e expectativas. Riram de algumas piadinhas bobas sobre camadas sociais e aproveitaram ao máximo a companhia um do outro. Finalmente minha vida começou. Dawn não sentia-se incomodada pelo fato de Varkhal ser uns sete anos mais velho. Na presença dele ela se sentia uma mulher de verdade, uma gloriosa rainha como ela sabia que era. Ele a tratava como ela merecia.

    Após o jantar foram sentar-se nos sofás verdes exuberantes ao lado de uma grande janela. Após longas e fúteis conversas sobre nada, Varkhal deixou escapar as palavras que selaram a noite:
    - É uma pessoa muito especial.
    Ela sentiu-se escarlate.
    - Obrigada... – Respondeu meio timidamente.
    Ele foi se aproximando.
    - É inteligente... Educada... Divertida... Bonita... – Quando sentiu sua respiração perto o suficiente dela, Dawn sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha e teve a breve impressão de que algo estava errado. Mas já era tarde demais.

    Em um movimento rápido ele deitou-se sobre seu corpo frágil e apertou seus braços brancos contra um dos apoios do sofá e começou a chupar-lhe o pescoço impetuosamente. Ela tentou se desvencilhar, mas ele era forte demais. Começou a mordiscar sua orelha e a soltar baforadas de uma respiração quente e nojenta sobre sua face. Ela tentava espernear, mas as coxas dele impediam que suas pernas se movessem. Ele começou a descer aquele dedo quente pelo seu corpo recentemente amadurecido, circulando delicadamente os seios.

    O momento de quase ternura terminou tão rápido quanto começou. Ele logo começou a apertar-lhe as mamas com força sobre o vestido e a introduzir sua mão por debaixo deste, rumo à virilha de Dawn. Uma única lágrima desceu de seu rosto quando ele atingiu seu alvo e começou a penetrá-la com aquele dedo. Pode ver o prazer masoquista estampado na face daquele demônio em vestes bonitas e teve uma vontade incontrolável de vomitar sobre sua carcaça.

    Ele agora segurava ambos os pulsos dela com uma só mão enquanto explorava suas pernas. Ela podia perceber o claro volume no meio de suas pernas e temia o momento em que conheceria o que ali se escondia. Não! Não pode terminar assim!

    Num impulso de força inexplicável ela soltou uma de suas pernas do corpo malhado de Varkhal. Antes que este se desse conta, um pé perfeitamente desenhado atingiu-lhe as fuças, arremessando-o para trás. Ele cambaleou antes de cair sobre um pilar que continha uma certa estátua que logo espatifou-se ao chão. Dawn reuniu todas as forças que tinha e correu para a porta, saindo por ela como se não houvesse amanhã. Não havia ninguém na rua. Ela podia ouvir Varkhal levantando-se e a amaldiçoando. Não havia ninguém para salvá-la.

    Correu para o outro lado da rua e enfiou-se em uma simples carroça de carga coberta que estava largada ali. Não tinha rodas, estava aos pedaços. Mas seria o melhor refúgio por um tempo. Pode ouvir claramente quando Varkhal saiu de sua casa e chamou-a pelo nome diversas vezes. Depois escutou ainda quando este a cobriu de todos os xingamentos possíveis antes de entrar e bater a porta.

    E então ela se encolheu e chorou.
    O livro um começa a se encaminhar... O verso no começo do capítulo eu encontrei num blog de uma certa Inês.
    Manteiga.

    PS: Notem que eu me esculachei no meio do capítulo >_>

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