3.
Saíram ainda naquela manhã, escoltados pela sibilante brisa, tênua mas firme, e pelos inefáveis flocos de neve que agora caíam ininterruptamente. Intentavam cruzar a planície até o braço da Formorgar que os separava do resto de Hrodmir, atravessá-lo, e então buscar pelos vis atacantes. Buddel, antes de partirem, vagou pelos restos do casebre, procurando algo que porventura lhes fosse útil; porém, pouco sobrevivera ao incêndio. Por sorte, a enorme capa que cobria a embarcação quando não utilizada estava quase intacta. Buddel deixou o barco parcialmente oculto pela manta anil e comunicou ao companheiro que estava pronto para partir.
As duas figuras contrastantes seguiram para norte, onde, segundo Buddel, encontrava-se uma escada que os levaria para cima da geleira, de onde teriam que descer pela escarpa pedregosa do outro lado, tarefa que pareceu imprudente a Banthor. A julgar pelos rastros, que denunciavam um grupo de dez a quinze trolls, não seria difícil encontrar a tal escada. Os dois deixaram pra trás os destroços carbonizados com pesar no coração, e o pobre capitão caiu em copioso pranto diante da sepultura de sua amada esposa pouco antes de sua partida. Ainda levava no rosto a mesma expressão miserável e no corpo as armas, agora ocultas pela capa de couro de mamute. Banthor conclui que a morte de Irvina extirpou o calor bárbaro de seu corpo, tornando a tarefa de resistir ao frio impossível ao marinheiro: os dois agora caminhavam como pontos marrons-escuro pelo deserto de gelo, farfalhando a barra das capas na neve.
Os experimentados olhos de Banthor foram, na verdade, ludibriados pelo gelo: os dois quilômetros que ele havia suposto multiplicaram-se em cinco, talvez seis. A caminhada era dura e pesada, fazendo com que o avanço fosse lento e penoso. Chegaram aos pés de Formorgar ao no crepúsculo. Abrigaram-se numa espécia de gruta, encontrada com esforço na encosta de pedra. Descobriram que um urso polar vivia ali, e, já que seus mantimentos não eram nada abundantes, mataram-no e estocaram sua carne aproveitável em alguns sacos de couro de dragão que Banthor tinha em sua mochila. Este afirmou que o material garantia longeividade indeterminada aos alimentos. Buddel cortou alguns galhos de uma raquítica árvore que erguia-se contra o vento perto da encosta, banhou-os com a abundante gordura do urso e os dispôs em forma de fogueira dentro da gruta. O marinheiro, baixo mas robusto, encontrara certa dificuldade para entrar ali, mas a tarefa revelou-se quase impossível para o enorme Banthor, que só com muito custo - e gordura de urso nas ancas - conseguiu realizá-la. O vento já assobiava fortemente contra a geleira quando os dois se viram relativamente confortáveis dentro da minúscula lapa, aquecidos pela fogueira. Banthor encolhia as pernas contra o corpo, e Buddel olhava para o nada, meditabundo. A gordura ursídea produzia fogo abundante, mas exalava um aroma desagradável, além de fumaça negra. Ao ouvir Banthor reclamar acerca disso, Buddel replicou que aquilo os manteria vivos durante a noite. O explorador calou-se.
Decidiu-se que um montaria guarda e outro dormiria, dividindo a noite em turnos. O primeiro turno foi do explorador. Buddel sequer fechou os olhos. As horas passavam vagarosamente, e ao ouvir o viúvo reclamar a vez, Banthor encolheu-se contra a parede da gruta e mergulhou num sono de sonhos macabros.
Estava em uma clareira ensolarada, e era muito mais jovem. Sentava-se em um tronco cortado e passarinhos cantavam e gorgolejavam à sua volta, nos topos das árvores vigorosas e verdejantes. Vestia leves roupas de linho e uma sandália élfica delicada. Passou a mão por seus cabelos e sentiu-os macios e bem cheirosos. Fechou os olhos e inclinou-se para trás, espreguiçando-se. Então, seus membros pesaram, e, ao abrir os olhos, ele se viu usando uma pesada malha de aço, um escudo de batalha e uma espada manchada de sangue. Sentiu-se velho novamente, e seus cabelos estavam ralos e quebradiços. Não se encontrava mais na floresta apaziguante, mas sim em um campo hediondo, onde os rios eram de fogo e a vegetação era seca e queimada. Cabeças de mulheres louras voavam a grande velocidades, soltando baforadas de fogo em pessoas que corriam alucinadas pelo lugar. Algumas pulavam nos rios de lava, deixando escapar gritos horrendos antes de serem consumidas pelas chamas. Ursos alvos esquartejados desembestavam pelos cantos, igualmente massacrando as pessoas. Banthor sentia que era seu dever parar com tudo aquilo, mas não conseguia mover seus membros, imobilizados pelo peso de seu equipamento. Viu que uma cabeça e torso de urso vinham em sua direção, com a enorme boca escancarada, deixando a mostra dentes manchados de sangue. Tentou gritar, mas não conseguiu. A boca agora cobria sua cabeça, e ele olhava diretamente para o canino do urso, com trinta centímetros de comprimento, alvo e cerrilhado...
Acordou suando frio. Já era dia e Buddel não estava na gruta. A fogueira ainda queimava timidamente e Banthor debilmente pegou o prato com presunto, carne seca e aveia, que estava ao lado da fogueira - ainda fumegante -, saboreando-o devagar. Terminada a refeição, ele apagou o diminuto fogo que ainda existia e ajoelhou-se, como que para sair da gruta; hesitou, meditando, e começou a fazer passagem, não sem encontrar grande dificuldade.
Encontrou Buddel do lado de fora, que alegou ter encontrado a escada, seguindo as pegadas das criaturas; porém, ao chegarem à mesma, Banthor constatou que seu estado era lastimável: os degraus de pedra lisa estavam cobertos de uma fina crosta de gelo. Ao tentarem galgá-los, viram-se escorregando e sapateando: Buddel até mesmo precipitou-se de costas ao chão, quando atingia o quarto degrau. A subida seria longa, desgastante e potencialmente perigosa, mas era a única maneira de atingirem o verdadeiro Krimhorn. Apertando os cintos e estufando o peito, começaram a subir.
O sol estava aproximadamente no centro do campo celeste ao atingirem o topo, e o gelo por toda Hrodmir faíscava. Os dois viajantes resolveram parar para almoçar diante da visão de uma numerosa manada de mamutes mais à frente; sentaram junto de uma pedra almoçaram a comida que ainda restava. Banthor olhou à sua volta: até a escarpa por onde desceriam, na extremidade oposta do platô, havia cerca de dois quilômetros; porém, os mamutes diretamente à frente impediam a passagem - segundo Buddel, eles eram hostis quando incomodados. Deveriam usar um caminho alternativo, o que causaria atraso. Buddel não parava de acariciar o cabo de seu machado.
Somente ao final da tarde atingiram a outra extremidade; a noite já caía. Os dois resolveram pernoitar ali mesmo, pois a descida no escuro certamente resultaria em tragédia. Acenderam uma fogueira com a banha do urso restante, e começaram a preparar a ceia. Algum tempo depois, inebriado pela saborosa carne e pelo vinho venoriano, Banthor praticamente desmaiou, retesando-se na fria neve.
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Demora =(