Prólogo
... Não brinque com os deuses, meu jovem...
O alto Sol se escondia atrás das nuvens, nos campos, o capim surgia alto, e o vento uivava, derramando as gotas de chuvas que pendiam das folhas. O pio de uma coruja se misturava ao barulho da água batendo longe nas pedras. Nas macieiras, uma menina atacava paus e pedras nos pássaros que bicavam os frutos, espantando-os por um breve momento.
– Vivien! – o grito ecoou no vale. – Venha pra casa!
A menina se virou e olhou na direção de uma cabana de madeira com teto de palha, onde na porta, uma mulher de cabelos ruivos a chamava. A garota lembrava a mãe, com cabelos ruivos e um sorriso doce. Ela aproximou-se da filha e a abraçou carinhosamente, deixando-a beijar sua barriga inchada. Em algumas luas, uma estrela cairia do céu para viver sob a forma de um ser frágil e emotivo.
Vivien se agachou, pegou um galho e começou a desenhar na terra quando uma carroça apontou na estrada. A garota se levantou, olhou atentamente para o veículo ao longe e correu loucamente pelo campo, gritando.
A carroça puxada por um burro parou na frente da casa e a menina que havia subido, gritou afobada para a mãe:
– Mamãe! – ela levantou os braços e mostrou um pequeno cão acinzentado que abanava o rabo. – Olha o que o papai me deu.
Ela desceu da carroça e colocou com cuidado o cachorro no chão e desabou no chão, ficando a observá-lo enquanto ele cheirava tudo à volta. O cocheiro tirou as rédeas do burro para deixá-lo pastar e abraçou sua mulher. Ela ficou nas pontas dos pés e o beijou demoradamente. Ele libertou-se dos desejados lábios dela e voltou-se aos afazeres. Descarregou um saco de aveia, uma cesta de maçãs que começavam a apodrecer – que provavelmente não conseguiu vender ou trocar, que seriam usadas para fazer iscas –, uma velha roca e uma enxada enferrujada.
O homem roçou sua barba com os dedos, encostando em uma antiga cicatriz que marcava seu rosto e disse desinteressado:
– Arranjei com a velha parteira do lugar o seu parto. Ela disse que o parto deve acontecer na Lua crescente, o que será um bom presságio. Mas isso só ocorrerá daqui há algumas Luas, então, prepare logo a janta, pois estou faminto.
Ela o ouviu atentamente, mas não disse nada por um tempo, mas ficou apenas olhando para sua filha que acariciava o cachorro. Por fim, balbuciou um obrigado e entrou. O homem sorriu e percebeu que sua filha o puxava.
– Papai – ela olhava para ele, curiosa – Mamãe me disse que um dia, antes de vocês se amarem, você era um cavaleiro. – ela fez uma careta. – Mas acho que ela só falou pra me impressionar.
Ele a pegou no colo e deu um beijo em seu rosto, ignorando a fala da filha. Ela estava crescendo, já tinha sete verões de idade e cada vez mais se parecia com a mãe com os belos cabelos ruivos e o sorriso ingênuo.
– Pai?
Ele a colocou no chão e sentou-se numa pedra.
– Um dia, há muito tempo atrás e em uma terra muito distante, uma vez, fui chamado para ir à guerra, carregando apenas uma foice.
– Então eu não sou uma
lady? – perguntou Vivien desapontada.
– Quem te disse que não pode ser uma
lady?– retrucou ele sorridente. – Você é uma
lady. A minha
lady.
–
Lady Vivien? – a garota se virou para a porta da casa de onde a mãe os olhava. – A comida a espera no salão.
O homem ficou a observar a filha se levantar, agarrar a bainha do vestido esfarrapado e atravessar a porta, com uma pose que imitava as mulheres da corte. Seus olhos se voltaram para o céu, perdendo-se na imensidão azul.
Há quanto tempo não lembrava que já fora à guerra, lutar por seu rei? Que vira centenas de homens morrerem e que matara ali homens levando lanças e espadas com uma simples foice?
Um grito veio de dentro da casa. A menina apareceu na porta, com as lágrimas dançando no seu rosto e gritou em meio aos espasmos. Ele levantou-se e caminhou até a menina, agachou-se e amparou a filha.
– Fale com mais calma, ou não entendo.
– A mamãe caiu no chão e tá saindo um líquido dela. – falou ela.
Ele caminhou até a mulher, segurou sua mão e a deixou apertar enquanto gritava. Sua saia estava encharcada, seu rosto sofria e os gritos assustavam a criança. Xingou, entendo finalmente o que acontecia com a esposa, estava parindo.
O homem saiu correndo com a mulher nos braços quando parou e gritou para a filha:
– Pegue uma cesta e encha-a de maçãs e sente-se na carroça.
Ele colocou a mulher sobre a carroça, puxou o burro, e colocou os arreios no animal. A menina sentou-se no chão da carroça e olhou brevemente para a mãe e depois perguntou:
– Para que essas maçãs?
Ele se virou e escolheu uma fruta meio verde. Deu uma mordida e respondeu:
– Para jogar fora é que não são.
***
A viagem à aldeia se prolongou até o crepúsculo. As tochas que estavam presas em suportes de ferro nas paredes, começavam a serem acesas, iluminando as ruas movimentadas. Uma mulher encapuzada saiu do bar acompanhada por um homem que tentava desamarrar a corda que lhe servia de cinto, caminhando para a escuridão, enquanto crianças corriam pela rua, as estalagens eram fechadas e os lavradores voltavam.
No portão da cidade, dois homens seguravam garfos enferrujados ao invés de lanças.O burro continuou a andar e os guardas olharam por cima do veículo, vendo a mulher de pernas abertas e bufando. A carroça seguiu até o fim das casas e virou por uma estrada de chão batido até chegar em uma velha cabana de pedras – mal colocadas – com o teto revestido com palha de centeio. O homem desceu e bateu na porta. Ele pensou ter ouvido uma voz rouca e áspera xingar. Uma mulher baixa abriu a porta segurando um toco de vela na mão, enquanto se apoiava numa bengala. Seu cabelo era grisalho, seu rosto era enrugado e seus olhos estavam cansados.
– O que o traz aqui, meu jovem? – perguntou ela de mau humor. O homem se perturbou com a visão daquela boca sem dentes. – Se tiver me acordado à toa, jovem, minha bengala fará minha justiça. – rosnou ela, mostrando uma bengala.
– Meu filho está nascendo.
– Seu filho nascerá nesta lua? – perguntou ela, olhando como se estivesse com pena dele.
– E por que ele não poderia nascer? – falou o jovem espantado.
– A lua é minguante. Não é um bom presságio. – resmungou a velha apontando para o céu. – Além do mais, Kohra está irado hoje.
Um clarão iluminou o céu.
– Não acredito em presságios. – rosnou o homem, parecendo seguro, mas seu o olhar denunciava que era o contrário.
– Não brinque com os deuses, meu jovem. – preveniu a mulher, dando um sorriso malicioso. – A ira dos deuses pode fazer com que a criança nasça aleijada ou mesmo morta.
– Talvez – grunhiu o homem, desamarrando um saco do cinto. – Mas prefiro pagar para ter certeza.
Deu-o para a anciã que o abriu e olhou as moedas de bronze, sentiu o peso e assentiu com a cabeça, dando um sorriso amarelo. Mal sabia ela que havia apenas um minguado de moedas por cima, enquanto embaixo pedrinhas formavam aquele formidável pagamento.
A velha pediu para o homem colocar sua esposa sobre palha. Ele percebeu que aquele lugar era infestado de pulgas e piolhos e aquilo seria péssimo para o recém-nascido, mas não reclamou, era a única que poderia encontrar no vale. A parteira se afastou e voltou após algum tempo com uma toalha nos ombros e carregando uma bacia cheia d’água que colocou no chão. Molhou a toalha e colocou sobre a testa da mulher.
– Agora, deixe a pequenina aqui – disse ela, apontando para a menina. – e saia daqui.
– Para que precisa de minha filha? – perguntou o homem, perplexo pela parteira ter necessidade da sua filha.
A mulher não respondeu. Empurrara-o com a bengala e fechara a porta bruscamente. Pensou no que há sete verões a mulher lhe dissera quando voltavam para o vale.
“
– Nenhum homem jamais pode participar de um parto. Uma fogueira é acesa para esquentar a grávida, mas principalmente, para que a fumaça produzida, afugente os demônios. Algumas ervas também são jogadas na fogueira para purificar o ambiente. Ainda há outras coisas, mas que não observei...”.
Ele foi até a carroça e sentou-se. Trouxe a cesta para o seu lado e agarrou uma maçã. Deu uma mordida e esperou.
Esperou até ouvir o chorar de um bebê. A porta se abriu e sua filha apontava para o céu, mostrando aos deuses, uma pequena criança ensangüentada. O céu se iluminou e os deuses fizeram-se ouvidos.
E a chuva caiu.