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Tópico: YETI

  1. #1
    Avatar de Arctic Wolf
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    Padrão YETI

    “KAPPA ORIONIS”


    1
    [Reino de Messiera, Cardille]

    - Então, você vem? – Aldebaran perguntou. Sua voz era grossa e rouca.
    Saiph não respondeu. O homem gordo e robusto à sua frente coçava a barba ruiva que acompanhava os poucos cabelos na cabeça. Seus olhinhos estreitos e o nariz largo faziam com que ele parecesse um touro totalmente impulsivo e pronto para brigar. E Aldebaran se vestia como se estivesse preparado para lutar. Se o gorducho já era enorme, a couraça brilhante em seu peito lhe atribuía uma sensação maior de invulnerabilidade. Não é preciso ressaltar que ele mantinha um martelo grotesco típico de grandalhões preso à cintura.
    Ao contrário de seu parceiro, Saiph era muito menos amedrontador na aparência: ele estava sentado à mesa mais isolada da taverna, sozinho antes de Aldebaran aparecer, bebendo um gole de um líquido que muitos considerariam suspeito. Qualquer um que entrasse no ambiente não notaria o homenzinho magro e pálido no canto escuro vestindo uma capa desbotada e um capuz que lhe tampava os olhos.
    - Os cavalos estão ali fora. Temos suprimentos para muitos dias, algumas vestimentas reservas e... – Aldebaran pigarreou. – Apenas falta você.
    Saiph sorriu. Em nenhum momento tinha enviado contato visual para seu parceiro. Ele só remexia o copo à sua frente como se aquilo o distraísse das memórias horripilantes que presenciara outrora.
    Aldebaran bufou e ergueu as mãos.
    - Bem, eu tentei.
    O homenzarrão atravessou a taverna em direção à entrada. Protegendo o rosto do sol que lhe feria a pele, balançou a cabeça para a tropa que o esperava do lado de fora. O desapontamento era geral.
    - Ele é um frouxo – Achernar cuspiu. – Sabia que não viria.
    - Deixe, homem – Canopus colocou a mão direita em seu ombro.
    - Eu pensava que, se os antepassados dele foram heróis, ele devia ter algum sangue de herói nas veias. Mas estava enganado. É um molenga.
    Achernar se ajeitou em seu cavalo e olhou para o vale logo abaixo. Eles estavam no topo de uma colina bem larga próxima à entrada daquele grande vilarejo. O que havia em volta eram apenas regiões permeadas por grandes florestas temperadas e terras pouco exploradas. O perigo maior não eram os ladrões sempre à espreita, mas as criaturas muito comentadas e pouco vistas. O homem passou a mão pela vasta cabeleira negra e suspirou fundo.
    - Vamos com ele ou sem ele, não importa. Estamos em quatro. Já é o suficiente.
    Mirphak, que não havia se pronunciado, assentiu.
    - Quanto menos pessoas para dividir o tesouro, melhor.
    Canopus prendeu os longos cabelos loiros de modo sensual. Ela não era uma mulher jovem, mas era impossível não perceber sua beleza preservada.
    - Estamos mais que preparados para partir.
    O grupo estava tão munido quanto Aldebaran dissera. Vestiam suas respectivas armaduras e tinham muitos suprimentos. Cada um levava a arma com que mais se saía bem: Aldebaran com o martelo esmagador, Achernar com sua espada enorme e bruta, Canopus com uma espada delgada e mortal e Mirphak, o baixinho esguio que mataria um exército inteiro com duas adagas. No entanto, o grupo sabia que ter um arqueiro ao lado seria um auxílio tremendo. Mas não era imprescindível, obviamente.
    Aldebaran estava um tanto desapontado. Ele gostava de Saiph e sabia que ele era um excelente guerreiro. Mas, se ele havia escolhido ficar, que ficasse. Cada um tem suas escolhas e sabe o que deve fazer. Entendia também que o homenzinho gostava de ficar só. O silêncio era um monstro que o acompanhava pela eternidade, e Aldebaran respeitava isso. Não era algo que poderia ser mudado.
    Antes de partir, o gorducho olhou para trás por sobre o cavalo vazio que guiava. Mas teve de olhar novamente, porque não acreditava no que via.
    Saiph estava na porta da taverna com um sorriso malicioso nos lábios, passando os dedos pela corda do arco preso ao seu corpo.
    Ele aceitou.


    ...


    [Muitos anos antes]

    Todos pareciam fortes. Menos ele.
    Não. Ele era apenas um garotinho fraco e covarde. Uma criança que não trazia orgulho algum aos pais. Não conseguia carregar grandes pesos como uns de seus colegas ou ser ágil com equipamentos como outros. Em nada se destacava. Tinha medo quando seus tios lhe contavam histórias assustadoras e sequer dormia sozinho após ouvi-las. Seus pais não gostavam disso: taxavam-lhe como um bebezinho chorão e miúdo. Até sua irmã, Bellatrix, recebia mais atenção. E ela era uma garota!
    Mas isso vai mudar algum dia, ele prometia a si mesmo. As pessoas o veriam como alguém importante. Porém, tratava-se de uma promessa ou um desejo desesperado? Ele não sabia. E, mesmo assim, estava certo. As coisas estavam para mudar. Ele ganharia um espaço no céu como todos os heróis haviam ganhado. Imortalizar-se no firmamento era o sonho de qualquer um com um mínimo de dignidade. Cavaleiros, guerreiros, homens lendários morriam e transformavam-se em luzes no céu noturno. Cada um deles tinha uma história e um ponto brilhante a ser lembrado. Bastava olhar para cima e admirar aqueles que, um dia, realizaram feitos magníficos. E o garotinho sabia que sua hora chegaria: ele se transformaria numa memória celeste.
    Seu mundo ficou de cabeça para baixo depois daquele dia. Sua vida, aliás, poderia ser determinada antes de e após aquele acontecimento. Era um divisor, a transição entre o passado e o presente que o caracterizava.
    As coisas aconteceram de modo extremamente rápido. Num momento, ele estava em seu quarto relutando para dormir e tentando afastar os fantasmas da mente. Noutro, seus pais berravam em pânico enquanto ladrões saqueavam sua querida casa. Medo. Impotência. Horror. Frustração. O menino assistia a tudo em silêncio. Ninguém o percebera agachado em seu cantinho, com os olhos arregalados, tremendo de pavor. Tudo era muito assustador para que ele ousasse fugir ou tentar defender os pais. A irmã, sempre idolatrada, foi a primeira a fugir. Ela tinha sorte. Aqueles homens porcos e animalizados feriam papai e mamãe. Sangue jorrava. Mamãe já não movia os olhos, deitada no chão. O garoto se lembrou de todas as vezes em que ela fora doce para com ele, apesar da constante falta de carinho. Não importava. Ele amava mamãe. E, quando seus mais tristes sentimentos fluíram, ele só podia gritar. Gritar, gritar e gritar. Sua voz reverberava pela casa. Uma canção de lástima ecoava pelos quatro cantos do mundo. Os homens maus não ficaram felizes. Ele foi capturado. Nada que os homens faziam podia impedir seus berros desesperados. Eles já estavam com os ouvidos doendo. Se o pivete lhes feria os tímpanos, nada mais justo do que fazer o mesmo a ele. Os bandidos acharam lâminas finas e compridas. Foi fácil arrancar a audição do menino chorão. Eles estavam cientes de que, se matassem uma criança, uma alma pura, jamais receberiam perdão. Portanto, apenas lhe tiraram uma das bênçãos que ganhara ao nascer. O moleque ficaria mudo para sempre, se não podia ouvir. No fundo, as pessoas deveriam ser gratas por esse grande ato.
    Mas, apesar de arrancarem a audição do garoto, os homens maus não lhe arrancaram as memórias. Elas sempre ficaram vivas e frescas na cabeça daquele menininho pequeno e medroso. Elas, aliás, ajudaram-no a se fortalecer. Ele cresceu com as reminiscências e deixou que elas libertassem a coragem e a força que havia dentro dele.
    O menino nunca desejou vingança. Ele só almejava um espaço para si mesmo no céu.
    Saiph queria se unir aos heróis de sua família: Betelgeuse, Rigel, Alnilam, Alnitak e Mintaka.


    ...


    2
    Havia dias que a notícia de um grande furto envolvendo o rei havia se espalhado. Moradores de outros reinos já sabiam que o lendário pássaro de ouro sumira. O acontecimento já chegava aos ouvidos das mais distantes pessoas, e todos queriam a recompensa. O rei estava oferecendo um preço alto para ter sua ave de volta, mas logicamente o pássaro em si traria mais riquezas do que o monarca sugeria. Se o ladrão era esperto, não devolveria criatura mítica, mas ficaria com ela para atrair ainda mais ouro. Apesar dessa lógica, ter problemas com a realeza e seus aliados era perigoso e extremamente arriscado. Seria mais sensato a quem encontrasse o pássaro devolvê-lo ao rei e ficar rico com a recompensa, ao invés de arriscar a própria vida por quantias maiores. E centenas de pessoas se mobilizavam por todo o continente para realizar tal tarefa. Homens montavam grupos para partir em busca do pássaro dourado que havia sido roubado. Ninguém conhecia seu paradeiro, porém era fato que o animal não estava preso em alguma cidade ou vila. Seu canto seria facilmente ouvido e relatado. Os homens mais experientes e corajosos se arriscavam a explorar bosques escuros e cavernas ocultas. Os resultados eram sempre os mesmos: ou a tropa voltava sem nada, ou não voltava. Nem os melhores guerreiros enviados pelo rei chegavam perto de obter sucesso.
    Aldebaran sabia que era um entre muitos. Ele e sua tropa eram apenas um grão de areia numa praia inteira. Muitas pessoas estavam abandonando a vida que tinham para se arriscar na aventura de encontrar o pássaro de ouro. As chances de que ele e seus parceiros pudessem encontrar a criatura eram poucas, mas ele tinha fé. Fé era o que não faltava no homem gordo. Somada à fé que Saiph possuía, eles eram a tropa mais esperançosa de todo o continente.
    O gorducho pigarreou.
    - Obrigado por vir.
    Saiph assentiu. O capuz não permitia ver seus olhos, mas Aldebaran sabia que estava sendo observado.
    No fundo, Achernar, Canopus e Mirphak também estavam agradecidos. Raramente haviam visto o desempenho de Saiph numa batalha, mas o pouco que presenciaram lhes permitia saber que ele era um dos melhores – se não o melhor. E o homenzinho tinha fama de acabar com qualquer um que tentasse provocá-lo. Ele só reagia se provocado, nunca dava o primeiro golpe.
    A tropa avançava por uma trilha aberta no centro da floresta que margeava todo o reino. Tratava-se de uma imensidão de grama, arbustos e pinheiros banhados pelo sol que abrigavam comumente lobos, alces, coelhos e algumas aves felizes. As Criaturas Ocultas, seres que eram descritos em boatos e vistos por poucos, traziam certo desconforto para o coração dos guerreiros. Ao mesmo tempo em que poucos desses monstros tinham a existência confirmada, menos ainda tinham a existência refutada – o que era aterrorizante, pois havia muitas provas que se encaixavam nas histórias fantasiosas.
    - Aonde é que estamos indo, mesmo? – Mirphak dirigiu-se a Achernar, galopando à frente.
    Achernar remexeu dentro de um saco amarrado à cela de seu cavalo marrom. Revelou um pedaço de papel enrolado preso por uma fita e lançou-o a Mirphak.
    Ele abriu e começou a ler enquanto o grupo avançava pela trilha.
    Um suspiro.
    - Não entendi. Claro, estas são as notícias diárias do reino. “Pássaro de ouro do rei é roubado”, “Andrômeda IX viaja para Gaeria”, “Fazendeiro descobre pequena jazida de ouro em Jealille”, “Exportação de pêssegos aumenta dez por cento”...
    - Releia a penúltima notícia – Achernar ordenou.
    - “Fazendeiro descobre pequena jazida de ouro em Jealille”.
    - Exatamente.
    Mirphak ficou em silêncio por alguns segundos e, então, captou a mensagem.
    - Riqueza espontânea. O pássaro atraiu isso – Mirphak tentou dizer em um tom mais baixo com receio de que pudesse ser ouvido por algo ou alguém.
    - Jealille está longe de qualquer região conhecida por apresentar minérios, muito menos ouro ou prata. Tenho certeza de que o pássaro tem relação com isso – Achernar soou frio e confiante.
    Canopus sorriu. Achernar tinha razão. Aldebaran já podia se imaginar com as riquezas que a pena dourada que o rei prometera traria. O grupo havia combinado de deixar a pena em um lugar seguro se conseguissem realizar a missão. A riqueza que dela proviria seria dividida entre os integrantes, e eles confiavam em que a pena traria sabedoria suficiente para isso.
    A tropa estava na direção certa. Mas, talvez, o momento não fosse o melhor.
    Não seria fácil recuperar o pássaro dourado.


    ...


    Achernar era conhecido por ser durão e hábil com as mulheres. Ele fazia o tipo de homem bravo, forte e rude, extremamente frio. Isso, naquele reino, era um fator que facilitava muito a relação com donzelas de qualquer idade. O estereótipo de homem bravo e musculoso era bem visto, uma vez que aquelas terras eram assombradas por ladrões, assassinos e criaturas desconhecidas. Qualquer um que parecesse suficientemente forte para proteger uma dama já era visto com outros olhos.
    Tais características concederam a Achernar um caso com Canopus no passado. Eles já se conheciam e, diante dos constantes flertes que o homem disparava, a moça não pôde resistir. Mas, como bom galanteador, não tardou para que Achernar se envolvesse com outra mulher, culminando no isolamento de quaisquer relações amorosas entre os dois. Tornaram-se apenas colegas e, com o passar dos anos, bons amigos. Ambos estavam solteiros no momento, mas cada um tinha seus casos particulares. Assim como Mirphak e Aldebaran, eles eram desligados a qualquer tipo de trabalho fixo. Viviam de missões encomendadas por qualquer pessoa, buscavam tesouros que ouviam de qualquer rumor e estavam sempre à procura de algo novo. Não tinham o costume de ser desonestos. Não, não pilhavam nem matavam por nada, apenas quando era necessário. Porém, não eram de recusar trabalho, desde que se pagasse bem. Achernar e Canopus conheceram os outros dois homens enquanto levavam esse tipo de vida. Como na busca pelo pássaro dourado, acabaram se cruzando numa missão e somaram seus esforços. Visto que foram bem sucedidos, passaram a se arriscar juntos e se transformaram em bons companheiros. Saiph era um conhecido de Aldebaran e logo foi apresentado ao grupo. Sempre fora homem de poucas palavras, claramente em razão de sua surdez, mas conseguia falar e sabia ler lábios com extrema facilidade. Ele se mostrou um guerreiro exímio e fiel, algo que os quatro companheiros apreciavam. Apesar de não ser fã dessas aventuras perigosas, Saiph nunca teve problemas com alguma. Era destro com o arco e flecha, ágil, forte e perspicaz. Tê-lo por perto só trazia benefícios. Aldebaran não sabia como conseguira convencê-lo a participar da busca pela ave de ouro. Saiph não ligava muito para riquezas, talvez tivesse aceitado por seu companheiro. De qualquer maneira, não importava a razão. Ele estava ali. Isso já era ótimo.
    Canopus, às vezes, perguntava-se o que havia visto em Achernar para se apaixonar por ele. Ela gostava de homens fortes e dominadores, sim, mas algo em seu coração a fazia preferir machos sensíveis. E Achernar não tinha um pingo de sensibilidade. Era duro e frio como um iceberg. Bom, talvez houvesse algo por baixo de toda aquela camada de gelo. A moça, mesmo assim, estava carente. Quando um cavalheiro de verdade apareceria em sua vida para ficar com ela até a morte os separar? Naquele reino, mulheres se casavam com homens ricos justamente por arranjo. Mas não era isso que Canopus queria. Ela idealizava o amor, sonhava com o dia em que encontraria seu príncipe. Estaria ela velha demais para pensar nessas fantasias? Não, ela repetia consigo mesma. O amor não é apenas conto de fadas. Ela já imaginou como seria ter alguma relação com Mirphak. Apesar de pequeno, ele era forte e não era um homem totalmente rude como todos os outros. Possuía certa doçura e tinha mais compaixão, assim como Saiph. Homens piedosos eram taxados de fracos, mas Canopus discordava. Um pouco de sensibilidade não mata ninguém. E Mirphak não tinha o charme de Achernar, mas era bonito. Cabelos curtos dourados, olhos escuros, tez bronzeada.
    A mulher suspirou. Não queria pensar nisso por enquanto. Deixaria para quando fosse conveniente.


    ...


    3
    A tropa cavalgou por três dias no ritmo mais acelerado que podiam. Seguiram trilhas por bosques escuros, colinas, vales e campos. O clima ameno do verão lhes impedia de passar frio durante o dia, e as noites não eram tão geladas. Os caminhos se mostravam pacíficos. Não havia nada mais do que pássaros cantando nas árvores e coelhos saindo com receio de suas tocas. Faltavam, talvez, um ou dois dias para que chegassem a Jealille. Até lá, precisariam atravessar outra floresta de majestosos pinheiros e abetos. As terras por ali viviam de poucas trilhas que o homem um dia ousara abrir. Pouco se sabia sobre o que ou quem se escondia atrás daquelas montanhas e bosques. O grupo, sempre com cautela, permanecia de olhos abertos. Qualquer ruído ou movimentação entre arbustos poderia ser perigoso. Saiph era a águia da expedição. O problema que teve na infância fez com que seu corpo precisasse se aprimorar com outros sentidos. Seu olfato e sua visão foram os primeiros a melhorar. Os anos se passaram e Saiph percebeu que começava a enxergar muito além do normal. Sua visão era inexplicável, como se ele tivesse um dom. Seus companheiros não sabiam como ele podia ver tão bem, mas eram gratos por isso.
    A tranqüilidade aparente mudou pouco depois que eles penetraram na imensidão de árvores altas e arbustos. Ainda era dia. O Sol invadia o bosque com dificuldade por entre a copa das árvores. Algumas aves negras gritavam de modo habitual e o vento soprava sorrateiro pelas plantas. Tratava-se de um cenário sombrio um tanto quanto assustador.
    - Esta floresta é mais escura – Mirphak ponderou.
    - E silenciosa – Canopus complementou. – Não há pássaros cantarolando como antes, nem o vento assobia delicadamente. Alguns corvos apenas gritam algumas vezes e as folhas balançam como se estivessem mortas.
    Logo após que a mulher terminou a frase, um pequeno pássaro negro disparou bem ao lado de seus ouvidos, assustando-a. O corvo saiu gritando e foi sumir na escuridão entre os pinheiros.
    - Maldito – Canopus resmungou.
    - Eu não sabia que corvos viviam nesta região – disse Mirphak.
    Canopus sorriu com incerteza, como se não soubesse se isso era algo bom ou ruim.
    - Bem, tenho certeza de que muitas coisas vivem aqui e não sabemos.
    O homem engoliu em seco.
    Achernar, que estava à frente, levantou a mão.
    - Uma clareira. Podemos dar uma pausa ali, considerando que nossos cavalos parecem estar se cansando.
    - E eu estou faminto! – Aldebaran anunciou.
    O grupo assentiu. Desceram de seus cavalos, os quais pareciam aliviados. Os animais começaram a pastar.
    Abria-se no meio da floresta uma clareira que não recebia a luz solar com eficácia. As copas das árvores ao redor pareciam se curvar propositalmente para bloquear os raios do sol, de modo que o mesmo ambiente sombrio no interior da mata se estabelecia por ali.
    - Este lugar fica cada vez mais estranho. Já passamos por esta floresta e não me lembro de ter sido assim – Canopus relatou.
    - Não é a mesma trilha que costumávamos usar. Você não percebeu que desviamos um pouco do caminho? Achei melhor, pois assim não atraímos a atenção de ninguém – Achernar explicou.
    Canopus concordou. Não era à toa que o homem havia escolhido essa trilha. Não havia nada nem ninguém por lá. Nenhum vestígio.
    Havia algumas pedras espalhadas pela pequena área gramada no local. Cada membro da tropa se sentou em uma, menos Saiph, que se sentou na grama, encostado a uma árvore. O capuz lhe cobria os olhos, como sempre, e ninguém saberia dizer se ele estava acordado caso começasse a cochilar. A capa desbotada que vestia, aliada ao seu constante silêncio, fazia com que Saiph passasse despercebido. Seus companheiros mal o viam sentado ali, quieto.
    Aldebaran enfiou as mãos grandes num saco de pano e retirou uma massa que parecia pão. Em seguida, retirou dois recipientes de vidro e uniu o conteúdo à sua massa.
    - Mel e azeite? – Achernar fez uma careta de desgosto.
    - Delicioso – respondeu Aldebaran enquanto mastigava vorazmente.
    Achernar deu de ombros e também retirou uma massa do saco de pano que levava consigo. Aceitou algumas frutas que Canopus havia oferecido a ele e a Mirphak e, então, começou a se reabastecer.
    - Coma uma maçã, Saiph – Canopus sugeriu, lançando-lhe a fruta pelo ar. Saiph a agarrou e deu uma mordida.
    Entre uma mordida e outra, Mirphak indagou:
    - Quando chegarmos a Jealille, como abordaremos o fazendeiro?
    Achernar ponderou por alguns instantes.
    - Não tenho certeza. Mas algo me diz que o fazendeiro é apenas o começo de todas as conexões que teremos de fazer. Duvido que seja ele quem está com o pássaro dourado.
    - Espero que não tenhamos de pegar pesado com ele – Canopus suspirou enquanto lançava uma uva à boca.
    Achernar riu.
    - Para o bem dele.
    O grupo jogou conversa fora por poucos minutos. Aldebaran mal falava, apenas saciava sua fome.
    Então, Saiph se levantou de súbito.
    Com o olhar fixo em algum ponto ao fundo, ele caminhou até seu cavalo e agarrou o arco e a aljava que deixara presos na sela.
    Seus companheiros estavam curiosos. O que ele estava observando?
    Saiph retirou o capuz pela primeira vez em toda aquela viagem. Ele exibia a cabeça lisa e os olhos mais lindos do Universo. Eram extremamente azuis, claros e profundos como uma estrela. Pareciam penetrar em quem quer que ele estivesse olhando.
    Achernar, Canopus, Aldebaran e Mirphak largaram o que estavam comendo e começaram a procurar a razão pela qual Saiph estava em alerta. Canopus tocou seu ombro.
    - O que você viu?
    Saiph ergueu a mão num sinal de “espere”. Canopus notou que ele já estava com a luva de arqueiro, então provavelmente planejava atirar em alguma coisa. Ou alguém.
    Ninguém conseguia descobrir o que estava acontecendo. Cada um tentava notar algo diferente na direção em que Saiph estava olhando, mas não havia nada além de pinheiros, arbustos e escuridão. Nem os corvos gritavam.
    Saiph agarrou uma flecha da aljava. Encaixou-a e puxou a corda, sem soltá-la. Ele estava mirando em algum ponto ao fundo, entre as árvores, e ninguém poderia distinguir seu alvo.
    Entendendo o recado, seus parceiros também sacaram as armas. Aldebaran apoiou o grande martelo no ombro, assim como Achernar fez com sua grande espada. Mirphak já segurava duas adagas extremamente letais, enquanto Canopus mantinha a espada delgada e ágil abaixada.
    Nenhum movimento. Ainda não era possível determinar o que havia causado o alarme em Saiph. Mas o arqueiro não disparara a flecha. Ela estava bem posicionada em seu arco, apenas esperando o momento certo para atravessar o ar.
    O grupo estava apreensivo. Era como se Saiph tivesse se transformado numa estátua de arqueiro, mirando o nada.
    Então, ele afrouxou os dedos. A tensão da corda impulsionou a flecha que, num movimento extremamente rápido e invisível, cortou a floresta assobiando. Passou pelo meio de troncos e folhas e sumiu nas sombras. Um pequeno ganido abafado de dor pôde ser ouvido.
    - O que era? – Canopus perguntou assustada.
    De repente, o silêncio da mata foi rompido e alguns sons de passos rápidos na grama foram crescendo, como se vários seres estivessem se aproximando.
    Saiph sacou outra flecha e encaixou-a no arco.
    A seta foi disparada no exato momento em que uma criatura grotesca saiu de trás de um pinheiro e saltou em direção a Mirphak, que não a tinha percebido.
    Cravada na testa do humanóide, a flecha fizera-o morrer instantaneamente, e todos puderam ver o que havia alardeado Saiph. Tinha fisionomia humana, mas era muito mais peludo, menor e parecia anoréxico. Mesmo morto, seus olhos abertos pareciam vivos e famintos. A boca aberta exibia dentes amarelos cerrados e tortos. Era uma criatura horrível, imunda, nua e selvagem.
    - Que maldição é essa? – Achernar se espantou.
    Antes que alguém pudesse responder, cinco criaturas iguais à anterior invadiram a clareira, mostrando-se visíveis a qualquer um. Os cavalos, que estavam por perto, relincharam e começaram a trotar em círculos, assustados.
    Uma das aberrações olhou com voracidade para o cavalo de Achernar. Sem pensar duas vezes, sibilou e correu até o animal. Achernar foi mais rápido e, com a sola do pé direito, chutou a criatura. Ela caiu na grama com raiva. Então, virou-se para seu agressor, exibindo as presas amareladas, e saltou sobre seu corpo. Achernar desviou uma possível mordida usando o punho esquerdo, enquanto apoiava a grandiosa espada sobre o ombro direito. O monstro havia caído novamente no solo, mas recuperou-se de modo ágil e se pôs a estudar o homem na sua frente, tentando encontrar o melhor modo de atacá-lo. Achernar não poupou tempo e, usando as duas mãos para segurar o cabo da espada, desferiu um golpe vertical em direção ao crânio do humanóide, que rolou para o lado e se esquivou. Aproveitando o embalo do movimento, Achernar retornou a espada em direção ao próprio corpo, fazendo-a girar ao seu lado, depois sobre a própria cabeça e, então, desferiu outro golpe, mas vertical. A lâmina atravessou da esquerda à direita as costelas da aberração.
    Enquanto isso, Mirphak lutava com outra criatura. Ambos eram rápidos e esguios, o que dificultava determinar quem estava dominando. O monstrinho olhava para Mirphak como se desejasse devorá-lo. Os olhos esbugalhados e a baba escorrendo pelos lábios denunciavam sua fome. Com cautela, ele deu um pequeno salto em direção a Mirphak, que investiu com uma de suas adagas. A criatura foi rápida, saltou para o outro lado e recuou. Ela sabia que tinha de ser muito ágil para conseguir atacá-lo. Para sua sorte, outra aberração queria a mesma presa. Agora eram dois contra um. Mirphak, cercado pelos dois monstros, não se mantinha imóvel. Ele girava o corpo lentamente para tentar manter contato visual com os dois inimigos, sempre com as adagas viradas para frente. O segundo monstrinho sorriu. Seria fácil abater o homem com a ajuda de seu parceiro. A carne estava garantida. Ele resolveu atacar rapidamente, e essa seria a deixa para que a outra aberração fizesse o mesmo. Mirphak conseguiu ferir o segundo monstro no ombro antes que fosse tocado, fazendo-o pular para trás com um grito de dor. No entanto, o outro monstro conseguiu mordê-lo acima do calcanhar, furando suas botas finas. Mirphak grunhiu e caiu de joelhos. Mesmo assim, o guerreiro conseguiu se virar a tempo de penetrar a lâmina de sua adaga no peito do mesmo monstro que o mordera quando ele tentou dar outra investida. Com o canto dos olhos, Mirphak percebeu que a segunda criatura já havia se recomposto e estava se preparando para saltar sobre ele. Neste exato momento, uma flecha atingiu a coxa dela. Era Saiph. Foi interrupção suficiente para que Mirphak aproveitasse e rasgasse seu pescoço. Dois monstrinhos jaziam na grama banhada por vermelho.
    Canopus e Aldebaran estavam um de costas para o outro. Era uma tática eficaz para garantir melhor defesa. Sobravam apenas duas aberrações, e teria sido fácil se fosse apenas isso. Mas cinco monstrinhos a mais penetraram na clareira, provando que o bando deles era muito maior do que imaginavam. Aldebaran investiu com toda sua força contra um deles, que estava à sua frente. Insuficientemente rápido, o grande martelo do gorducho fez um estrondo abafado na grama, não sem que o monstrinho se esquivasse antes. Ele pulou sobre o corpo de Aldebaran, que não recuou. O bicho lhe arranhou o rosto, fazendo sangrar, enquanto o homem apertava seu pequeno pescoço com as mãos enormes. Aldebaran conseguiu atirá-lo para frente e percebeu que a criatura não conseguia respirar direito. Então, novamente ergueu seu martelo contra o crânio do inimigo. Não foi necessário mais do que isso. Ao mesmo tempo, Canopus estava lidando com três criaturas à sua frente. As três resolveram atacá-la juntas, e Aldebaran teve de se virar para ajudar a companheira. O primeiro monstro foi chutado e caiu rolando dois metros à frente. O segundo agarrou Canopus pelo braço, ferindo-a. Com a mão da espada livre, a mulher desferiu um golpe contra seu flanco e, quando o monstro a largou, ela investiu outro golpe de espada em seu peito. Ele agonizou na grama até perder a vida. A terceira criatura também se virou contra Canopus e saltou sobre seu rosto, derrubando-a com força. Ela deixou a espada cair e estava vulnerável. A criatura tentou morder Canopus, porém ela agarrou suas duas orelhas e impediu que avançasse. Os dois rolavam na grama tentando atacar e, ao mesmo tempo, defender. O monstrinho antes chutado por Aldebaran se recuperou e rosnou para o gorducho. Mas ele precisava ajudar Canopus.
    - Fique parada! – ele pedia.
    O humanóide estava sobre Canopus. Ela o agarrava pelos pulsos para impedir qualquer ataque.
    - Vá! Mate-o!
    Aldebaran não pensou novamente. Seu martelo descreveu um “U”, atingindo o monstro relativamente por baixo e fazendo-o cair longe. A outra criatura aproveitou o momento e saltou sobre as costas do gorducho. Enquanto ele tentava alcançar o inimigo em vão, Canopus recuperou a espada caída e fincou-lha nas costas da criatura. Ela deslizou lentamente pelo corpo de Aldebaran e caiu na grama, inerte, com os olhos fitando o vazio.
    As três aberrações restantes fitavam os cinco humanos arquejando. Não conseguiriam atacá-los. Duas viraram-se rapidamente e sumiram por entre as árvores. A criatura que restou era um pouco maior e mais forte do que o normal. Ela sibilou para todos com uma careta de ira e também fugiu.
    Os cavalos ainda trotavam assustados.
    Mirphak resmungou.
    - Um deles mordeu acima do calcanhar. Está sangrando um pouco.
    - Deixe-me ver – sugeriu Canopus, que tinha arranhões pelo braço e rosto.
    - Você também está ferida.
    - Não é nada.
    Aldebaran bufou.
    - O que eram aquelas coisas?
    - Não tenho o menor palpite – Achernar coçou o queixo. – Mas eu não gostaria de vê-los outra vez. Quanto mais cedo deixarmos esta floresta, melhor.
    Saiph já levava o capuz novamente à cabeça e, desta vez, estava com o arco e a aljava em corpo.
    - Basta enrolar um pano para proteger a ferida e isso ficará bem – Canopus auxiliava Mirphak.
    - Acho melhor você também cuidar do seu braço e sua face.
    - Cuidarei – ela tentou sorrir.
    Achernar pigarreou.
    - Recolham suas coisas. Vamos embora daqui.
    Mirphak conseguia andar, mesmo que mancando um pouco.
    Em poucos minutos, a tropa já cavalgava pela trilha em maior velocidade. Eles não pretendiam parar novamente até deixar a floresta.
    Fazer uma pausa por ali outra vez seria extremamente perigoso. Ninguém sabia se aquelas criaturas grotescas reapareceriam em número maior, e nenhum deles estava disposto a esperar para saber. Então, levaram pouco tempo para deixar a mata sombria e assustadora.
    Em um dia, já atravessavam colinas e vales. Jealille podia ser vista, ao longe, como um aglomerado de casas e um castelo distante.
    Eles haviam chegado à cidadela.


    ...


    4
    Jealille era uma pequena cidade ainda no reino de Messiera, sob os domínios do rei que fora roubado.
    O povo era simpático por lá, assim como em toda a região, mas todos tinham suas preocupações. O furto do pássaro de ouro criou certa aura de desconfiança entre os cidadãos, além de ter separado as pessoas que ficavam das que partiam em busca da recompensa.
    A tropa chegara pelo fim da manhã. Algumas pessoas caminhavam atarefadas pelas ruazinhas estreitas de paralelepípedos, enquanto outras se sentavam em frente a suas modestas casas para conversar e relaxar durante o horário de almoço. A maioria dos cidadãos olhou com desconfiança para quatro homens e uma mulher que chegavam à cidade montados em cavalos e com vestimentas de batalha.
    Achernar teve de interromper oito pessoas até conseguir alguma informação. Obteve algo de uma velha senhora que carregava um cesto com pães.
    - Olá, senhora – disse ele forçando simpatia. – Estamos em Jealille, não é?
    - Ah, olá, jovem... Cavaleiro? – ela não sabia como se dirigir ao homem. – Estamos em Jealille.
    - Esta não é a cidade onde um homem encontrou ouro?
    - Oh, sim, é, sim! – ela parecia entusiasmada. – Todos aqui ficaram muito felizes por saber que Jealille é uma cidade de sorte!
    Achernar abriu um sorriso ainda mais largo.
    - A senhora poderia me dizer onde o homem afortunado vive? Eu gostaria muito de poder congratulá-lo.
    Por um rápido momento, parecia que a velha havia desconfiado de algo. Entretanto, observando os rostos sorridentes de Canopus, Mirphak e Aldebaran, ela se convenceu.
    - Claro, claro. Meu marido já conversou com ele algumas vezes. Geralmente, está em sua fazenda, mas creio que nesta semana ele está em sua casa aqui na cidade. Sigam a rua principal e virem à direita quando passarem por uma casa grande de dois andares. A casa dele é a terceira em seguida.
    - Muito obrigado, senhora – Achernar sorriu.
    - Não há de quê. E, por favor, digam-lhe que a esposa de Darlos mandou congratulações também!
    - Mandaremos – Achernar mentiu enquanto já se afastava.


    A casa que encontraram não era grande. Ao menos, não parecia pertencer a alguém que havia encontrado ouro. Naquele reino, uma porcentagem baixa do ouro ia para a Corte, pois o rei não precisava cobrar absurdos em impostos. Não quando tinha sua ave dourada.
    Desse modo, era de se estranhar que um fazendeiro o qual encontrou uma riqueza tão vasta pudesse viver em uma casa não muito rica.
    As janelas estavam fechadas. Achernar desceu de seu cavalo e bateu à porta de madeira.
    Demorou um pouco para que algo acontecesse. Uma voz irritada soou de dentro da casa:
    - Quem é?
    - Senhor, somos viajantes – Achernar pigarreou. – Gostaríamos de conversar um pouco.
    - Mas quem está aí? E sobre o que querem falar?
    - Sou um comprador de terras e desejaria falar em particular sobre as que você tem. Se estiver interessado, posso comprá-las.
    Segundos de silêncio.
    - Minhas terras não estão à venda. Obrigado.
    - Senhor... – Achernar refletiu. – Tenho uma oferta realmente boa. Precisamos conversar.
    - Eu já disse que minhas terras...
    - Precisamos conversar – Achernar interrompeu o homem, enfatizando a primeira palavra.
    A porta de madeira se abriu rangendo.
    - Mas quem é v...
    Achernar agarrou o braço do velho homem que apareceu e invadiu sua casa, levando-o junto.
    - Eu não sou um comprador de terras. Mas agradeceria se você colaborasse, porque temos uma questão importante a resolver.
    O senhorzinho estava indignado. Aquele homem havia entrado em sua casa sem permissão! E, ainda por cima, machucava seu braço!
    - Não me faça gritar por ajuda – o velho tentou ser firme.
    - Não me faça matá-lo – Achernar rebateu.
    O dono da casa resolveu desistir. Gritar apenas pioraria a situação, e ele poderia ser assassinado.
    - Tudo bem – ele suspirou num misto de medo, curiosidade e raiva. – Entre.
    Achernar não pôde esconder um pequeno sorriso.
    - Tenho alguns companheiros. Se não for incômodo...
    - Que seja. Entrem.
    O restante da tropa, com exceção de Mirphak, que cuidaria dos cavalos, desceu de seus animais e entrou na casa escura, empoeirada e com cheiro de mofo.
    O velho apontou o martelo preso à cintura de Aldebaran.
    - Por favor, tentem não quebrar algo.
    - Seremos breves se o senhor nos auxiliar – Achernar foi direto.
    - Nesse caso, sentem-se – ele apontou os sofás esfarrapados.
    A sala de estar tinha dispunha de móveis antigos e mal cuidados. Aquele homem parecia viver sozinho e desleixado, pois tudo por ali precisava de uns cuidados.
    - Para alguém que encontrou ouro, você não parece muito luxuoso – Achernar iniciou a questão.
    - Bem... – o senhorzinho pensou um pouco. – Pretendo me mudar definitivamente para a fazenda. Não gosto da cidade. Minha casa luxuosa será construída no campo.
    Achernar assentiu.
    - Muito bem. E você poderia nos dizer como achou tanto ouro de súbito?
    O velho já começava a demonstrar insegurança.
    - Sorte.
    Canopus riu.
    - Sorte é achar uma pepita de ouro. Você encontrou uma jazida.
    - O que posso fazer se sou um homem abençoado?
    Achernar inclinou-se para frente, olhando diretamente nos olhos do proprietário da casa.
    - Então, o pássaro dourado roubado do rei não tem relação alguma com isso?
    Aldebaran e Canopus assistiam com interesse ao diálogo. Saiph, por sua vez, parecia estudar cada movimento e característica do senhorzinho, que havia engolido em seco.
    - Eu não sei nada sobre esse tal pássaro roubado.
    - Dizem que ele atrai muita riqueza.
    - Bom para quem encontrá-lo – o velho se esquivou.
    Achernar riu balançando a cabeça.
    - Jealille não está perto de nenhuma região propensa a minérios.
    - É sorte, como eu disse.
    Achernar já estava impaciente. Ele coçou o queixo.
    - Vou lhe dar uma última chance de admitir que está com o pássaro dourado em algum lugar.
    - Eu não estou com ele, já falei! – O senhorzinho começava a suar frio.
    - Perfeito - Achernar fez menção de retirar a grande espada que carregava embainhada nas costas.
    - Tudo bem, tudo bem! Por favor, não vamos apelar para a violência! – o velho cedeu.
    O guerreiro retirou as mãos do cabo da espada e ficou aguardando uma confissão. Foi muito fácil fazer o pobre homem abrir o bico.
    - O pássaro não está comigo. Isso é verdade.
    Achernar ergueu as sobrancelhas, esperando pelo resto.
    - Uma semana atrás, um homem veio aqui a cavalo e disse que precisava de um lugar para passar uma noite, pois estava de viagem. Eu não aceitaria um estranho por aqui, mas ele disse que me recompensaria de modo grandioso.
    - E como ele o recompensou?
    O velho revirou o bolso da calça simples de pano que vestia. Ele revelou um pequeno frasco de vidro que continha um escasso líquido dourado.
    - Ele me deu isso. Disse ser uma gota das lágrimas do pássaro dourado. Não atrai sabedoria ou tantas riquezas como as penas, mas é o suficiente.
    Achernar escondeu a surpresa que sentia.
    - Por que não ficamos com isso e esquecemos o pássaro? – Aldebaran sugeriu.
    Seu parceiro se virou para ele como se tivesse levado um tapa na cara.
    - Você acha que nos contentaremos com uma gota? A pena que ganharemos será muito melhor. Poderíamos, sim, levar o frasco. Mas hoje eu estou de bom humor e não pretendo causar mal a alguém – Achernar tentou acrescentar um tom de ironia à voz.
    O senhorzinho não deixou de suspirar aliviado.
    - Parece-me que você ainda não terminou – Achernar continuou. – O homem estava com o pássaro?
    - Oh... Ele não levava nada.
    Achernar ergueu as sobrancelhas.
    - Ele me deu uma gota das lágrimas do pássaro! Disse que traria riquezas e eu tinha de acreditar. Não ficaria enchendo um homem daqueles com perguntas. Ele era assustador.
    - Como o homem era?
    O senhor fechou os olhos.
    - Alto, forte, pálido como a neve. Ele vestia uma capa negra sobre uma armadura também negra. Os olhos eram escuros e ele não tinha cabelos. Até onde posso me recordar, o maxilar era largo e ele tinha uma cicatriz que lhe cortava o rosto inteiro.
    Achernar riu.
    - Como você não ficou desconfiado de abrigar um homem desses na sua casa?
    O velho suspirou.
    - Ele me dava medo. Eu receava dizer “não” e acabar degolado. Acreditem em mim.
    Que ser desprezível, pensava Achernar.
    -O homem não era de falar muito, o que me agradou. Ele me pediu para ficar de bico calado. Por favor, não me delatem.
    Aldebaran sorriu.
    - E aonde ele ia?
    - Wornsille. Ele estava indo a Wornsille.
    - Ele disse por quê?
    - Disse que era seu destino final. Precisava entregar uma encomenda.
    Canopus estalou os dedos.
    - Ele vai entregar o pássaro a alguém, de algum modo – ela comentou.
    - Também acho. Temos de encontrá-lo. Há algum complemento que você queira nos fornecer antes de irmos? – Achernar inquiriu.
    O senhorzinho pareceu se lembrar de algo.
    - Ele... Ele usava um colar esquisito. Havia um pingente redondo e, dentro dele, uma espécie de gás vermelho parecia se mover. Era realmente muito estranho.
    - Talvez nos ajude – Canopus ponderou, embora não soubesse o que fazer com a informação.
    Achernar se levantou.
    - Agradecemos por nos receber com tanta simpatia – ele disse irônico.
    - Que seja – o velho resmungou. – Eu vou morrer logo, mesmo.
    - Aliás – Achernar se lembrou de algo -, por que aquele homem escolheria sua casa, e não um hotel ou algo do tipo?
    Ele coçou a cabeça.
    - Não há nada do gênero por Jealille. E, talvez, ele desejasse discrição.
    Achernar concordou.
    - Lembre-se: nós nunca estivemos aqui.
    O velho assentiu rapidamente, como se quisesse deixar claro que não diria nada.
    Antes de deixarem a casa, o silencioso Saiph deu uma última observada na fisionomia do senhor. Ele dizia a verdade. O arqueiro estava certo disso. Mas algo não lhe cheirava bem, alguma coisa o incomodava. Seria o brilho estranho nos olhos de Achernar quando ele falava sobre o pássaro dourado? Saiph não tinha certeza.
    - Conseguiram algo? – Mirphak estava curioso. Ele acariciava o próprio cavalo.
    - Vamos a Wornsille – Achernar comunicou.
    - O que faremos por lá?
    - Conto a você no caminho.


    ...


    5
    A viagem para Wornsille foi diferente da anterior. A tropa não precisou atravessar uma floresta escura e perigosa, tampouco encontraram criaturas bizarras. De Jealille a Wornsille, só havia colinas, vales e raras montanhas. Um rio serpenteava límpido entre as duas cidades, e o grupo pôde reabastecer seus cantis. A viagem seria mais curta, então não havia com que se preocupar.
    A noite chegou rápido. Os cinco viajantes se estabeleceram no pé de uma montanha que parecia um gigante de pedra pronto para ganhar vida e pisotear cidades. Ninguém trouxera barracas para montar, mas cada guerreiro possuía um fino colchão de pano para trazer o mínimo de conforto. Os cinco colchões foram dispostos um ao lado do outro na grama lisa e macia. Os cavalos estavam livres e não havia a necessidade de serem amarrados. Eles eram muito bem treinados para ficar perto de seus donos.
    Ao redor da montanha, via-se apenas grama e algumas árvores. A área era principalmente composta por colinas nuas. Acima de todos, o céu limpo exibia o mais lindo espetáculo que se poderia presenciar. Centenas, milhares de estrelas davam luz à noite com seus brilhos peculiares e misteriosos. Saiph, em silêncio, observava tudo com um fascínio inigualável. Ele tinha os mesmos olhos curiosos e sonhadores de quando criança. Olhando para a constelação de Órion, via seus antepassados com imenso respeito. Betelgeuse e Rigel, os maiores, pareciam observá-lo de volta, como se sempre estivessem secretamente cuidando de sua vida, abençoando-o em todas as aventuras e perigos. Saiph queria estar ao lado deles, ser lembrado como merecia, tornar-se um ponto brilhante no céu para ser reconhecido eternamente. Uma voz suave em sua cabeça lhe dizia que esperasse. “Sua hora chegará”, ela afirmava.
    Canopus, Aldebaran e Mirphak também encaravam o mesmo céu. Não eram tão sonhadores como Saiph, mas todos desejavam um lugar reservado lá em cima. Apenas precisavam ser bravos e heroicos, realizar atos dignos de reconhecimento e respeito. Ou, talvez, não. Não apenas heróis se tornavam estrelas. O espaço era composto por histórias e aventuras, por batalhas e mortes. Cada brilho representava uma narrativa, uma vida que alterou a história de algum modo. E seres macabros, assassinos e demasiadamente cruéis acabavam, também, ascendendo ao firmamento. Algol fora um desses. O céu era, em síntese, um livro que contava o passado. E o passado não é feito apenas por heróis. Afinal, não existem anjos se não houver demônios.
    Achernar, por sua vez, parecia distante. Ele não mirava o céu. Estava virado de lado em seu colchão na extremidade. Fitava a vastidão de vales e colinas, mas parecia pensar em algo totalmente diferente. Achernar emanava uma mistura de inquietação e empolgação, como se estivesse arquitetando algo que lhe beneficiaria. Era difícil saber o que se passava na mente daquele homem frio e inteligente.
    Mirphak ficou acordado durante metade da noite aguardando o turno de vigia de Canopus chegar. Então, ele dormiu e a mulher assumiu a guarda.
    A noite foi embora rápido, dando lugar ao magnífico Sol que começava a iluminar aqueles belos campos e colinas. A tropa só precisava viajar mais um pouco.
    Logo, logo, estariam em Wornsille. Era um passo a menos para encontrar o pássaro dourado.


    ...


    Eles chegaram a Wornsille pouco antes do anoitecer. A cidade era maior do que Jealille, além de ser mais movimentada e decadente. Aparentemente povoada sem planejamento estrutural, Wornsille se mostrava como uma enorme vila composta por casas pobres, ruas sujas, pessoas feias e grosseiras, estabelecimentos não muito higiênicos e muitos mendigos.
    - Ninguém cuida deste lugar, não? – Aldebaran estreitou os olhos.
    Um homenzinho imundo vestindo trapos agarrou a perna direita de Achernar, que estava sobre seu cavalo.
    - Por favor. Algumas moedas – ele suplicou.
    Achernar balançou o pé, tentando afastar a criatura nojenta que mendigava ao seu lado.
    - Saia daqui, seu rato.
    O mendigo praguejou, fez gestos nada gentis ao guerreiro e foi embora.
    - Como encontraremos o homem? – Canopus olhava para os lados na tentativa de encontrar alguma pista.
    - Em Jealille não havia onde ele ficar. Aqui, em Wornsille, há uma hospedaria.
    - Vamos checá-la?
    - Certamente.


    A tropa parou na frente de uma grande casa de madeira de três andares. Uma placa anunciava: Estalagem Ferradura de Prata.
    Canopus ficou com Mirphak na entrada, cuidando dos cavalos. Mirphak não estava para caminhadas depois que levou uma mordida acima do calcanhar.
    Achernar, Aldebaran e Saiph entraram havia poucos minutos na hospedaria e um som de pancada já se fez ouvir.
    - Ele passou por aqui ou não? – era a voz irritada de Aldebaran.
    - Espere aqui – Canopus disse a Mirphak.
    A mulher correu até a casa para ver o que estava acontecendo.
    Sobre o balcão da recepção, um homem simples de cabelos negros possuía a cabeça prensada sob a mão grande e grossa de Aldebaran. Ele tentava se soltar em vão. Achernar estava sorrindo e Saiph mantinha a expressão neutra.
    - O que está acontecendo? – Canopus indagou.
    Sem tirar o punho de cima do pobre homem, Aldebaran respondeu:
    - Achernar perguntou se o homem que procuramos se hospedou aqui. O bonitão mudou de expressão e fechou o bico. Para mim, já é o suficiente para suspeitarmos.
    O homem gemia.
    - Tudo... Tudo bem! Eu respondo o que quiserem! Mas... Antes... Quero dez moedas de bronze!
    Aldebaran soltou-o.
    - Dez moedas de bronze? Fechado.
    O gorducho fingiu que remexia no bolso da calça. Ele sequer tinha algum bolso.
    - Tome suas moedas.
    Aldebaran estendeu as mãos vazias, fingindo que estava segurando algo.
    - Mas aí não há moe...
    O homem do balcão foi interrompido com um soco no nariz. Ele caiu no chão.
    Achernar se virou para Aldebaran com um sorriso que parecia dizer “Excelente!”.
    Aldebaran levantou sua vítima pela gola da roupa e ergueu-a à altura de seus olhos. Sangue escorria do nariz do pobrezinho.
    - Você viu o homem que descrevemos por aqui? Ele se hospedou?
    O homem do balcão não conseguia falar.
    Então, para a surpresa de todos, uma voz feminina soou no corredor, revelando uma mulher jovem e sensual.
    - Ele esteve aqui.
    Ruiva, alva e curvilínea, a mulher usava um vestido de pano que lhe alcançava os pés e realçava os seios fartos.
    Aldebaran parecia hipnotizado. Largou o pobre homem do balcão, que resmungou e sumiu num corredor. Achernar pigarreou e se aproximou da moça, sorrindo.
    - Ele esteve, é?
    Ela passou pelo guerreiro e parou à frente de Saiph. Tentou encarar seus olhos por baixo do capuz, mas não podia vê-los. Saiph não deixou de esconder um sorriso.
    - Interessante. Pois bem, quem o procura?
    Canopus, tentando mostrar que era a mulher dominante no local, assumiu a pergunta.
    - Temos assuntos pendentes com ele. Precisamos nos acertar.
    A ruiva olhou para Canopus com desgosto.
    - Tanto faz. Ele ficou uma noite aqui e se foi em seu cavalo.
    Achernar se intrometeu entre as duas.
    - Ele disse para onde ia?
    - Sim.
    O guerreiro ergueu as sobrancelhas. Precisava de mais do que um simples “sim”.
    - Ele parecia interessante. Senti vontade de dormir com ele, e ele também me desejou, claramente. Durante uma de nossas conversas, ele contou aonde ia.
    Canopus ficou boquiaberta. Que vadia! Achernar e Aldebaran, por outro lado, não conseguiram conter sorrisos. Saiph sentia que a ruiva o observava de modo diferente, o que não lhe agradou muito. Ele não gostava de mulheres fáceis e oferecidas.
    - E aonde ele ia? – Canopus retribuiu o olhar de desprezo.
    - Disse que entregaria uma encomenda. Precisava terminar um trabalho. Quando perguntei para quem ele trabalhava, não respondeu. Mas disse-me que sua jornada termina no monte Treogland.
    - Monte Treogland? – Achernar ficou sério. –Não é o monte maldito?
    - Sim – a ruiva sorriu sem se importar. – Você tem medo, guerreiro?
    - Eu, não – Achernar apressou-se a responder. – Mas como saberemos que você diz a verdade?
    Saiph tirou o capuz e seus incríveis olhos azuis fitaram os olhos da mulher. O arqueiro assentiu.
    - Tem certeza, Saiph? – Canopus estava em dúvida.
    Saiph novamente fez que sim. A ruiva observava seus olhos maravilhada. Ele desviou o olhar.
    - Aliás – Canopus jogou os cabelos loiros para trás -, quem é você?
    A outra mulher sorriu.
    - Chamem-me de Mahya. Sou sobrinha do homem que o grandão ali esmurrou.
    Aldebaran se encolheu.
    - Tudo bem – Canopus continuou. – Acho que já coletamos informação suficiente. O que me intriga é: por que nos ajudou?
    Mahya pareceu um pouco desapontada.
    - Eu pedi ao homem que retornasse, mas ele disse que não queria mais nada comigo, então... se vocês têm assuntos pendentes com ele, ótimo. Ninguém rejeita Mahya.

    Com certeza é uma vadia, pensou Canopus.
    Achernar estava desapontado por ter de ir embora. Gostaria de tentar conquistar Mahya. Talvez, quando retornasse, investisse na mulher.
    - Vamos ao monte Treogland – Canopus comunicou a Mirphak, que estava sentado perto dos cavalos.
    - Pensei que o lugar era amaldiçoado.
    - É a nossa chance de confirmar ou desmentir os rumores – Canopus forçou um sorriso.
    Achernar montou em seu cavalo.
    - Tudo indica que será nossa última viagem de busca.
    - Que os céus o ouçam – Aldebaran pediu.


    ...


    6
    De Cardille a Jealille e de Jealille a Wornsille, a viagem sempre teve como rumo o Norte. No entanto, o monte Treogland ficava a Oeste de Wornsille. Ele podia ser visto, ao subir uma colina, como uma pequena elevação no horizonte. Levaria pouco mais de um dia para chegar até lá.
    Tudo o que se sabia do monte Treogland era baseado em rumores e superstições baratas. Poucos tinham a ousadia de ir à região. Entre os que iam, nem todos voltavam. Algumas pessoas diziam haver um dragão por lá, outras juravam que gigantes dominavam o monte devorando qualquer humano que ousasse se aventurar nas proximidades. De qualquer maneira, não havia algo que pudesse comprovar a existência de seres do tipo pelo local.
    Ao redor do monte, havia um bosque tão sombrio e perigoso quanto aquele pelo qual a tropa teve de passar. Assim como Treogland, a mata era um mistério. Os cinco guerreiros teriam de atravessá-la para, talvez, descobrir algo sobre o roubo do pássaro dourado. O maior medo deles não eram as criaturas assustadoras descritas nos boatos, mas viajar tanto para falhar.
    O grupo cavalgava sobre uma colina pouco depois de deixar Wornsille. Achernar conseguia vislumbrar a o topo do monte ao longe, como uma lâmina escondendo o Sol que se punha. Em poucas horas, o momento mais difícil da missão chegaria. A noite que se aproximava seria a última que eles aproveitariam antes de chegarem ao fim da jornada.


    Saiph teve um sonho.
    No começo, escuridão. Não havia nenhuma luz ou qualquer outra coisa que pudesse guiá-lo. Saiph estendia os braços, mas não conseguia tocar em nada. Nem seus pés estavam apoiados sobre o solo, como se ele estivesse flutuando num imenso vazio.
    Então, pequenos pontos ao seu redor – porém muito distantes – começaram a surgir, um por um. Eram estrelas, e Saiph sabia disso. Ele reconhecia os astros e as constelações que formavam. Saiph se lembrava das histórias que ouvia: cada estrela era um herói, porém também havia homens realmente vis que conseguiam um lugar no firmamento. Para Saiph, tratava-se de uma gigante injustiça, pois o céu deveria pertencer aos nobres e justos.
    O arqueiro permaneceu por algum tempo observando todas as estrelas despontarem e completarem suas constelações. Em dado momento, os desenhos que ele conhecia ganharam vida e começaram a se mover. Sagitário, o centauro, galopava com o arco e a flecha em suas mãos apontando para o nada. Ele atirou uma seta brilhante que se explodiu numa nebulosa, criando um festival de cores e brilhos que quase cegaram Saiph. Uma pomba dançava com um corvo como se estivessem apresentando uma peça. O pássaro branco serpenteava ao redor do pássaro negro, que mal podia ser visto em contraste com a escuridão. Saiph se assustou quando viu um imenso objeto à sua frente. O gigante navio abria caminho entre as diversas constelações e parecia navegar em poeira cósmica. Entretanto, a maior surpresa de Saiph foi vislumbrar Órion, o caçador. Ele não se movia como os outros desenhos. O imenso homem que vestia roupas de guerra, segurava um escudo e portava uma clava estava fitando Saiph.
    O arqueiro ficou paralisado. Ele nunca havia visto a figura tão de perto. Seu coração retumbava num misto de alegria e respeito.
    Órion caminhou em direção a Saiph. O gigante parecia muito distante, mas se aproximou do arqueiro rapidamente. Havia um brilho forte de tom alaranjado em seu ombro direito. Seu cinturão era composto por três brilhos menores e azulados, assim como o joelho direito, que expunha uma bola muito brilhante e branco-azulada.
    - Olá, Saiph – Órion disse, sua voz grossa fazendo o espaço vibrar.
    O arqueiro podia facilmente ouvi-la e percebeu que ela ecoou pela imensidão.
    As constelações pararam de se mover. Com seus olhos alvos e luminosos fitando Saiph, o caçador prosseguiu.
    - É muito bom vê-lo por aqui. Estamos aguardando ansiosamente sua chegada. A chegada definitiva – Órion mostrou o joelho esquerdo, o lugar reservado para Saiph.
    O arqueiro sorriu timidamente.
    - Você deve estar se perguntando por que eu o trouxe aqui – Órion continuou e sua feição assumiu maior seriedade.
    Saiph permaneceu calado.
    - Sua jornada ao monte Treogland é perigosa. Você não está apenas buscando por um simples pássaro dourado que traz riquezas. É muito mais do que isso. É uma maldição. O rei esconde a real natureza de sua ave. Infelizmente, não posso dizer muito. Os céus não me permitem. Mas você deve estar ciente de que precisa tomar cuidado. O que o espera em Treogland vai além de sua compreensão.
    Órion chegou bem perto de Saiph. Ele podia sentir o calor intenso que emanava do corpo do caçador.
    - Você tem minha bênção, Saiph. Retorne à sua missão com o que lhe darei.
    O arqueiro estava curioso.
    Então, Órion ajoelhou-se. Os pontos em seu corpo brilhavam com muito mais intensidade. O calor que o caçador emanava aumentou. Ele estendeu a mão direita e tocou a cabeça de Saiph com o indicador. Saiph sentia que iria vaporizar com a temperatura tão alta.
    De repente, o indicador de Órion também brilhou. Uma luz branca envolvia seu dedo, e esse mesmo brilho começou a envolver o corpo do arqueiro. Saiph sentia o próprio corpo formigando. Algo passava por dentro dele, caminhava pelas veias e artérias e fazia o coração ameaçar explodir.
    O brilho se apagou. Saiph estava na escuridão novamente. Seu corpo não formigava mais, e Órion sumira. Foi aí que o arqueiro observou um pontinho distante e branco crescendo. Na verdade, estava se aproximando. Ou seria Saiph que estava sendo sugado em direção a ele? Sim, o guerreiro era puxado por uma força invisível e forte. O brilho foi aumentando, aumentando, aumentando... E Saiph foi engolido. Enquanto passava por um turbilhão de cores, brilhos e estrelas, ele pôde ouvir a voz de Órion ecoando pela última vez.
    - Você é mais poderoso do que mil sóis, guerreiro.


    ...


    7
    Saiph acordou no topo de uma colina. Seus companheiros olhavam para ele surpresos.
    O arqueiro limpou os olhos e ergueu as sobrancelhas.
    - O que você fez no rosto? – Canopus perguntou.
    Saiph fez uma careta. O que ela queria dizer?
    - Não tenho um espelho aqui. Mas parece que você andou se pintando de madrugada, pelo visto. Há um círculo preto pequeno e preenchido sob seu olho direito, três círculos menores em horizontal atravessando seu nariz e outro círculo preto sob o lado esquerdo dos lábios. São estrelas?
    O arqueiro sorriu, e ninguém parecia entender o que aconteceu. Ele, no entanto, sabia.
    Saiph balançou a cabeça como se dissesse que não era algo importante. O grupo deu de ombros.
    - Vamos lá. O Sol começou a nascer – Achernar ordenou.
    “Você é mais poderoso do que mil sóis, guerreiro”. A voz de Órion se repetia na mente de Saiph. Ele se sentia diferente. Mais forte, talvez? Não sabia dizer com certeza.
    Em poucos minutos, a tropa já voltava a cavalgar. O monte Treogland estava cada vez mais perto e visível. Não havia nuvens escuras sobre a região, como era de se esperar de uma montanha considerada maldita. O dia estava ensolarado e o céu limpo. O monte era apenas uma elevação cada vez maior à medida que os guerreiros se aproximavam dele.


    - Não estou enxergando o bosque. – Mirphak anunciou.
    O guerreiro estava certo. Treogland já estava próximo e não havia nenhuma floresta ao redor do monte.
    - Sempre disseram que havia uma floresta circulando o monte – Canopus estava confusa.
    - E havia. Eu já viajei por esta região – explicou Achernar. – Parece que algo devastou as árvores que aqui viviam.
    - O quê?
    - Não sei. Porém, não foi algo pequeno.
    Quanto mais a tropa avançava, mais os cavalos ficavam inquietos. O monte Treogland emanava uma aura de insegurança. Havia alguma coisa dentro dele grande o suficiente para criar a sensação de que ninguém deveria pisar por ali.


    - Parece que tudo aqui foi queimado – Mirphak observou quando chegaram ao local em que deveria existir uma floresta.
    Onde existia grama, agora havia um solo alaranjado e pedregoso, como se o fogo houvesse consumido toda a vida que havia ali. Algumas árvores mortas e secas espalhadas pela região ajudavam a causar a impressão de que nada mais cresceria naquele solo. O campo ao redor do monte era, agora, uma região vazia e seca. Ave nenhuma sobrevoava o local. Tudo o que havia ali era uma grande montanha pontiaguda formada por rochas negras e traiçoeiras.
    Demorou para se chegar até ela. A área devastada era imensa, a tropa teve de cavalgar por muito tempo pela terra queimada até alcançar o pé do monte. A sensação de desconforto, no momento, beirava níveis absurdos. Tudo o que se via era um grande monte sombrio, mas uma força invisível parecia gritar dentro do corpo de cada guerreiro: “Fuja, saia daqui”.
    - Algo não me cheira bem – Aldebaran reclamou.
    - A mim, também não – Canopus concordou.
    - Creio que todos nós estamos assim – Achernar ponderou.
    Os guerreiros continuaram caminhando ao redor do monte, tentando encontrar algo que revelasse aonde o homem misterioso havia ido.
    - Não há nada por aqui – Aldebaran chiou.
    - E aquela entrada enorme? - Mirphak apontou uma grande abertura na base de Treogland.
    Era uma espécie de gruta que abria caminho dentro da montanha.
    - Devemos entrar aí? – Canopus fez uma expressão de desânimo.
    - Ao nosso redor, apenas terra queimada e o céu. Não há nada além desse monte e desse buraco. É nossa única chance – Achernar respondeu.
    A mulher assentiu. Eles cavalgaram até a entrada escura. Não tinham a mínima ideia do que se passava no interior de Treogland e só saberiam ao entrar. O cavalo de Saiph relinchou desconfortavelmente.
    - Vamos deixá-los aqui – Canopus sugeriu.
    Todos concordaram.
    Com uma mão pousada sobre o martelo, Aldebaran foi o primeiro a entrar.
    Então, uma luz surgiu ao fundo.


    ...


    8
    De início, os guerreiros não conseguiam enxergar muito bem, à exceção de Saiph. Ele incrivelmente se adaptou à escuridão como um gato, guiando seus companheiros por um caminho seguro. Só havia rochas ao redor deles, enquanto o solo esburacado fazia Aldebaran tropeçar várias vezes. E, claro, havia uma luz ao fundo, um pequeno brilho branco que chamava a atenção de todos.
    - Pode ser uma armadilha – Canopus sussurrou.
    - Mas ninguém sabe que estamos aqui – Mirphak respondeu.
    - Será?
    - Apenas prosseguindo para descobrir – Achernar sugeriu.
    Tudo ainda permanecia na escuridão. Nem Saiph, que conseguia enxergar melhor, podia distinguir o que havia ao fundo. A luz branca aumentava à medida que se aproximavam, e o corredor de rochas parecia ficar mais quente.
    O silêncio era devastador. Os guerreiros só ouviam os próprios passos no solo pedregoso e até conseguiam distinguir os batimentos dos próprios corações. Cada passo para frente parecia um passo em direção à morte. Uma morte brilhante e quente.
    De repente, uma melodia ecoou por toda a caverna.
    Uma canção maravilhosa ressoava pelas paredes de rocha, como se a própria terra estivesse cantando.
    - O que é isso? – Aldebaran se assustou.
    - É o pássaro dourado – Canopus murmurou.
    A melodia, apesar de extremamente agradável, parecia triste. Quem quer que a estivesse cantando se mostrava muito depressivo. Era uma canção de lástima.
    Os guerreiros começaram a caminhar mais rápido em direção à luz, mas em alerta, pois poderia ser uma armadilha.
    Saiph parou. À frente dos guerreiros, abria-se um grande espaço circular que marcava o fim do corredor. A luz em seu centro era tão ofuscante que iluminava o resto da caverna, mas não permitia ver o que havia dentro do círculo. A melodia vinha de lá, então o grupo sabia que o pássaro dourado estava naquele espaço. Porém, não podiam enxergar nada. O brilho era muito forte e aquecia todo o ambiente.
    Então, a intensidade da luz começou a diminuir. Gradualmente, os guerreiros foram observando o local: uma simples galeria circular que findava o corredor. Estalactites presas ao teto da caverna ameaçavam ruir.
    Para a surpresa de todos, o pássaro dourado estava preso em uma gaiola ao fundo, cantando tristemente. Achernar a fitou como se fosse o maior tesouro do mundo. A ave tinha o tamanho de uma águia, olhos brancos e penas extremamente douradas que pareciam queimar. No entanto, a comoção geral foi ainda maior quando o grupo notou de onde vinha o brilho branco e quente.
    À frente de Saiph, que tomava as rédeas da exploração, uma criatura bizarra emanava uma luz branca que já se encontrava menos intensa. Da cintura para cima, o ser era um humano de três metros com duas presas delgadas e afiadas e olhos amarelos de réptil. Da cintura para baixo, revelava-se um corpo de serpente que teria força suficiente para esmagar dez homens de uma vez.
    - O que procuram por aqui, guerreiros? – a criatura sibilou.
    Seus olhos reptilianos brilharam perigosamente. Ao redor do homem-cobra, havia uma pilha de vários objetos de ouro, desde moedas a armaduras e espadas.
    O grupo estava paralisado.
    O homem-cobra rastejou até a gaiola e admirou o pássaro, que continuava a cantar.
    - Lindo, não é? Essa belezinha tem agregado mais valor à minha coleção. Foi um ótimo negócio.
    Saiph já empunhava o arco ao mesmo tempo em que seus companheiros também estavam alertas.
    A criatura rastejou lentamente para trás dos guerreiros, de modo que ficasse entre eles e a saída da caverna.
    - Vocês são mudos? O que querem aqui?
    Achernar, criando coragem para enfrentar a criatura assustadora, virou-se e disse:
    - Nós... Nós viemos buscar o pássaro dourado. Ele pertence ao rei.
    O monstro riu de modo metálico.
    - Nada disso. Eu o comprei, agora ele pertence a mim.
    Canopus interveio.
    - Você o comprou de um ladrão. Ele ainda pertence ao rei.
    O homem-cobra piscou um olho de cada vez.
    - Vocês sabem que... – ele hesitou, acrescentando sarcasmo à voz. – Vocês sabem que só conseguirão o pássaro se eu estiver morto, certo?
    O pássaro cantava.
    - Ah, e devo acrescentar – a criatura continuou. – A chance de vocês morrerem em uma batalha é muito maior. Isso não é divertido?
    Mirphak olhou para Saiph. O arqueiro entendeu. Uma luta estava prestes a acontecer.
    O homem cobra fez uma expressão teatral.
    - Olhem só: hoje eu estou de bom humor! Portanto, os senhores têm duas opções.
    Ele se virou e apontou para a entrada da caverna.
    - Opção número um: ir embora...
    Então, passando os dedos pelas presas afiadíssimas, terminou sorrindo:
    - Opção número dois: morrer. Qual será a escolha de vocês?
    Achernar sacou a grande espada e recuou em direção à gaiola do pássaro de ouro.
    - Poderíamos acrescentar a opção número três: resgatar a ave e matar você.
    Uma expressão de fúria invadiu o rosto do monstro. Ele abriu a boca e avançou contra Achernar.
    - Saia de perto do meu tesouro!
    Achernar saltou para o lado para se esquivar da criatura que pularia em cima dele. O homem-cobra parou à frente da gaiola e a protegeria a todo custo.
    - Malditos! Saiam do meu território!
    Antes que o monstro pudesse investir novamente contra Achernar, Saiph pegou uma flecha, armou-a em seu arco e disparou. A seta atingiu o ombro direito do homem. Ele se virou para o arqueiro com olhos que irradiavam ira e sibilou, retirando a flecha cravada em sua carne.
    - Isso mal faz cócegas.
    Aproveitando o momento, Achernar golpeou as costas da criatura com sua lâmina potente. Surpreendentemente, a espada não mais do que alguns centímetros na pele do homem-cobra. Ele tornou novamente para Achernar.
    - Vocês não podem me ferir com suas armas fracas, mortais!
    Os olhos do monstro brilhavam como pequenas estrelas azuis e seu corpo se iluminou com maior intensidade e calor. Então, ele investiu em Achernar, desta vez com sucesso. O guerreiro caiu no chão e ficou imobilizado pela criatura de três metros sobre seu corpo.
    Mirphak correu com esforço, pois o pé ainda doía. Golpeou o pescoço do homem-cobra com uma de suas adagas e, assim como a lâmina de Achernar, não causou estrago algum. A criatura virou-se para o lado e, com um movimento da mão direita, lançou o guerreiro para longe.
    - Ele é muito forte! – Canopus anunciou enquanto corria para ajudar seu companheiro.
    O homem-cobra tentava morder Achernar com suas duas presas venenosas, porém o guerreiro segurava sua cabeça com as mãos para impedi-lo de avançar. O espadachim estava perdendo.
    Aldebaran também tentou ajudar. Enquanto Saiph disparava outra flecha nas costas da criatura, o homenzarrão golpeou a cabeça da criatura com seu martelo brutal. Parece ter surtido algum efeito, pois o homem-cobra se incomodou e avançou contra o gorducho, deixando Achernar livre.
    - Vou comê-lo vivo, seu porco! – o monstro sibilou.
    Achernar correu para recuperar a espada. Enquanto a criatura encurralava Aldebaran em direção à parede rochosa, Achernar tentou golpeá-la nos flancos. A espada mal penetrava em sua pele. Com o longo corpo de serpente, o monstro fez sua cauda passar sob os pés do guerreiro, que acabou caindo. Em seguida, a mesma cauda se enroscou ao redor de Achernar e lançou-o mais longe do que Mirphak.
    Aldebaran estava encurralado. O pássaro de ouro cantava uma melodia diferente, talvez um misto de tristeza e medo. A canção estava muito mais alta. Saiph percebeu que suas flechas não feriam a criatura. Então, o arqueiro correu e pulou sobre as costas dela. Distraindo-a, poderia salvar Aldebaran.
    No entanto, o gorducho também precisava tomar uma atitude. Subitamente, ele reuniu todas as suas forças e acumulou toda a energia que possuía no martelo. Com as duas mãos, Aldebaran golpeou o chão. Um grande estrondo fez a caverna tremer, fazendo estalactites caírem bem próximas e abrindo um imenso buraco no chão. Canopus, Mirphak, Saiph, Aldebaran e o monstro despencaram para uma galeria logo abaixo. Achernar estava acima, caído no chão, sozinho com o pássaro dourado.
    - Seu porco imundo! Você está destruindo meu lar! – o homem-cobra gritou.
    Saiph ainda estava agarrado às suas costas e tentava asfixiá-lo com os próprios braços, sem obter muito sucesso. Aldebaran recuperava seu martelo e encarava a criatura, tentando encontrar o melhor modo de combatê-la. Mirphak e Canopus também empunhavam suas armas. Todos investiriam contra o monstro ao mesmo tempo. Achernar, por sua vez, se levantou. Ele parou à beira do buraco.
    - Venha, Achernar! Ajude-nos! – Canopus ordenou.
    O guerreiro olhou para o lado. Dentro de uma gaiola negra, a ave dourada entoava uma melodia triste e bonita. Achernar percebeu que havia um colar preso à gaiola. O pingente circular e místico era idêntico ao que o velho de Jealille descrevera. Talvez o pássaro pudesse ser aprisionado lá dento. Era isso.
    Achernar já não ouvia a súplica de Canopus. A ave de ouro estava logo ali. Nada poderia impedi-lo de pegá-la e devolvê-la ao rei. O homem-cobra não conseguiria subir para atacá-lo. Aquela era a chance perfeita de ficar rico, Achernar pensou, enquanto seus olhos brilhavam de empolgação.
    - Aonde você vai? – Canopus perguntou.
    O homem-cobra se remexia e tentava ver o que acontecia no andar superior.
    - Deixe meu tesouro! Ele é meu! – a criatura sibilava.
    Achernar deu alguns passos para trás e se virou. Ele agarrou a gaiola, colocou o colar ao redor do pescoço e, instantaneamente, o pássaro dourado brilhou em um laranja intenso e foi sugado misticamente para dentro do pingente, fazendo com que a melodia fosse interrompida. O guerreiro sorriu enquanto dava as costas para o buraco e se dirigia à entrada da caverna.
    - Ficarei rico.


    ...


    9
    - Ele nos abandonou! – Canopus gritou.
    Aldebaran golpeou novamente o homem-cobra, atingindo seu peito com o martelo. A criatura horrenda recuou, mas não parecia sentir dor.
    - Maldição! Ele levou meu tesouro! Agora, quem pagará por isso serão vocês.
    O monstro parecia ainda mais furioso. Seu corpo irradiava um calor intenso e seus olhos brilhavam como duas bolas incandescentes. Ele agarrou Aldebaran pelo pescoço e ergueu-o à sua altura.
    - Você nos jogou neste buraco. Agora, ele fugiu e levou meu pássaro. Tenha certeza de que sofrerá muito, seu porco!
    O gorducho se debatia, tentando se livrar. Aldebaran começava a ficar sem fôlego.
    - Solte-o! – Canopus ordenou enquanto golpeava o peito do homem-cobra com sua espada. Nada acontecia. Os cortes que ela conseguia fazer eram rasos e pequenos, como se a pele do monstro fosse feita de metal.
    Aldebaran, com o martelo ainda em mãos, tentou um último golpe para escapar. Ele lançou sua arma o mais forte que pôde contra o rosto do homem-cobra. Funcionou. O monstro sentiu uma pequena tontura e largou o guerreiro.
    Saiph, que estava agarrado às suas costas, fincou os dedos nos olhos da criatura, que gemeu de dor assustadoramente. O homem-cobra se contorceu, tentando tirar o arqueiro de suas costas. Saiph saltou para o chão e correu na direção de seus companheiros. Ele percebeu que Mirphak estava sentado no solo.
    - Acho que feri o pé novamente.
    - Deixe que eu ajudo. Saiph e Aldebaran, tentem fazer algo!
    O homem-cobra não enxergava direito.
    - Terei o prazer de dilacerar o maldito que apertou meus olhos! – ele sibilava.
    O monstro investia contra o nada, tentando encontrar uma presa para atacar. Sangue negro escorria de seus olhos e sua fúria beirava níveis absurdos. Só faltava a criatura começar a espumar pela boca. Então, o homem-cobra conseguiu acertar Saiph em um golpe aleatório.
    O arqueiro caiu no chão, o monstro sobre seu corpo. A grande criatura arranhava seu rosto com as garras e tentava mordê-lo, assim como fez com Achernar. Saiph conseguia bloquear as investidas, porém era difícil segurar a aberração. Nada que seus companheiros fizessem conseguia tirar a criatura de cima. Saiph lutava para não deixar que ela o vencesse, mas seus esforços só podiam pará-lo, não destruí-lo. Com as mãos ao redor da cabeça lisa do homem-cobra, Saiph começou a se lembrar do sonho que tivera. “Você é mais poderoso do que mil sóis, guerreiro”. Então, enquanto segurava com dificuldade os braços do monstro, os círculos pretos pintados em seu rosto começaram a brilhar. Saiph sentia o corpo formigando, uma sensação de que ele entraria em combustão espontânea.
    Canopus, Mirphak e Aldebaran assistiam a tudo boquiabertos. O homem-cobra tentava arranhar, socar, morder Saiph, mas nada parecia ser eficaz. O arqueiro agora era uma silhueta mais brilhante e mais quente do que o próprio monstro. Sua luz invadia toda a caverna e alcançava o corredor, iluminando a tudo e todos. Como se não houvesse peso algum sobre seu corpo, Saiph se levantou, obrigando o homem-cobra a recuar. O brilho que envolvia o arqueiro foi diminuindo até revelá-lo. Por baixo das mesmas roupas que vestia, a pele de Saiph brilhava em um tom alaranjado muito intenso, como se pegasse fogo. Na verdade, ele estava pegando fogo. Ao redor das mãos do arqueiro, labaredas dançavam sem causá-lo mal algum. O monstro, sem poder ver muito, conseguia vislumbrar uma luz intensa e calorosa à sua frente. Ele recuou mais.
    Os olhos de Saiph eram supernovas. O arqueiro sentia que estava poderoso. Seu corpo parara de formigar, mas algo dentro de si queimava. Seu coração batia a mil por hora e ele sentia que o tempo parecia correr mais devagar. Então, sem pensar muito, Saiph estendeu as mãos para o homem-cobra encurralado em um dos cantos do buraco. Repentinamente, chamas foram lançadas das mãos de Saiph em direção à criatura. O ambiente encheu-se de calor e luz enquanto a aberração era consumida pelo fogo devastador. A criatura gritava em agonia, impotente, ao mesmo tempo em que labaredas faziam seu corpo todo arder. Então, Saiph parou. O homem-cobra não passava de uma marca queimada na parede de pedra. Ele havia desintegrado. O arqueiro ainda estava transformado. Canopus entrou em sua frente, estupefata.
    - Você consegue ir atrás de Achernar?
    Saiph assentiu. Sua pele ainda brilhava em laranja e suas mãos não paravam de criar chamas. O guerreiro olhou para cima e, num único salto, alcançou a galeria superior. Ele correu como um tigre flamejante pelo corredor de pedras e deixou o monte Treogland. Sua visão perfeita lhe permitiu ver Achernar, ao longe, fugindo a cavalo. Foi fácil alcançar o traidor.


    - Por favor, não me mate! Eu imploro! – suplicava Achernar, imobilizado na grama por uma única mão de Saiph. O fogo que ela produzia incandescia a armadura do guerreiro.
    Tremendo de medo diante daquele Saiph irreconhecível e assustador, Achernar retirou o colar e deu-o ao arqueiro.
    - Tome... Fique com ele. Só peço que não me mate.
    Saiph olhou no fundo de seus olhos. Achernar tinha colocado todos numa enrascada, e os guerreiros poderiam muito bem ter morrido pelas mãos do homem-cobra. Ele jamais perdoaria o traidor. Entretanto, tampouco gostaria de ser um assassino. Saiph largou-o. O homem recuou, ainda deitado, e montou o cavalo assustado.
    - O... Obrigado – Achernar gaguejava.
    Então, virando-se com os olhos arregalados, o guerreiro fugiu sem olhar para trás. Ele sabia que Saiph o observava de longe, sentindo raiva e tristeza ao mesmo tempo.
    O arqueiro voltou para resgatar seus verdadeiros companheiros. Já não havia mais nada em seu rosto e seu corpo deixara de brilhar. As labaredas desapareceram.


    ...


    10
    O castelo do rei se erguia imponente à beira de um penhasco. Abaixo, o mar refletia o luar de modo sereno. O céu nunca estivera tão limpo. As estrelas pareciam querer tocar a terra.
    Messier IX foi informado de que quatro cavaleiros se aproximavam dos portões e alegavam trazer o pássaro dourado. A majestade ordenou que a tropa entrasse.
    O grupo prestou as formalidades diante do rei em seu grande salão de visitas. Canopus explicou a Messier IX que a ave estava aprisionada no colar que Saiph levava. O rei assentiu.
    - A gaiola de meu lindo pássaro está lá fora, à beira do penhasco. Sigam-me – ele ordenou, caminhando escoltado por vários guardas de armadura e lanças.
    O rei levou-os por alguns corredores até chegar numa grande porta ornamentada que dava para toda a extensão do mar. Era possível ver o céu inteiro de lá. Saiph vislumbrou Órion com orgulho. Em seu interior, o arqueiro dizia: “obrigado”.
    Messier IX abriu a gaiola de metal. Saiph retirou o colar e colocou-o ali dentro, e imediatamente o pingente circular brilhou libertando o pássaro dourado.
    - Vocês foram muito nobres em conseguir trazer meu tesouro de volta. Não posso medir a felicidade que sinto no momento – o rei agradeceu.
    O pássaro de ouro começou a cantar. Embora não pudesse ouvi-lo, Saiph tinha a certeza de que entoava uma melodia infeliz. Seus olhos brancos pareciam suplicar por liberdade. O arqueiro encontrou o olhar de Canopus. Ela forçou um sorriso e mostrou que lia seus pensamentos. Aquilo não era justo. A ave fora aprisionada por ganância e não tinha a menor vontade de ficar presa pelo resto de sua vida.
    Antes que alguém pudesse impedi-lo, Saiph abriu a gaiola. O pássaro de ouro não pensou duas vezes e saltou para fora. O animal bateu as asas e alçou voo.
    - O que você fez?! – o rei vociferou.
    Mirphak e Aldebaran também compreenderam a atitude de Saiph. Eles entendiam que aquela ave só traria problemas, principalmente cobiça.
    O pássaro dourado foi subindo cada vez mais, até parecer alcançar as estrelas. Ele começou a incandescer e houve uma explosão muito brilhante no céu, como se uma nebulosa tivesse acabado de se formar. A luz invadiu os olhos de todos enquanto riscos luminosos cortavam a noite, assemelhando-se a meteoros. Uma constelação há muito tempo aprisionada voltava ao firmamento, seu devido lugar.
    - Decapitem esse lixo! – Messier IX apontou Saiph.
    Nenhum dos guardas pôde alcançar o arqueiro.
    Ele deu alguns passos para trás e, sorrindo para seus companheiros, jogou-se do penhasco. Seu corpo despencou como uma pedra no ar, mas Saiph não atingiu a água. O arqueiro foi desacelerando vagarosamente enquanto voltava a emitir o brilho ofuscante que todos presenciaram em Treogland. Seu corpo começou a vaporizar. Em poucos segundos, partículas que pareciam vaga-lumes ascendiam ao céu levando o nobre espírito do guerreiro de olhos azuis. A missão estava completa. Sua alma foi transportada até a constelação de Órion, onde foi transformada numa estrela. O ponto brilhante e azulado como seus olhos chamava atenção no céu. Como Saiph sonhava, ele ganhou um espaço entre seus antepassados. Agora, o arqueiro era apenas uma história que seria carregada por gerações.
    Saiph seria lembrado por todos. Ele seria alguém. Esse era seu único desejo.
    Um trovão ribombou no céu sem haver nuvem alguma. Era o anúncio de que um herói havia ascendido ao firmamento.
    Homens no mundo inteiro olhariam para cima e veriam o mais novo guerreiro a ascender ao firmamento: Saiph, a espada do gigante.

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    .

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    (X) 16 ANOS SEM TROCAR O AVATAR: DESDE O NATAL DE 2009.
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  2. #2
    Avatar de Paulo Kaedo
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    Moro naquela ali la na frente ta vendo?
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    Huhsuahuh mt ingracada cara
    mau eh q tem q salvar em png e n em gift e a life bar do yeti???
    fora issu tah mt legal parabens
    If you're 555, then I'm 666
    (What's it like to be a heretic?) [/IMG]

  3. #3
    Avatar de Antit
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    cara não fico legal não, vc quebro o layout
    sempre ponha lifebars.
    poste no tinypic.com

    vai no topico de tutoriais, e ve lá como se faz, vai no fakerlab e baxa o map editor. =)

    flw

  4. #4
    Avatar de Tavinho...
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    fiko engracadenhaw....
    usa o map editor...
    num posso passa o link pra vc sorry
    =/

    mas tah melhorando...
    ^^
    falto as lifebar
    e algumas fals tao desalinhadas...
    melhora isso
    ok?

    teh+

  5. #5
    Avatar de Picoles
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    Omg,pelamordedeus,leia TUTORIAIS!A fake está muit ruim,baixe o Map Editor,peça pra alguem do seu msn do MF,ou procure no google.Sempre ponha life bars,e salve em PNG.
    A preguiça é sux,se vc fikar com preguiça suas fakes pioram mtu =(.
    Bem,só isso que eu tenho a falar...




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  6. #6
    Avatar de Misac
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    ta legal zinha até mais usa o map editor vai é bem melhor

  7. #7
    Avatar de Harry Potter o bruxo
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    Ficou até um pouquinho engraçado, mas a qualidade da fake está horrivel, isso que você fez da pra fazer em menos de 5min. Tenha mais paciencia e faça fakes mais detalhadas, quanto mais detalhes melhor (mas cuidade pra nun confundir detalhe com um monte de coisa espalhada pela fake, isso seria poluição visual)
    Não adianta fazer fake quando você esta com preguiça porque sai uma mer*@

    Dicas:
    1-Se não tem programa para fazer cenário faça no paint
    2-Life bars são fundamentais para a qualidade da fake
    3-Sem life bar fica impossivel alinhar falas né? ta cada fala em um lugar
    4-Salve em png
    http://img88.imageshack.us/img88/7307/signnf5.png
    ''Podem me derrubar o quanto quiserem, mas ninguem me impedirá de levantar novamente"
    http://img212.imageshack.us/img212/9359/selenatp6.png
    "Espero sempre poder ter a confiança de meus amigos, porque eles sabem que têm a minha..."

  8. #8
    Avatar de Victor'knight
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    Ficou bem ruim =\
    Tipo, ela até que tá um pouco engraçada, mas só um pouco o-o
    Da próxima vez salva em PNG, e aliás, falta cenário e lifebar aí, pra fazer os cenários você usa o Map editor, que pode ser encontrado aqui: http://fakerlab.**********/
    E pra por as lifebars você tem que deixar de preguiça ^^

    É isso, melhore ae.
    ¯¯¯¯¯¯¯¯¯¯¯¯¯¯¯¯¯¯

  9. #9
    Avatar de Marcio Hellsing
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    fico muito ruim serio

    peça pra alguem lhe passar map editor
    e lifebars são obrigatoriamente necessarias,
    elas fazem parte do tibia
    nunca as retire-as

    salve sempre em PNG tb
    em jpg perde a qualidade

    a fake ficou sem graça e muito repetitivo
    só tem um senario e uns 3 movimentos dos personagens

    Melhoras


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  10. #10
    Avatar de Orochi~
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    Ahaiouahuioah pelo menos eu ri ficou bem legal só péssima, mais tem problema não hauhaoiahiha.

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