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Tópico: O espetáculo

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    Avatar de Pernalonga
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    Padrão O espetáculo

    Bom, eu pensei em criar um tópico para contos e pequenas crônicas, mas já existem dois topicos meio com esse intuito... Ai desisti.
    Depois pensei em criar um tópico desses, só que para todo mundo, mas ai tem que ter uma aprovação geral.

    Enfim, criei esse tópico para postar um conto que acabei de escrever...

    Bom, aproveitem e me digam o que acharam.

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    O espetáculo

    A grama verde preenchia poeticamente o espaço entre um túmulo e outro, dando um ar verde de vida e esperança para os parentes dos ossos e carnes necrosadas sepultados na terra argilosa. Estes, se reuniam tristes e melancólicos envolta do mais novo buraco retangular do cemitério, obra-prima construída pelo empregado mínimo da madrugada. Entre os convidados para o evento, destacava-se João da Silva Santos, digníssimo e respeitadíssimo legista do Instituto Médico Legal, ex-pai viúvo e conhecido pela sua personalidade fria. Nenhuma lágrima era esperada de sua parte, ninguém esperava um sentimento de perda ou tristeza, mas todos se surpreenderam.

    O espetáculo começou quando sua única filha – coitadinha! –, veio pálida e linda, porém já coberta e trancafiada em sua prisão branca eterna, participar do grandíssimo evento, afinal, era ela a figura principal. Não lembro de detalhes do quão grande foi a festa, até porque não tenho memórias para gravar o tipo de flor nem cada cor de linha usada na batina do Bispo que regia aquilo tudo, porém tenho certeza de uma coisa: foi um espetáculo realmente luxuoso. Contrastando com seu branco alegre, os convidados de preto triste choravam lágrimas sinceras, porém fáceis de secar; e até ele, o frio João da Silva, para a surpresa de todos, em prantos estava.

    Hoje, depois de alguns anos, consigo entender o motivo de suas lágrimas, mas deixarei isso para depois...

    Cemitério e luxo de lado, necessito contar o motivo de tanta organização e perda de dinheiro.

    Tudo começou, e terminou, numa noite de sexta-feira, 26 de novembro de 1999, após uma grandiosa peça de teatro. A menina de cabelos dourados, olhos mel, pele alva de criança de apartamento de centro de cidade e atitude determinada como a de uma pré-adolescente, andava serelepe e alegre com seu querido papai, João da Silva Santos, pelas nunca-vazias ruas da cidade de São Paulo, à procura do seu carro. A garotinha ainda ria com as piadas que um anão fizera no palco e o seu pai pensava nos arquivos que tinha que arrumar para o outro dia; sua cabeça estava mergulhada tão profundamente nos seus pensamentos que não notou quando sua filha se soltara de sua mão para atravessar a rua com o fim de chegar ao veículo antes dele. Maldita alienação que destrói vidas! Todo sorriso e alegria que mudara a vida de João foi-se naquele segundo.

    Não houve tempo para pensar, nem para reagir, nem mesmo para gritar. No momento em que a menina, feliz e alegre, corria de braços estendidos com seu vestido azul-céu de moça e o seu sorriso branco e aparelhado, pisou no áspero asfalto, um suicida menor de idade - deturpado pelo álcool, cansaço e euforia de uma noite de pecado - estraçalhou a coitada com seu Astra-zero-quilômetros numa velocidade de 150km/h. Tão emocionante e tão triste para cada um que vira o acidente, respectivamente: O monstro atrás do volante, com apenas 7 anos a mais que sua vítima, ria de seu ato e fugia desesperadamente; o João, infeliz, caíra de joelhos, boquiaberto, admirando o vermelho púrpura pincelado no asfalto como uma arte abstrata, iluminado apenas pela luz amarela dos postes.

    Belíssimo ator era o menino do carro. Como os grandes românticos de segunda fase do Brasil, fez uma obra bizarra e morreu antes de aproveitar, de fato, a vida. Sua arte ficou marcada em mais cinco cantos da grande São Paulo e terminou com uma magnífica explosão ao colidir-se com um posto de gasolina. Para completar, ainda teve repercussão: a mídia ficou espantada e feliz – quem não quer ter pano para seu trabalho? -, adolescentes fizeram greves em seus colégios, pessoas pararam de beber por dois dias, passeatas foram organizadas... Belíssimo ator era o menino do carro!

    A menina faleceu, o prazo do relatório foi adiado e, graças a isso, João da Silva Santos, agora ex-pai, foi promovido como diretor do Instituto Médico Legal.

    Hoje, oito anos depois e depois de falar toda a trágica história, eu posso dizer o motivo das lágrimas de João no maravilhoso funeral. É claro que a perda de sua querida e única filha é relevante e, por muitos anos, acreditei que esse era o motivo, mas agora, tenho certeza que as lágrimas foram com a “pomposidade” do evento. Acreditem, eu mesmo chorei mais pelo evento do que pela criança – coitada. Apesar de tudo isto, a memória da menina ficará em nossos corações para sempre e nunca será desrespeitada e esquecida.

    Agora preciso parar de escrever. João, meu queridíssimo chefe, acabou de me bipar para a “zeca-hora”.

    Ah, que maravilha é a vida!

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    Última edição por Pernalonga; 28-11-2007 às 21:00.



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