Suor...
Somente quem já foi agredido injustamente por alguém mais forte sabe como é.E aquela senhora de cabelos brancos,óculos em repouso no decote,estreando o vestido que sua filha dará no ultimo natal sabia muito bem como era.
Talvez algum dia ela iria sorrir de novo para a vida.Mas no momento tudo que ela queria saber era por que aquele jovem a agredia?
Por que manchava de vermelho o vestido que sua bela Ane lhe dará?
Será que aquela senhora tinha feito algo a ele no passado?Não,pouco provável.
Talvez a sua mãe?
Seria ele o filho daquela garota a qual ela,em sua mocidade, roubara um namorado?
No outro canto da cidade um garoto olhava fixamente para um carro.Não não era um automóvel daqueles que os adultos usam para passar por cima um dos outros,mas daqueles que servem para algo muito melhor.Para brincar.
Era tudo que Tom queria...brincar.Privado disso desde seus seis anos,a época em que sua vida mudou drasticamente,era o sonho intimo do pequeno.
O que fez sua vida mudar?
A quebra da Bolsa de Nova Iorque.
Inesperado pra você?Imagine para o pai de Tom.Um homem de meia idade que trabalhava em um banco no centro da Big Apple quando num belo dia, “o sonho acabou”,como veio a dizer John Lennon anos depois.
Despedido na pior época possível o senhor Rader entrou em desespero.
Suas economias?Não tinha.
Uma mulher para consola-lo?Não tinha,era viúvo.
Um filho que entendia sua situação?Não tinha.Tinha só aquele seu filho mimado,que quando ele tentou lhe contar sua situação o moleque começou a gritar: “Papai mal!Papai não vai dar brinquedo mais!!!”.
E desde então Tom não brincava mais.Tinha ido morar em uma pequena cidade do interior com seu pai.Deixara de ser mimado,começara a entender um pouco como as coisas funcionavam.Começara a andar mais por ai sozinho.E então quando se deu conta estava numa daquelas lojas de esquina olhando para um carrinho de brinquedo com seus 16 anos.
Sabia que havia muitas pessoas na loja,o caixa o observava desde que ele tinha entrado naquela espelunca e ainda por cima ele não conseguia disfarçar aquele desejo.Aquele desejo,aquele que muitos já sentiram e poucos tiveram coragem de saciá-lo.Roubar.
Era impressionante como o simples ato de roubar podia produzir aquele pavor.Já estava parado olhando para aquele carrinho a mais de cinco minutos,provavelmente todos da loja já tinham percebido o que ele ia fazer.Mas isso não fez Tom desistir daquela idéia imbecil...
Tom levantou a mão e se aproximou mais um pouco do carrinho.Conseguiu até se imaginar com ele em mãos na segurança de sua casa...Se aproximou mais um pouco e com pouco esforço agarrou aquele precioso troféu.Agora era a hora.
“Só preciso colocar no meu casaco.Simples!”,pensava Tom com aquele retângulo de plástico com quatro rodinhas de borracha seguro em suas mãos suadas.
Suor?
Tom percebeu como estava molhado,sua camisa estava grudada em seu dorso e seu cabelo oleoso.E junto com aquele suor sentiu um cheiro insuportável.O maldito cheiro da culpa.Aquele mesmo que assola as crianças quando elas mentem para suas queridas mamães.
E enquanto Tom sentia nojo daquele cheiro uma voz de trovão rugiu a direita.
-Posso te ajudar garoto?-perguntava um negro alto e calvo com uma camisa laranja (daquelas que se compram em brechó,dez por cinco dólares...) com o bordado da “Cheap Things”.
-Hã?...Ah...-o terror tomou conta do jovem,tinha sido descoberto –Não obrigado.Eu só estou....-precisava de uma desculpa boa – estou procurando um presente para o meu irmão.É.Um presente pro meu irmão mais novo.
-Entendo.Um presente para seu irmão?- o atendente abriu um sorriso – Vejo que ele gosta muito de carrinhos,não é?
Tom respirou um pouco mais aliviado.Tinha conseguido escapar com aquela desculpa fajuta.Agora o homem mostrava animado um carrinho com luzes e uma sirene chamativa.
-E ai o que acha?Posso fazer para você com um grande desconto!Se eu fosse você eu levaria.É um grande lançamento e todos os meninos estão adorando.Vai levar?
Quem dera a Tom ter tanto dinheiro para comprar aquele carrinho de ultima geração.
-Hum...Não hoje,obrigado.Na verdade estava só dando uma olhada,minha mãe que vai comprar o brinquedo.Mas mesmo assim muito obrigado.Tenho que ir, até mais.
O sorriso do homem desapareceu com a mesma velocidade com que tinha aparecido.
-Tudo bem.Até a próxima então.
Tom aproveitou a chance para sair daquele lugar.Quando estava na saída da loja foi que ouviu a voz do homem.
-Hey,garoto!Volte aqui!Espere ai!
Fudeu.Aquele homem tinha percebido que ele estava tentando roubar naquele momento.Agora queria tirar satisfações com o garoto ou quem sabe chamar a policia.
-Você deixou cair sua chave no chão.
E novamente o garoto agradeceu por sua sorte.Era apenas a droga da chave de casa que vivia caindo do seu bolso.
-Obrigado.Essa chave adora cair do meu bolso – se manifestou Tom enquanto esticava a mão para receber a chave.
O negro sorriu e entregou a chave na mão do garoto,mas quando tom ia guardar a chave no bolso novamente o homem a agarrou com força.
O coração de Tom disparou quando o negro se aproximou dele e sussurrou
-Nunca vi um idiota como você antes. Seu tremendo filhinho de papai maldito.Fica ai roubando lojinhas de esquina?É isso que você faz seu pivete filho da mãe?Sei muito bem que você queria roubar aquele carrinho.Eu podia muito bem te entregar para a policia.
-Por-Por favor...Não – gaguejou Tom.Seu corpo inteiro tremia e sua mão começava a ficar dormente.
-Pode relaxar seu imbecil.Não vai ser dessa vez que vou incomodar a coitada da sua mãe com o bastardo do filho que ela tem.Você pode ir.Portanto que me prometa que nunca mais vai pisar nessa loja novamente.
...
-Me prometa – disse o homem.Agora já não sussurrava.
Tom não sabia porque mas não queria prometer.
-Eu disse para você me prometer –agora o negro aplicava mais força no braço de Tom.O homem puxava cada vez Tom para mais perto dele.Agora o garoto já sentia aquele cheiro de desodorante barato e loção pós-barba que emanava dele.
-Não – disse Tom baixinho para seus pés.
-O que você disse moleque?
-Eu disse não –O menino falou um pouco mais alto dessa vez.
- O QUE VOCÊ ESTÁ ME DIZENDO SEU PIVETE DE MERDA?!?!- o negro gritava e a saliva afogava o garoto.
-EU DISSE NÃO!- agora Tom também gritava.Uma fúria nasceu do meio do medo inesperadamente.
-VOU TE DAR UMA LIÇÃO!-Todos da rua e da loja observavam a cena.E com aquele grito de fúria o atendente levantou uma de suas bruscas mãos.
Mas o homem não foi rápido suficiente.Com um grande esforço Tom conseguiu se desvencilhar daquele aperto do negro e agora corria desesperado pela rua.
E mesmo quando Tom já tinha corrido dois bairros ainda conseguiu escutar a voz de trovão do negro em seus ouvidos.
-VOLTE AQUI!
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Ice Age