Capítulo Três
- A Primeira Missão -
Às quatro da madrugada (alguns bêbados e vagabundos ainda perambulavam pelas ruas), os pelotões B e C começam a se reunir na sede do Exército Expedicionário, uma mansão no melhor bairro de Midtown, Betaville. Decorada no melhor estilo Bótico com detalhes artesanais em ouro e estátuas de Rima. Meia hora depois do horário combinado o grupo todo está reunido e eles são chamados no Salão Superior para um pré-reconhecimento da missão. Abrindo a porta de ina, madeira de uma árvore mais dura que ferro, via-se um imenso salão em toda sua majestade. A sala toda iluminada por castiçais de ouro e velas de cristal líquido mostrava novamente os detalhes do estilo Bótico. Ao longe, via-se um grupo vestido de verde com alguns papéis na mesa folheada à ouro e imensos pôsters atrás deles.
- Venham, venham! – disse um dos homens
Chegando perto da mesa reconheceram os líderes dos pelotões A, B e C. E logo foi passado um mapa para cada um dos integrantes.
Logo depois da reunião, os exploradores são levados até a sala de armas e têm ordens para pegar qualquer coisa que ali tiver. Foices, machados, espadas grandes e pequenas, facas, escudos, arcos, flechas de todos os tipos, mokbombs, armaduras leves e pesadas, elmos, capas, botas de ferro e couro, triespadas, bestas das mais variadas potências, armadilhas portáteis, martelos gigantes, bolas de espinhos, bastões, trituradores de mão, chakras, lançadores de facas, lanças com pontas de bronze, prata, ouro, latão e ina, calças explosivas, bastões incandescentes, canivetes, cordas espetadas, tachinhas, punhais envenenados e casacos de ataque. Tudo exposto em suportes de ouro em uma imensa parede. Em seguida são levados para a cozinha, tomam um café da manhã e recebem um pacote de mantimentos para a viagem.
Já são seis da manhã e todos estão partindo da entrada norte da cidade. À frente deles há uma imensa planície verde com algumas árvores aqui e ali, um caminho de pedra estende-se até além do horizonte e, ao fundo, toda a cadeia de montanhas com seus picos nevados. Uma manada de búfalos corre através de um riacho.
O dia está nublado e ameaça chover, mas a expedição não pode ser parada.
Derek usa uma capa preta e botas de couro de búfalo, conseguiu pegar uma armadura de ferro e duas foices polidas, que brilham em qualquer lugar, que encaixam perfeitamente em suas mãos. A única coisa que está usando que é sua é uma adaga de madeira feita por um amigo mendigo e que carrega no bolso de trás da calça de couro.
Ele caminha lado-a-lado com um amigo que conheceu no pelotão D, Rocco. Todo o pessoal conversa muito. Aventuras anteriores e família são o assunto principal.
Agora todo grupo está em silêncio, pois já anoiteceu e todos estão ao redor de três fogueiras. Derek revê o mapa e as instruções da missão.
- Preocupado? – é Rocco, agachando-se perto
- Um pouco. Já ouvi muita coisa daqueles lados de Mok... – responde Derek, mexendo com um graveto seco na fogueira e deslumbrando o fogo
- Os moktrolls, né?
- É, é!
- Nem se preocupa. Já viu o tamanho desse grupo aqui?! Dois pelotões de qualidade! Dá uns quarenta juntando todo mundo! – exclama Rocco, gesticulando freneticamente
- Tá, tá! – Derek joga o graveto na fogueira irritado
Enquanto Rocco se afasta, ele ouve alguma coisa como “Bah! Esquece!”. Derek começa a checar o local. Faspin está afiando a triespada dele (mesmo que não seja necessário), Bob, mesmo rodeado de uns dez, joga pedras na fogueira como estivesse isolado. Freed observa Derek. Incomodado, o ladrão entra na barraca de couro de búfalo 20 anos. Deita no colchonete de pena de galinha e olha para o “teto”. Uma haste atravessa toda a barraca e lá há muitas mochilas penduradas, mini panelas, pinturas das crianças, amuletos e outras lembranças do lar. Já cansado pela caminhada, Derek dorme.
Derek acorda com o som da corneta do líder do pelotão B. Levanta um pouco o corpo e vê que todo o resto do batalhão está acordando também. Muitos exaustos, por causa da farra da noite anterior. Levanta-se e vai até um laguinho próximo. A água desce com um gosto horrível. Mais um gole (um pouco melhor) e vai voltando até o acampamento.
Começa a refletir:
“Pah! Se eu morrer, ninguém vai sentir falta. Ah, não ser eu mesmo! É! É isso! É isso! ...moktrolls... por que tô pensando em moktrolls?! Tipo... moktrolls se ligam à mok, mok é quente... não gosto de dias muito quentes... Tork... ... ... Uhm?! ... Mok, mok, mok, mok, mok... AMARELO! Amarelo?! Imbecil. Dum, dum, dum, dum, dum. Tarararara!”
A partir daí, até chegar ao acampamento, Derek começa a cantarolar alguma coisa inventada na hora.
Os dias continuaram nublados e esse ambiente cinza agradava-o e, um pouco mais tarde, Derek descobriu que o longo caminho de pedra acabava e somente seguia-se uma trilha feita por poucos pés.
A planície não mudava de paisagem e, algum tempo depois, o grupo chegou ao pé da Montanha de Haty. Era a menor daquela cadeia e a mais fácil de atravessar. A base dela era uma mistura de terra, cinzas e rochas. Os fazendeiros usavam muito aquela terra para plantar mãe-de-lesma. Na subida a terra vai ficando mais dura, mas continua desmanchando-se como areia nas botas dos aventureiros. Ao chegar ao cume da montanha, Derek viu o que vinha à sua frente. Uma planície totalmente diferente da outra. Uma terra devastada com monstros que voavam de lá para cá, urros fortes todo o tempo, rios de mok, árvores queimadas, ruínas do que parecia uma imensa cidade na Antiguidade e, ao longe, um cemitério gigantesco, quase do mesmo tamanho de Midtown. Diferentemente do que estava atrás deles o tempo não é mais nublado. É o inferno na superfície. As nuvens negras refletem a luz laranja emanada das várias explosões de mok que aconteciam incessantemente, dando a aparência que o céu está pegando fogo. Uma sombra cobre todo o vale e, certamente, ao anoitecer, deve-se ver somente os pequenos pontos laranja de mok aqui e ali. Estranhamente, Derek nunca conseguiu perceber esse ambiente tão diferente quando, às vezes, ia segunda torre mais alta de Midtown.
Descendo a montanha de cinzas magmáticas, os olhos, agora atentos, dos expedicionários procuram qualquer sinal de movimento e preparam suas armas, fortemente agarradas nas mãos, para qualquer perigo. Os urros e gritos, realmente, não param. Parece uma sala de tortura. Além disso, só se ouve o barulho das botas em atrito com as pedras quentes, sim, pois aquele chão fervia e quem não usasse algum calçado iria ter queimaduras sérias. Os que estavam usando botas de ferro reclamavam do imenso calor no pé, quase como um peixe na panela.
As explosões constantes de mok lançavam, freneticamente, bolas enormes flamejantes que, ao chocarem-se no chão, explodiam e soltavam mok altamente fervente. Como uma pedra de mokball. Até um integrante do pelotão B ficou ferido quando um pedaço de rocha magmática entrou no seu bolso de pólvora e explodiu na cintura dele. Nada muito grave, mas ele teve que ser carregado durante um dia e uma noite até se recuperar.
Todo o vale é feito da mesma cinza magmática das montanhas e isso cria centenas de armadilhas como tocas de monstros escondidas, cinza movediça, o vulcão de cinza. Pelo caminho já percorrido pelo grupo, metade deles devia ter morrido, mas todos cuidavam de todos.
O caminho não acaba, nas últimas duas semanas as ruínas da cidade, por mais que se ande, parece que sempre se afastam mais. O grupo ficou confuso pois nunca mais soube quando era dia ou noite. O último raio de luz que vinha da planície de Midtown sumiu há um mês.
Quando Derek dorme, naquilo que supõe ser noite apenas por instinto, vê alguns feixes rápidos de luz verde, quase como relâmpagos, saindo da cidade e do cemitério.
O saco de mantimentos está pela metade e há casos de roubo no acampamento, Derek jura que não foi ele. Mas, ao contrário do grupo, Freed Frogheart parece, estranhamente, o mais sadio e recuperado do grupo.
Para driblar a fome alguns tiveram uma ótima idéia vinda do Povo Nuk. Quando viam uma pequena nuvem de cinza saindo do chão metiam uma longa lança até o fundo e tiveram pelo menos uns dez bilobits. Assados são uma delícia, mas não têm tantas vitaminas para suportar um homem forte.
A viagem começou há seis meses e eles ainda estão na metade do caminho. O pior é pensar que, além de sofrer os perigos da Caverna de Mok, vão ter que caminhar tudo de volta.
Shawn, Carl, Chuck e Walther morreram de inanição. Shack, Mibar, Rody, Wonder, Sam, Quolik, Gep e Loki morreram quando larvas entraram nos seus cérebros. Bob foi morto por uma flecha perdida. De todos sobraram só sete. E a situação complicou. Todos foram enterrados com honras de um rei e suas Cartas de Despedida, feitas antecipadamente caso alguma coisa acontecesse com eles, foram guardadas para serem entregues às famílias. Os seus mantimentos foram divididos igualmente pelo grupo.
Derek perdeu mais ou menos dez quilos e Rocco, que era meio gordo, perdeu quinze. A viagem para ele, quem sabe, foi mais tranqüila em relação à alimentação. Tinha tanta gordura pra queimar no lugar da comida.
Depois de algumas semanas os expedicionários estavam ao pé da maior torre destruída das ruínas.
- Derek!
- Quê?!
- Abre tua mochila!
- Quê?!
- ABRE TUA MOCHILA, PORRA!
Flock acaba de apontar uma adaga na cara de Derek. Ele está com uma cara de maníaco.
- PRA QUE EU TENHO QUE ABRIR MINHA MOCHILA, SEU FILHO DE UMA PUTA?!
- ABRE LOGO ESSA MERDA! – dessa vez é Ugar que também balança uma espada na cara do ladrão.
Derek abre sua mochila esfarrapada.
- O QUE VOCÊS QUEREM?!
- SEU FILHO DA PUTA. TÃO DIZENDO QUE TU ANDA ROUBANDO COMIDA DO PESSOAL
- QUEM DISSE?! – é Rocco
- NÃO IMPORTA, CARALHO! – John bota um machado no pescoço de Rocco
Depois de examinar um pouco, Flock levanta um pacote
- AQUI, Ó! – ela balança, freneticamente, um pacote de lingüiça defumada nas mãos.
- AH, SEU VAGABUNDO! TU VAI MORRER! – Narp entra na briga com duas adagas nas mãos
Derek dá uma cambalhota para trás e pega suas duas foices, fazendo Ugar de refém.
- EU NÃO ROUBEI NINGUÉM, SEU BANDO DE FILHO DA PUTA! – a ponta da foice começou a entrar forte na carne do pescoço de Ugar, que geme.
- ALÉM DE ROUBAR QUE MATAR UM DOS NOSSOS?! OLHA AO TEU REDOR! SÃO TRÊS CONTRA UM E A GENTE É DO PELOTÃO B. BEM MELHOR DO QUE O SEU! – ao falar isso, Rocco também aproveitou a brecha e juntou-se ao lado de Derek com sua lança longa nas mãos.
- TÔ FUDENDO PRA ISSO!
- Mesmo que tu me mate, vai ser morto pelos meus amigos! – Ugar fala, com esforço
- Quem sabe não... ONDE TÁ O FREED?! APOSTO QUE FOI AQUELE FILHO DA PUTA QUE FALOU DE MIM!
- E SE FOI?!
Neste momento Ugar, ultrapassando a dor, virou para a direita, rasgando a pele do pescoço, e deu um soco na cara de Derek, que cai com o nariz sangrando. O sangue de Ugar sai em jatos. Flock, John e Narp vão socorrê-lo, mas depois de alguns momentos ele morre.
- FILHO DA PUTA! – os três saem correndo para cima de Derek como animais selvagens sedentos por sangue.
Narp mete sua adaga na coxa de Derek e o sangue salta. John vai meter o machado na cabeça. Uma imensa explosão verde acontece na cidade-ruína e um vento fortíssimo joga todos para dentro. Derek só consegue ver Flock e John caírem mortos no chão.