Teoria sobre a origem e os fundamentos do "jeitinho" na sociedade brasileira atual
Pouco se sabia e muito se falava por aquelas terras de cavaleiros maltrapilhos, reis miseráveis e camponeses mesquinhos. Muito tempo depois dessa época, alguém diria que todas as mazelas da sociedade surgiram a partir do momento em que alguém cerceou um pedaço de terra e teve a pachorra de dizer “isto é meu”, encontrando pessoas suficientemente ingênuas para acreditá-lo. Obviamente esse filósofo não conheceu as terras do Rei-com-letra-maiúscula; as cercas eram meros obstáculos físicos, e o povo sempre dava um jeitinho para tudo: conseguir estragar a plantação vizinha — obtendo uma valorização dos seus produtos —, disseminar as pestes, fornicar com a mulher alheia. Em suma, era um povo alegre, vibrante, receptivo, simpátivo e maleável às situações. As propriedades aqui eram de todos e não eram de ninguém.
Pouco se sabia e muito se falava sobre o sumiço do papagaio-de-ouro do Rei-com-letra-maiúscula. O fato é que o danado não estava mais às vistas do soberano, e havia um comentário geral no povoado sobre um possível roubo.
“Roubo? Isso aqui é terra de gente honesta e trabalhadora. Se fosse pra apontar alguém, seria um dos estrangeiros que passou por aqui no tempo da colheita”.
Pergunte a qualquer um sobre o “roubo”, é isso que lhe dirão. Ou, provavelmente, que o Rei-com-letra-maiúscula quer apenas um motivo para contestar a segurança do seu povo, aumentar a taxa de impostos destinada ao ordenado dos guardas e desviar o dinheiro para a mão de pobres meretrizes marginalizadas pelo povoado. É assim que funciona.
Roubo ou não, não pegaria bem se Vossa Majestade sequer mandasse guardas à procura do tal papagaio. É claro que, nessas terras, a banda toca um pouco diferente e seria um desperdício mandar seus melhores e mais valiosos homens. Ele fez o sensato: terceirizou.
O problema é que o fenômeno da terceirização é complexo e inconstante. Algumas coisas eram certas: Sua Senhoria estava a passar por dificuldades monetárias facilmente contornáveis, talvez com um cafezinho com os reis vizinhos; os novos guardas passariam por uma cerimônia de investidura belíssima e pomposa; e, por último, a fome desses guardas seria tão grande que o papagaio-de-ouro poderia se transformar facilmente num frango à passarinho delicioso. Conseqüências da terceirização: pompa, incompetência e falta de subsídios. E é claro que o rei não bancaria seis refeições ao dia para os guardinhas de fachada.
Requintados, incompetentes e famintos, ou não, eram quatro figuras absolutamente singulares: um traficante, um miliciano, um sanguinário e um camponês.
O traficante estava nessa pelo ouro. Equipamento de guerra é caro, e rende muito dinheiro; imaginem só, ter um estoque de equipamento novinho, imaculado e sem usuários! Era praticamente um crime.
Agora, crime mesmo era o que acontecia perto da taverna depois de algumas cervejas. Os beberrões se exaltavam e acabavam se matando; o problema é que isso é um puta problema pro dono da taverna. Ninguém quer ver cabeças rolando na frente do seu boteco honesto. Para isso, estava lá o miliciano, cumprindo as obrigações dos guardas folgados. E, obviamente, rolava uma mão molhada pra deixar tanto dono de bar quanto miliciano felizes.
“Ninguém quer ver cabeças rolando...” é uma frase muito genérica. O sanguinário não pensa assim; ele nasceu para matar, e vai fazer isso porque gosta de sentir o sangue escorrer pela sua espada, de ouvir o barulho da capa da Morte atrás de sua vítima e sentir o cheiro do medo.
E, quem diria, até um camponês! Claro, pra um cara que iria ficar arando terra o dia todo, sob chuva ou sol, tomando cuidado com os vizinhos cornos e sem perspectiva de sucesso, não havia nada melhor do que fingir que fazia algo além de dar umas bordoadas em alguns ladrões de galinha e ainda mamar nas tetas do Estado.
Pois bem, a narração que trago agora tenta ser imparcial e objetiva, mas notem que sou um animal e obviamente alguns trechos estarão sob uma ótica levemente distorcida para fins de estética. Os livros de história precisam de certos retoques para o enriquecimento dos meandros narrativos, e esse causo que vos conto certamente trará algum vestígio da verdade.
A primeira pergunta que os cavaleiros se fizeram foi: “onde diabos está o tal papagaio-de-ouro?”. Obviamente, todos eram versados nos mais avançados meios de busca e chegaram à conclusão de que deveriam fazer uso do método científico de procura: “se eu fosse um papagaio-de-ouro, onde me esconderia?”
É claro que todos descartaram a possibilidade de roubo. Em terras quase-tupiniquins, isso não existe por definição.
Todo o caso, o método científico não só induziu nossos bravos cavaleiros a aventarem um local para localizar o bicho, como também os fez pensar sobre o objeto em si: “papagaio-de-ouro?”
Sim, porque a existência de um papagaio-de-ouro é altamente improvável se levarmos em conta toda a física e química presentes nesse ser tão cheio de mistérios.
E a suposição da não-existência do objeto de desejo acaba deixando nossos heróis com aquela preguiça... Pensar dá trabalho, e procurar também. Afinal, eles foram pagos pra procurar — ou fingir que procuram, o que teoricamente dá no mesmo —, não pra filosofar a respeito da possibilidade de não haver papagaio algum.
Leitor, você provavelmente carrega o sangue de um desses nobres cavaleiros. Pense um pouco: o que você faria?
Porra, é óbvio:
— Vamos tirar o dia de folga e amanhã comunicamos ao rei que nossas buscas foram pouco conclusivas a respeito do paradeiro de seu estimado animal.
Era perfeito. Ou quase perfeito, porque a nossa armada não sabe bem ao certo se deve encontrar ou não o bicho. Sabe como é, falta de comunicação entre subalterno e patrão.
Pelo sim e pelo não, chegaram num consenso:
— Se fomos pagos pra achar, então acharemos.
Aí, caímos na velha questão: o pássaro existe ou não existe?
— Sugiro que façamos uma reflexão no que tange tão profunda questão enquanto apreciamos uma bebida e um fumo com propriedades psicotrópicas na Taverna do Djalma.
E assim foi.
Quentão vai, quentão vem, e, por fim, chega o Mago das Ervas, aquele-que-tudo-sabe, trazendo cem gramas de pura inspiração brasileira.
Nego tava chapado pra caralho. A discussão alcançara outro nível de filosofia, que sequer merece ser posta nesse ímpio conto.
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— (!!!)
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— (@#*!)
Por fim, chegaram ao tema de nosso causo.
Disse o traficante:
— Compremos com um fornecedor de longa data um animal idêntico!
Disse o miliciano:
— Peçamos ao rei muito ouro pelo nosso silêncio a respeito da inexistência de tal animal!
— Não podemos confirmar nossas suspeitas, irmão. — Falou o camponês.
— Que se foda, imagina esse boato na mão das nossas mulheres! Até amanhã, uma dúzia de reinos já saberá da possível farsa real!
Disse o sanguinário:
— Matemos o rei e tomemos o poder!
Disse o camponês:
— Peguemos um papagaio normal, uma pepita de ouro falsa, forjemos nosso pássaro-de-ouro e continuemos a trabalhar para o rei, sendo consagrados como heróis eternos!
Surpresos pela proposta do camponês, todos avaliaram as opções: mercado negro, chantagem e chacina.
Ficaram com o jeitinho.
E todos mamaram nas tetas estatais por todo o sempre.