Muitos anos se passaram desde o acontecimento que Gune tenta esquecer. Seus dois amigos leais que faziam a guarda foram brutalmente assassinados, um deles estava preste a se casar. O pesar na consciência é grande, mas não pior que a dor da solidão. Gune não é um anão de muitos amigos, mas não é mal, apenas ranzinza. Mas sabe que é melhor assim, pois o que carrega na enorme bolsa de pele de urso são tão poderosos quanto qualquer coisa que tenha presenciado. Já era tarde, o Sol estava repousando e Gune não viu motivos para fazer o mesmo. Preparou a barraca e pôs Lung para dentro da mesma.

- Boa noite, Lung.



O ESCRITOR DE PERGAMINHOS


PERGAMINHO 1 • CAPÍTULO 1: Do Sol ao gelo.



A noite foi fria e penosa, mas tudo tem um fim. O Sol voltava e com ele o calor. Se podia ouvir criaturas acordando, e com elas a atenção para o que pudesse atacá-los. Lung, como todo cachorro de sua espécie, fez manha para acordar. Gune foi arrumando todos os apetrechos e a lona da barraca. Apagou a fogueira e juntou as coisas.

- Vamos Lung. – O cão mal se mexia. – Ora cachorro vagabundo. Não cuidei de você por cem anos para que agora desse uma de idoso. Vamos!

O cão se levantou lentamente. Lung era um cão, mas não um cachorro comum. Pertencia a uma raça nada conhecida, apenas pelos anões. Eles chamavam a raça de Canager (referencia de “Canis” para canino e “Ager” do latim terra), pois a lenda diz que a raça original veio de baixo da terra. Lung era o último da espécie. São tão leais que pertencem a apenas um dono, se o dono morre, eles também morrem. Gune ganhou Lung no aniversário de 20 anos, era uma criança ainda. Desde então, são inseparáveis.

Logo, Lung já estava disposto e Gune colocou a sela sobre o grande cão. Uma sela feita de couro, que se prendia por dois feixes que prendiam duas cintas no corpo e mais um feixe que prendia outra cinta pelo pescoço. Era razoavelmente confortável para o animal, e mais ainda para o “cavalheiro” sobre ele. Lung tinha um metro e meio de altura, enquanto Gune apenas um metro e trinta. Com Gune já sobre seu cão, Lung pôs ao um uivo, como um grito de guerra e se pôs a correr, mais rápido que um cavalo.


Enquanto isso, em algum lugar das montanhas geladas, nos arredores de Svargrond, um anão ferido, com dentes afiados, entrava em uma caverna gelada, ele foi tirando a roupa com dificuldade enquanto andava, até sobrar à calça. De repente, ele caiu no chão e começou a se contorcer. Seus gritos de dores se ecoavam pela caverna, dando impressão de mais sofrimento ainda. Aos poucos, uma calda esverdeada, cheia de escamas, começou a brotar. Ele mesmo começou a rançar a própria pele, e debaixo da mesma, se via escamas esverdeadas, tal como a calda. Logo, o pequeno anão de um metro e trinta e um era um lagarto humanóide de quase dois metros de altura. A calça se esticara ao máximo, mas ainda resistira à metamorfose. O lagarto chegou até uma sala ampla e grande, cujo teto era circular. Chegou até a base de um altar enorme, que mais parecia um palco. Desse palco, uma voz em forma de trovão sacudiu o lugar.

- Você não conseguiu o pergaminho?

- Não... Não, Altolência. – Disse o lagarto, temeroso, se referindo ao seu mestre do jeito que é apropriado para aquela misteriosa criatura. – Mas...

- Mas o que, inútil? Não conseguiu roubar um pergaminho de um anão? Vou te dar mais uma chance, Crouch. Se falhar mais uma vez, não falhará mais.

- Sim, Altolência.

O lagarto se retirou da sala. Ele sabia que aquele pergaminho significava sua vida, e ele já sabia onde encontrar.


Gune já estava chegando a um vilarejo próximo a Thais. Lá, ele espera encontrar um velho amigo. E felizmente encontrou. Edran estava varrendo a frente de sua pequena cabana de caça. Como um ótimo caçador, preferia ficar mais próximo possível de suas caças, no limite do vilarejo. Edran era o único humano que Gune conhecia. Até porque, a maioria dos humanos não se mistura com as criaturas místicas, nem élfos, nem anões. Edran era um dos poucos que podiam entrar na floresta tranquilamente, só se preocupando com animais selvagens. De longe, Gune já o reconhecera.

- Edran, seu grande bastardo. – Cumprimentou “calorosamente” Edran.

- Olha só quem me vem depois de tanto tempo. Como tem passado Gune?

- Na merda, como sempre. Mas deixe de frescura. Preciso de sua ajuda.

- Ajuda? Com o que? – Edran nunca teve um pedido desses vindo de Gune.

- Preciso entrar em uma floresta élfica. Você sabe que não me dou bem com aqueles frutinhas de orelhas estranhas. Preciso que me ajude a entrar na floresta.

- Me responderá se perguntar o por quê?

- Não. Mas, talvez mude de idéia se te oferecer 2000 moedas de ouro.

- Roubou o banco de Thais? – Edran deu risada, mas logo percebeu que Gune não achou a menor graça.

- Não, seu tolo. Tenho meu trabalho que é honrado e também generoso. Vai ajudar ou não?

- Está bem. Partiremos pela manhã. Quer passar a noite aqui?

- Pretendia me deixar para fora, idiota?

Gune foi entrando sem pedir. Lung o acompanhou. Por mais grosseiro que Gune parecia ser, Edran sempre o suportou com uma espetacular paciência. Ao ver Gune se deitando na cama, Edran sorriu. “Seja bem vindo, velho amigo.”

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☞ Em breve, capítulo 2.