Parabéns pela organização, brother, tá ficando realmente legal. Até dá gosto de ler pra postar um comentário num tópico bonito como esse, risos.
• Cândido — Voltaire
Vou contar uma breve estória aqui, obviamente para explicar as peculiaridades do livro.
Suponhamos que você resolva escrever um livro hoje. Você já pensou longos anos sobre esse livro e pretende escrevê-lo em poucos dias. Você, sendo um dos maiores críticos do seu tempo, não perderá tempo escrevendo estórias bobinhas de aventura, romances fúteis nem nada do gênero; seu negócio é a crítica, a ironia, a satirização. Aí, após refletir um pouco, você decide descer o pau no governo Lula. Usando o seu humor afiado, com sacadas geniais, metaforização e tudo o que há de bom, você consegue aclamação da crítica especializada e do público.
Um belo dia, você morre. Trocentos anos depois, algum jovem, inspirado pelas suas ideias, resolve destrinchar o seu livro, perceber cada simples ironia que você escreveu há tanto tempo atrás; o jovem resolve ler o seu livro entendo o contexto em que foi lançado, no ano de 2011, pós-eleição da primeira presidente mulher do Brasil, após um governo de longos anos do então presidente Lula.
É mais ou menos assim que funciona com Cândido. Olhem só como são as coisas: uma romance "comum", escrito há séculos atrás, não exige um grande preparo mental do leitor. Quero dizer, é só uma história, narrada como tantas outras, com todos os elementos possíveis: personagens, enredo, tempo, espaço e todo aquele blábláblá ensinado pela tia gorda da 5ª série. Obviamente, não é uma literatura fácil, mas também não é complicada; com um dicionário e algum esforço, você lerá tranquilamente um romance escrito no século XVIII.
Mas não é assim que funciona com uma obra satírica. É preciso entender o contexto em que a obra foi concebida para compreender a história por completo; caso contrário, as ironias que te renderiam minutos de gargalhadas passarão despercebidas.
Cândido é, sobretudo, uma obra que não exige o tal conhecimento do contexto. Qualquer um pode ler; alguns entenderão a história por completo, enquanto outros apreciarão apenas a estrutura, ou seja, a aventura, o enredo da história. Gostei muito disto na obra: o fato de não precisar de embasamento algum. Você pode não manjar nada de Iluminismo ou de filosofia e simplesmente amar a história pelo seu enredo e personagens, que são soberbos.
E, por fim, posso dizer que foi uma leitura muito prazerosa. Você pode ler sem compromisso algum, apenas curtindo a ingenuidade de Cândido ou as mirabolantes aventuras do grupo. Enquanto isso, outros tentarão aprofundar-se no tema e entender a importância histórica dessa obra.
Fazendo uma breve analogia, a história de Cândido é muito semelhante a um filme estrelado por Tom Hanks — Forrest Gump, o contador de histórias. Com a diferença do desfecho, que é mais cruel para Cândido, muitos aspectos se assemelham entre essas duas obras: a ingenuidade do(s) personagen(s) principal(is), as situações inusitadas descritas e a tragédia, que é mais visível na obra de Voltaire. Pessoalmente, eu recomendo ambas as histórias; semelhantes na essência, porém diferentes no conteúdo.