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Uma borboleta pousou no nariz de Lome no momento em que ela despertava naquele fim de semana. Ela estava decidida a ver o tio e iria até a casa dele, junto com os pais para almoçar. O dia estava bonito e uma brisa fresca vinha do mar. Lome era uma menina esperta e sorridente, de oito anos de idade. Não era parecida com Mylla, loira e alta; mas sim com seu pai, Tenner. Tinha uma pele mais escura e cabelos negros ondulados. Seus olhos grandes de olhar decidido, com uma intensa coloração mel, atestavam que, como em seu pai, corria nela o sangue das selvagens Amazonas do extremo leste. Ela olhou pela janela e viu a praia calma. Respirou profundamente e estava feliz. E assim estava toda a família, vendo que Lug se recuperava. A cor de seus olhos e de sua pele estava mais natural e ele parecia mais animado. Já falava até em voltar a pescar.

Antes mesmo de Lome acordar, seu pai e Wrebh, vizinho de Lug, já haviam partido, com o nascer do sol, para uma caçada. Ah... Como Lug gostava da suculenta carne da qapybharã, aquele roedor grande e gordo que vivia nos lamacentos pântanos a sudeste da cidade. Tenner queria fazer uma surpresa ao amigo, levando para o almoço sua carne favorita. Em casa, Mylla já preparava o delicioso molho que iria temperar o animal. Especiarias picantes, sal grosso e a seiva gelatinosa de uma planta local entravam na receita. Mylla e Tenner eram famosos por seus pratos, verdadeiras iguarias capazes de surpreender e agradar aos mais exigentes paladares. Até os pântanos deviam ser umas duas horas de caminhada. Tenner e Wrebh pegaram a tortuosa trilha, que adentrava a floresta, passando por encostas íngremes e pequenos córregos. Chegaram ao pântano e, na lama, não tardaram a achar as pegadas da qapybharã, que levavam à sua toca. Esta, sempre tem uma ou duas saídas ocultas, não muito distantes da principal. O plano era simples: enquanto Wrebh ateava fogo em uma das entradas, abanando para que a espessa fumaça entrasse nos túneis, Tenner esperaria que o animal saísse por algum buraco camuflado. A fumaça não tardou em tomar conta da toca, que não devia ser muito grande. Logo, com um barulho rápido, folhas e galhos explodiram no pântano e a qapybharã partiu assustada em busca de abrigo. Tenner foi correndo atrás dela e, com uma funda, deu um tiro certeiro que deixou o animal inconsciente. Tirou da cintura uma pequena faca com a qual feriu fatalmente o futuro almoço. Wrebh apagou o fogo e os dois colocaram a caça em uma sorte de trenó de couro, para facilitar o transporte. Pelo tamanho, o almoço seria farto.

Os dois estavam ansiosos para voltar pra Othialla, onde eram aguardados. Eram mais ou menos onze da manhã quando os dois caçadores chegaram à casa de Lug. Mylla e Lome já estavam lá, junto com os donos da casa. Lug mal pôde acreditar quando viu seus amigos chegando com a caça! O animal teve rapidamente seu couro e entralhas retirados. Pedaços da carne eram mergulhados no molho feito por Mylla e postos para assar, estalando sobre as brasas e exalando um aroma que tomou conta da cidade. Alguns amigos e curiosos chegaram para o banquete. Ainda que não tivessem sido convidados, foram muito bem recebidos pelos Mariel. Todos estavam felizes e o almoço logo se tornou uma festa, com cantorias, danças e piadas.

Enquanto isso, o Chefe Rhizód Frinneqa se reunia com o Conselho. Embora acreditasse na inocência de Lug, muitas pessoas influentes na cidade, bem como parte do Conselho estavam convictos de que ele era um assassino. E, como tal, deveria ser julgado.


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Nomes que aparecem nesse capítulo:


- Qapybharã: do tupi "kapii'gwara", de ka'pii (capim) + gwara (comedor) - capivara para os íntimos. Quem é brasileiro conhece; quem não é, procure na Wikipédia. Rato grande. Muito gostoso.