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Tópico: A Ilha das Lamentações

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  1. #1
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    Sentados na sala de Lug, Rhizód e Targos estavam visivelmente incomodados com o assunto que iriam abordar e o clima na casa estava tenso. Após conversarem um tempo sobre coisas triviais, Rhizód tocou logo no assunto.

    - Bem, Lug... Nós sabemos que você está cansado, após a viagem. Mas queremos saber algumas coisas. Pessoas vêm falar conosco sobre as estranhas condições de sua volta. Indagam-nos sobre seus amigos... O que houve com eles? Você sabe?
    Lug parou por um instante, como se quisesse se lembrar de algo. Por fim, disse:
    - Desculpem-me, cavalheiros. Os acontecimentos da viagem ainda estão turvos na minha mente. Não me lembro ao certo de como aconteceu, mas... Sei que eles estão mortos. Infelizmente, essa é a única certeza que lhes posso dar. O mar os levou.
    - Hum... Devemos então proceder aos ritos funerários.
    Targos interveio: “Mas Lug, você tem certeza de que estão mortos? Realizar rituais fúnebres para pessoas vivas é maldição na certa! Uma blasfêmia contra a vida!”
    - Nobre Targos, pode realizar os rituais sem medo. Eles estão mortos sim.
    - Se você diz, Lug, assim o faremos – falou o Chefe. Há também pessoas que afirmam que você saiu de seu barco flutuando, como um fantasma. O Senhor Mines mesmo disse não ter visto pegadas suas pela praia.
    Lug ficou em silêncio, como se tentasse lembrar o que havia ocorrido naquele dia.

    Shirà, voltando da cozinha, respondeu por Lug: “Meu marido chegou aqui com algas presas no cabelo e roupas molhadas. Ele saiu de seu barco nas pedras e nadou até o outro lado da praia, mais perto do centro da cidade. Por isso vocês não encontraram pegadas dele ao redor do barco.” A esposa do pescador estava visivelmente incomodada com as perguntas, com medo de que seu marido voltasse a ter reações estranhas.
    - Senhores – continuou Lug – minha esposa diz isso, mas eu mesmo não me lembro dos fatos com clareza. Com o passar dos dias, sinto que minhas lembranças vão ficando cada vez mais claras. Se eu me lembrar de algo mais, assumo o compromisso de ir até o conselho e prestar todas as informações.
    - Assim esperamos, Lug. Você e sua família sempre foram muito respeitados na comunidade. Estou feliz com sua volta, mas preocupado com os outros quatro marinheiros, respondeu o Chefe.

    Tenner tentou – e conseguiu – mudar o tópico do assunto para trivialidades cotidianas. Os dois visitantes terminaram o chá que lhes fora servido e despediram-se de seus anfitriões. Quando saíram, uma chuva fina teve início sobre a cidade.

    - E então Targos? Ele parece bem, não acha? Melhor do que eu esperava, em todo caso.
    - Não sei bem. Achei-o meio apreensivo.
    - Talvez devessemos dar mais um tempo a ele.
    - Sim, Rhizód... Mas é muito estranho a única certeza dele ser a morte dos quatro companheiros de viagem.
    - É... Essa viagem parece mesmo ter alterado sua percepção das coisas. Mas como ele mesmo falou, sua memória esta melhorando com o tempo. Vamos falar com os druidas para que procedam aos rituais funerários o quanto antes.
    - Não é nisso que eu estou pensando.
    - E no que é?
    - Assassinato!


    ------------------------------------------------------

    Nomes bizarros? Que nomes??

    @seleto grupo de leitores: Antes de mais nada, obrigado por acompanhar e pelos comentários. O capítulo 9 já está pronto, em processo de revisão... Porém, ainda tenho dúvidas se ele será de fato publicado. Isso porque ele difere do resto da história, sendo centrado em uma caçada... Emtão, CASO eu o publique mesmo, não estranhem a mudança abrupta de estilo. Será algo momentâneo.

    Abraços

    Karasutengu

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    Última edição por Karasutengu; 24-09-2010 às 11:13.
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  2. #2
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    Uma borboleta pousou no nariz de Lome no momento em que ela despertava naquele fim de semana. Ela estava decidida a ver o tio e iria até a casa dele, junto com os pais para almoçar. O dia estava bonito e uma brisa fresca vinha do mar. Lome era uma menina esperta e sorridente, de oito anos de idade. Não era parecida com Mylla, loira e alta; mas sim com seu pai, Tenner. Tinha uma pele mais escura e cabelos negros ondulados. Seus olhos grandes de olhar decidido, com uma intensa coloração mel, atestavam que, como em seu pai, corria nela o sangue das selvagens Amazonas do extremo leste. Ela olhou pela janela e viu a praia calma. Respirou profundamente e estava feliz. E assim estava toda a família, vendo que Lug se recuperava. A cor de seus olhos e de sua pele estava mais natural e ele parecia mais animado. Já falava até em voltar a pescar.

    Antes mesmo de Lome acordar, seu pai e Wrebh, vizinho de Lug, já haviam partido, com o nascer do sol, para uma caçada. Ah... Como Lug gostava da suculenta carne da qapybharã, aquele roedor grande e gordo que vivia nos lamacentos pântanos a sudeste da cidade. Tenner queria fazer uma surpresa ao amigo, levando para o almoço sua carne favorita. Em casa, Mylla já preparava o delicioso molho que iria temperar o animal. Especiarias picantes, sal grosso e a seiva gelatinosa de uma planta local entravam na receita. Mylla e Tenner eram famosos por seus pratos, verdadeiras iguarias capazes de surpreender e agradar aos mais exigentes paladares. Até os pântanos deviam ser umas duas horas de caminhada. Tenner e Wrebh pegaram a tortuosa trilha, que adentrava a floresta, passando por encostas íngremes e pequenos córregos. Chegaram ao pântano e, na lama, não tardaram a achar as pegadas da qapybharã, que levavam à sua toca. Esta, sempre tem uma ou duas saídas ocultas, não muito distantes da principal. O plano era simples: enquanto Wrebh ateava fogo em uma das entradas, abanando para que a espessa fumaça entrasse nos túneis, Tenner esperaria que o animal saísse por algum buraco camuflado. A fumaça não tardou em tomar conta da toca, que não devia ser muito grande. Logo, com um barulho rápido, folhas e galhos explodiram no pântano e a qapybharã partiu assustada em busca de abrigo. Tenner foi correndo atrás dela e, com uma funda, deu um tiro certeiro que deixou o animal inconsciente. Tirou da cintura uma pequena faca com a qual feriu fatalmente o futuro almoço. Wrebh apagou o fogo e os dois colocaram a caça em uma sorte de trenó de couro, para facilitar o transporte. Pelo tamanho, o almoço seria farto.

    Os dois estavam ansiosos para voltar pra Othialla, onde eram aguardados. Eram mais ou menos onze da manhã quando os dois caçadores chegaram à casa de Lug. Mylla e Lome já estavam lá, junto com os donos da casa. Lug mal pôde acreditar quando viu seus amigos chegando com a caça! O animal teve rapidamente seu couro e entralhas retirados. Pedaços da carne eram mergulhados no molho feito por Mylla e postos para assar, estalando sobre as brasas e exalando um aroma que tomou conta da cidade. Alguns amigos e curiosos chegaram para o banquete. Ainda que não tivessem sido convidados, foram muito bem recebidos pelos Mariel. Todos estavam felizes e o almoço logo se tornou uma festa, com cantorias, danças e piadas.

    Enquanto isso, o Chefe Rhizód Frinneqa se reunia com o Conselho. Embora acreditasse na inocência de Lug, muitas pessoas influentes na cidade, bem como parte do Conselho estavam convictos de que ele era um assassino. E, como tal, deveria ser julgado.


    --------------------------------------------------------
    Nomes que aparecem nesse capítulo:


    - Qapybharã: do tupi "kapii'gwara", de ka'pii (capim) + gwara (comedor) - capivara para os íntimos. Quem é brasileiro conhece; quem não é, procure na Wikipédia. Rato grande. Muito gostoso.
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  3. #3
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    KRAI VÉI!!! Massaa demais a história. Só demrei um pouco a ler pq é mei cansativa e tem uns nomes esquisitos. Mas gostei. Kd o proximo capítulo?

  4. #4
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    10


    Rhizód conseguiu o que queria. Lug seria julgado após os rituais fúnebres de seus quatro companheiros. O júri seria composto pelos cinco membros do Conselho, pelo Chefe e por dois Druidas. A defesa caberia ao próprio acusado podendo este ser auxiliado por alguém, se assim quisesse. No dia do funeral, Lug seria comunicado e, dali em dez dias, julgado. Este foi o acordo feito entre as autoridades de Othialla.

    Passaram-se três dias após o grande almoço e um emissário de Rhizód Frinneqa bateu à porta da família Mariel. Foi Lug quem o recebeu, sendo a este entregue uma carta com o brasão da cidade e as iniciais “R.F.”. Lug despediu-se do emissário, desejando-lhe um bom dia e leu a carta com os seguintes dizeres:

    “A Administração de Othialla e o Conselho dos Druidas convidam Vossa Senhoria e seus familiares a comparecerem às homenagens póstumas aos bravos pescadores Themis Ddebat, Loan Fyysz, Gánor de Thûum e Skarl Vórin, que foram acolhidos por Fyyr durante uma viagem ao mar. A cerimônia será no trigésimo quinto dia de nosso calendário, no momento em que o sol estiver despedindo-se. O local será no Altar da Árvore Verde, próximo ao Farol.”

    “É amanhã...” – Pensou Lug.

    No dia seguinte, Lug acordou um tanto indisposto. Shirà ficou preocupada com o marido. Será que sua comida não lhe havia feito bem? Lug, porém, estava com um mau pressentimento. Estava com um gosto metálico na boca, que lembrava aquele que sentia nos primeiros momentos de sua volta à Othialla. Preferiu não dizer nada a sua esposa. No almoço, limitou-se a comer uma sopa de legumes. Com o alimento, sentiu-se mais forte. Preferiu, no entanto, não ir ao ritual fúnebre dos amigos. Talvez fosse até isso que estivesse o deixando naquele estado. Pediu então a Shirà que ela fosse sozinha, representando a Casa Mariel, e prestasse as homenagens às famílias.

    Na hora determinada, havia muitas pessoas em frente ao Altar da Árvore Verde, que ficava ao pé de um grande carvalho em um campo aberto próximo ao farol. No ponto mais alto, em volta do altar, estavam três druidas, os cinco membros do Conselho, sentados e o Chefe Frinneqa. O ritual fúnebre teve início no cair da tarde, com cânticos tristes entoados pelos druidas enquanto estes queimavam ervas e sais aromáticos em reverência a Fyyr. Muitas pessoas acompanhavam a cantoria. Em seguida teve início um sermão, proferido pelo druida hierarquicamente superior, um senhor de cabelos brancos longos e escassos e de nariz proeminente. Olhando por cima dos presentes, começou sua fala, dirigida ao mar. Foi quando, de súbito, o Chefe e alguns membros do Conselho levantaram-se, surpresos, interrompendo o druida.

    Lug Mariel caminhava em direção ao altar. Passou pelas pessoas com a majestade e o olhar de um Imperador. Havia nele uma estranha prepotência; uma autoridade incomum. Fez-se um grande silêncio. Por um momento, ele olhou para a platéia. Com uma voz rouca, começou, então a esbravejar em uma língua gutural, jamais ouvida até então:

    "Pranach reichnech natram, calom lo kedalal preavh ghadneh! Rhadarash ne, tel kom otsat da preach reach, o calom. Da, vamorh ghomei o lo kedalal, songoeol preavh nes ramiun te kedor, te alam, te kedor. Irnetch e reach o dasam vasanath e reach lo ghumak cudiaraisu, nes o natram iccheindor... Nes lo ine: GI LE FARG!!!!!" Após pronunciar essas palavras, Lug desmaiou.

    O que se seguiu ficaria para sempre na memória das pessoas. Veio do sul. Veio do mar. Primeiro, começou distante, mas foi ficando mais alto, mais próximo e varreu a cidade. Uma gargalhada macabra e demente, de alguma mulher demoníaca; talvez alguma alma atormentada... Não há na cidade quem não tenha ouvido e a reação de todos foi a mesma: um frio glacial que percorreu a espinha e uma sensação inexplicável de pavor.

    Uma lágrima caiu do olho do velho druida que discursava. Quem estava próximo a ele pôde ouvi-lo resmungar:

    "Estamos perdidos. A Maldição caiu sobre nós... Que Fýyr nos ajude!"
    -------------------------------------------------------------------
    Nomes que aparecem nesse capítulo:

    - Themis Ddebat;
    - Loan Fyysz;
    - Gánor de Thûum;
    - Skarl Vórin: os quatro pescadores que partiram com Lug Mariel e sumiram no mar.




    @Kenseiden: Obrigado pelo comentário. Foi mal os nomes esquisitos mas... Sei lá, acho que fica mais plausível assim. =P
    Última edição por Karasutengu; 05-11-2010 às 12:44.
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    Baixou um santo nesse Lug é? Véi fico até triste quando acaba a história. ta ficando muito massa. =D Muito misteriosa.

    Li tua outra história, Garr e Guuk e tu podia faze uns desenhos nessa tambem... So uma sugestão. hehehehe





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    Padrão R 1-10

    Resumo 1-10

    No começo, havia o povo fyr, que cultuava o mar e um Deus do mar a quem eles chamam Fýyr. Eles eram originários do nordeste do mapa Tibiano, de uma região próxima a Ab'Dendriel. Um líder espiritual dos fyr, chamado Gánor es Othialla levou um grupo para o sul. Fundaram ali uma cidade chamada Othialla. Gánor morre. A região era conhecida como Fyrren Wálltza. Mais tarde seria conhecida como Ghostlands. Muito tempo se passou até que um barco de pescadores capitaneado por Lug Mariel sumiu no mar. A sobrinha de Lug, Lome Mines encontrou a embarcação na praia, alguns dias depois. O tio Lug, porém, estava mudado. Saiu do barco com uma aparência envelhecida, resmungando em uma língua estranha. Disse a palavra "Gi Le Farg" e assustou a menina, que voltou chorando pra casa. Tadinha! O pais de Lome, Mylla Mariel e Tenner Mines ficaram preocupados. Tenner e Shirà, esposa de Lug, foram até a praia. O barco era mesmo o dele, mas ele não estava. O barco parecia abandonado. Shirà dormiu na casa da família Mines e, dia seguinte, seu vizinho Wrebh Esqiall veio lhe avisar que Lug estava na praça central da cidade. O pescador estava com um comportamento estranho e um cheiro metálico. Em casa, Lug disse coisas desconexas; falou sobre um acidente e uma ilha. A volta misteriosa de Lug alterou a rotina da cidade. Muitas pessoas passaram a olhá-lo de forma estranha. O Chefe da cidade, Rhizód Frinneqa resolveu realizar os ritos funerais para os pescadores mortos e, em seguida, julgar Lug por assassinato, pressionado pela opinião popular. Mas no dia do funeral, Lug aparece discursando em uma língua estranha. E uma gargalhada vinda dos mares do sul rasga a calmaria da cidade... Segundo o Druida, a cidade está maldita.
    NOMES + IMPORTANTES:

    - Fyrren Wálltza
    - Fyr
    - Fýyr
    - Gánor es Othialla
    - Othialla
    - Lug Mariel
    - Lome Mines Mariel
    - Shirà de Levho Mariel
    - Mylla Mariel
    - Tenner Mines
    - Wrebh Esqiall
    - Rhizód Frinneqa
    - Themis Ddebat
    - Loan Fyysz
    - Gánor de Thûum
    - Skarl Vórin

    @Kenseiden: é... Já pensei em fazer desenhos aqui tamem. Quem sabe não faça um dia? A falta de scanner dificulta a coisa. Vc é fã de Black Adder é? Com esse avatar aí... hahahahahaha Abraços e valeu a visita!
    Última edição por Karasutengu; 12-11-2010 às 15:24.
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    Padrão 12

    12


    Lug, condenado à morte pela forca, foi levado a uma masmorra, perto do cemitério, onde seria executado. Tenner e Mylla foram até sua casa, onde Shirà cuidava da sobrinha. As duas mulheres iriam visitar Lug antes de sua execução. Muito fragilizadas, as duas foram acompanhadas por Wrebh, o padeiro vizinho de Lug. Tenner, também muito abalado, ficou em casa com a filha. Preferiu não levar a menina às masmorras; era um ambiente muito macabro.

    Mylla, Wrebh e Shirà chegaram à masmorra pouco antes do anoitecer. Lá, encontraram-se com o Chefe Rhizód Frinneqa que tentou inutilmente consolá-las. Os três foram visitar Lug, que estava sorridente, sentado no canto de uma cela escura. Shirà o abraçou por uns vinte minutos... Mylla estava nervosa e Wrebh pouco tempo ficou na cela. Não gostava de ver o amigo naquela situação e o ambiente lhe causava um grande mal estar. O condenado, porém, estava tranquilo. Tinha o olhar calmo e sem brilho. Mas não dizia nada. Quando um guarda se aproximou para retirar as mulheres da cela, ele finalmente quebrou o silêncio:

    - Shirà... Não perca seu tempo aqui. Volte pra casa e prepare meu prato favorito. Daqui a pouco eu voltarei também.

    Lug sussurou essas palavras numa voz rouca que assustou sua esposa. Mas, após ouvir isso, ela ficou estranhamente calma. Não tentou ficar mais tempo com o marido na cela e seguiu calmamente o guarda para a parte de fora. Viu quando o carrasco dirigiu-se para onde estava seu marido. Junto com Rhizód, Wrebh e Mylla, Shirà aguardou lá fora, sob um céu estrelado o corpo de seu marido.

    Dentro da masmorra, Lug era levado para um subsolo, onde ficava a "câmara da morte", local onde as sentenças eram executadas. Ali estavam dois druidas, além de alguns guardas e do carrasco. Os druidas entoaram cânticos fúnebres, para acordar Fýyr e pedir para que o Deus do Mar viesse acolher o espírito de Lug. Tochas azuladas iluminavam o ambiente e o cheiro de incenso era forte. Lug teve sua cabeça coberta com um pano preto. Uma corda foi colocada em seu pescoço. Com a ordem de um dos druidas, que fez um sinal com a mão, o carrasco puxou uma alavanca, fazendo com que o alçapão sobre o qual Lug estava de pé se abrisse. Para a surpresa de todos, a corda se rompeu e Lug apenas caiu no chão. Enfurecido, um dos druidas diz ao carrasco:

    - Como você não verifica a qualidade de suas cordas, seu inútil? Espero que tenha preparado uma reserva!
    - Tenho sim, Grande Druida. Ja vou prepará-la.

    Prontamente, o carrasco verificou a resistência da outra corda. Aguentava seu peso; não iria se romper com Lug, visivelmente mais leve. O processo foi refeito e, sob o pano preto, Lug não conseguia conter o riso... O carrasco novamente puxou a alavanca, abrindo o alçapão. Dessa vez, a corda não se partiu mas... Lug apenas caiu no chão novamente: a corda era maior que o necessário. O carrasco coçou a cabeça... Isso não era pra ter acontecido. Nunca havia acontecido antes... O druida, então, resolve mudar a sentença.

    - Corte-lhe a cabeça. E ande logo com isso.

    O carrasco, visivelmente contrariado, dirige-se a uma das paredes e pega um enorme machado de lâmina afiada. Lug é amarrado com a cabeça perto de um tronco. Tudo é preparado para o golpe final mas quando o machado, com toda a força, atinge o pescoço de Lug seu metal se estilhaça em mil pedaços e sua madeira se desfaz em fios fibrosos em uma explosão que parece atingir apenas ao carrasco, que é atirado no chão, atordoado. Nisso, uma estranha voz ecoa na sala, parecendo feminina, rouca, glacial... As únicas palavras claras são "Lug...não....morre...." Um dos druidas sugere que "talvez Fýyr não queira a morte de Lug". Mas o outro, hierarquicamente superior, tomado por um orgulho ensandecido esbraveja que ele deve morrer e ordena que o carrasco o queime vivo. O carrasco se nega.

    - Desculpe a falta de respeito, mas eu já fiz demais! Execute-o você mesmo.

    O druida ordena que os guardas prendam o carrasco. Ele pega uma tocha e se aproxima de Lug. Nisso, o condenado se solta das cordas, dos troncos, retira o capuz negro e, correndo em direção ao druida, com uma agilidade impressionante aperta-lhe a traquéia, levantando-o do chão.

    - Seu druida patético!!! Qual parte você não entendeu??? Eu não vou morrer hoje. Nem amanhã. Vou morrer quando Fýyr quiser. E, por seu orgulho, é você quem irá encontrá-lo mais cedo!

    Lug proferiu essas palavras com uma voz rouca e arranhada, cheias de ódio. Em seguida, atirou o druida contra uma parede e este, como que possuído por algum demônio, ateou fogo sobre si mesmo, queimando até a morte.

    Todos na sala estavam atônitos. Lug, livre, apenas saiu da masmorra. Ninguém ousou detê-lo.
    Última edição por Karasutengu; 14-01-2011 às 16:34.
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    Padrão 13

    13


    Lug saiu triunfande da masmorra. Para espanto de seus parentes e amigos, ele estava vivo. Nada nem ninguém consegui matá-lo e, atrás dele, vinham guardas, o druida e o carrasco, todos com um misto de perplexidade, curiosidade e um medo de certa forma infantil. Como o que uma criança sente em relação a um adulto autoritário. Lug não falou com ninguém, apenas foi pra casa, comeu algo e dormiu. Shirà, Mylla e Wrebh não sabiam muito bem o que fazer. Esperavam por tudo menos por isso. O druida relatou a eles o ocorrido, antes de voltar e cuidar do corpo do druida imolado. Dia seguinte, o fato seria informado ao Chefe da cidade, Rhizód Frinneqa, que dessa vez, apoiado por um conselho apavorado e pela maioria dos druidas, optou por arquivar temporariamente o processo contra o pescador. Talvez tenha sido a coisa certa... Não por conta da calmaria que voltou à cidade nos tempos subsequentes, mas pela impossibilidade de haver alguma punição contra Lug. O banimento da cidade foi fortemente debatido, mas no final, foi condicionado a algum outro incidente. Que não ocorreu. Lug estava claramente protegido por e sob a influência de algo. Restava saber do quê.

    Peço desculpas se adiantei um pouco a sucessão dos fatos nessas últimas frases. Mas saibam que a não ocorrência de incidentes foi apenas parcial. A cidade, Lug, as famílias Mariel e Mines... Nada voltaria a ser exatamente como antes. Não mais. Nunca mais. Tenham certeza, aquilo infelizmente era o começo do fim. Por mais que esse fim tardasse, ele viria. Já passearam por Ghostlands? Se sim, entenderão exatamente do que eu estou falando - não é o lugar ideal para um pique-nique.

    Foi um dia de sol que se seguiu ao da sentença de morte não executada de Lug. O pescador agora inspirava medo na cidade toda. Ele saiu e caminhou por Othialla naquela manhã, indiferente aos olhares tortos, cochichos e mães afastando as crianças de seu caminho. Tão feliz estava que parecia haver nascido novamente. Da janela de casa, Shirà o observava se afastar em direção ao centro da cidade. Lug foi até o mercado, onde comprou vários pergaminhos, papiros, papéis de toda sorte, plumas, tintas, carvão... Comprou de um mercador vindo do sul, alheio à sua história. Um vendedor local provavelmente o haveria ignorado então ele teria que procurar os estrangeiros para as compras que o ocupariam pelo resto de seus dias. Lug almoçou pelo mercado e, pela tarde, foi ao seu barco para consertá-lo. Pretendia voltar a pescar, ainda que soubesse que ninguém mais na cidade compraria do seu peixe. Mas que importa? Venderia para outras localidades. De repente, até mesmo Wrebh poderia viajar para ele e vender nos povoados ao redor de Othialla. Apenas voltou pra casa quando o sol já preparava-se para se pôr. Estava ansioso para voltar ao mar e jogar as redes. E queria também pescar tubarão! Especialmente os tubarões-platina, temidos peixes que viviam nos mares do norte, chamados de fyrmendahr, "assassinos-do-mar". Eram pouco menores que os tubarões comuns, porém mais vorazes e agressivos. Sua carne era mais abundante e saborosa. Sim... Ele teria que ir atrás desses bichos nos próximos dias.

    Shirà continuava na janela quando viu o marido que despontava no horizonte. Talvez tivesse ficado lá o dia todo a sua espera. A bela mulher estava muito pensativa. É... Ela não era diferente do resto da cidade e estava com um certo medo do marido. Queria que ele tivesse sido executado e que tudo acabasse? Isso não aconteceu. E agora? Ira abandoná-lo? Shirà sentia-se extremamente culpada enquanto esses pensamentos lhe vinham à cabeça. Não! Não era o momento de deixá-lo. Talvez ele precisasse de seu apoio. Ela teria que enfrentar a sociedade, agora. Othialla contra eles. A troco de quê? Um misterioso acidente no mar. Causado por seu marido que foi onde não devia, atrás de uma pérola. Para ELA! Mais culpa. Uma lágrima rolou da escuridão noturna e infinita de seus olhos.

    Aceite Shirà. Você o ama. Não irá deixá-lo. E viverá com ele o seu tormento.

    ----------------------------------------------
    Nomes que aparecem nesse capítulo:
    - Fyrmendahr: "Assassino-do-mar": É um tubarão não muito grande, de corpo alongado, porém robusto. Ágil e agressivo, é um grande predador dos mares do norte. Tem o corpo com um colorido que vai do branco em sua barriga ao azul escuro em seu dorso, com listras platinadas que o camuflam no ambiente.

    -----------------------------------------------
    Impressão minha ou essa história tem leitor único (@Kenseiden)? Caso no qual ela será terminada com um RESUMÃO... Dá trabalho de escrever!
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    Muito bom esse capítulo 13. Espero que não termine a história num resumo, pô! Ta fikando massa, manoooooo!
    =D
    Continua aêeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee

    Flw!!
    "TU APRENDESTE A ARTE DE PULAR ALTO."


    -Agora pula



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