A sociedade de Rookgaard
Professor Girafales


Olá leitores! Meu nome é Ananias e eu vou contar para vocês uma história. Espero que gostem, pois os fatos que narrarei mudaram os rumos de minha vida.

Antes de começar com a história, devo introduzir um personagem muito importante. Trata-se do "mendigo". Chamo-o assim por não saber seu nome. Apesar de eu ter descoberto que ele não era realmente um mendigo, no início eu achava que ele era um. Sempre o via no centro de Rookgaard, onde ficava pedindo esmolas aos passantes. Ele andava com vestimentas maltrapilhas, estava sempre sujo e tinha um cabelo grande e desgrenhado. A sua enorme barba parecia mais uma continuação de seu cabelo. Eu nem conversava com ele, o conhecia apenas de vista, por ser uma figura muito peculiar.

Agora finalmente posso começar...

O início de tudo foi em um dia ensolarado e tranquilo - pelo menos aparentemente. Eu estava com vontade de explorar e resolvi ir à casa abandonada ao norte da cidade. As ruínas logo depois da ponte sempre foram um lugar amedrontador para qualquer explorador. Vez ou outra, alguns tolos se aventuravam nas partes mais profundas, e nesse dia eu fui um deles.

Os primeiros andares eram um lugar mais úmido e até aquecido. Seria tomado pela escuridão não fossem as inúmeras tochas de aventureiros que lá ficavam, enfrentando os trasgos numa guerra infinita. Parecia haver um fluxo infinito de monstros, e os humanos mortos eram prontamente ressuscitados pelos deuses em troca de um pequeno sacrifício. Já aconteceu comigo e é uma experiência difícil de explicar então não entrarei no assunto.

Bem... voltando a história... como eu havia dito, nesse dia resolvi ir aos andares inferiores. Rumores diziam que minotauros haviam estabelecido uma base nas profundezas da caverna e o local sempre foi evitado pelos guerreiros. Eu tinha muitos elixires de cura e estava bem equipado. Ao contrário do andar dos trasgos, o ar era um pouco mais seco, e o frio era cortante. Eu acendi uma de minhas tochas e fui explorando o sistema de cavernas, sempre alerta para qualquer movimentação estranha.

Foi quando vi o mendigo. Ele vinha do local para onde eu ia, e se dirigia para o andar dos trasgos. Eu não estranharia se tivesse visto um guerreiro com armaduras apropriadas, que estivesse preparado para um local tão perigoso. No entanto, o mendigo estava vestido exatamente como usual, maltrapilho, sujo, e um tanto quanto fedorento. Percebendo que eu olhava em sua direção com uma expressão de surpresa, ele apenas retornou um sorriso, e continuou seu caminho.

Após o ocorrido, continuei meu caminho por alguns minutos. Andava por algo que parecia ser um labirinto, e estava com a impressão de andar em círculos, minha caminhada não dava em lugar nenhum! Foi quando vi um corredor curto. Em seu fim havia um alçapão iluminado por uma chama trepidante que estava no andar inferior. Eu andava em direção ao alçapão quando fui surpreendido!

Um minotauro e um lobo começaram a me atacar. Com sua maça o minutauro desferiu um golpe em meu braço esquerdo. O lobo veio correndo e saltou em minha direção, mas eu consegui me esquivar. Saquei minha espada, protegi meu corpo com o escudo, e me virei em direção aos inimigos. O minotauro apenas observava enquanto o lobo veio novamente correndo. Esperei o animal pular e consegui golpeá-lo. Ele latiu esganiçadamente, um grito sofrido de dor. Ficou caído ali mesmo. Uma poça de sangue se formou envolta de seu corpo, ele estava fora de combate. O minotauro então gritou em uma língua estranha. O som estranho parecia algo como "kaplar".

Após o grito ele veio em minha direção, balançando a maça em golpes poderosos. Eu me desviei duas vezes, e da terceira usei o escudo. O monstro ficou desestabilizado, e foi quando aproveitei para golpeá-lo. Ao contrário do que eu esperava, o golpe não foi tão efetivo quanto contra o lobo. A batalha se seguiu, equilibrada, "lá e cá". Após alguns minutos, consegui furar a defesa e golpeá-lo. Dessa vez sim de forma efetiva. O minotauro agonizante gritou o estranho som mais uma vez, caiu de joelhos no chão e morreu.

Cansado pela batalha, com todo o corpo dolorido, tomei um elixir de cura. Eles dão uma ótima sensação de alívio. Todas as dores cessaram e eu me sentia como novo. Ainda assim, vacilei um pouco. Seguiria em frente ou voltava para a segurança da cidade?

Resolvi seguir em frente, e desci o alçapão. Ele dava numa sala ampla, iluminada por vários focos de fogo em sua parte central, ela era mais aconchegante que o labirinto na sala anterior. O fogo ajudava também a ver que o local era seguro, sem minotauros, lobos, ou qualquer outro ser hostil. O alívio foi grande. Vi uma escada de mármore no final da sala e fui em sua direção. Desci a escada com pouco cuidado e fui novamente surpreendido, dessa vez por uma emboscada de muitos minotauros. Sem tempo para reagir, fui fortemente golpeado inúmeras vezes, por golpes de maça e machado. Caí no chão e por lá fiquei. Por sorte não morri, apesar dos minotauros acharem que eu tinha de fato morrido. Muita gente preferiria a morte, para poderem experimentar a estranha sensação de sair do corpo e ir ao encontro dos deuses. Mas o que se seguiu valeu mais a pena... Achando que eu estava morto, os minotauros começaram a conversar em sua estranha língua nativa.

Um deles deu um grito estranho, e, de uma porta ao fundo, saiu um minotauro diferente. Esse tinha cabelo, meio ruivo. Usava um robe azul e segurava um cajado mágico. Certamente era o líder dos minotauros. Eles seguiram conversando, até que, pela escada veio outro humano. Não era um humano qualquer, mas o mendigo. Observei atentamente esperando que ele fosse atacado, para que eu pudesse ajudar. Mas, estranhamente, ele não foi... pelo contrário... ele e o minotauro líder começaram a conversar, em língua humana!

Fiquei completamente perplexo. Pensei em me levantar e sair dali o mais rápido possível, mas preferi ficar deitado e que todos achassem que eu estava morto. A conversa dos dois foi realmente reveladora... Havia uma associação chamada de "Sociedade de Rookgaard". Unidos aos minotauros essa associação visava a proteger inúmeros segredos da ilha, eles citaram a espada da fúria, como os minotauros tinham chegado ali, de quem eram os túmulos estranhos espalhados pela ilha, e porque havia um dragão morto em um túnel desmoronado.

Para proteger todos esses segredos, a associação plantava pistas falsas, desviando a atenção dos exploradores. Aprendi que o "labirinto da fúria" e a placa falando da humildade eram apenas distrações que desviavam os exploradores do verdadeiro caminho para a espada da fúria.

Após discutirem longamente, os minotauros e o mendigo entraram na porta de onde o minotauro líder saiu. Aproveitei a deixa e saí dali, correndo, o mais rápido que podia, voltando pela caverna. Pouco a pouco foram ficando para trás os andares mais profundos do calabouço, fui me aproximando da superfície. Ao perceber que eu estava novamente no andar dos tragos, senti uma sensação de alívio. Estive frente a frente com a morte e escapei. De quebra descobri muitas coisas novas, e nunca mais iria ver os segredos de Rookgaard, bem como seus habitantes, com os mesmos olhos.

Voltei para a cidade. Já estava anoitecendo, e, logo, os animais selvagens sairiam para a caça. O dia havia sido muito longo, cansativo. O melhor seria descansar... Fui para a taverna da Norma, pedi uma caneca da melhor cerveja e me sentei perto do balcão. Uma cerveja nunca havia sido tão gostosa.