A noite estava fresca, mas era impossível não cobrir-se de suor ao escalar aqueles rochedos. Era o tributo exigido pelo corpo por uma escalada tão cheia de ânimo. Além do mais, foi graças a estes brandos ventos, e o céu estrelado, sem nuvens, que Dilios pôde perceber o rastro de fumaça vindo lá de cima, e decidido finalmente o que faria.
Sua mente trabalhava rápido, estudando suas possibilidades. Analisava cuidadosamente as palavras de Odessa, proferidas - há quanto tempo exatamente? - momentos atrás. Fez um grande sacrifício, mas com algum esforço e um pouco de sorte recuperaria tudo. Por ora, concentrar-se-ia em chegar ao topo antes do alvorecer - precisava de tempo para fazer o que tinha em mente.
CAPÍTULO II: Histórias ao redor da fogueira.
- Você quer viver para lutar novamente?
- Q-Quem é...
- Responda a minha pergunta! Você faria qualquer coisa para lutar novamente?
- Por Castor e Pólux, obviamente!
- Que assim seja. Descanse agora.
O calor da fogueira agora incomodava Dilios, que logo perdeu o sono. Acordou desorientado, como se tivesse tido um pesadelo. Sua mente demorou para organizar-se e perceber que não reconhecia o local onde estava.
Com um pouco de esforço - todo o seu corpo doía - ele levantou o tronco e olhou à sua volta. Além da grande fogueira, nada mais havia naquela vasta planície com montanhas ao longe. O estranhamento que sentia fez com que se arrastasse para longe das chamas, que comprometiam sua acuidade visual. Feito isto, ele pôde perceber alguns objetos do outro lado da fogueira - fardos e utensílios domésticos, ao que parece.
Seu impulso em ficar de pé foi refreado quando ruídos denunciavam a aproximação de alguém. Mais de uma pessoa, já que emprendiam um diálogo. Fingindo dormir, ele concentrou-se em ouvir aqueles que se aproximavam. Finalmente, foi capaz de compreender os fonemas, que outrora pareciam proferidos em outro idioma.
- Quando estará pronto, bruxa?
- Paciência, cão dos falsos deuses. Eles terão mais do que me pediram, tenha certeza.
- É o mínimo que uma velha insignificante pode fazer por desafiar nossa paciência.
- Insignificante? Talvez, mas foram vocês que me procuraram!
- Veja, parece ter acordado!
- Mas ainda está debilitado. Do contrário, não mais o veríamos, embora não pudesse sair do meus domínios. Quanto desperdício... esse jovem grego seria um grande homem em seu mundo. E agora, alimentará os parasitas!
- Basta! Não vou mais tolerar estas blasfêmias, Odessa! É bom que ele esteja pronto quando eu voltar!
Não pôde precisar quanto tempo ficou adormecido, mas despertou sob os cuidados de uma horrenda velha. "Odessa", pensou ele, relembrando o diálogo que escutara. O que estaria acontecendo?
- Como está, contador de histórias? Lembra-se de mim, de minha voz?
- ...
- Em pouco tempo, estarás pronto para partir. Pronto para lutar de novo. Você gosta de histórias, sem dúvida as terá.
- Partir... Onde estou?
- Tudo será explicado. Ou pelo menos, o que precisará saber. Por ora, concentre-se em recuperar suas forças.
Tinha chegado finalmente ao topo, e se esgueirado até um local seguro. Aproximou-se cautelosamente do local, onde ardia uma pequena fogueira. Posicionou-se estratégicamente em meio às sombras, e por um tempo observou Lisandro e Ágis, seus antigos companheiros, que conversavam despreocupadamente. Nenhum sinal do pérfido Theron. "Contam histórias ao redor da fogueira, como se pudessem se orgulhar de seus atos!"
- "...Então, Derrida cravou sua espada no coração da divindade, e sua poderosa voz não pôde ser ouvida novamente. E ele prosseguiu, desmembrando-o, arrancando sua pele, os ossos que o sustentavam. Feito isto, observou cada um daqueles pedaços, como cada parte formavam um todo tão grotesco. E finalmente compreendeu a metáfora em que tudo aquilo consistia, registrando tudo nas linhas que leio neste momento..."
- Bela história. Quem sabe um dia poderei contar histórias tão grandiosas.
- E poderá, assim que estiver pronto para partir, Dilios. Mas por ora, concentre-se em aprender mais sobre os deuses e os mundos. Atente para a sabedoria dos homens de outras épocas. Ouça o canto dos aedos
e rapsodos
de todos os lugares, a harmonia das esferas celestes...
- Passe-me a cítara, então. Quero praticar um pouco mais, Odessa...
Nada de Theron. Mas ele não teria mais tempo a perder. Preparou sua lança, contruída anteriormente. Arqueou seu corpo, posicionando-se para o arremesso, e gritou a plenos pulmões. Os malditos deveriam estar cientes da própria morte.
- Lisandro!
Os dois jovens voltaram-se para Dilios, mas infelizmente para Lisandro, ele só teve tempo de ver a lança penetrando seu tórax. Ágis mal teve tempo de reagir, pois seu inimigo já corria em sua direção, como uma serpente preparando o bote. Em poucos segundos, Dilios já estava sobre ele, socando seu rosto.
- Traidores! Que a vergonha cubra vossos nomes, e que o medo desperte em suas almas! Pois estou aqui para puní-los! Agora, criatura vil, onde está o maior dos vermes, Theron?!
- P-Por favor... Não... E-ele está na c-caverna! Poupe...
O pescoço de Ágis emitiu um ruído característico. Dilios retomou sua lança e dirigiu-se à pequena caverna à sua frente.
- Então o belo Dilios retornou do Hades para vingar-se?
A caverna era pouco iluminada, mas ele pôde perceber que seu arremesso fora certeiro; a lança que arremessou antes de ser jogado no abismo transpassara Theron no abdome, que morreria lentamente devido à hemorragia. "Mas era o mínimo que um traidor deveria sofrer", pensou Dilios, ao ser acometido por um breve instante de piedade.
- Espero que a caça tenha valido a pena, Theron. Porque suas fétidas carcaças alimentarão as feras deste lugar. Quanto às suas almas, não preciso falar sobre seu destino, não é?
- Sua lingua sempre foi muito ligeira, Dilios. E incansável. Mas você não tem a frieza necessária de um guerreiro. Não há honra quando sua vida se esvai com o vapor da respiração. Você vai voltar para casa, e terá histórias para contar. Mas não vivemos de histórias, mas de sangue e morte. Faça o que tem de fazer, espartano, pois não temo meu destino. Eu o enfrentarei como um homem. Mas poupe-me de sua ética ateniense!
- Morrer rapidamente seria uma dádiva para alguém como você, Theron. Mas não negaste o mesmo para Licurgo? Morrerás, mas lentamente, vítima de teus ferimentos e do ataque dos lobos.
- Que assim seja. Mas responda-me, maldito, como escapaste da morte? Os ferimentos de seu corpo eram o bastante para matá-lo antes de chegar ao solo. Sobreviveste? Voltasse realmente do Hades? Responda-me...
- ...Então ainda não fiz minha escolha?
- Ainda és uma criatura em transição. Mas breve decidirás entre ganhar uma nova chance, longe de tua terra, ou morrer definitivamente, como é esperado de crianças que caem nos abismos...
- E quanto a Toth?
- Quando saíres deste lugar, voltarás ao lugar em que morrestes, e terás até o alvorecer para escolher o caminho que trilharás. Se escolheres viver, ele será o teu guia. Mas não o afrontes quando lá estiver. Ele é apenas um humilde servo de seus criadores aqui, mas em seu mundo ele é o Senhor dos Vermes
, uma divindade menor, responsável pelos mortos.
- Já tomei minha decisão, Odessa. Por mais desprezível que Toth seja, irei com ele, e terei uma nova chance. Poderei um dia voltar a este lugar, para contar-lhe mais histórias, ou, com ajuda dos deuses, retornar ao meu mundo. Além do mais, você tem um negócio com ele, não é mesmo? Precisa que eu opte por partir para que recebas sua parte no acordo.
- Dilios, meu caro, acha que faço isto porque necessito? Vais aprender porque escolhi você, e tantos outros. Basta encontrá-los, e entenderá minhas razões. Mas saiba que sua alma me valeria muito mais do que estou recebendo por ela...
Não sabia quanto tempo se passara, mas tinha aprendido muito desde que chegara ao reino de Odessa. E em breve estaria livre para partir. Retomaria finalmente sua agoge
, embora longe das montanhas gregas. Mas isto não mais importava diante da chance de conhecer coisas novas, de acumular toda a sorte de experiências. Além disso, em seu íntimo ele sabia que em qualquer lugar que estivesse, sua origem refletir-se-ia em suas ações.
Chegado o dia de sua partida, ele devolveu seus pertences a Odessa, contentando-se com a capa rubra que trouxera. Não poderia carregar tanta coisa em seu treinamento, deveria aprender a se virar sozinho.
- Obrigado por tudo, Odessa. Escreverei algo em vossa honra.
- Podemos deixar de sentimentalismo, garoto?! Não temos temp...
- Calado, Toth. Ainda não tens, e nunca terás poder sobre minha vontade.
- Isso é o que veremos, herege!
- Não o ouviu, maior dos vermes? Deixe-nos em paz! - Foi a velha que interrompeu. - Estarei te observando, Dilios, e sei que minha escolha não foi equivocada. Agora, siga esta criatura arrogante e retorne ao seu mundo. Lembre-se de que a escolha que fará não será tão fácil quanto aparenta! Pese bem os prós e os contras de cada opção...
- Sim, eu o farei. Até um dia!
Dilios acordou momentos após a sua morte. Olhou para as duas saídas do desfiladeiro: uma era envolta em sombras, e o levaria ao Hades; e a segunda, na qual Toth esperava impaciente, o levaria para um outro plano. Ele já tinha tomado sua decisão, mas demoraria um pouco mais, só para irritar o Senhor dos Vermes.
Ele contemplou o céu de sua pátria, repleto de estrelas, sem nuvens. Os deuses estavam bem humorados, pois os ventos inclementes haviam amainado. Contemplou tempo suficiente para perceber uma tênue linha de fumaça vinda do local onde lutara, momentos atrás, e finalmente deu-se conta de que estava vivo, e de que seus assassinos se encontravam no topo da montanha. Após um sorriso irônico para o irritado Toth, ele iniciou sua escalada.
- E então, Dilios! Como conseguiu sobreviver?
- ... Você estava certo, Theron. Retornei do Hades não somente para vingar-me. Os seres inferiores enviaram-lhe um recado.
- E-E o que diziam?
- Que aqueles que derramaram o sangue de seus irmãos irão saber o pleno significado da dor. Seus nomes serão eternamente lembrados por seus companheiros, e serão sinônimo de vergonha. Seus ancestrais cairão em opóbrio, seus parentes, exilados. E no mundo dos mortos, serão açoitados por todos aqueles que envergonharam, e que perderam sua vida. Vivenciarão eternamente o momento, em que por um mísero pedaço de carne, tingiram de lama a reputação dos descendentes de Héracles!
- V-Você mente, Dilios!
- Não minto, Theron, e você sabe disso. Logo os lobos famintos farejarão os cadáveres de Lisandro e Ágis, e encontrarão você. Enviados pelas almas por vocês desonradas, o devorarão lentamente, para que sinta a dor de cada momento. No fim da
agoge, nossos instrutores reconhecerão seus restos, e compreenderão o que se passou. Tenho pena do que ocorrerá a vocês, Theron. Mas sou apenas alguém com uma língua ligeira e incansável, não é mesmo?
- Por favor...
- Nada mais tenho a fazer aqui. Está ouvindo os lobos uivarem, espartano? Pois enfrente seu destino como um homem!
Dilios esperou mais alguns momentos antes de seguir Toth. Queria ver Helios tocando pela última vez o solo de sua terra.