Blx, Cap. 3 agora.
Cap. 3 – A Dama de Copas.

Orbita de Júpiter. 16 meses atrás.
Na pequena sala da velha nave espacial Bebop, um sofá e uma poltrona amarelos e um compartimento retangular de metal improvisado como mesa fazem a decoração. Com seu cigarro na boca, Faye está deitada no sofá olhando o lento girar do ventilador de teto. Na mesa tosca, um computador está ligado e sendo usado pela pessoa sentada na poltrona, Jet Black.
- Faye, olha isso aqui... – quebra o silêncio pesado e frio que pairava entre eles.
Ela levanta seu corpo lentamente, dá uma grande tragada no seu cigarro e olha para ele de forma sonolenta. Ao invés de andar até perto de Jet para visualizar o que ele queria, ela engatinha por cima da mesa como uma felina, encostando seu rosto no dele e prensando seus seios no monitor.
- O...Olha... Olha no monitor... – gagueja Black com o rosto corado e uma agradável sensação abaixo de seu umbigo.
A grande massa de fumaça sai dos peitos de Faye para o rosto dele e seu queixo encosta-se ao seu tronco para olhar o que o monitor mostra.
Nome: Desconhecido
Recompensa: W$40.000.000,00
Crimes: Homicídios, estupros e torturas.
Descrição: Conhecido como Extreme Danger, ...
“Ai meu Deus...”. O cigarro cai da boca dela, deixando um rastro cinza no ar.
- Quarenta?! – pergunta ela incrédula, girando seu corpo para fora da mesa, ficando de pé ao lado de Jet – Você tem certeza que a quantidade de zeros está certa?!
Com um movimento simples de cabeça ele responde a pergunta desesperada de Valentine. Esta, abaixa seu corpo na altura do monitor para memorizar a aparência do homem, mostrada em uma foto, e indaga para Black:
- Certo. – Ela faz uma pausa para se recuperar da surpresa e da euforia em que estava - 30 para mim, 10 para você.
- Nada feito. – fala com firmeza. – Que tal 25 para mim e 15 pra você?
- O contrário. E eu o pego sozinho. – propõe Faye.
- Fechado. Mas vou te orientar... – diz enquanto se levanta da poltrona para ir a cabine pilotar a sua nave.
* * *
No maior cassino da Constelação de Andrômeda, localizado no planeta XY32, Valentine, com seus olhos de rapina cobertos por óculos escuros, procura o homicida de 40 milhões de Woolongs por entre as mesas de Blackjack, Poker ou as barulhentas máquinas de caça-níqueis.
- Faye, você leu a descrição do que o cara faz? – A pergunta de Jet Black sai no ouvido direito de Faye, por um intercomunicador.
- Só sei que ele matou várias mulheres... Mas isso não faz nenhuma diferença. – responde impaciente.
- Ele as tortura antes de matar e eu ach...
“Cabelos negros, pele morena, cicatriz na bochecha, terno listrado e uma tatuagem de um coração na mão esquerda... É ele!”. Pensa Jet ao parar subitamente de falar quando vê nas telas de sua nave, que transmitem as câmeras de segurança interna do cassino, o homem procurado.
- Faye! O cara está na mesa de Blackjack jogando! – exclama.
- É, eu já vi.
- Ei! Cuidado... – previne ele com normalidade.
- Haha! Virou meu pai? – pergunta ironicamente ela – Eu vou pegar essa grana... E não saia da Bebop, Jet.
Ele ri para si mesmo e acompanha na tela o caminhar dela rumo a recompensa. “De acordo com a ficha, é só chamar a atenção dele... Fácil.”. Faye anda até a mesa e senta ao lado de Extreme, este a olha dos pés a cabeça, admirando o lindo vestido preto, que cai perfeitamente no seu corpo escultural, e o seu decote provocante.
- Senhor? – pergunta a Crupié ao homem hipnotizado pela beleza de Faye. – Senhor??
O homem vira para a mulher que fala com ele, a examina por alguns segundos, escancara o seu sorriso de satisfação e diz:
- Que pena! Você é extremamente linda, mas não vai ser você... Eu já achei a minha rainha. – fala virando-se para Valentine. Esta olha assustada para a feição psicótica do homem, mas consegue forçar um sorriso. Então, num movimento repentino, ele se levanta e tira uma pistola de sua cintura, encostando-a na cabeça de Faye. Ao sentir o cano frio da arma em sua testa, ela arregala ainda mais os olhos e tira sorriso do rosto.
“Perfeito!”, pensa Valentine, ainda assustada com aquele homem esquisito que, em meio aos gritos das pessoas, a carrega para fora do cassino, se afasta do movimento e chega em umas ruas desertas e mal iluminadas.
Chegando no final de um beco sem saída, o homem abaixa a pistola se afasta um pouco de Faye e diz:
- É uma pena ter que te matar... Mas pelo menos você, diferentemente das outras, vai saber porque morreu. – diz Extreme num tom de voz melancólico.
Faye não responde e evita sacar a sua arma naquele momento. A curiosidade estava a consumindo e isso faz com que a recompensa saia de suas mãos por um tempo, o suficiente para escutá-lo. Ele não notou a normalidade com que Valentine enfrentava o caso, a emoção de ter completado seu objetivo realmente o deixava cego em relação ao mundo em volta.
- Bom, você vai achar besteira, mas para mim tem um grande significado. – começa a falar Extreme. – Quando eu era pequeno, meu pai dizia que conseguiu se casar com minha mãe graças aos onze relacionamentos que teve antes de conhecê-la. – ele não tirava os olhos do chão e sua mão direita alisava seu braço esquerdo, levantando e abaixando a manga do seu terno rapidamente. – Todos esses relacionamentos foram como cartas de baralho, onde os menos importantes eram as cartas mais baixas e os mais importantes as mais altas... – a cada pausa que ele faz, solta uma pequena risada e depois expressa raiva, como se não soubesse o que realmente estava sentindo. – Quando ele encontrou minha mãe, ele tatuou em seu peito uma carta de Rainha de Copas, representando-a. Depois... Ele tatuou em seu braço outras nove cartas do mesmo naipe, representado os seus outros relacionamentos... Com exceção do rei, tatuado nas suas costas, que o representava. – ele levanta a cabeça e revela dois olhos extremamente vermelhos, um fio de baba escorre no canto da boca e esta projeta um riso espalhafatoso, mas mudo.
- E eles viveram felizes até a morte... – outras risadas aterrorizantes saiam, fazendo os pelos da nuca de Faye eriçarem.
- Pena que tive que matá-los, como todas as outras onze mulheres que já matei... – ele pára de rir e uma expressão demoníaca surge em seu rosto. Com as mãos ágeis, ele arranca o seu terno deixando seu tronco desnudo, revelando varias tatuagens em seu corpo. – Como você pode ver... Eu representei todas aqui... – diz apontando para as onze cartas do naipe de copas, do Ás ao Valete, tatuados em seu braço esquerdo e para o Rei e a Rainha de Espadas tatuadas nos seus ombros. – E essa daqui, - Seu rosto perde a expressão séria e suas sobrancelhas chegam a levantar com a alegria que toma seu corpo. – é inteirinha para você! – diz apontando para a Rainha de Copas em seu peito.
Os olhos de Faye tremem, sua mão fica estagnada, suas pernas congelam no asfalto frio daquele beco e seu coração começa a acelerar de forma frenética diante daquele show de paranóia. Os passos que Extreme dá em direção a ela ecoam por entre as paredes que a cercavam.
- “Sorte no amor, azar no jogo”... “azar no jogo, sorte no amor”. – reflete o homem ao tirar uma pequena faca de seu bolso. – Nunca funcionaram comigo esses ditados. Sempre foi “Azar no jogo, azar no amor”... Eu só queria ter sorte no amor como meu pai...
“80 milhões de Woolongs! O que eu to fazendo parada aqui?!”. Faye desperta do desespero e tira sua Glock de uma abertura do vestido, localizado na barriga, apontando-o em seguida para Extreme Danger, fazendo-o parar.
- Sabe porque você não consegue mulheres? – pergunta retoricamente Faye. – Porque você é feio e sua cabeça maluca vale muito dinheiro! – exclama de forma arrogante, atirando na faca que ele carrega, fazendo-a voar.
Seus olhos tomam uma expressão de medo ao ver a sua Rainha armada e pronta para matá-lo. Seu raciocínio congela com a situação desfavorável que ele se encontra e a sua pistola cai de sua mão esquerda, que não tinha mais forças para segurá-la. As palavras foram a punhalada suficiente para derrubá-lo. Seu objetivo teria que ser adiado, a morte da última carta para conseguir o amor eterno ia esperar.
- Jet, pode vim. Acabou. – diz Valentine pelo intercomunicador.