A História de Ralf Greenwood
Índice
Prólogo - (logo abaixo)
Capítulo 1 - Bolo e Histórias
Capítulo 2 - O pórtico de partida
Capitulo 3 - Conselhos e Destinos
Capítulo 4 - Silêncio na Floresta
Capítulo 5 - Aranhas e pássaros
Prólogo
Era uma vez um homem, que vivia numa casa. Não era um barraco miserável nem uma mansão de luxo. Era somente uma pequena casinha, de madeira, na orla da floresta. Essa floresta era grande, extensa. Não era sombria, como a maioria das florestas da época em que se passa nossa história; e sim aberta, cheia de pequenos vales e montes arborizados, onde corriam riachos e ribeirões. Cheia de pássaros e outros pequenos animais. Ótima para fazer piqueniques na primavera ou caçar no outono.
Como eu ia dizendo, havia um homem que morava numa choupana, na orla da floresta. Esse homem não era pobre, embora não fosse abastado. Vivia bem, muito obrigado. Caçava e forrageava na floresta, vendia as peles para o curtidor da vila e o excesso de carne para outros habitantes, além de ter uma pequena plantação ao lado de sua casa. Mas fazia-o somente para sobreviver. Na maioria do tempo, ficava perambulando pelo vilarejo contando histórias e ouvindo outras.
Amava histórias, principalmente as que contavam aventuras gloriosas, com grandes heróis e feitos destemidos. Ele mesmo nunca tinha participado de nenhuma grande aventura, nem almejara tal coisa, mas sabia como ninguém relatar os feitos heróicos de outros e tinha uma platéia fiel a cada Festa de Primavera. No entanto, nosso homem não possuía muitos amigos. Talvez pelo seu temperamento inquieto demais, ou por ter o estranho hábito de não receber ninguém em casa. Certamente, o fato de ter dificuldade em ficar quieto, ou de fazer inúmeras perguntas, muitas dessas incômodas e invasivas, contribuía grandemente para essa falta de amizades.
Ralf Greenwood não era conhecido por sua hospitalidade, nem pela sede de aventuras. Mas, nossa história é sobre como Ralf viveu sua grande aventura, fez amigos e, inclusive, começa com ele recebendo pessoas em sua casa, na orla da floresta. Porém, nada no céu melancólico do final do outono indicava que alguma mudança ocorreria para o homem. Já tinha obtido a carne que precisaria para o inverno. Estava tudo salgado, na despensa. Estava ocupado em cortar lenha, e arrumar a lenha cortada em uma grande pilha, que aumentava a cada hora, ao lado de sua casa.
Os sóis - sim, pois nossa história passa em um mundo em que há dois sóis - estavam no final do seu percurso e um ar frio pairava na floresta. Uma neblina incomum tocava as árvores, e uma brisa gélida levantava as folhas marrons e vermelhas que atapetavam o solo. Nada que preocupasse realmente o homem, que continuava a cortar o pedaço de madeira com seu machado enferrujado.
De repente, o som de muitos passos encheu a floresta. “Estranho, o que será?” pensou Ralf, apoiando o corpo suado no machado. Não era comum que pessoas passeassem pela floresta, não essa hora do dia. “Talvez uma caçada que ainda não rendeu o que tinha de render? Mas tão tarde...”. O barulho de passos aumentava. Subitamente, dois vultos se tornaram visíveis, figuras escuras na névoa branca, saindo do abrigo das árvores. Estavam andando calmamente, mas seus passos faziam um barulho alto, o que indicava que, ou não estavam caçando, ou eram terríveis caçadores, o que explicaria uma caçada ineficaz e longa.
Depois de alguns instantes, Ralf conseguiu ver direito cada um. O primeiro era alto, com cabelos e barba brancos e feições velhas. Tinha um chapéu vermelho de abas largas. Seu corpo era envolto numa capa vermelha, de aparência frágil e usada, mas o velho não tremia de frio, como se fizesse pouco caso da temperatura. Estava apoiado num cajado marrom, feito de alguma madeira nodosa.
Era seguido de perto de uma criança, que estranhamente era barbada e tinha uma cara mal-humorada. A compreensão veio logo depois. Com certeza era um anão, embora Ralf não tivesse visto nenhum desde que tivesse nascido. O anão tinha prendido a grande barba marrom bifurcada no cinto de ouro. Carregava uma maça de espinhos pesada. Sua armadura de anéis batia nos joelhos e seu capacete era adornado com dois chifres reluzentes. Um escudo estava amarrado nas costas, junto da mochila.
Eles vieram calmamente, até o atônito homem. O velho estava discutindo alguma coisa com o anão, que resmungava algo enquanto coçava a barba e lançava olhares suspeitos para Ralf. Este largou o machado no chão e, como que obrigado por uma força maior, foi de encontro aos dois estranhos. O velho parou de andar e sorriu. Apoiou-se no cajado e soltou um suspiro de contentamento, como se tivesse achado algo intensamente procurado.
-Salve, Ralf Greenwood, eu sou Arthur, e estou prestes a te dar a melhor história que possa imaginar!
Capítulo 1 - Bolos e histórias.
Capítulo 1 - Bolos e histórias.
Ralf não saberia dizer depois porque acolhera dois estranhos em sua casa. Talvez pela cara respeitável de Arthur, ou a carranca mal-humorada de Helidan impedira que ele não o fizesse. Com certeza, a promessa do velho sobre a história maravilhosa pesou muito. O fato é que, menos de um quarto de hora após conhecer os dois, eles estavam acomodados na sua sala escura e esfumaçada.
Bom, acomodados talvez não seja a palavra certa. Helidan estava num tripé de madeira gasta, se equilibrando parcamente, enquanto tomava goles de cerveja amarga. O velho, sentado na melhor cadeira que Ralf tinha, fumava num grande cachimbo uma erva desconhecida ao dono da casa. Este estava compenetrado em aquecer na pequena lareira um pouco da carne estocada para o inverno. Na mesa, coberta com uma toalha remendada em muitos pontos pelo próprio anfitrião, uma cesta de pães e um belo bolo que o jovem tinha preparado anteriormente para comer depois da ceia.
Uma das coisas sobre Greenwood que não contei para vocês é que ele é simplesmente tarado por bolos. Comia-os vorazmente, sabia como ninguém fazer um e, deixar que desconhecidos comessem um em seu lugar era, talvez, o ato de maior gentileza que já tinha feito em sua vida. Ainda mais, tendo que ele mesmo ver os desconhecidos comerem.
Afastando o prato vazio, depois de um lauto “lanche” que deixara todos mais que satisfeitos, Ralf soltou um suspiro profundo. Ele mesmo não sabia se era por estar curioso pelos desconhecidos, ansioso pela história ou horrorizado pela ferocidade e rapidez com que os visitantes devoraram o bolo. Virou-se calmamente para Arthur, que tomava mais um gole de cerveja. A barba branca do velho estava impecável, diferentemente da sujeira que Helidan chamava de barba, cheia de migalhas de bolo e molhada.
O vento frio do outono batia nas janelas de madeira e couro. Ouvir o barulho dos galhos da floresta perto, enquanto ficava na pequena sala aquecida pela lareira era muito confortável. Arthur acendeu novamente o cachimbo, esfumaçando ainda mais a sala, e preenchendo o recinto com um cheiro doce. Ralf pigarreou, atraindo atenção de todos. Subitamente, estava muito nervoso.
- Bem, qual seria exatamente a história e o que, digo, quem são vocês? – perguntou o jovem, nervoso. Tentou não deixar transparecer a ansiedade pela história, mas não conseguiu. Helidan lançou um olhar desconfiado para Ralf, que tremeu e desviou os olhos. O velho riu do gesto, enquanto tragava mais um pouco. Fez um pequeno gesto para o anão, como que sinalizando que ele iria contar.
- Vou responder a primeira pergunta primeiro, talvez ela seja a resposta da segunda. A história que vou contar, na verdade, é só parte da fabulosa história. A outra parte, você será capaz de contar. Sim, você. Agora escute e preste bem atenção.
“Há muito tempo mergulhei nos mistérios desta ilha. Dediquei-me inteiramente a isso. Por diversas bibliotecas de diferentes tamanhos procurei. Inúmeros pergaminhos desbotados e empoeirados, escritos em línguas hoje esquecidas, li. Ouvi das mais bizarras criaturas depoimentos assombrosos em diferentes dialetos. Por todo reino de Thais fui reconhecido pelos meus esforços.
Devido à fama, o rei Tibianus II me convocou ao seu suntuoso castelo. O verão começava a despontar e eu estava de partida para o templo das flores. Em meio aos seus conselheiros mais distintos, me incumbiu de eliminar o mal dessa ilha. Entenda, não todo o mal, pois isso é impossível. Ele me mandou eliminar O mal.”
Nessa parte, o silêncio pesou na pequena sala. Helidan encarava Ralf, que por sua vez mirava fascinado o velho homem. Todos pareciam presos as palavras dele. Com um pigarro, Arthur retomou a narrativa da história.
“Fui aconselhado por Seymour, um dos habitantes mais velhos da ilha a aceitar Helidan, o anão, como companheiro. Desde então, já vasculhamos toda essa floresta, não encontramos nada. Não que eu esperasse encontrar algo, na verdade sim eu esperava. E encontrei. Encontrei você Ralf.”
Arthur terminou a história olhando fixamente para Ralf que estava todo branco. Suas mãos suadas agarravam o banquinho. Seus olhos brilhavam. Por Crunor! Uma das melhores histórias que já ouvira. Na verdade, o possível começo de uma... Derrubar o Mal! A serviço do Rei! Claro que o velho não soubera contar bem, não tinha dado emoção, nem riqueza de detalhes. Mas que história boa!
- Bem, pelo que eu entendi vocês estão aqui para eliminar o mal de Rookgaard, mas, o que exatamente é esse mal? E, porque queriam me encontrar?
Nesse momento, Helidan encarou o velho com uma expressão mal-humorada. Parecia incomodado com a última pergunta, como se também perguntasse a Arthur o porquê de estarem ali. O velho riu e olhou para o jovem imberbe com seus olhos pretos. Uma luz incandescente parecia emanar deles. Ralf não sabia dizer se era uma luz própria ou as chamas da pequena lareira refletidas.
- Você sabe, Ralf, que mal é esse – falou Arthur num sussurro. O mundo em volta silenciou. Até o crepitar do fogo cessou – Ele é comentado por todos, nunca diretamente, embora esteja sempre presente. Ele é usado para amedrontar crianças na hora de dormir. E você sabe quem é.
Ralf olhava, aterrado para o velho. O coração pareceu congelar no peito. As entranhas estavam dando uma volta pela floresta e o corpo tremia, como que de frio. Quis falar algo, mas sua garganta estava seca. Lambeu os lábios e mordeu a parte interna da boca, consternado. Não queria saber a resposta da segunda pergunta, pois já podia adivinhá-la.
Arthur suspirou e recostou na cadeira. Sua capa surrada caía por seu corpo e um cansaço enorme era visível em seu rosto. Pareceu envelhecer trinta anos. De repente, pôs-se de pé num salto, o cansaço sumira e uma estranha energia parecia ter se apoderado do seu corpo. Olhou para Helidan de relance e virou-se para o anfitrião.
- A sua pergunta segunda pergunta é mais difícil de responder. Não que realmente tenha uma resposta. Há coisas entre o céu e a terra que somente Fardos e Uman entendem. Tive um sonho, caro Ralf. Nesse sonho você aparecia, já velho, contando para uma criança suas aventuras.
Ralf percebeu a ênfase no “suas”. Mas ele ainda estava divido. Sabia o que viria em seguir. E, mesmo começando a ter um enorme respeito por Arthur, sentia um enorme pavor se apoderar dele. Seus pensamentos vagueavam pelos contos, poemas épicos. A possibilidade de participar de um era por demais tentadora. Mas a quase certeza de uma morte extremamente dolorosa não lhe aprazia muito. Vendo essa indecisão, Arthur se curvou. Seu nariz adunco ficou a centímetros dos olhos escuros de Greenwood.
- Pense Ralf. Você, contando para todos no Festival de Verão sobre as suas aventuras. Imagine o que terá para contar! Contratado pelo próprio rei para destruir O mal! A glória de poder alardear aos quatro ventos que garantiu a segurança da vila e da ilha!
Os olhos do velho prometiam aventuras inimagináveis. Helidan estava sentado, com sua cara feroz, um escudo contra os desafios da viagem. Agora Ralf via claramente o esboço da melhor história que já tinha existido. O jovem se decidiu.
Capítulo 3 – Conselhos e Destinos
Capítulo 3 – Conselhos e Destinos
Se Greenwood prestasse um pouco de atenção ao ambiente, veria que estava num corredor de pedra. Uma pequena tocha na parede da esquerda servia de iluminação. À direita, um vão escuro e um forte cheiro de mofo indicavam que a famosa biblioteca era ali. E, do lado oposto ao pórtico de entrada, o corredor continuava.
Mas Ralf não prestava atenção no lugar, seus olhos assustados estavam voltados para os três outros ocupantes do recinto. Sentados em bancos com estofamento vermelho, atrás da terceira figura, Helidan e Arthur assistiam a cena se desenrolar com interesse. Segurando o braço do jovem, estava um homem alto e magro, que Greenwood reconhecia vagamente. Seus cabelos eram castanhos e seus olhos verdes. Usava uma capa azul escura de um tecido caro. A camisa de linho branco e o cinto de prata adornado com pedras preciosas revelavam que o homem era abastado. Um sorriso largo estava estampado na cara dele.
- Olá, olá, olá... senhor Greenwood. – falou o homem, com os olhos verdes brilhando. Subitamente, a mão relaxou e o jovem conseguiu se desvencilhar – meu nome é Seymour, Sir Seymour, se por acaso você não sabe, o que seria surpreendente, dado que todo mundo me conhece, e eu conheço o distinto contador de histórias-que-mora-numa-cabana-afastada. Estava ouvindo a tarefa, digo, a mui valorosa e prestigiosa missão designada pelo próprio rei! Que honra fabulosa!
Ralf não pode deixar de notar que o discurso adulador continha pontadas de um sarcasmo divertido. Mesmo assim, gostou de imediato do bibliotecário. Parecia poder achar graça em qualquer situação, mesmo que desesperadora. Suas piadas e tiradas eram conhecidas na vila quase tanto quanto as histórias do jovem. E, mesmo Greenwood não sabendo na hora, por trás dessa carapaça humorada, Seymour detinha um conhecimento fantástico sobre as coisas que aconteciam e aconteceram no mundo.
- Olá, Sir Seymour. – respondeu Ralf, coçando o braço dolorido. Virando-se para os outros dois ocupantes do recinto, disse – E, oi para vocês também. Desculpem pelo atraso.
- Ralf, meu caro! – disse Arthur, levantando-se da cadeira num salto. Helidan permaneceu sentado e calado, com suas pernas envoltas com a calça metálica balançando. O velho se aproximou de Greenwood, com sua capa vermelha esvoaçando atrás. Seus olhos se voltaram rapidamente para a cara carrancuda de Helidan, passando por segundos pela face sorridente de Seymour até chegar nos olhos de Ralf. Este por sua vez, teve a mesma sensação de estar sendo lido como um livro que tivera da primeira vez. – Bem, aqui estamos reunidos, pelas causas que todos sabem. Os motivos nós sabemos, a finalidade também. Agora, cabe a nós decidir como temos de fazer o que precisa ser feito. Para esse intento, estamos juntos na digníssima biblioteca de Sir Seymour, o sábio.
“Quanta enrolação” pensou o jovem, observando o velho discursar. Helidan mantinha a cara fechada e o sorriso de Seymour aumentou um centímetro, ao ouvir o elogio para ele dirigido. Ralf se obrigou a prestar atenção em Arthur, ao invés de olhar para as paredes do local.
- ... e, ninguém, ninguém mesmo, poderia nos ajudar, e auxiliar a si mesmo desse modo, mais do que Sir Seymour.
- Obrigado pelas palavras, caro Arthur, nobre mago, conhecedor dos mistérios e conselheiro amigo nas horas de necessidade – falou o bibliotecário, com uma pompa falsa, imitando a do velho, fazendo Ralf abafar um risinho. – Quero realmente ajudar vocês. Como bem disse o nosso camarada, não sou conhecido por minhas doações de dinheiro ou armas, mas sim por meus conselhos, dos quais falarei a vocês agora.
“Primeiro de tudo: nunca desistam, não importe a dificuldade em que estejam. Se tentarem desobedecer a ordem real, estarão em maus lençóis reais quando voltarem. Nosso mui amado e estimado rei não costuma ser generoso com desertores, e tem uma memória prodigiosa no que diz respeito a ofensas e faltas cometidas contra si. É melhor morrer como herói numa aventura do que um traidor da pátria em praça pública.
Segundo: apesar de terem Helidan como escolta, levem mais um guerreiro. Os perigos à frente são mais terríveis que vocês pensam. Eu recomendaria Ethoin, Escudo-que-não-quebra, um dos melhores guerreiros presentes na ilha. Mas Ethoin saiu a mais de duas semanas pela floresta de Drimwood e ainda não voltou.
Terceiro: vocês encontrarão amigos na jornada, da forma mais improvável. Cuidado com quem falam! Ele tem muitos espiões por ai. Nada é o que parece, desconfiem de todos e de tudo.
Quarto: velhas histórias e lendas sempre têm um fundo de verdade. Lembrem-se de que toda história tem um significado oculto. Escutem o uivar do lobo e o ulular do vento com atenção.”
Seymour parou de falar, sério. O sorriso já não estava em seu rosto. Seus olhos transpareciam uma sabedoria imensa e uma tristeza profunda. Seu coração dizia que todos os três iriam sofrer antes de completar a tarefa, se conseguissem completar. Olhou para a face ansiosa de Ralf, que ponderava sobre os conselhos dados. “Pobre homem, nem sabe em que está metido” pensou o bibliotecário. Seymour, mesmo sendo sarcástico e irônico, tinha um bom coração, por isso decidiu ajudar os três da melhor forma que pudesse.
- Acho que vou ter que dar mais do que conselhos para que vocês possam realizar a missão sem muitos problemas. Tenho equipamentos e armas que serão de grande valia nos perigos a frente. Se quiserem me seguir, por favor. – pediu.
Helidan se levantou com a mesma expressão de sempre. Arthur seguiu o bibliotecário pelo corredor, junto com Ralf, que refletia bastante nas palavras ditas há poucos segundos. Os passos do grupo soavam secos, abafados na pedra. Os archotes que ladeavam o corredor tremeluziam, lançando sua luz vermelha sobre a pedra escura das paredes. O cheiro de mofo foi ficando mais fraco, conforme a passagem para a biblioteca se distanciava.
O corredor acabava numa sala quadrada, também de pedra. Ela era desprovida de qualquer móvel, o que dava uma sensação de vazio, mesmo o espaço sendo pequeno. Duas escadas, uma levando ao andar de baixo e outra ao de cima, estavam encostadas na parede a esquerda. Seymour caminhou até lá e desceu a escada. Arthur e Helidan seguiram o bibliotecário, mas Ralf ficou para trás. Uma estranha vontade de subir as escadas até o andar de cima se apoderou dele.
O jovem esqueceu de todo o resto e caminhou lentamente para a escada que subia. Tinha esquecido da missão, dos companheiros, do bibliotecário, de tudo. Quando foi dar o primeiro passo para subir, uma voz cortante chegou aos ouvidos dele, vinda do andar de baixo: “Senhor Greenwood?”. Ralf sacudiu a cabeça. Percebendo o que estava fazendo, rapidamente desceu as escadas.
O andar de baixo era muito escuro, somente dois archotes iluminavam o ambiente. O ar era pesado e difícil de respirar. Parecia a todos que aquilo era um local de confinamento, ou que tinham entrado numa tumba imemorial. À esquerda da escada, a sala se abria num grande cômodo de tijolos vermelhos e chão de pedra empoeirada. Logo ao lado havia outro cômodo, que, pelo pouco que podia ser visto, parecia um salão de festas.
Mas Seymour não foi para nenhum desses dois lugares, virando para a direita, até chegar num ângulo de cento e oitenta graus em relação a escada. O bibliotecário pegou um molho de chaves e abriu a porta de madeira clara com um rangido. Assim que a porta foi aberta, uma rajada de ar quente saiu por ela. Parecia que agora havia uma corrente de ar. A sala seguinte era mais bem iluminada. Uns baús velhos e decrépitos estavam jogados num canto, a maioria deles abertos e sem nada dentro. Em cada canto do cômodo quadrado uma pequena pira queimava, iluminando o local.
Seymour encaminhou-se para a próxima porta de madeira, que ficava logo em frente a primeira porta. Pegou outra chave do molho, pôs na fechadura e, com um pequeno barulho metálico, abriu a segunda porta. A sala seguinte parecia idêntica a anterior. Um olhar mais atento revelava pequenas diferenças, porém. Não havia nenhuma porta na parede oposta e, um estreito corredor escuro que levava sabe-se Banor onde, partia da parede direita.
Um forte cheiro de óleo queimado chegou às narinas de Ralf, que prestava atenção numa alavanca de madeira, perto do canto esquerdo da parede oposta de onde tinham vindo. Estranhamente, a corrente de ar parecia vir da própria parede. Greenwood já estava indo em direção ao corredor escuro quando Seymour, para a surpresa do jovem, foi até a alavanca. Deu um puxão. O pedaço de madeira nem saiu do lugar.
Com um grunhindo, atirou seu peso contra a alavanca, que estalou, mas resistiu. Ofegante, o bibliotecário se afastou. Parecia que estava tomando impulso para um salto. Foi quando Helidan pousou sua mão, enluvada com couro, na madeira. Empurrou a alavanca, que gemeu sobre a força do anão. Este resmungou algo sobre bibliotecários fracos e alavancas emperradas. Empurrando com as duas mãos Helidan conseguiu que a alavanca saísse do lugar. Se anteriormente estava inclinada para a esquerda, agora estava quase a noventa graus do chão. De repente, a corrente de ar aumentou.
Ralf desviou os olhos do anão e se olhou para a provável origem do ar. Abriu a boca, espantado. O que anteriormente era uma parede sólida, agora era um vão sombrio. E, conforme Helidan ia empurrando a alavanca, o vão aumentava. Ouviu-se um barulho forte de algo se chocando e a parede parou de deslizar. O anão parou de empurrar e se juntou ao grupo, com um pequeno sorriso no rosto. Seymour sacudiu os ombros, como se dissesse “tanto faz” e entrou na próxima sala.
O grupo seguiu-o e viram, espantados, o arsenal que o bibliotecário possuía. Espadas, machados, lanças e maças estavam arrumados em prateleiras e expostos em estantes. Escudos, dos mais variados brasões, estavam pendurados nas paredes. Elmos estavam empilhados num canto, como uma pilha de crânios. Armaduras dos mais variados materiais estavam penduradas em postes de madeira. Na parede da direita havia enormes armários. E eles estavam atulhados de equipamentos, de cordas e pás a pederneiras, chaleiras e mochilas.
Seymour riu da cara de espanto de Ralf e apresentou os objetos para os aventureiros, pedindo que escolhessem o que eles quisessem. Helidan não pegou nenhuma arma nem armadura, não precisava. Entretanto, se serviu com gosto dos equipamentos, aumentando seu sorriso. Arthur escolheu uma bela espada afiada e pegou um pequeno escudo de madeira. Já Greenwood pegou um escudo oblongo, feito de madeira também, embora fosse recoberto com finas placas de metal. Escolheu também uma espada longa e fina, com estranhas runas gravadas no cabo.
Depois de testar a espada, Ralf viu, jogadas num canto, arrumadas em feixes de dez, centenas de flechas, todas de uma madeira estranha de tonalidade vermelha, e emplumadas com penas de uma criatura desconhecida ao jovem. Com espanto, pegou um bocado delas, e amarrou-as num saco, junto a bainha da espada. Havia alguns arcos pendurados na parede esquerda, mas o jovem preferia usar o seu próprio.
Após agradecerem imensamente ao bibliotecário, todos saíram dali e foram para o salão de festas. Quando passaram pelo terceiro cômodo, Helidan fechou, com outro estrondo, a porta-parede. O salão em si não era muito suntuoso. Havia duas grandes mesas paralelas, entre elas, no centro, uma grande fogueira apagada. Os archotes, ligados, iluminavam as paredes, de tijolos vermelhos. De quando em quando, grandes tapeçarias que retratavam diferentes histórias desciam do teto e davam certa vida as paredes monótonas.
Ralf se lembrava dali, já tinha vindo diversas vezes em festas e comemorações. Normalmente, ficava numa das duas mesas, junto ao povo. Mas hoje estava sentado numa mesa separada, que era quase encostada na parede norte. Esta mesa, a única que tinha toalha, estava num estrado, que deixava os ocupantes num nível superior aos outros. Normalmente, só os habitantes que faziam a pequena nobreza do vilarejo sentavam ali, mas hoje todos jantaram na mesa.
O jantar não foi muito animado. Tinha mel, pão, carne de galinha, coelho, cervo, um pouco de peixe defumado e um caldo nutritivo feito da mistura de trigo com carne de porco e raízes muito popular na vila. Ralf e Helidan beberam cerveja, enquanto Arthur e Seymour tomavam vinho. Durante a refeição, Arthur e Seymour trocaram informações sobre a geografia da ilha, e sobre as criaturas que provavelmente encontrariam pelo caminho. Começaram então a traçar planos para chegar no objetivo. Helidan não pareceu muito interessado na conversa, e ficou bebendo cerveja e olhando para as tapeçarias, atento.
Quando Ralf começou a cambalear de sono, Seymour parou de conversar e indicou para o jovem um colchão de palha, perto da parede. Greenwood deitou, e quase imediatamente dormiu. A última imagem que lhe veio em mente era de Arthur acendendo o cachimbo e soltando fumaça, conversando com Seymour.
Naquela noite, Ralf teve um sonho muito estranho. Sonhou que se levantava do colchão de palha e passava por seus companheiros adormecidos. Subia lentamente as escadas até o andar superior. Com um átimo de hesitação, subia o outro lance de escada lentamente. Sua respiração estava pesada e fazia pequenas nuvens de vapor à sua frente. O ar frio de uma noite de outono quase inverno comprimia seus pulmões.
O andar de cima era um corredor que dava numa varanda, virada para a praça, ao sul. Ralf se encaminhou para a sacada. Uma brisa gélida fustigava as faces pálidas do jovem, que olhou para a praça deserta e, forçando a vista, viu o templo, magnífico sob a luz da lua, ao sul. Fechou os olhos, deliciado com o vento e o momento mágico.
Depois de um tempo, virou-se para ir embora, quando notou um arco a direita. Um tapete vermelho fofo ia da escada para o arco, e continuava para a outra sala. Greenwood parou, curioso. Uma estranha sensação tomou conta dele, e ele cruzou o arco. O tapete virava para o norte. Lá, no fundo da sala, estava uma estátua soberbamente esculpida. Era uma figura humanóide de tamanho real, mas tinha enormes asas abertas. Esculpida em mármore branco, passava tal majestade que o rapaz se ajoelhou ante ela.
Ficou um momento parado, olhando para o chão, sem coragem de encarar os olhos de mármore a frente. De repente, uma voz imponente, como o som de mil trombetas douradas saudando o amanhecer dos sóis, ecoou pela mente de Ralf.
- A profecia d’O Lobo está preste a se cumprir. O ferreiro espera ansioso por ti. Não procures por quem já morreu. Quando todas as armas se mostrarem ineficazes, utilize a sua maior. Cuidado com o que vem do Oeste! Pois pode ser tua ruína!
A voz se calou, e Ralf Greenwood, o contador de histórias, tinha um destino.
Capítulo 4- Silêncio na Floresta
Os sóis mal tinham despontado no horizonte e Ralf Greenwood já estava sendo acordado a sacudidas. O estranho sonho estava marcado a ferro e fogo na mente do jovem rapaz, que se levantou rapidamente. Estava no salão onde dormira a noite anterior, ao lado de sua mochila e de seu cobertor, mas nada no recinto escuro indicava que o tempo passara. A única diferença era o barulho, bem maior do que o da noite anterior. Passos ecoavam nas pedras dos corredores da construção, ratos corriam, fugindo dos gatos que caçavam sem serem importunados.
Mas o recinto em si estava quase vazio. Helidan estava verificando algo na mochila de viagem, com a já característica cara de poucos amigos e Arthur conversava baixo com Seymour na ponta do salão. O bibliotecário não colocara a capa azul da noite anterior, embora ainda usasse a camisa de linho branco, enquanto Arthur usava a mesma capa vermelha de sempre. Ambos estavam recurvados sobre a mesa, examinando um mapa.
Ralf vestiu-se e calçou as botas, levantando-se em seguida. Examinou curioso o mapa estendido sobre uma das longas mesas. Pelo que podia ver, retratava a ilha de Rookgaard, embora, como quase todos os mapas feitos na vila, havia várias áreas em branco, principalmente no lado oeste da vila. Ao pensar, curioso, no que existiria nesses locais desconhecidos de Rookgaard, Greenwood lembrou-se das palavras do sonho da noite anterior, predizendo que algo, vindo do Oeste, poderia ser sua ruína. Com um estremecimento, resolveu não entrar no assunto entre os dois sábios e foi verificar a bagagem.
Menos de meia hora depois, estavam todos prontos para partir. Caminharam até onde tinham se encontrado pela primeira vez, perto do arco sinistro, na soleira da biblioteca. Todos estavam silenciosos, pensativos. A luz dos sóis iluminava a bela praça, que começava a ficar cheia de pessoas. Pessoas faziam fila para pegar água no poço, outros caminhavam para o trabalho nos campos ou na própria vila. Enfim, mais um dia que começava, não muito diferente da rotina pacata dos habitantes da ilha. Nada que prenunciasse os acontecimentos estranhos que ocorreriam, nem que os fios peculiares e emaranhados de aventuras perigosas e épicas já estavam sendo torcidos pelo Destino.
Seymour parou na soleira da porta e se voltou para eles. Seu rosto normalmente risonho e brincalhão estava sério. A luz que entrava pela porta tornava os olhos do bibliotecário pequenas esmeraldas claras, que brilhavam. O nariz um pouco pronunciado encimava a boca frisada, com os lábios apertados. Ralf ficou nervoso: o que quer que deixasse o nobre desconfortável deveria ser uma grande preocupação. Com um baque, o peso do que eles estavam fazendo, ou se propunham a fazer, melhor dizendo, caiu sobre o jovem mais uma vez. O cheiro de mofo, muito provavelmente vindo da biblioteca ao lado, pairava no ar.
- A hora de partirem se aproxima. E meus olhos não conseguem ver por entre a escuridão que envolve o futuro próximo de vocês. Não desistam da busca, por mais que ela possa parecer impossível. E, lembrem-se: não saiam da trilha! Drimwood é habitada por monstros e animais ferozes, e mesmo na velha trilha que leva ao embarcadouro leste vocês podem ser atacados. Andem com as armas na mão. Adeus agora, e boa sorte. Que as estrelas de Crunor brilhem nos seus caminhos. - Os três aventureiros murmuraram um obrigado e começaram a andar.
Saíram da vila pelo portão norte da precária muralha de pedra e viraram a leste, seguindo por uma pequena estrada de terra, ladeada por árvores e campos cultivados. Ao Norte, os contrafortes da Glawdin olhavam os, ameaçadores. Seus picos se fundiam com a paisagem cinzenta. O dia estava frio e pálido, mais parecendo o auge do inverno do que o fim do outono. Os ânimos entre os três estavam baixos, por isso seguiam, sem trocar palavra. A muralha da vila costeou por certo tempo a estrada, depois se inclinou para o sul.
Pararam para comer cinco horas depois do nascer dos sois. Um pequeno riacho cortava a estrada, que se inclinava para sudeste, a fim de atravessar o corpo d’água na parte mais rasa. Os campos cultivados tinham ficado para trás, e pequenos bosques de árvores se formavam. Perto do riacho, um grande carvalho crescia. Suas folhas estavam marrons, e de seus imensos galhos liquens e samambaias pendiam. Grandes raízes erguiam do solo e muitas iam direto para a água. Ralf olhou novamente para a floresta que se avizinhava e estremeceu. Apesar de estarem perto da vila, esse novo horizonte que se desdobrava ao contador de histórias pouco lhe lembrava das matas perto de sua casa. Era como se aquelas árvores escondessem algum perigo. Durante a caminhada, o jovem olhara repetidamente por sobre os ombros, para o caminho que tinham tomado e a proteção das muralhas que deixavam para trás.
Cataram galhos secos, que quedavam em grande quantidade no solo e fizeram uma bela fogueira. Um vento cortante vinha do Sul, fazendo o fogo tremeluzir. Comeram um pouco das provisões que Seymour tinha dado a eles. Carne seca, pães e queijos duros. Complementaram o almoço com umas frutas e folhas que acharam perto do local de parada. Depois de descansarem um pouco, retomaram a viagem.
Não encontraram ninguém, durante todo o dia. Nada anormal, já que a estrada era muito raramente usada. A trilha levava para um pequeno atracadouro na costa leste da ilha, onde antigamente contrabandistas e piratas aportavam, descarregando e estocando temporária mente seus produtos exóticos e carregando suas naus de lenha e água doce. Um entreposto entre as Ilhas do Sul e o Grande Continente, bem movimentado dado as riquezas que singrava os Mares Circundantes e a excelente localização de Rookgaard. Mas os soldados do rei tinham descoberto o local e terminado com o contrabando, numa sangrenta expedição punitiva, pondo um fim na atividade. Com isso, o lugar estava abandonado há tempos, ou pelo menos, é o que os habitantes da vila acreditavam. Vez ou outra, um grupo de jovens mais corajosos, ou bravateiros, se aventurava em ir até o antigo cais, passar alguns dias procurando supostos tesouros escondidos. Mas, conforme a estrada foi ficando mais abandonada e perigosa, até mesmo essas visitas aventurescas cessaram.
Mas os três seguiam pela trilha, pois era o único caminho que levava a leste. Mesmo sem conversar, sabiam que estavam procurando indícios de Ethoin, o Escudo-Que-Não-Quebra. Arthur devia ter conversado longamente com Seymour sobre o possível paradeiro do guerreiro, pois não consultou Helidan, tampouco Ralf, sobre o caminho que deveriam tomar. Caminhava resoluto e os outros dois seguiam o velho.
Duas horas depois de terem atravessado o riacho, os bosques começaram a ficar mais densos, e os espaços entre eles rareavam, até se tornarem pequenas clareiras. A floresta se fechou sobre a trilha. O chão estava atapetado de folhas mortas e um silêncio sinistro envolvia a mata. Parecia que não havia nenhuma vida ali. Nenhum pio de pássaro ou um amassar de folhas.
Ralf teve um súbito desejo de gritar, para quebrar o opressor silêncio. Sabia que estava fazendo a coisa errada, mas não podia deixar de fazer um barulho, pois a quietude era aterradora. Tomou ar e, quando abriu a boca para soltar um berro, sentiu uma mão se fechar em seu rosto, calando-o.
- Shhh – sussurrou Arthur, com a mão na boca do jovem. Mesmo tendo sussurrado, pareceu que o velho tinha gritado – não faça barulho, se não quiser arrumar confusão, Ralf. Não gosto do silêncio também, mas melhor não o quebrar. O que um grito atrairia de uma mata como essa? Boa coisa não pode ser.
Greenwood concordou, meneando a cabeça, com Arthur, que destampou a boca do rapaz. Helidan estava com os olhos negros atentos, com uma mão no cabo da pesada maça de ferro. Havia um clima de tensão no ar, como que se as árvores conspirassem planos sinistros para os viajantes. Ralf desejou que o vento sul soprasse de novo, pois o ar lá dentro parecia parado, morto.
Seguiram andando floresta adentro. Depois de mais alguns quilômetros, a trilha se inclinava para o sudeste. A mata fechada impedia aos três de verem aquém das árvores ao redor deles. Mas, nesse ponto, Arthur soltou um grito de felicidade. O grito ecoou, de forma agourenta, pelo lugar, entretanto o velho pareceu não se importar e apontou, excitado com a descoberta, para uma outra trilha, menor e menos evidente.
Mas não era só isso, havia sinais que a trilha fora recentemente usada. Uma pequena fogueira tinha sido acesa metros à frente e marcas claras de botas pesadas espalhavam pelas folhas caídas. Eram pelo menos dois pares de botas, já que havia marcas de tamanhos diferentes. O velho analisou cuidadosamente o chão, e depois acenou para os dois outros que deveriam seguir a trilha menor.
Helidan foi ao encontro de Arthur, e Ralf os seguiu, com o coração pesado. Não lhe aprazia deixar a estrada principal, e um estranho medo apoderou-se dele enquanto andava pelo caminho indicado pelo velho. As árvores agora se erguiam mais próximas, suas raízes faziam os três tropeçarem de vez em quando e o parco brilho dos dois sóis tinha desaparecido. Só pequenas frestas de luz passavam pela espessa camada marrom de folhas. Pequenos riachos escuros deslizavam silenciosos por entre as árvores.
Continuaram caminhando, desviando-se das raízes e dos liquens que caiam dos troncos grossos. A estrada seguia para o sul, sempre para o sul. A floresta começou a escurecer mais. Os sóis estavam se pondo. Ralf começara a se perguntar onde e quando parariam para dormir quando a trilha deu numa pequena clareira. A grama ali era revolvida, como que pisada por muitos pés. Depois de uma rápida consulta aos outros, Arthur resolveu acampar ali.
A fogueira foi acesa e eles jantaram rapidamente. Depois, ficaram em volta do fogo, se esquentando. A noite estava fria e as pesadas capas de pele não os protegiam totalmente. O silêncio sepulcral ainda pairava no ar. Não aguentando mais ficar tanto tempo sem falar, Ralf chamou o velho.
- Arthur, o que estamos fazendo aqui? E porque a floresta é tão silenciosa?
- Estamos procurando Ethoin, o guerreiro – respondeu o velho, confirmando as suspeitas do rapaz – e, o silêncio é estranho. Já andei por Drimwood antes, mas sempre ouvi ruídos. Não consigo compreender o porquê deste silêncio. Melhor dormirmos com vigia hoje de noite.
Tiraram sorte, e Helidan foi o primeiro a vigiar. Ralf se acomodou no chão e cobriu-se com o cobertor. Ficou se remexendo no chão, incapaz de cair no sono, ao contrário de Arthur que roncava alto. Ralf ficou acordado até o turno do anão acabar e o seu começar. Helidan também caiu imediatamente no sono. Inquieto, o jovem agarrou o cobertor, olhando para a orla da clareira. Fruto da sua imaginação ou não, parecia que muitos pares de olhos espiavam da escuridão. Olhos bulbosos e foscos. Estremecendo, Ralf pegou um pedaço de madeira não muito queimado como tocha e foi até as primeiras árvores. O silêncio não tinha sido quebrado. A parca luz da tocha pareceu engolida pela escuridão a frente.
Saindo da clareira, o rapaz olhou para os lados e para cima. Pequenas estrelas brilhavam no céu escuro. Suspirando aliviado, principalmente por não ter visto nenhum olho horrível, Greenwood se virou, para voltar para a clareira. Quando ia passando pela última árvore, ouviu um barulho. Assustado, o jovem ergueu a tocha. Nos galhos em volta, centenas e centenas de olhos bulbosos, pertencentes a centenas de aranhas grandes, olharam para ele.
Soltando um grito de pavor, o rapaz correu para a clareira. No meio do caminho, sentiu uma dor aguda nas costas, como se tivessem enfiado uma lâmina fina na carne. Com um grunhido, Ralf Greenwood caiu no chão, desacordado.
Capítulo 5 Aranhas e pássaros
A primeira coisa que Ralf sentiu quando acordou foi náusea. Sua boca estava seca e sua cabeça lateja fortemente. O jovem ia pedir para Arthur trazer um pouco d’água, quando percebeu que não podia abrir a boca, sua mandíbula estava travada, amarrada, com um tipo de corda viscosa. Desesperado, Greenwood tentou usar as mãos para tirar o material nojento dali, mas suas mãos estavam atadas junto ao corpo.
Debatendo-se freneticamente, o rapaz rolou pelo que ele supôs ser o chão da floresta. Pelo menos ele conseguia ouvir algo. As folhas grudavam nas estranhas cordas viscosas e dificultavam a respiração do jovem. Ralf tentou gritar, mas sua voz saiu abafada, como se estivesse a centenas de metros de distância.
Subitamente, ouviu um barulho. Parecia um chiar baixo, acima de onde estava. Lentamente, ele levantou um pouco a cabeça, dificultado pelos fios que amarravam por todo o corpo. Uma grande aranha descia por uma fina teia da árvore mais próxima. Espiava Greenwood com seus oito olhos bulbosos. Suas patas se moviam rapidamente e do seu corpo desprendia um cheiro enjoativo.
A aranha tocou no solo numa lentidão terrível. Parecia se deleitar com o desespero de Ralf, que começou a tentar se desvencilhar com mais intensidade. Gritava e tentava mover os braços, para poder se defender, ou até mesmo correr. Mas os gritos saiam abafados e seus braços permaneceram imóveis, muito bem atados pelas teias viscosas.
Chiando, como se estive rindo do esforço inútil do rapaz, a aranha se aproximou mais. Seus olhos negros se fixaram no rapaz, e dois ferrões pegajosos saiam do baixo ventre da criatura. As armas eram finas, cruéis. Pingavam uma substância verde que Ralf tinha certeza que era veneno. O jovem parou, imóvel, aceitando a sua má fortuna. Seus pensamentos se dirigiram para sua vida anterior, tão pacata que parecia um sonho. Lágrimas brotaram dos seus olhos.
- Sssim, carrne fressca – chiou a aranha num thaisense lamentável – Nós gostarrr de carrne fresssca – depois do grande discurso, começou a soltar um barulho riscado que ecoou no espaço, como um riso medonho. Para surpresa desagradável do contador de histórias, o barulho foi respondido, em diferentes tonalidades e ritmos.
Horrorizado, Ralf percebeu que estava no centro de uma colônia, e das árvores em volta as aranhas desciam, chiando e rindo. Suas teias pegajosas cobriam o local de forma nojenta e vários ovos estavam agrupados num canto, perto da maior árvore, que ficava no centro da clareira, afastada das outras.
O dia já tinha raiado, e a claridade dos sóis iluminava o triste espetáculo. Da árvore central vinham aranhas maiores, enquanto da orla da colônia surgiam todo tipo de aranha imaginável. Aos pés da grande árvore, perto dos ovos, diversos ossos mostravam o que acontecia com forasteiros e o provável destino do rapaz.
De repente, a voz do oráculo veio a sua mente. “Quando todas as armas se mostrarem ineficazes, utilize a sua maior”. Mas qual era sua maior? Não tinha tempo para pensar, as aranhas estavam se aproximando, com suas múltiplas patas. O cheiro nauseante se intensificou e Ralf sentiu um líquido frio escorrer por seu pescoço. Uma grande aranha, gorda e fedida, estava a poucos centímetros acima de sua cabeça e babava uma gosma verde. Greenwood se encolheu e esperou pelo pior.
Mas o pior não veio. Um forte cheiro de queimado preencheu a colônia. Ralf abriu os olhos. As aranhas chiaram e se agitaram, confusas. A aranha gorda tinha caído, com suas pernas pateticamente viradas para cima. Seu corpo estava queimado e fedia como nunca. E, da orla da clareira, um outro projétil de fogo acertou a primeira aranha, a que falara, em cheio, entre os olhos bulbosos.
A aranha caiu, morta, enquanto suas irmãs corriam furiosas em direção de onde o projétil tinha partido. Estavam quase chegando na borda da colônia, quando Helidan apareceu. Estava paramentado para batalha e seu rosto sempre sorumbático se agitava numa ferocidade surpreendente. Sua barba balançava, conforme ele agitava a pesada maça de espinhos de ferro. Seu escudo estava descoberto aos sóis, refletindo luzes terríveis aos olhos aracnídeos e ele cantava em sua estranha língua enquanto matava.
Era primeira vez que Ralf via Helidan lutar, e ficou maravilhado com a habilidade do anão. O guerreiro simplesmente varria as aranhas com sua poderosa maça. Logo o solo da colônia tornou-se coalhado de corpos das criaturas. Helidan acertava as aranhas numa velocidade espantosa, como se sua maça fosse mais leve que uma pluma. O que não era verdade, já que nenhuma pluma abriria os animais do jeito que a arma do anão fazia. O sangue viscoso respingava pelo escudo do guerreiro.
As aranhas estavam furiosas e atacavam loucamente Helidan, que girava a maça, absoluto. Sua malha aparava qualquer eventual picada que seu escudo não defendia. Mas sua maça não era sua única arma. As pesadas botas de couro esmagavam as aranhas, assim como a bossa de ferro do seu escudo. Uma ou duas vezes, o anão até mesmo cabeceou um animal mais ousado que se aproximara muito com seu capacete.
Logo, restavam poucos aracnídeos na colônia. As poucas aranhas que não estavam mortas subiram nas árvores e fugiram da clareira. O cheiro nauseabundo diminuiu um pouco e agora a clareira não parecia tão amedrontadora assim. Ralf se mexeu, atraindo a atenção de Helidan e de Arthur, que tinha ficado na orla da floresta. Ele que tinha jogado as pedras de fogo nos primeiros animais.
O escudo e a malha de Helidan estavam cobertos da substância verde e pegajosa das aranhas. “As vezes usar uma maça pode te deixar meio sujo” pensou o rapaz, enquanto os dois salvadores se aproximavam. Não sabia porque estava pensando nisso. Começou a rir, num misto de alívio e desespero. Seus olhos estavam marejados de lágrimas, não sabia se de felicidade ou do terror anterior.
Arthur cortou as teias que prendiam Ralf com sua espada e ajudou o jovem a se levantar. Logo depois, Greenwood sentiu uma tontura e uma náusea se abateu sobre ele. Vomitou, caindo no chão, tremendo. O velho amparou o rapaz e foram capengando para fora da colônia. O ar se tornou mais respirável assim que saíram do lugar. O contador de histórias se sentiu melhor.
Sentou-se, com as pernas ainda bambas, num tronco meio apodrecido. Respirava rápido, enchendo seus pulmões de ar novo, ar puro. Estava mal, apesar de estar bem melhor do que dentro da clareira. Evidentemente os efeitos colaterais do veneno ainda debilitavam o jovem, mas só de ser salvo, sentia-se mais saudável.
- Ralf? Ralf? Como está? Consegue falar? – perguntou Arthur, preocupado. O velho se abaixou para ficar no nível da cabeça de Greenwood. O rapaz nunca tinha reparado que Arthur era realmente alto, apesar de ser um pouco curvado. As vestes vermelhas do mago pareciam perfeitamente adequadas ao marrom outonal da floresta.
- Sim – sussurrou o jovem, com a voz fraca. Sua garganta estava doendo horrores, assim como seu estômago. Sua cabeça latejava e seus olhos ardiam. Uma enorme vontade de beber algo tomou conta do seu ser. Arfou e gesticulou para seu companheiro. – Água, água, por favor!
Arthur prontamente pegou um odre de couro e, tirando a tampa, virou um pouco do conteúdo na boca de Ralf. Este agradeceu aos céus, silenciosamente, quando a primeira gota do líquido passou pela garganta ressecada. A dor diminuiu um pouco. Só depois de uns segundos bebendo, o contador de histórias percebeu que não estava bebendo água. O líquido que caía em sua boca tinha um gosto doce e agradável.
Olhou surpreso para o companheiro, que parou de verter a substância e tampou cuidadosamente o odre. Arthur olhou para Ralf ansioso, como esperando que o homem tivesse espasmos súbitos ou se transformasse em um temível dragão num piscar de olhos. Greenwood, sentindo-se melhor subitamente, se levantou.
- Está tudo bem com você? – perguntou o velho, ainda encarando o outro de forma atenta. Sua barba branca estava um pouco suja de terra, assim como várias partes das vestes. Estava com olheiras profundas e rugas marcavam seu rosto.
- Sim, estou me sentido muito melhor – respondeu o rapaz, com um que de surpresa. As dores no corpo tinham passado, assim como a sede. E, embora seu estômago estivesse roncando de fome, sentia-se pronto para andar quilômetros e mais quilômetros floresta adentro. E, além da fome, sua curiosidade se aguçara – o que você me deu para beber?
- Água – respondeu vagamente Arthur, sacudindo a cabeça um pouco. Ralf encarou o amigo com um olhar cético. O velho balançou a cabeça, como sugerindo que não explicaria o mistério do líquido. Greenwood levantou a sobrancelha e cruzou os braços. Arthur então fez um gesto resignado e falou – Não menti para você, Ralf, é realmente água. Mas é uma água especial, feita pelos elfos.
-Elfos? – inquiriu o jovem, ansioso por mais informações. Assim como nunca tinha visto um anão antes, jamais vira um elfo. Sabia que eles eram uma raça misteriosa, com estranhos hábitos e poucas histórias retratavam os feitos deles. Viviam nas florestas, nas árvores, já que amavam Crunor e toda sua obra. Tinham habilidades com cordas, seja de instrumentos musicais como o alaúde como as cordas dos seus arcos certeiros.
-Sim, elfos. E sim, eles bebem um tipo diferente de água. E sim, eu já me encontrei com um. E sim, existem elfos nesta ilha. E sim, vamos visitá-los agora. – disse rapidamente o velho, antevendo as perguntas que fatalmente viriam. Quando disse as duas últimas frases, Ralf soltou uma exclamação de assombro. Nunca imaginaria que veria elfos em Rookgaard. Mas também nunca tinha pensado seriamente em participar de qualquer aventura.
Greenwood ia perguntar mais sobre as estranhas criaturas quando os dois ouviram um resmungo, vindo da clareira. Helidan estava de volta, com a pesada maça apoiada no ombro direito e o escudo pendendo no braço esquerdo. Seu rosto parecia calmo e, estranhamente para Ralf, feliz. Sorria pela primeira vez desde que encontrara o contador de histórias, num anoitecer enevoado.
- Não acho que as aranhas vão incomodar mais. Estava quebrando aqueles ovos nojentos. – disse numa voz alegre. Depois riu, mostrando os dentes brancos por trás do bigode cerrado. Seu riso ecoou pela floresta. O local, depois da bebida e agora ecoando o riso do anão, parecia muito menos terrível e ameaçador. O silêncio já não era o mesmo. Inúmeros pássaros e outras criaturas faziam um barulho agradável.
- Estranho, ontem não vimos viva alma. E hoje a floresta parece transbordar vida. – falou Ralf olhando para um grande melro que parecia estar realmente alvoroçado. Ia de galho em galho, perto do grupo, e olhava para o rapaz com seus olhos pretos, enquanto piava estridente. Greenwood olhou atentamente para a ave e falou para os dois companheiros, com os olhos ainda fixos no melro – Parece que este pássaro quer nos contar algo.
- Devem estar felizes com a destruição da colônia das aranhas, só isso. – falou Arthur, prestando atenção nas outras aves. Ao ouvir isso, o melro se aproximou mais e piou estridente. Bateu asas e pousou no gramado perto dos três, piando. Era incrível o volume do barulho, vindo de criatura tão pequena. O velho continuava a olhar para os outros animais, como que procurando algo – Que lástima. Se houvesse aqui uma coruja ou uma águia, até mesmo um corvo, eu poderia entender o que este melro está tentando nos contar. Mas ele fala muito rápido e sua língua é muito diferente para que eu possa compreender algo.
O melro parou de piar e espiou Ralf mais um pouco, saltitando na grama. Aparentemente desistiu de tentar passar a mensagem e voou para a algazarra dos seus companheiros. Os três ficaram olhando para as aves por mais um tempo, e depois decidiram fazer seu desjejum ali mesmo, para a alegria do faminto contador de histórias.
- Então, me contem tudo o que aconteceu ontem a noite – perguntou Ralf, enquanto comiam. Não haviam feito fogueira, nem havia necessidade disso, já que comeram pão e frutas somente. Conseguiram encontrar um pé de amora e complementaram a refeição com várias destas frutinhas.
Helidan e Arthur se entreolharam de forma suspeita, como que com medo de tocar no assunto. Por fim o velho deu os ombros e decidiu contar.
- Você ficou duas noites e um dia sumido, Ralf.
Ralf estremeceu, incrédulo. Duas noites?? Esse tempo todo?
- Po... porque elas não me mataram antes? - perguntou, amedrontado e inseguro
- Não sabemos, talvez fosse necessário te transportar até aqui por alguma razão específica, como estar pertos dos ovos, mas talvez haja uma razão que só essas criaturas conheçam, ou ao menos quem muito sabe de seus hábitos. Quando eu acordei, vi que você tinha sumido. Imediatamente partimos em sua procura. Vimos restos de teias na orla da clareira, indo em direção a leste. Seguimos as malditas teias até o crepúsculo, quando fomos abordados pelos elfos – nesse ponto Helidan soltou um bufo e revirou os olhos, resmungando.
- Eles nos disseram que havia uma colônia de aranhas perto e nos mostraram o caminho, além de nos darem o odre de água e nos fazerem prometer que iríamos voltar para falar com eles.
- Mas não nos ofereceram arcos e elfos para matar as aranhas – rosnou o anão.
- Já te expliquei, caro amigo. Eles amam a floresta, assim como todas as crias de Crunor. As aranhas foram criadas por ele, presentes para Nornur, deus dos ventos. Matá-las seria ir contra seus supostos irmãos, já que os elfos mesmo veneram Crunor como pai. Bem, continuando. Chegamos na orla quando os dois irmãos estavam despontando no horizonte. E foi bem na hora. Consegui acertar algumas aranhas com minhas pedras de fogo e Helidan cuidou do resto. – continuou Arthur. Ralf estremeceu, ao se lembrar do líquido gosmento escorrendo por seus ombros.
Helidan fez um sinal de positivo, confirmando a história do velho. Depois pegou um pano e começou a limpar o resíduo dos aracnídeos da poderosa maça. Um espinho ou outro tinha entortado um pouco. Mas nada que comprometesse a eficácia do instrumento, já que a principal ameaça era o peso esmagador da bola de ferro. O anão, percebendo que o jovem prestava atenção em seus movimentos, levantou-se.
- Um dia, não poderá contar comigo, garoto, então vai ter que sujar as mãos - disse, sério, enquanto, balançava a maça e ajeitava o escudo no braço esquerdo – Vamos, arme-se.
Então Helidan, num grande salto, chegou perto de Ralf, e fingiu um ataque com a massa. O rapaz, desesperado, desviou por instinto e caiu nas folhas mortas do solo. O anão se afastou um pouco, deixando Greenwood pegar seu escudo oblongo e um pedaço de pau. Vendo a arma patética do jovem, o guerreiro jogou sua maça no chão e pegou ele também um pedaço de pau.
Ralf correu para o anão, e atacou com a madeira, visando acertar o espaço entre a malha e o capacete. Helidan simplesmente ergueu o escudo, aparou o golpe e acertou o adversário nas costelas com seu pedaço de pau. O rapaz então desceu o pau quase acertando o capacete do outro. Mais uma vez, Helidan se esquivou e, agora com um chute bem aplicado na bunda de Greenwood, fez o adversário cair pela segunda vez nas folhas mortas.
Arthur sentou-se no chão e pegou seu cachimbo. Olhou interessado para a luta e riu quando Ralf caiu pela quarta vez no chão. Bocejou e olhou para a floresta, que resplandecia nas cores de final de outono. Os pássaros ainda faziam um barulho dos infernos e os sóis estavam altos, embora não passasse das dez horas da manhã. Voltou sua atenção, então para os dois lutadores. Helidan estava corrigindo o posicionamento do escudo de Ralf. Ia ser um longo dia.