Eu partilhava o desconforto dos homens ao meu lado. Durante toda a minha curta vida, passei pelo mesmo número de situações desse tipo que eles, nenhuma. Não estávamos prontos para tal confronto e nunca estaríamos, tanto dentro de nossas cabeças quanto em nossos poucos equipamentos. O couro de nossas armaduras estava ralo, o som do desembainhar das espadas nos fazia tremer e qualquer som, até das meras cobras de jardim se esgueirando pela plantação de trigo nos botava em guarda.
Encarando a penumbra da escuridão atrás das fracas e velhas muralhas de Rookgaard, nos perguntávamos se estávamos vendo algo de estranho ou apenas fantasiando com a nossa atual ameaça. A pouca luz que iluminava o lado de fora, se tornava uma ferramente de nossa imaginação para nos assustar. Para nos fazer pensar que talvez em algum lugar ali alguém também estivesse nos observando.
Aos poucos, os turnos mudavam, e por questão de honra permaneci em todos. Trajando as vestes de couro, uma moeda melhores que os dos outros, deixado por meu pai, junto de uma espada completamente cega que me foi dada de última hora pelo Meistre da biblioteca, fiquei na companhia do velho Dalheim e dos vários jovens guerreiros durante todo o turno da noite.
Dalheim era de longe o homem mais experiente dali. Um dos poucos ainda vivos em Rookgaard que estavam presentes no sequestro da princesa. O velho, já de cabelos e pelos grisalhos e olhar tão vazio quanto as emoções que tenta passar, não tirava o olhar de mim, ele esperava algo. Espera o filho de meu pai dar um passo a frente, e descer ao outro lado da muralha com bravura como meu pai faria.
- Estão mortos.
- O quê? - Virei minha cabeça para fitar o velho que nem sequer se moveu ao soltar as palavras, mas não consegui. Olhei para baixo.
- Os que você espera. Estão mortos. Não precisa se preocupar em esperá-los. Vá treinar ou descansar como o resto dos homens.
- Não estou aqui por meus amigos, eu sei que eles não vão voltar, estou por honra á minha cidade.
- Você não deve nada a sua cidade, e tampouco deviam seus amigos. Olha como acabaram... Aventureiros mortos. - Cada vez que ele dizia a palavra, eu não sintia apenas um arrepio mas algo dentro de mim era puxado para fora. Eu me sentia perdendo energias, esperanças, vontades. - Você não precisa ser um deles.
- O que é isso Dalheim? - Me virei e finalmente devolvi a encarada ao velho rosto enrugado do guerreiro consumido pelo tempo e pelas maldições da vida. - É um teste? Quer ver se vou desistir e amarelar o nome de meu pai?
- Você tem feito isso há anos. Se está tentando mudar seu modo de ser visto, tente pelo menos ficar em turno quando a maioria das pessoas está acordada pra ver.
- Velho... - Abaixei a cabeça novamente. Ele estava certo, estava ali para ser notado e havia deixado claro, só que para a pessoa errada. - E porque você está aqui? Não é muito velho pra batalhas? Sua experiência pode ser utilizada dos esconderijos na biblioteca.
- Diferente de você, eu tenho uma dívida com essa cidade. - Pela primeira vez na noite, ele também olhou para baixo. Alguma relação forte se arrastava entre ele e as tabuas de madeira da cidade em que pisava. - Agora vá descansar, só fique atento para a trombeta, e isso é uma ordem.
Me virei e, com a mão direita no cabo da espada embainhada, andei lentamente até as escadas. Enquanto me abaixava para descê-las, ouvi outro resmungo do velho homem.
- E se voltar, traga alguns frutos contigo, afinal é a única coisa que você sabe fazer. Sieg, o Catador de Blueberries.