A Sorte do Pântano
Exausto e ofegante, eu voltava de uma caçada daqueles vermes podres, mais uma vez. Andava vagarosamente pela estrada, em direção a Venore, com o corpo pesado e sem pressa. O céu estava enegrecido a volta da metrópole do sul. Vez ou outra, um raio rasgava o céu, seguido do imponente e raivoso trovão.
O final da tarde compreendia-se só a estes sons. A estrada estava vazia, a noite tragava o dia, quando algo me surpreendeu entre as árvores. Algo estava a espreita. Apressei o passo e empunhei meu cajado. Fosse o que for, acompanhava meu deslizar pela estrada, religiosamente.
Deve ser um lobo. – Disse a mim mesmo.
Apanhei uma runa mágica em minha mochila, e lancei seu poder contra os arbustos.
Nada aconteceu. Eu matara o lobo.
Voltei minha atenção à estrada, quando de repente, uma flecha passa zunindo, rente ao meu ouvido. Um som agudo ecoou em minha mente. Virei-me de onde a flecha veio, e me deparo com duas figuras olhando fixamente para mim. Um sujeito, o que atirou a flecha, tinha um arco em mãos, e trajava roupas com tons de amarelo e branco. O outro era protegido por armaduras enormes e empunhava um grande machado na mão esquerda.
- Está preparado para morrer, traste? – O arqueiro me perguntou, com um sorriso descarado no rosto.
Eu não era capaz de confrontá-los. Nenhum dos dois. Estava cansado e sem forças. A única saída era fugir dos Assassinos.
- Utani Gran Hur, Utana Vid! – Eu exclamei em alto som, tornando-se ágil e invisível.
- Você pode se esconder, mas não poderá fugir de nós, mago dos infernos. – o guerreiro disse, gargalhando. – Nós o acharemos!
Cruzei a estrada em direção aos pântanos de Venore, o qual eu os conheço como a palma de minha mão. Tentei não fazer o menor ruído para que não fosse pego pelos assassinos, mas, mesmo assim eles seguiam-me, desorientados, mas seguiam.
Poucos minutos se passaram, mas meu abatimento os multiplicava.
O vento esvoaçava minha capa azul, fazendo-a bater no ar. Nada mais me importava a não ser fugir daqueles carniceiros. Porém, um contratempo; a magia de invisibilidade estava se desfazendo. Eu não a fizera com as forças necessárias para que a magia durasse mais. Estava esgotado.
No desespero, desconcentrei-me do outro feitiço, e comecei a perder velocidade.
Não poderia desenvolver mais sequer uma feitiçaria, se o fizesse, acabaria morrendo. Eu estava sem forças. Era agora ou nunca.
Olhei para trás, e lá estavam as duas figuras correndo em minha direção. Obcecados pela minha morte. Estava quase a chegar aos pântanos de Venore. Teria de ultrapassar esse caminho e lá eu enganaria os dois.
Corra Willie, corra!
- Vamos lá, eu primeiro! – Disparou uma voz rouca, a qual eu não a identifiquei.
Virei-me de frente a voz, e vi o guerreiro enfurecido, pronto a dar um golpe certeiro de seu machado em minha cabeça, a poucos metros de distância.
- Não! – Disse imediatamente.
Esquivei-me ao máximo, mas era impossível não receber um golpe. Instantaneamente, fechei os olhos e esperei pelo choque.
O enorme machado penetrou em meu ombro, e assim, o guerreiro girou o machado. Isso me fez rodopiar no ar, junto à arma. Logo depois, ele me deu um chute. Fazendo o machado se desprender de mim e me jogando na grama.
O sangue jorrou do ferimento, conforme as batidas do meu coração. Rapidamente, coloquei minha mão sobre a ferida.
- Ex... Exur... Exura... – Eu disse, gaguejando de dor.
O ferimento se fechou, não totalmente, mas o necessário para fugir logo dali.
- Olhe só, nossa vítima está se curando! Sua vez, Haw! – o guerreiro exclamou.
- Comece já sua dança para morte. – Ele disse, ajustando seu arco.
Haw logo armou suas flechas e atirou-as na minha direção. Corri o olhar pelo campo e vi uma grande rocha. Antes delas chegarem até mim, recuei para trás da maciça rocha, que ricocheteou algumas flechas no guerreiro e outras no próprio arqueiro, que esquivou-se.
- Se não for rápido o bastante para esquivar, saia do alcance quando as flechas voltarem, Mark. – o arqueiro grunhiu.
- Cale a boca. – Mark reivindicou. – Agora, vá atrás daquele mago fujão. Ou melhor, deixe que eu mesmo faça o serviço direito.
Eu já estava longe quando ele disse isso. Sua rápida discussão me adiantou alguns minutos de corrida, e assim, chegara ao pântano. Tratei logo de ir ao meu esconderijo secreto, perto da antiga casa do cavaleiro negro.
Ninguém à vista no caminho, o que era muito estranho.
Eu pulei por sobre os arbustos, esquivei-me das árvores, saltei sobre as cobras traiçoeiras pelo trajeto, e sequer um sinal dos dois assassinos. Meus pensamentos estavam a mil, deduzindo quando e onde eles aparecerão.
- Certo, acalme-se. – Eu disse a mim mesmo.
O esconderijo estava a poucos metros de distância, quando ouço um estrondo. Um barulho seco e muito alto. Vinha direto do pântano oeste. Meu coração disparou e minha ferida começou a doer novamente. De repente, um novo estrondo, dessa vez mais perto.
Seriam os assassinos? Aquela dúvida me corrompia por dentro. Esforcei-me para chegar à antiga casa do guerreiro negro. Dali a poucos passos estava o esconderijo, ao norte.
Então, veio o terceiro estrondo. Dessa vez, quase atrás de mim. Virei-me para ver o que seria, e descobri que aquilo seriam flechas explosivas, que Haw lançava em minha direção. Eles estavam longe. Ainda havia esperança.
Silenciosamente, pulei sobre algumas folhas no chão. Caí no escuro. Aquele era meu refúgio, encoberto na entrada por folhas da cor da grama para disfarce. Rapidamente, acendi uma tocha e preparei-me para a chegada deles.
Armei uma rede envolta da entrada e novamente a encobri por folhas. Se eles pisassem ali, cairiam na trama de fios espessos, quase sem escapatória. Ajeitei outra armadilha, esta no chão, que se acionada, fechava seus dentes de aço e prendia o inimigo. O que me dava tempo para outra fuga.
Apaguei a tocha e esperei.
Passaram-se alguns minutos, e nada.
Outros incontáveis minutos se passaram, e nada.
O silêncio era estrangulador. Eu estava nervoso, ofegante. Sufocado pelo medo.
Não aguentava mais. Afastei a armadilha terrestre, desarmei a rede e, vagarosamente, subi à superfície.
- Te pegamos, fujão! – Uma gargalhada se espalhou. – Exevo Mas San!
De repente fui ofuscado por várias luzes rodopiantes, que vinham e voltavam de algum canto, sem parar.
- Mais uma vez! Exori Mas! – Disse a outra voz.
Novamente fui pego por uma onda de luz, mas desta vez, junto de uma grande chuva de ataques físicos. A qual me acertou em vários pontos, me deixando totalmente à mercê dos inimigos.
O silêncio calhou novamente. Minha visão voltava aos poucos, primeiro vultos, depois imagens formadas.
- Agora você poderá ver sua morte claramente. – A conhecida voz de Haw ecoou novamente.
De cima de uma árvore morta, ele preparou seu arco com uma flecha explosiva, e atirou-a em minha direção.