O Elefante Púrpura - Coronel Watanabe
Coronel Watanabe
O Coronel Watanabe tinha muitas histórias para contar. Era um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial. Não perguntei em qual lado lutou porque achei que seria indelicado, mas levando em consideração seu aspecto alucinado, acredito que tenha sido um kamikaze relutante que preferiu constituir família e envelhecer em Pindorama a morrer pelo imperador.
Esse calejado veterano me disse que agora era uma espécie de pastor de almas. Vivia de maneira monástica no interior da Floresta Amazônica, o que me fez temer pela falta de recursos para pagar pelos meus serviços. O que um monge silvícola, verdadeiro Curupira moderno, estaria fazendo no centro do Rio de Janeiro, e como um detetive particular poderia lhe ser útil?
"Minha filha foi raptada há uma semana. Já não sei a quem recorrer, a polícia não faz nada e ninguém se importa com mais um caso de desaparecimento."
Coronel Watanabe falava isso de olhos baixos, fixos na mesa, tamborilando os dedos timidamente no tampo surrado da escrivaninha. Como viu que eu não registrava nada, tomou posse do meu caderno de notas abandonado.
"Estou sem assistente, ela que fazia os apontamentos. Não ligue para isso, pois tenho uma memória fotográfica". A memória fotográfica pode ser ótima, mas a auditiva não presta, não consigo manter o interesse em conversa alguma. Ele começou a rabiscar coisas sem sentido enquanto continuava desfiando sua desgraça:
"Sequestro, estupro, assassinato e ocultação de cadáver é tudo o que escuto. Quando querem me dar alguma esperança dizem que minha filha pode ter sido vítima de alguma quadrilha de escravas brancas e está se prostituindo para sobreviver. A última notícia que tive dela foi um cartão postal do Pão de Açúcar, avisando que voltaria em breve. Parecia feliz, mas já não sei o que pensar..."
Dava pena do homenzinho, que agora chorava copiosamente, abraçado à primeira coisa que encontrara pela frente: o bibelô roxo. Para mim era evidente que a moça se cansou dos cultos de Santo Daime no meio da floresta e resolvera viver a vida na cidade grande. Mas não queria tirar as esperanças do amuado velhinho, nem perder um caso fácil de resolver.
Para sondá-lo, e também terminar com aquele triste espetáculo, divaguei: "Deus deve ter um propósito quando coloca tamanha provação no destino de um de seus pastores, não concorda? Como as provações de Jó." Falava e olhava displicentemente para os rabiscos no caderno. Interessantes, pareciam antigos símbolos pagãos.
"Jó perdeu sua casa, seus rebanhos e seus 7 filhos." Falou secamente, me devolvendo o elefante e acrescentando: "Está quebrado, você precisa de um restaurador para isso."
Ia comentar que ele ainda estava no lucro, perdera apenas uma filha, mas me contentei em concordar com a cabeça e lhe perguntar se conhecia algum especialista em arte hindu. "Será caro demais, jogue esta porcaria fora e compre outro, é só uma réplica barata."
"Diga isto para minha secretária, Coronel. Se não consertá-lo, estou frito!" De todo modo, substituir o quebrado por um novo era uma solução. Faria uma pesquisa no Mercado do Saara para ver os melhores preços e as peças mais parecidas.
"Você precisa falar com minha assistente, ela vai adorar conhecer sua seita. É especialista em sincretismo religioso, está fazendo uma tese de doutorado sobre cultos populares no século XXI". Foi uma mentira diplomática, mas Watanabe se interessou: "É formada em Teologia?"
"Quase isso, diria que é uma humanista, profunda conhecedora do espírito humano". Levando em conta a freguesia da boate de striptease em que trabalhava, não era uma inverdade completa.
O veterano se recompôs, enxugando os olhos úmidos nas mangas do paletó surrado e me estendeu a mão. "Então estamos acordados. Esta é a foto da minha filha. Espero notícias em no máximo uma semana, qualquer pista já será melhor do que nada." Entregou a foto junto com um maço de notas de 50, o que imediatamente aumentou meu interesse pelo caso. Além do mais, era uma bela jovem de uns 18 anos a pequena Watanabe.
Clara me ligou no final da tarde. “Eu sabia que você não ia conseguir ficar muito tempo longe de mim.” Brinquei, já esperando uma resposta grosseira. O que tinha de bonita, Clara tinha de temperamental. Adorável.
“Você deu meu telefone para um fanático religioso? Um tal de Watanabe queria saber da minha tese de não sei o que... Você não presta, Bogart, devia ir aí só terminar o serviço que não fizeram e quebrar logo suas pernas.” Ela estava reclamando demais, então achei que só esperava a chance de aceitar minhas desculpas. Não perdi a oportunidade:
“Watanabe é um novo cliente, vou precisar de sua ajuda. Sabe que não sou nada sem você, ainda mais se tratando de um caso de ocultismo. Ele chegou a falar contigo da sua seita de Santo Daime na Amazônia?” Joguei uma isca esperando fisgar alguma coisa, mas Clara continuava insatisfeita com minha retratação.
“Não adianta me bajular agora que precisa, deveria ter pensado nisso antes de encher meus ouvidos com suas besteiras.” A voz estava menos irritada, então prossegui na minha Via Crucis, era inevitável. Como sempre fui bom com desculpas e nunca liguei de gastar meu latim com essas coisas, resolvi fazer direito e caprichar:
“Se quiser, deixo você quebrar minhas pernas, porque meu coração já está partido em mil pedaços. Sabe que não vivo sem você. Nem me importa o caso Watanabe, isso foi só uma desculpa para poder falar de novo contigo.” Ninguém em sã consciência acreditaria num papo desses, mas o amor atordoa os apaixonados. Estava tentando resgatar o lado romântico de Clara, com sucesso. “Continua.”
Depois de meia hora consegui convencer minha assistente a voltar a ser minha assistente e minha namorada. Lençóis limpos e refeições saudáveis, além da ótima companhia e das noites movimentadas. A vida podia ser bela, quando olhada pelo lado certo. E o melhor é que Clara tinha mesmo conversado com o Coronel Watanabe e anotado tudo que eu não tinha prestado atenção, porque estava contando as manchas de mofo no teto do escritório.
A foto da filha de Watanabe deixaria para mostrar em uma ocasião mais propícia. Temi por alguma crise de ciúmes injustificada. A moça desaparecida era realmente muito bonita, mas não era mais bonita do que Clara. Na verdade eram belezas diferentes.
Clara tinha sangue alemão, no biotipo e no temperamento. Era alta, loira, uns olhos azuis muito claros, quase transparentes, e com um corpo de parar qualquer obra na rua, e parava mesmo.
Fazia questão disso e caprichava nos decotes. Sair com um mulherão daqueles sempre me deixava sem graça, era o esporte preferido dela. Ainda mais com os saltos agulha que usava, que a colocavam uns 10 centímetros mais alta do que eu. Era como voltar a passear com a mamãe no parque, segurando sua mão ao contrário.
Já a filha de Watanabe era uma flor oriental, delicada, de longos cabelos lisos e negros e um sorriso de menina no rosto. Era pequena e magra, pelo que via na foto do postal, mas tinha um corpo bonito. O que me cativou foi a posição em que bateu a fotografia, tirando os cabelos da nuca e olhando para a câmera numa foto roubada. Tinha um sorriso tímido e o brilho em seus olhos negros confirmavam o que dissera Watanabe. Ela estava muito feliz neste dia.
Apenas uma coisa me deixou preocupado. Com Clara voltando à ativa, iria ter que correr com o conserto do elefante roxo. Não havia tempo de comprar outro agora, então resolvi esconder a estátua dentro de uma sacola surrada das Casas Bahia, trancada numa gaveta da velha escrivaninha.
Quando chegasse, diria que estava sendo polido para servir de amuleto da sorte para nós. O colocaria na estante, de frente para a porta, seguindo todas as recomendações do Feng Shui e o que mais fosse necessário. Assim ganho tempo para resolver a situação.
Acabava de trancar a gaveta e estava perdido nesses pensamentos quando a porta abriu repentinamente. Ia começar a desculpa ensaiada para Clara, mas logo que levantei os olhos dei de cara com os Irmãos Gafanhoto. Já falei deles, eram os que queriam quebrar minhas pernas. Continuavam com a mesma ideia fixa.
“Como foi nos cavalinhos esta semana, Bogart? Já tem o nosso dinheiro?” Só um dos Irmãos Gafanhoto falava, o outro nunca ouvi soltar um pio. Acho que era mudo ou então nunca tinha aprendido a se expressar verbalmente. Havia parado na fase de destruir as coisas. Elevou esta sua habilidade a um estado da arte.
Pensava seriamente em negociar pagar metade do que devia em dinheiro e a outra metade com uma das minhas pernas, a esquerda, mas eles queriam tudo em espécie. “Sabemos que tem dinheiro, vimos o velhote saindo daqui coçando os bolsos.” Pensei rápido e respondi, abrindo a gaveta com a chave:
“O velhote é um famoso restaurador e contrabandista, me confiou uma relíquia hindu.” Mostrava o elefante púrpura, pouco impressionante acondicionado daquela maneira numa sacola velha das Casas Bahia, sem a tromba. “Será vendida amanhã para um colecionador europeu, em segredo.” Torcia para que não se lembrassem dele.
Eles gastaram alguns segundos admirando a estátua. Impossível saber o que estavam pensando, ou se passava alguma coisa pela cabeça dos dois.
“Esse bicho gordo e roxo é valioso? Não me convenceu.” O irmão mudo concordava balançando a cabeça como um autista, procurando em volta o que usaria para me partir em dois.
“Vocês não precisam acreditar em mim, mas se vierem amanhã terão o dobro do que esperavam receber hoje.” Então usei minha última cartada. “Ou podem levar o elefante e vendê-lo vocês mesmos, com muito mais lucro.”
“Não, melhor ficar com essa coisa. Se não conseguir vender até amanhã, não vai ter mais nada com que se preocupar, Bogart”. Para não perderem o hábito, quebraram o porta-chapéus antes de sair.
EDITADO:
@PokeFan, Meltoh e Emanoel: Obrigado pelos comentários e elogios :)
Sobre o monólogo direto, sem explicações, acredito que é prerrogativa do autor pegar as rédeas da história e conduzi-la sem se preocupar em explicar os mínimos detalhes aos seus leitores. Os "buracos" são preenchidos pela boa vontade de quem lê e está interessado no enredo como um todo. Claro que, se fizer isso demais, ficará uma narrativa gratuita e pouco atrativa.
A única coisa que me preocupa agora é que não vai dar pra fazer a história toda à galega do jeito que estava fazendo.
Nesse capítulo já tive que me organizar minimamente para saber onde queria chegar.
E ainda não cheguei a lugar nenhum, mas tenho um esqueleto montado.
Só que não é a mesma coisa de sair escrevendo o que dá na telha :(