Capítulo 4. Dia de Sorte.
Vi-me uma vez de frente ao espelho após um banho quente. Depois de tropeços e escorregões pelo restante da casa, me olhar ainda intacto no espelho me alegrava. Ainda estava vivo, e aquele não mais prometia ser um dia azarento.
Perdi-me numa frase que escrevi de relance pela extensão borrada daquela janela de eu mesmo,
“dias de azar nos fazem pagar os dias de sorte com a própria morte” .
Exagerado. A questão é que temos dias para ambos, quando levantamos da cama tombando e quando levantamos sorrindo. O fato é que as coisas dão errado quando não queremos que elas dêem; após tropeçar no piso solto de madeira, praguejei a má sorte, e logo após havia batido a cabeça contra a parede.
O importante, na verdade, é que o final do percurso do azar era um banho quente, e após a relaxante cascata artificial, vi-me livre da maldição matutina enquanto encarava o espelho.
Outro fato é que os dias de sorte corrompem os dias de azar alheio. É inevitável para o azarado, controlável para o sortudo.
Provavelmente deve estar se perguntando o motivo deste presságio que mais tem a ver com a vida dos idosos seguros em suas casas nas Américas do que com os soldados em campo de batalha Europeu.
Bem, espero que este complemento lhe seja útil à leitura.
*
***
- Desgraçado! – praguejara o polonês quando um tiro certeiro lhe atravessara a canela depois do segundo passo.
Ele tombou como morto, adiantando uns quatro passos e rolando para a esquerda. Faltou-lhe ar. Soube no mesmo instante que estava com medo de morrer, assustado como um cachorro depois de uma queima de fogos.
Engoliu o destino terrível e aguardou mais alguns segundos até que o segundo tiro viesse. Passou-lhe a cabeça rezar para o tiro ser fatal, mas não daria tempo. Apertou as pálpebras com a maior força que conseguira, mas nada veio. Nenhum tiro fora disparado.
Esforçou-se para virar a cabeça contra o chão e ver onde jazia seu corpo. Estava atrás dum muro de pouco mais de um metro e meio, ao lado dos dois corpos alemães.
Seus bastardos. Praguejou ele enquanto um largo sorriso formava-se ao redor de sua boca.
Ria sozinho como um lunático.
Mas que sorte! Levara um tiro e escapara da morte. Sentiu um orgulho imenso lhe subir a cabeça e desejou poder contar isso aos seus filhos e ainda dizer que matou o atirador. Eles ficariam fascinados.
Puxou com esforço o corpo para trás, tentando recostar-se na parede e ter uma idéia do que faria a seguir. Ali era provavelmente a fachada de um bar, já que acima de sua cabeça havia uma janela que dava de frente a um balcão robusto de madeira entalhada. Ele não pôde ver muito enquanto caía de dor.
Ficou ali algum tempo encarando os dois alemães que faziam o mesmo, involuntariamente. Não pôde deixar de sentir um calafrio intercalar sua coluna enquanto aqueles cadáveres o fitavam sem piscar. Provavelmente eram novatos, nem deviam ter saído de Berlim ou Nuremberg.
Podia-se ver pelos trajes, que nunca haviam enfrentado uma explosão ou qualquer nuvem de concreto; e pelas armas, que nunca haviam nem sequer atirado. As balas pareciam estar todas ali, apesar do polonês não reconhecer o rifle que tinha em mãos.
Sentiu-se culpado por ter matado dois jovens, mas seu consolo era pensar que teriam feito o mesmo com ele. Fechou os olhos de ambos os alemães e lhes desejou o pior.
Tinha de estocar aquela ferida na perna. A primeira coisa que lhe veio a cabeça fora arrancar uma das mangas do sobretudo alemão, afinal, aos mortos não faria falta. Sem pestanejar, arrancou a manga do mais próximo e enrolara em torno da canela.
Agora tinha de mentalizar a situação. À sua esquerda havia uma torre com um atirador; à sua frente havia um grande edifício de tijolos expostos; e a para os outros lados haviam ruas extensas e restantes de vidro, madeira e cimento.
Estava preso. Não poderia sair dali, e se ficasse de pé, o atirador provavelmente o mataria. Estava novamente num dilema, mas desta vez a raposa espreitava a toca da lebre.
Fora quando a sorte lhe sorriu. Um pouco atrás da cratera de onde saíra, havia o cruzamento entre a rua da torre e a rua da lateral do edifício, e ali, escorado nos tijolos, jazia um aliado com expressão firme tentando sinalizar com as mãos. Repetia a mesma coisa e tentava indicar leitura labial, mas o polonês não compreendia.
O aliado abaixou a cabeça, pensando em como demonstraria sua mensagem. Apanhara o rifle que tinha escorado na lateral do corpo e apertara o gatilho. Nenhum tiro fora disparado. Em ordem, apontara para o rifle, para o polonês e depois fizera um gesto de questão.
Estava sem munição. Sua dúvida era se ao polonês também jazia a falta. O rapaz cinzento estendeu o braço e antes de indicar concordância ou contradição, lembrara do atirador que espreitava.
O polonês sentiu uma sensação terrível como a que um ecologista sente ao cortar uma árvore quando aquela idéia lhe passou pela cabeça, mas a sorte estava ao seu lado. Não podia desperdiçá-la.
Esforçou-se para ficar em posição de corrida com os joelhos flexionados, talvez quando começasse a corrida, cairia pela perna quase inútil. Ele novamente estendeu o braço para o aliado.
Rezou por trinta segundos pedindo ao seu deus que o perdoasse por isso, e então levantara o polegar como quem indica que sim.
O polonês sentiu uma dor no peito quando o sorriso de seu companheiro se estendeu pela face.
O que eu fiz? Mas já estava feito.
O homem deu quinze passos pela rua em direção do polonês até que se escutasse o único som do ambiente. Aquele barulho de explosão e estardalhaço que se escuta quando um tiro é disparado.
Uma bala atravessara a cabeça do homem que no mesmo instante fechara o sorriso numa tentativa frustrada de puxar o ar e caíra.
Precioso tempo; o polonês levantou-se e saiu mancando com a maior velocidade que conseguira. Estava livre da mira do atirador.
Era um dia de sorte para o polonês. Não para o aliado.