A História de Ralf Greenwood
Mais uma vez, eu vou tentar fazer uma história. E sim, sim. Ela é sobre o Tibia. Infelizmente para alguns. Mas eu realmente acho o universo do Tibia fascinante. Principalmente depois de ter entrado no Roleplay de Neptera, que me ajuda a encarar o Tibia de forma diferente. E sim, a história amplia um pouco o espaço dos territórios.
Prólogo - Logo abaixo
Capítulo 1- Bolos e histórias
Capítulo 2- O Pórtico de Partida
Capítulo 3 - Conselhos e Destinos
Capítulo 4 - Silêncio na Floresta
Capítulo 5 - Pássaros e Aranhas
Capítulo 6 - Dançando com Elfos
Prólogo
Era uma vez um homem, que vivia num barraco. Não era um barraco miserável nem uma mansão de luxo. Era somente uma pequena casinha, de madeira, na orla da floresta. A floresta era grande, extensa. Não era escura e sombria, como a maioria das florestas da época; e sim aberta, cheia de pequenos riachos e montes, com muitos coelhos e cervos vivendo ali. Ótima para fazer piqueniques na primavera ou caçar no outono.
Como eu ia dizendo, havia um homem que morava num barraco, na orla da floresta. Esse homem não era pobre, embora não fosse abastado. Vivia, com algum esforço. Caçava na floresta, vendia as peles para o curtidor da vila. Mas fazia-o somente para sobreviver. Na maioria do tempo, ficava perambulando pela vila contando histórias e ouvindo outras.
Amava histórias, o homem. Porém, nunca tinha participado de nenhuma, nem almejara. Sabia como ninguém relatar os feitos heróicos de outros e tinha uma platéia fiel a cada Festa de Primavera. No entanto, não possuía muitos amigos. Talvez pelo seu temperamento inquieto demais, ou por ter o estranho hábito de não receber ninguém em casa.
Ralf Greenwood não era conhecido por sua hospitalidade, nem pela sede de aventuras. Mas, nessa história, Ralf iria viver mais aventuras que conseguia contar. Porém, nada no céu melancólico de outono indicava que alguma mudança ocorreria para o homem. Já tinha obtido a carne que precisaria para o inverno. Estava tudo salgado, na despensa. Estava ocupado em cortar lenha, na soleira da porta de mogno.
Os sois - sim, há dois sóis - estavam no final do seu percurso, assim um ar frio pairava na floresta. Uma neblina incomum tocava as árvores, e uma brisa gélida levantava as folhas marrons e vermelhas que atapetavam o solo. Nada que preocupasse realmente o homem, que continuava a cortar o pedaço de madeira com seu machado enferrujado.
De repente, o som de muitos passos encheu a floresta. “Estranho, o que será?” pensou Ralf, apoiando o corpo suado no machado. Não era comum que pessoas passeassem pela floresta, não essa hora do dia. “Talvez uma caçada de jovens inábeis com o arco”. O barulho de passos aumentava. De repente, dois vultos saíram da floresta. Estavam andando calmamente, em meio à névoa que envolvia as árvores.
Depois de alguns segundos, Ralf conseguiu ver direito cada um. O primeiro era alto, com cabelos e barba brancos e feições velhas. Tinha um chapéu vermelho de abas largas. Seu corpo era envolto numa capa vermelha, de aparência frágil e usada, mas o velho não tremia de frio, como se fizesse pouco caso da temperatura. Estava apoiado num cajado marrom, feito de alguma madeira nodosa.
Era seguido de perto de uma criança, que estranhamente era barbada e tinha uma cara mal-humorada. A compreensão veio depois. Com certeza era um anão, embora Ralf não tivesse visto nenhum desde que tivesse nascido. O anão tinha prendido a grande barba marrom bifurcada no cinto de ouro. Carregava uma maça de espinhos pesada. Sua armadura de anéis batia nos joelhos e seu capacete era adornado com dois chifres reluzentes. Um escudo estava amarrado nas costas, junto da mochila.
Eles vieram calmamente, até o atônito homem. O velho estava discutindo alguma coisa com o anão, que resmungava algo enquanto coçava a barba e lançava olhares suspeitos para Ralf. Este largou o machado no chão e, como que obrigado por uma força maior, foi de encontro aos dois estranhos. O velho parou de andar e sorriu. Apoiou-se no cajado e soltou um suspiro de contentamento, como se tivesse achado algo intensamente procurado.
-Salve, Ralf Greenwood, eu sou Hyacinth, e estou prestes a te dar a melhor história que possas imaginar!
Desculpe estar um lixo o prólogo, estou escrevendo de uma lan house. É difícil escrever assim, olhando para o tempo toda a hora. Mas prometo que, depois do dia 16 (quando eu voltar para casa), vou me dedicar à história.
Ela foi baseada no roleplay de Neptera. Então, o personagem Ralf EXISTE mesmo. E o anão Helidan também. Se quiserem conversar com eles, ou viver muitas aventuras parecidas com essa que eu vou relatar, é só ir para Neptera e contatar a Langobardis.
EDIT
Feliz Ano Novo para vocês!
Capítulo 3 - Conselhos e destinos
Desculpe o atraso, aqui vai o capítulo, grande, para compensar.
Capítulo 3 - Conselhos e destinos
Se Greenwood prestasse um pouco de atenção ao ambiente, veria que estava num corredor de pedra. Uma pequena tocha na parede da esquerda servia de iluminação. À direita, um vão escuro e um forte cheiro de mofo indicavam que a famosa biblioteca era ali. E, do lado oposto ao pórtico de entrada, o corredor continuava.
Mas Ralf não prestava atenção no lugar, seus olhos assustados estavam voltados para os três outros ocupantes do recinto. Sentados em bancos com estofamento vermelho, atrás da terceira figura, Helidan e Hyacinth assistiam a cena se desenrolar com interesse. Segurando o braço do jovem, estava um homem alto e magro. Seus cabelos eram castanhos e seus olhos verdes. Usava uma capa azul escura de um tecido caro. A camisa de linho branco e o cinto de prata adornado com pedras preciosas revelavam que o homem era abastado. Um sorriso largo estava estampado na cara dele.
- Olá, olá, olá... senhor Greenwood. – falou o homem, com os olhos verdes brilhando. Subitamente, a mão relaxou e o jovem conseguiu se desvencilhar – meu nome é Seymour, Sir Seymour. Estava ouvindo o relato, digo, história, sobre a missão designada pelo próprio rei! Que honra fabulosa!
Ralf não pode deixar de notar que o discurso adulador continha pontadas de sarcasmo. Mesmo assim, gostou de imediato do bibliotecário. Parecia poder achar graça em qualquer situação, mesmo que desesperadora. E, mesmo Greenwood não sabendo na hora, por trás dessa carapaça humorada, Seymour detinha um conhecimento fantástico sobre as coisas que aconteciam e aconteceram no mundo.
- Olá, Sir Seymour. – respondeu Ralf, coçando o braço dolorido. Virando-se para os outros dois ocupantes do recinto, disse – E, oi para vocês também. Desculpem pelo atraso.
- Ralf, meu caro! – disse Hyacinth, levantando-se da cadeira num salto. Helidan permaneceu sentado e calado, com suas pernas envoltas com a calça metálica balançando. O velho se aproximou de Greenwood, com sua capa vermelha esvoaçando atrás. Seus olhos se voltaram rapidamente para a cara carrancuda de Helidan, passando por segundos pela face sorridente de Seymour até chegar nos olhos de Ralf. Este por sua vez, teve a mesma sensação de estar sendo lido como um livro que tivera da primeira vez. – Bem, aqui estamos reunidos, pelas causas que todos sabem. Os motivos nós sabemos, a finalidade também. Agora, cabe a nós decidir como temos de fazer o que precisa ser feito. Para esse intento, estamos juntos na digníssima biblioteca de Sir Seymour, o sábio.
“Quanta enrolação” pensou o jovem, observando o velho discursar. Helidan mantinha a cara fechada e o sorriso de Seymour aumentou um centímetro, ao ouvir o elogio para ele dirigido. Ralf se obrigou a prestar atenção em Hyacinth, ao invés de olhar para as paredes do local.
- ... e, ninguém, ninguém mesmo, poderia nos ajudar, e auxiliar a si mesmo desse modo, mais do que Sir Seymour.
- Obrigado pelas palavras, caro Hyacinth, nobre mago, conhecedor dos mistérios e conselheiro amigo nas horas de necessidade – falou o bibliotecário, com uma pompa falsa, imitando a do velho, fazendo Ralf abafar um risinho. – Quero realmente ajudar vocês. Como bem disse o nosso camarada, não sou conhecido por minhas doações de dinheiro ou armas, mas sim por meus conselhos, dos quais falarei a vocês agora.
“Primeiro de tudo: nunca desistam, não importe a dificuldade em que estejam. Se tentarem desobedecer a ordem real, acabarão mortos pelos soldados do rei quando voltarem. É melhor morrer como herói numa aventura do que um traidor da pátria em praça pública.
Segundo: apesar de terem Helidan como escolta, levem mais um guerreiro. Os perigos à frente são mais terríveis que vocês pensam. Eu recomendaria Ethoin, Escudo-que-não-quebra, um dos melhores guerreiros presentes na ilha. Mas Ethoin saiu a mais de duas semanas pela floresta de Drimwood e ainda não voltou.
Terceiro: vocês encontrarão amigos na jornada, da forma mais improvável. Cuidado com quem falam! Ele tem muitos espiões por ai. Nada é o que parece, desconfiem de todos e de tudo.
Quarto: velhas histórias e lendas sempre têm um fundo de verdade. Lembrem-se de que toda história tem um significado oculto. Escutem o uivar do lobo e o ulular do vento com atenção.”
Seymour parou de falar, sério. O sorriso já não estava em seu rosto. Seus olhos transpareciam uma sabedoria imensa e uma tristeza profunda. Seu coração dizia que todos os três iriam sofrer antes de completar a tarefa, se conseguissem completar. Olhou para a face ansiosa de Ralf, que ponderava sobre os conselhos dados. “Pobre homem, nem sabe em que está metido” pensou o bibliotecário. Seymour, mesmo sendo sarcástico e irônico, tinha um bom coração, por isso decidiu ajudar os três da melhor forma que pudesse.
- Acho que vou ter que dar mais do que conselhos para que vocês possam realizar a missão sem muitos problemas. Tenho equipamentos e armas que serão de grande valia nos perigos a frente. Se quiserem me seguir, por favor. – pediu.
Helidan se levantou com a mesma expressão de sempre. Hyacinth seguiu o bibliotecário pelo corredor, junto com Ralf, que refletia bastante nas palavras ditas há poucos segundos. Os passos do grupo soavam secos, abafados na pedra. Os archotes que ladeavam o corredor tremeluziam, lançando sua luz vermelha sobre a pedra escura das paredes. O cheiro de mofo foi ficando mais fraco, conforme a passagem para a biblioteca se distanciava.
O corredor acabava numa sala quadrada, também de pedra. Ela era desprovida de qualquer móvel, o que dava uma sensação de vazio, mesmo o espaço sendo pequeno. Duas escadas, uma levando ao andar de baixo e outra ao de cima, estavam bem no meio da sala. Seymour caminhou até lá e desceu a escada. Hyacinth e Helidan seguiram o bibliotecário, mas Ralf ficou para trás. Uma estranha vontade de subir as escadas até o andar de cima se apoderou dele.
O jovem esqueceu de todo o resto e caminhou lentamente para a escada que subia. Tinha esquecido da missão, dos companheiros, do bibliotecário, de tudo. Quando foi dar o primeiro passo para subir, uma voz cortante chegou aos ouvidos dele, vinda do andar de baixo: “Ralf?”. Greenwood sacudiu a cabeça. Percebendo o que estava fazendo, rapidamente desceu as escadas.
O andar de baixo era muito escuro, somente dois archotes iluminavam o ambiente. O ar era pesado e difícil de respirar. Parecia a todos que aquilo era um local de confinamento, ou que tinham entrado numa tumba imemorial. À esquerda da escada, a sala se abria num grande cômodo. Logo ao lado havia outro cômodo, que, pelo pouco que podia ser visto, parecia um salão de festas.
Mas Seymour não foi para nenhum desses dois lugares, virando para a direita, até chegar num ângulo de cento e oitenta graus em relação a escada. O bibliotecário pegou um molho de chaves e abriu a porta de madeira clara com um rangido. Assim que a porta foi aberta, uma rajada de ar quente saiu por ela. Parecia que agora havia uma corrente de ar. A sala seguinte era mais bem iluminada. Uns baús velhos e decrépitos estavam jogados num canto, a maioria deles abertos e sem nada dentro. Em cada canto do cômodo quadrado uma pequena pira queimava, iluminando o local.
Seymour encaminhou-se para a próxima porta de madeira, que ficava logo em frente a primeira porta. Pegou outra chave do molho, pôs na fechadura e, com um pequeno barulho metálico, abriu a segunda porta. A sala seguinte parecia idêntica a anterior. Um olhar mais atento revelava pequenas diferenças, porém. Não havia nenhuma porta na parede oposta e, um estreito corredor escuro que levava sabe-se Banor onde, partia da parede direita.
Um forte cheiro de óleo queimado chegou às narinas de Ralf, que prestava atenção numa alavanca de madeira, perto do canto esquerdo da parede oposta de onde tinham vindo. Estranhamente, a corrente de ar parecia vir da própria parede. Greenwood já estava indo em direção ao corredor escuro quando Seymour, para a surpresa do jovem, foi até a alavanca. Deu um puxão. O pedaço de madeira nem saiu do lugar.
Com um grunhindo, atirou seu peso contra a alavanca, que estalou, mas resistiu. Ofegante, o bibliotecário se afastou. Parecia que estava tomando impulso para um salto. Foi quando Helidan pousou sua mão, enluvada com couro, na madeira. Empurrou a alavanca, que gemeu sobre a força do anão. Este resmungou algo sobre bibliotecários fracos e alavancas emperradas. Empurrando com as duas mãos Helidan conseguiu que a alavanca saísse do lugar. Se anteriormente estava inclinada para a esquerda, agora estava quase a noventa graus do chão. De repente, a corrente de ar aumentou.
Ralf desviou os olhos do anão e se olhou para a provável origem do ar. Abriu a boca, espantado. O que anteriormente era uma parede sólida, agora era um vão sombrio. E, conforme Helidan ia empurrando a alavanca, o vão aumentava. Ouviu-se um barulho forte de algo se chocando e a parede parou de deslizar. O anão parou de empurrar e se juntou ao grupo, com um pequeno sorriso no rosto. Seymour sacudiu os ombros, como se dissesse “tanto faz” e entrou na próxima sala.
O grupo seguiu-o e viram, espantados, o arsenal que o bibliotecário possuía. Espadas, machados, lanças e maças estavam arrumados em prateleiras e expostos em estantes. Escudos, dos mais variados brasões, estavam pendurados nas paredes. Elmos estavam empilhados num canto, como uma pilha de crânios. Armaduras dos mais variados materiais estavam penduradas em postes de madeira. Na parede da direita havia enormes armários. E eles estavam atulhados de equipamentos, de cordas e pás a pederneiras, chaleiras e mochilas.
Seymour riu da cara de espanto de Ralf e apresentou os objetos para os aventureiros, pedindo que escolhessem o que eles quisessem. Helidan não pegou nenhuma arma nem armadura, não precisava. Entretanto, se serviu com gosto dos equipamentos, aumentando seu sorriso. Hyacinth escolheu uma bela espada afiada e pegou um pequeno escudo de madeira. Já Greenwood pegou um escudo oblongo, feito de madeiram também, embora fosse recoberto com finas placas de metal. Escolheu também uma espada longa e fina, com estranhas runas gravadas no cabo.
Depois de testar a espada, Ralf viu, jogadas num canto, arrumadas em feixes de cem, centenas de flechas, todas vermelhas e emplumadas com penas de corvo. Com espanto, pegou um bocado delas, e amarrou-as num saco, junto a bainha da espada. Havia alguns arcos pendurados na parede esquerda, mas o jovem preferia usar o seu próprio.
Depois de agradecerem imensamente ao bibliotecário, todos saíram dali e foram para o salão de festas. Quando passaram pelo terceiro cômodo, Helidan fechou, com outro estrondo, a porta-parede. O salão em si não era muito suntuoso. Havia duas grandes mesas paralelas, entre elas, no centro, uma grande fogueira apagada. Os archotes, ligados, iluminavam as paredes, de tijolos vermelhos. De quando em quando, grandes tapeçarias que retratavam diferentes histórias desciam do teto e davam certa vida as paredes monótonas.
Ralf se lembrava dali, já tinha vindo diversas vezes em festas e comemorações. Normalmente, ficava numa das duas mesas, junto ao povo. Mas hoje estava sentado numa mesa separada, que era quase encostada na parede norte. Esta mesa, a única que tinha toalha, estava num estrado, que deixava os ocupantes num nível superior aos outros. Normalmente, só os habitantes que faziam a nobreza do vilarejo sentavam ali, mas hoje todos jantaram na mesa.
O jantar não foi muito animado. Tinha mel, pão, carne de galinha, coelho, cervo, um pouco de peixe defumado e um caldo nutritivo feito da mistura de trigo com carne de porco e raízes muito popular na vila que eles chamavam de Groba. Ralf e Helidan beberam cerveja, enquanto Hyacinth e Seymour tomavam vinho.
Durante a refeição, Hyacinth e Seymour trocaram informações sobre a geografia da ilha, e sobre as criaturas que provavelmente encontrariam pelo caminho. Começaram, então a traçar planos para chegar no objetivo. Helidan não pareceu muito interessado na conversa, e ficou bebendo cerveja e olhando para as tapeçarias, interessado.
Quando Ralf começou a cambalear de sono, Seymour parou de conversar e indicou para o jovem um colchão de palha, perto da parede. Greenwood deitou, e quase imediatamente dormiu. A última imagem que lhe veio em mente era de Hyacinth acendendo o cachimbo e soltando fumaça, conversando com Seymour.
Naquela noite, Ralf teve um sonho muito estranho. Sonhou que se levantava do colchão de palha e passava por seus companheiros adormecidos. Subia lentamente as escadas até o andar superior. Com um átimo de hesitação, subia o outro lance de escada lentamente. Sua respiração estava pesada e fazia pequenas nuvens de vapor à sua frente. O ar frio de uma noite de outono quase inverno comprimia seus pulmões.
O andar de cima era um corredor que dava numa varanda, virada para a praça, ao sul. Ralf se encaminhou para a sacada. Uma brisa gélida fustigava as faces pálidas do jovem, que olhou para a praça deserta e, forçando a vista, viu o templo, magnífico sob a luz da lua, ao sul. Fechou os olhos, deliciado com o vento e o momento mágico.
Depois de um tempo, virou-se para ir embora, quando notou um arco a direita. Um tapete vermelho fofo ia da escada para o arco, e continuava para a outra sala. Greenwood parou, curioso. Uma excitação tomou conta dele, e ele cruzou o arco. O tapete virava para o norte. Lá, no fundo da sala, estava uma estátua soberbamente esculpida. Era uma figura humanóide de tamanho real, mas tinha enormes asas abertas. Esculpida em mármore branco, passava tal majestade que o rapaz se ajoelhou ante ela.
Ficou um momento parado, olhando para o chão, sem coragem de encarar os olhos de mármore a frente. De repente, uma voz imponente, como o som de mil trombetas douradas saudando o amanhecer dos sóis, ecoou pela mente de Ralf.
- A profecia d’O Lobo está preste a se cumprir. O ferreiro espera ansioso por ti. Não procures por quem já morreu. Quando todas as armas se mostrarem ineficazes, utilize a sua maior. Cuidado com o que vem do Oeste! Pois pode ser tua ruína!
A voz se calou, e Ralf Greenwood, o contador de histórias tinha um destino.
Bem, é isso. São quase duas horas da manhã e eu estou escrevendo cinco horas seguidas só parando para beber água duas vezes. Me senti inspirado não sei porque hoje e escrevi seis páginas do RP. Posso ter deixado escapar algo. Comentem e deixem um escritor feliz!
Gostou? Quer viver aventuras como essa? Que falar com Ralf e ouvir histórias de inúmeros guerreiros? Venha para Neptera e jogue Tibia como ele deveria ser jogado! Seja um roleplayer!
Capítulo 4 - Silêncio na Floresta
Capítulo 4- Silêncio na Floresta
Os sóis mal tinham despontado no horizonte e Ralf Greenwood já estava sendo acordado a sacudidas. O estranho sonho estava marcado a ferro e fogo na mente do jovem rapaz, que se levantou rapidamente. Estava no salão onde dormira a noite anterior, mas nada no recinto escuro indicava que o tempo passara. A única diferença era o barulho, bem maior do que o da noite anterior. Passos ecoavam nas pedras dos corredores da construção, ratos corriam, fugindo dos gatos que caçavam sem serem importunados.
Mas o recinto em si estava quase vazio. Helidan estava verificando algo na mochila de viagem e Hyacinth conversava baixo com Seymour. O bibliotecário não colocara a capa azul da noite anterior, embora ainda usasse a camisa de linho branco, enquanto Hyacinth usava a mesma capa vermelha de sempre. Ambos estavam recurvados sobre a mesa, examinando um mapa.
Ralf vestiu-se e calçou as botas, levantando-se em seguida. Examinou curioso o mapa estendido sobre uma das longas mesas. Pelo que podia ver, retratava a ilha de Rookgaard, embora, como quase todos os mapas feitos na vila, havia várias áreas em branco, principalmente no lado oeste da vila. Ao pensar, curioso, no que teria do lado oeste de Rookgaard, Greenwood lembrou-se das palavras do sonho da noite anterior, predizendo que algo, vindo do oeste, poderia ser sua ruína. Com um estremecimento, resolveu não entrar no assunto entre os dois sábios e foi verificar a bagagem.
Menos de meia hora depois, estavam todos prontos para partir. Caminharam até onde tinham se encontrado pela primeira vez, perto do arco sinistro. Todos estavam silenciosos, pensativos. A luz dos sóis iluminava a bela praça, que começava a ficar cheia de pessoas. Mulheres faziam fila para pegar água no poço, homens caminhavam para o trabalho nos campos ou na própria vila. Enfim, mais um dia que começava.
Seymour parou na soleira da porta e se voltou para eles. Seu rosto normalmente risonho e brincalhão estava sério. A luz que entrava pela porta tornava os olhos do bibliotecário pequenas esmeraldas claras, que brilhavam. O cheiro de mofo, muito provavelmente vindo da biblioteca ao lado, pairava no ar.
- A hora de partirem se aproxima. E meus olhos não conseguem ver por entre a escuridão que envolve o futuro próximo de vocês. Não desistam da busca, por mais que ela possa parecer impossível. E, lembrem-se: não saiam da trilha! Drimwood é habitada por monstros e animais ferozes, e mesmo na velha trilha que leva ao embarcadouro leste vocês podem ser atacados. Andem com as armas na mão. Adeus agora, e boa sorte. Que as estrelas de Crunor brilhem nos seus caminhos. - Os três aventureiros murmuraram um obrigado e começaram a andar.
Saíram da vila pelo portão norte e viraram a leste, seguindo por uma pequena estrada de terra, ladeada por árvores e campos cultivados. Ao norte, os contrafortes da Glawdin olhava-os, ameaçadores. Seus picos se fundiam com a paisagem cinzenta. O dia estava frio e escuro, mais parecendo o auge do inverno do que o fim do outono. Os ânimos entre os três estavam baixos, por isso seguiam, sem trocar palavra. A muralha da vila costeou por certo tempo a estrada, depois se inclinou para o sul.
Pararam para comer cinco horas depois do nascer dos sois. Um pequeno riacho cortava a estrada, que se inclinava para sudeste, a fim de atravessar o corpo d’água na parte mais rasa. Os campos cultivados tinham ficado para trás, e pequenos bosques de árvores se formavam. Perto do riacho, um grande carvalho crescia. Suas folhas estavam marrons, e de seus imensos galhos liquens e samambaias pendiam. Grandes raízes erguiam do solo e muitas iam direto para a água.
Cataram galhos secos e fizeram uma bela fogueira. Um vento cortante vinha do sul, fazendo o fogo tremeluzir. Comeram um pouco das provisões que Seymour tinha dado a eles. Carne seca, pães e queijos duros. Complementaram o almoço com umas raízes que acharam perto. Depois de descansarem um pouco, retomaram a viagem.
Não encontraram ninguém, durante todo o dia. Nada anormal, já que a estrada era muito raramente usada. A trilha levava para um pequeno atracadouro na costa leste da ilha, onde antigamente contrabandistas e piratas aportavam, descarregando seus produtos e carregando suas naus. Mas os soldados do rei tinham descoberto o local e terminado com o contrabando. Assim sendo, o lugar estava abandonado há tempos.
Mas eles seguiam pela trilha, pois era o único caminho que levava a leste. Mesmo sem conversar, sabiam que estavam procurando indícios de Ethoin. Hyacinth devia ter conversado longamente com Seymour sobre o possível paradeiro do guerreiro, pois não consultou Helidan, tampouco Ralf, sobre o caminho que deveriam tomar. Caminhava, resoluto, e os outros dois seguiam o velho.
Duas horas depois de terem atravessado o riacho, os bosques começaram a ficar mais densos, e os espaços entre eles rareavam, até se tornarem pequenas clareiras. A floresta se fechou sobre a trilha. O chão estava atapetado de folhas mortas e um silêncio sinistro envolvia a mata. Parecia que não havia nenhuma vida ali. Nenhum pio de pássaro ou um amassar de folhas.
Ralf teve um súbito desejo de gritar, para quebrar o opressor silêncio. Sabia que estava fazendo a coisa errada, mas não podia deixar de fazer um barulho, pois a quietude era aterradora. Tomou ar e, quando abriu a boca para soltar um berro, sentiu uma mão se fechar em seu rosto, calando-o.
- Shhh – sussurrou Hyacinth, com a mão na boca do jovem. Mesmo tendo sussurrado, pareceu que o velho tinha gritado – não faça barulho, se não quiser arrumar confusão, Ralf. Não gosto do silêncio também, mas melhor não quebra-lo. O que um grito atrairia de uma mata como essa? Boa coisa não pode ser.
Greenwood concordou, meneando a cabeça, com Hyacinth, que destampou a boca do rapaz. Helidan estava com os olhos negros atentos, com uma mão no cabo da pesada maça de ferro. Havia um clima de tensão no ar, como que se as árvores conspirassem planos sinistros para os viajantes. Ralf desejou que o vento sul soprasse de novo, pois o ar lá dentro parecia parado, morto.
Seguiram andando floresta adentro. Depois de mais alguns quilômetros, a trilha se inclinava para o sudeste. A mata fechada impedia aos três de verem aquém das árvores ao redor deles. Mas, nesse ponto, Hyacinth soltou um grito de felicidade. O grito ecoou, de forma agourenta, pelo lugar, entretanto o velho pareceu não se importar e apontou, excitado com a descoberta, para uma outra trilha, menor e menos evidente.
Mas não era só isso, havia sinais que a trilha fora recentemente usada. Uma pequena fogueira tinha sido acesa metros à frente e marcas claras de botas pesadas espalhavam pelas folhas caídas. Eram pelo menos dois pares de botas, já que havia marcas de tamanhos diferentes. O velho analisou cuidadosamente o chão, e depois acenou para os dois outros que deveriam seguir a trilha menor.
Helidan foi ao encontro de Hyacinth, e Ralf os seguiu, com o coração pesado. Não lhe aprazia deixar a estrada principal, e um estranho medo apoderou-se dele enquanto andava pelo caminho indicado pelo velho. As árvores agora se erguiam mais próximas, suas raízes faziam os três tropeçarem de vez em quando e o parco brilho dos dois sóis tinha desaparecido. Só pequenas frestas de luz passavam pela espessa camada marrom de folhas. Pequenos riachos escuros deslizavam silenciosos por entre as árvores.
Continuaram caminhando, desviando-se das raízes e dos liquens caiam dos troncos grossos. A estrada seguia para o sul, sempre para o sul. A floresta começou a escurecer mais. Os sóis estavam se pondo. Ralf começara a se perguntar onde e quando parariam para dormir quando a trilha deu numa pequena clareira. A grama ali era revolvida, como que pisada por muitos pés. Depois de uma rápida consulta aos outros, Hyacinth resolveu acampar ali.
A fogueira foi acesa e eles jantaram rapidamente. Depois, ficaram em volta do fogo, se esquentando. A noite estava fria e as pesadas capas de pele não os protegiam totalmente. O silêncio sepulcral ainda pairava no ar. Não agüentando mais ficar tanto tempo sem falar, Ralf chamou o velho.
- Hyacinth, o que estamos fazendo aqui? E porque a floresta é tão silenciosa?
- Estamos procurando Ethoin, o guerreiro – respondeu o velho, confirmando as suspeitas do rapaz – e, o silêncio é estranho. Já andei por Drimwood antes, mas sempre ouvi ruídos. Não consigo compreender o porque deste silêncio. Melhor dormirmos com vigia hoje de noite.
Tiraram sorte, e Helidan foi o primeiro a vigiar. Ralf se acomodou no chão e cobriu-se com o cobertor. Ficou se remexendo no chão, incapaz de cair no sono, ao contrário de Hyacinth que roncava que nem uma pedra. Ralf ficou acordado até o turno do anão acabar e o seu começar. Helidan também caiu imediatamente no sono.
Inquieto, o jovem agarra o cobertor, olhando para a orla da clareira. Fruto da sua imaginação ou não, parecia que muitos pares de olhos espiavam da escuridão. Olhos bulbosos e foscos. Estremecendo, Ralf pegou um pedaço de madeira não muito queimado como tocha e foi até as primeiras árvores. O silêncio não tinha sido quebrado. A parca luz da tocha pareceu engolida pela escuridão a frente.
Saindo da clareira, o rapaz olhou para os lados e para cima. Pequenas estrelas brilhavam no céu escuro. Suspirando aliviado, principalmente por não ter visto nenhum olho horrível, Greenwood se virou, para voltar para a clareira. Quando ia passando pela última árvore, ouviu um barulho. Assustado, o jovem ergueu a tocha. Nos galhos em volta, centenas e centenas de olhos bulbosos, pertencentes a centenas de aranhas grandes, olharam para ele.
Soltando um grito de pavor, o rapaz correu para a clareira. No meio do caminho, sentiu uma dor aguda nas costas, como se tivessem enfiado uma lâmina fina na carne. Com um grunhido, Ralf Greenwood caiu no chão, desacordado.
Quer viver aventuras num mundo medieval mágico? Venha para Neptera e seja um roleplayer!
Pronto, mais um capítulo. Espero que tenham gostado.
Capítulo 5 - Pássaros e Aranhas
Capítulo 5 - Pássaros e Aranhas
A primeira coisa que Ralf sentiu quando acordou foi náusea. Sua boca estava seca e sua cabeça lateja fortemente. O jovem ia pedir para Hyacinth trazer um pouco d’água, quando percebeu que sua mandíbula estava amarrada, com um tipo de corda viscoso. Desesperado, Greenwood tentou usar as mãos para tirar o material nojento dali, mas suas mãos estavam atadas junto ao corpo.
Debatendo-se freneticamente, o rapaz rolou pelo o que ele supôs ser o chão da floresta. Pelo menos ele conseguia ouvir algo. As folhas grudavam na corda e dificultavam a respiração do jovem. Ralf tentou gritar, mas sua voz saiu abafada, como se estivesse a centenas de metros de distância.
Subitamente, ouviu um barulho. Parecia um chiar baixo, acima de onde estava. Lentamente, ele levantou um pouco a cabeça, dificultado pelos fios que amarravam por todo o corpo. Uma grande aranha descia por uma fina teia da árvore mais próxima. Espiava Greenwood com seus oito olhos bulbosos. Suas patas se moviam rapidamente e do seu corpo desprendia um cheiro enjoativo.
A aranha tocou no solo numa lentidão terrível. Parecia se deleitar com o desespero de Ralf, que começou a tentar se desvencilhar com mais intensidade. Gritava e tentava mover os braços, para poder se defender, ou até mesmo correr. Mas os gritos saiam abafados e seus braços permaneceram imóveis, muito bem atados pelas teias viscosas.
Chiando, como se estive rindo do esforço inútil do rapaz, a aranha se aproximou mais. Seus olhos negros se fixaram no rapaz, e dois ferrões pegajosos saiam do baixo ventre da criatura. As armas eram finas, cruéis. Pingavam uma substância verde que Ralf tinha certeza que era veneno. O jovem parou, imóvel, aceitando a sua má fortuna. Seus pensamentos se dirigiram para sua vida anterior, tão pacata que parecia um sonho. Lágrimas brotaram dos seus olhos
- Sssim, carrne fressca – chiou a aranha num thaisense lamentável – Nós gostarrr de carrne fresssca –
Horrorizado, Ralf percebeu que estava no centro de uma colônia, e das árvores em volta as aranhas desciam, chiando e rindo. Suas teias pegajosas cobriam o local de forma nojenta e vários ovos estavam agrupados num canto, perto da maior árvore, que ficava no centro da clareira.
O dia já tinha raiado, e a claridade dos sóis iluminava o triste espetáculo. Da árvore central vinham aranhas maiores, enquanto da orla da colônia surgiam todo tipo de aranha imaginável. Aos pés da grande árvore, pertos dos ovos diversos ossos mostravam o que acontecia com forasteiros e o provável destino do rapaz.
De repente, a voz do oráculo veio a sua mente. “Quando todas as armas se mostrarem ineficazes, utilize a sua maior”. Mas qual era sua maior? Não tinha tempo para pensar, as aranhas estavam se aproximando, com suas múltiplas patas. O cheiro nauseante se intensificou e Ralf sentiu um líquido frio escorrer por seu pescoço. Uma grande aranha, gorda e fedida, estava pouco centímetros acima de sua cabeça e babava uma gosma verde.Greenwood se encolheu e esperou pelo pior.
Mas o pior não veio. Um forte cheiro de queimado preencheu a colônia. Ralf abriu os olhos. As aranhas chiaram e se agitaram, confusas. A aranha gorda tinha caído, com suas pernas pateticamente viradas para cima. Seu corpo estava queimado e fedia como nunca. E, da orla da clareira, um outro projétil de fogo acertou a primeira aranha em cheio, entre os olhos bulbosos.
A aranha caiu, morta, enquanto suas irmãs corriam furiosas em direção de onde o projétil tinha partido. Estavam quase chegando na borda da colônia, quando Helidan apareceu. Estava paramentado para batalha e seu rosto sempre sorumbático se agitava numa ferocidade atroz. Sua barba balançava, conforme ele agitava a pesada maça de espinhos de ferro. Seu escudo estava descoberto ao sol e ele cantava em sua estranha língua enquanto matava.
Era primeira vez que Ralf via Helidan lutar, e ficou maravilhado com a habilidade do anão. O guerreiro simplesmente varria as aranhas com sua poderosa maça. Logo o solo da colônia tornou-se coalhado de corpos dos aracnídeos. Helidan acertava as aranhas numa velocidade espantosa, como se sua maça fosse mais leve que uma pluma. O que não era verdade, já que nenhuma pluma abriria os animais do jeito que a arma do anão fazia. O sangue viscoso respingava pelo escudo do guerreiro.
As aranhas estavam furiosas e atacavam loucamente Helidan, que girava a maça, absoluto. Sua malha aparava qualquer eventual picada que seu escudo não defendia. Mas sua maça não era sua única arma. As pesadas botas de couro esmagavam as aranhas, assim como a bossa de ferro do seu escudo. Uma ou duas vezes, o anão chifrou um animal com seu capacete.
Logo, restavam poucos aracnídeos na colônia. As poucas aranhas que não estavam mortas subiram nas árvores e fugiram da clareira. O cheiro nauseabundo diminuiu um pouco e agora a clareira não parecia tão amedrontadora assim. Ralf se mexeu, atraindo a atenção de Helidan e de Hyacinth, que tinha ficado na orla da floresta. Ele que tinha jogado as pedras de fogo nos primeiros animais.
O escudo e a malha de Helidan estavam cobertos da substância verde e pegajosa das aranhas. “As vezes usar uma maça pode te deixar meio sujo” pensou o rapaz, enquanto os dois salvadores se aproximavam. Não sabia porque estava pensando nisso. Seus olhos estavam marejados de lágrimas, não sabia se de felicidade ou do terror anterior.
Hyacinth cortou as teias que prendiam Ralf e ajudou o jovem a se levantar. Logo depois, Greenwood sentiu uma tontura e uma náusea se abateu sobre ele. Vomitou caindo no chão, tremendo. O velho amparou o rapaz e foram capengando para fora da colônia. O ar se tornou mais respirável assim que saíram da clareira. O contador de histórias se sentiu melhor.
Sentou-se, com as pernas ainda bambas, num tronco meio apodrecido. Respirava rápido, enchendo seus pulmões de ar novo, ar puro. Estava mal, apesar de estar bem melhor do que dentro da clareira. Evidentemente os efeitos colaterais do veneno ainda debilitavam o jovem, mas só de ser salvo, sentia-se melhor.
- Ralf? Ralf? Como está? Consegue falar? – perguntou Hyacinth, preocupado. O velho se abaixou para ficar no nível da cabeça de Greenwood. O rapaz nunca tinha reparado que Hyacinth era realmente alto, apesar de ser um pouco curvado. As vestes vermelhas do mago pareciam perfeitamente adequadas ao marrom outonal da floresta.
- Sim – sussurrou o jovem, com a voz fraca. Sua garganta estava doendo horrores, assim como seu estômago. Sua cabeça latejava e seus olhos ardiam. Uma enorme vontade de beber algo tomou conta do seu ser. Arfou e gesticulou para seu companheiro. – Água, água, por favor!
Hyacinth prontamente pegou um odre de couro e, tirando a tampa, virou um pouco do conteúdo na boca de Ralf. Este agradeceu aos céus, silenciosamente, quando a primeira gota do líquido passou pela garganta ressecada. A dor diminuiu um pouco. Só depois de uns segundos bebendo, o contador de histórias percebeu que não estava bebendo água. O líquido que caía em sua boca tinha um gosto doce e agradável.
Olhou surpreso para o companheiro, que parou de verter a substância e tampou cuidadosamente o odre. Hyacinth olhou para Ralf ansioso, como esperando que o homem tivesse espasmos súbitos ou se transformasse em um temível dragão num piscar de olhos. Greenwood, sentindo-se melhor subitamente, se levantou.
- Está tudo bem com você? – perguntou o velho, ainda encarando o outro de forma atenta. Sua barba branca estava um pouco suja de terra, assim como várias partes das vestes. Estava com olheiras profundas e rugas marcavam seu rosto.
- Sim, estou me sentido muito melhor – respondeu o rapaz, com um que de surpresa. As dores no corpo tinham passado, assim como a sede. E, embora seu estômago estivesse roncando de fome, sentia-se pronto para andar quilômetros e mais quilômetros floresta adentro. E, além da fome, sua curiosidade se aguçara – o que você me deu para beber?
- Água – respondeu vagamente Hyacinth, sacudindo a cabeça um pouco. Ralf encarou o amigo com um olhar cético. O velho balançou a cabeça, como sugerindo que não explicaria o mistério do líquido. Greenwood levantou a sobrancelha e cruzou os braços. Hyacinth então fez um gesto resignado e falou – Não menti para você, Ralf, é realmente água. Mas é uma água especial, feita pelos elfos.
-Elfos? – inquiriu o jovem, ansioso por mais informações. Assim como nunca tinha visto um anão antes, jamais vira um elfo. Sabia que eles eram uma raça misteriosa, com estranhos hábitos e poucas histórias retratavam os feitos deles. Viviam nas florestas, nas árvores, já que amavam Crunor e toda sua obra. Tinham habilidades com cordas, seja de instrumentos musicais como o alaúde como as cordas dos seus arcos certeiros.
- Sim, elfos. E sim, eles bebem um tipo diferente de água. E sim, eu já me encontrei com um. E sim, existem elfos nesta ilha. E sim, vamos visita-los agora. – disse rapidamente o velho, antevendo as perguntas que fatalmente viriam. Quando disse as duas últimas frases, Ralf soltou uma exclamação de assombro. Nunca imaginaria que veria elfos em Rookgaard. Mas também nunca tinha pensado seriamente em participar de qualquer aventura.
Greenwood ia perguntar mais sobre as estranhas criaturas quando os dois ouviram um resmungo, vindo da clareira. Helidan estava de volta, com a pesada maça apoiada no ombro direito e o escudo pendendo no braço esquerdo. Seu rosto parecia calmo e, estranhamente para Ralf, feliz. Sorria pela primeira vez desde que encontrara o contador de histórias, num anoitecer enevoado.
- Não acho que as aranhas vão incomodar mais. Estava quebrando aqueles ovos nojentos. – disse numa voz alegre. Depois riu, mostrando os dentes brancos por trás do bigode cerrado. Seu riso ecoou pela floresta. O local, depois da bebida e agora ecoando o riso do anão, parecia muito menos terrível e ameaçador. O silêncio já não era o mesmo. Inúmeros pássaros e outras criaturas faziam um barulho agradável.
- Estranho, ontem não vimos viva alma. E hoje a floresta parece transbordar vida. – falou Ralf olhando para um grande melro que parecia estar realmente alvoroçado. Ia de galho em galho, perto do grupo, e olhava para o rapaz com seus olhos pretos, enquanto piava estridente. Greenwood olhou atentamente para a ave e falou para os dois companheiros, com os olhos ainda fixos no melro – Parece que este pássaro quer nos contar algo.
- Devem estar felizes com a destruição da colônia das aranhas, só isso. – falou Hyacinth, prestando atenção nas outras aves. Ao ouvir isso, o melro se aproximou mais e piou estridente. Bateu asas e pousou no gramado perto dos três, piando. Era incrível o volume do barulho, vindo de criatura tão pequena. O velho continuava a olhar para os outros animais, como que procurando algo – Que lástima. Se houvesse aqui uma coruja ou uma águia, até mesmo um corvo, eu poderia entender o que este melro está tentando nos contar. Mas ele fala muito rápido e sua língua é muito diferente para que eu possa entender algo.
O melro parou de piar e espiou Ralf mais um pouco, saltitando na grama. Aparentemente desistiu de tentar passar a mensagem e voou para a algazarra dos seus companheiros. Os três ficaram olhando para as aves por mais um tempo, e depois decidiram fazer seu desjejum ali mesmo, para a alegria do faminto contador de histórias.
- Então, me contem tudo o que aconteceu ontem a noite – perguntou Ralf, enquanto comiam. Não haviam feito fogueira, nem havia necessidade disso, já que comeram pão e frutas somente. Conseguiram encontrar um pé de amora e complementaram a refeição com várias destas frutinhas.
Helidan e Hyacinth se entreolharam de forma suspeita, como que com medo de tocar no assunto. Por fim o velho deu os ombros e decidiu contar.
- Você ficou duas noites e um dia na colônia, Ralf. Quando eu acordei, vi que você tinha sumido. Imediatamente partimos em sua procura. Vimos restos de teias na orla da clareira, indo em direção a leste. Seguimos as malditas teias até de o crepúsculo, quando fomos abordados pelos elfos – nesse ponto Helidan soltou um bufo e revirou os olhos, resmungando.
- Eles nos disseram que havia uma colônia de aranhas perto e nos mostraram o caminho, além de nos darem o odre de água e nos fazerem prometer que iríamos voltar para falar com eles.
- Mas não nos ofereceram arcos e elfos para matar as aranhas – bufou o anão de novo.
- Já te expliquei, caro amigo. Eles amam a floresta, assim como todas as crias de Crunor. As aranhas foram criadas por ele, presentes para Nornur, deus dos ventos. Mata-las seria ir contra seus supostos irmãos, já que os elfos mesmo veneram Crunor como pai. Bem, continuando. Chegamos na orla quando os dois irmãos estavam despontando no horizonte. E foi bem na hora. Consegui acertar algumas aranhas com minhas pedras de fogo e Helidan cuidou do resto. – continuou Hyacinth. Ralf estremeceu, ao se lembrar do líquido gosmento escorrendo por seus ombros.
Helidan fez um sinal de positivo, confirmando a história do velho. Depois pegou um pano e começou a limpar o resíduo dos aracnídeos da poderosa maça. Um espinho ou outro tinha entortado um pouco. Mas nada que comprometesse a eficácia do instrumento, já que a principal ameaça era o peso esmagador da bola de ferro. O anão, percebendo que o jovem prestava atenção em seus movimentos, levantou-se.
- Um dia, não poderá contar comigo, garoto, então vai ter que sujar as mãos- disse, sério, enquanto, balançava a maça e ajeitava o escudo no braço esquerdo – Vamos, arme-se.
Então Helidan, num grande salto, chegou perto de Ralf, e fingiu um ataque com a massa. O rapaz, desesperado, desviou por instinto e caiu nas folhas mortas do solo. O anão se afastou um pouco, deixando Greenwood pegar seu escudo oblongo e um pedaço de pau. Vendo a arma patética do jovem, o guerreiro jogou sua maça no chão e pegou ele também um pedaço de pau.
Ralf correu para o anão, e atacou com a espada, visando acertar o espaço entre a malha e o capacete. Helidan simplesmente ergueu o escudo, aparou o golpe e acertou o adversário nas costelas com seu pedaço de pau. O rapaz então desceu o pau quase acertando o capacete do outro. Mais uma vez, Helidan se esquivou e, agora com um chute bem aplicado na bunda de Greenwood, fez o adversário cair pela segunda vez nas folhas mortas.
Hyacinth sentou-se no chão e pegou seu cachimbo. Olhou interessado para a luta e riu quando Ralf caiu pela quarta vez no chão. Bocejou e olhou para a floresta, que resplandecia nas cores de final de outono. Os pássaros ainda faziam um barulho dos infernos e os sóis estavam altos, embora não passasse das dez horas da manhã. Voltou sua atenção, então para os dois lutadores. Helidan estava corrigindo o posicionamento do escudo de Ralf. Ia ser um longo dia.
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Demorou mas está ai. Eu trabalhei um pouco mais neste capítulo, pois não gostei do anterior e queria de alguma forma "compensar". Postem o que acharam.