O Arauto do Expurgo
Capítulo IV
Desconhecidos
Sobre um pequeno monte de areia, um homem moreno, alto e corpulento observava a vastidão do deserto com um binóculo. Ao seu lado, encontrava-se uma garota muito branca, vestida com chapéu e sobretudo de mesma cor.
– Já estamos chegando? – perguntou a garota, com esperança no olhar.
– Myra, eu estou cansado de ouvir essa pergunta – respondeu o homem, rispidamente.
Ficaram parados por muito tempo. Apenas Myra demonstrava incomodo com a exposição ao torturante calor do sol, alem de profundo aborrecimento e cansaço. O laço rosa do seu suntuoso chapéu balançava ao vento, com frenética fulgência.
O homem, que não tirava os olhos do binóculo, estava sem camisa, deixando seu corpo forte e suado a mostra. Mantinha uma expressão séria e compenetrada, como a de um caçador que se prepara para o tiro fatal e o abatimento da presa.
A dupla não se assemelhava em nada. O robusto adulto e a jovem garota pareciam criaturas de mundos diferentes, com destinos entrelaçados. Qualquer ser humano que vagasse por aquelas terras, acreditaria que a permanência dos dois, parados naquele lugar inóspito, era praticamente irreal.
– Temos um imprevisto – falou ele, finalmente guardando o utensílio. – Siga– me.
***
Vincent tinha andado a esmo pelo deserto de Jafigz, durante poucos e longos dias. O humilhado fugitivo enfrentou sede, fome e fortes tempestades de areia. Seu braço esquerdo latejava de dor e suas pernas não suportavam mais a longa e triste caminhada, em direção ao acaso. Duas luas após o encontro com o agricultor, um dos grandes heróis de Doria encontrava-se mais uma vez jogado ao chão, como um mendigo maltrapilho.
A areia parecia carvão fervente. Deitado de lado, sem forças para se mover, esperava a noite chegar. Na escuridão o frio era intenso, entretanto, ele se sentia mais confortável para continuar a caminhada. Lutava para não perder a consciência, lembrando-se constantemente que era a sua ultima chance de sobreviver.
Quando menos esperava encontrar algum sinal de vida, enxergou duas pessoas que corriam em sua direção. Uma garota, que mais parecia ser feita de porcelana, gritava em seu auxilio, com sua voz aguda e assustada:
– Consegue andar? Você está bem?
Ela estava acompanhada por um homem estranho. Roupas e adereços diferentes dos que eram produzidos naquela região, tom de pele escuro e longos cabelos eriçados deixavam claro que ele tinha vindo de muito longe. Carregava diversos objetos ignotos acoplados ao seu enorme cinto. A calça que vestia, descolorida e rasgada na altura dos joelhos, parecia ter sido usada durante muitos anos.
Vincent achou que aquelas pessoas eram as encarnações da sutiliza e da ferocidade. Piscou diversas vezes, acreditando estar tendo uma miragem, algum delírio de sua mente conturbada.
– Claro que não, Myra! Não seja idiota! – falou o homem alto e forte, interrompendo os devaneios de Vincent. – O que te faz pensar que uma pessoa capaz de andar estaria jogada no deserto?
A jovem ficou extremamente magoada. Segurando o choro, desviou seu olhar para a areia escaldante e nada mais disse.
– Vamos logo – continuou o homem, com voz urgente e berrante.
Vincent sentiu seu corpo ser erguido no ar, e finalmente ficou convencido de que tudo aquilo era real. Estava temeroso, mas não era capaz de dizer ou fazer nada. Tinha receio de que fosse assaltado, ou até mesmo assassinado, pois já tinha ouvido histórias sobre a existência de canibais naquelas terras.
***
O homem, que o carregava nos ombros, já tinha dado pelo menos uma dúzia de passos, quando parou subitamente e botou Vincent no chão com muito cuidado.
– Desculpe– me, Myra – falou ele, poucos segundos depois, com sinceridade estampada no rosto. Tinha ido ao encontro de sua companheira, que se deixou ficar para trás. – Olhe para mim, sim? Eu não falei por mal...
A garota chorava, tampando o rosto com suas mãos pequenas e alvas. Os cabelos loiros e ondulados, na altura dos ombros, balançavam com seu soluçar convulso.
Vincent observava a cena com curiosidade, de uma curta distância. Esforçava-se para permanecer sentado e consciente, ao mesmo tempo em que tentava entender o que estava acontecendo.
– Jean... Nós vamos sair dessa, não é? – perguntou a garota, com os olhos marejados de lágrimas.
– Ora, mas é claro – respondeu prontamente o homem, entre o riso e o choro.
Jean se ajoelhou e acolheu a garota com carinho em seus braços. O gigantesco homem ainda era consideravelmente maior que ela, mesmo naquela posição. Seus músculos bem definidos pareciam querer quebrar Myra ao meio.
O sol despencava no céu, e mais uma vez Vincent se arrependia por estar perdendo tempo.
***
Escureceu. Myra tinha se acalmado e, acomodando-se em um fino cobertor, pegou no sono. Jean percebeu que Vincent ainda estava acordado, sentado e impaciente. Provavelmente, esperava por algum esclarecimento sobre aquela situação.
– Jean Palladino. Prazer.
– Vincent – respondeu, retribuindo o aperto de mão.
– Vincent? Apenas isso? – retrucou Jean, desconfiado.
– Sim. Na minha terra, os guerreiros só possuem um nome.
Depois das rápidas apresentações, Jean deu as costas à Vincent e iniciou algo que, a primeira vista, parecia algum tipo de ritual. O homem impetuoso e feroz, pela primeira vez, transpareceu tranqüilidade e lucidez. Retirou alguns pequenos gravetos de sua bolsa e arrumou os objetos no chão, em circulo. Levou a mão direita ao bolso e pegou algo pequeno, vermelho e em formato retangular. Vincent não reconheceu o objeto.
– Você veio de Doria, não é? – perguntou Jean, com um sorriso discreto no rosto. – Suas roupas não são de lá, mas algo em você me faz lembrar aquele povo. Por favor, não se assuste com a tecnologia de minha nação.
Pressionando um pequeno botão, Jean fez surgir fogo na ponta do objeto. Uma chama mínima e irregular, porém real o suficiente para assustar Vincent.
– Magia? Isso é... Magia negra? – perguntou Vincent, com a voz tremida e sussurrante, enquanto sentia um calafrio perpassar por todo seu corpo.
Jean ateou fogo nos gravetos, criando uma humilde fogueira. Aproveitou para trazer a garota, que ainda dormia, para mais próximo do calor aconchegante. Depois, fitando Vincent com um ar divertido, respondeu:
– Eu sabia que você iria se assustar. O nome disso é isqueiro – falou, estendendo o objeto na direção de Vincent. – De onde eu venho, é um utensílio bastante comum.
– De onde eu venho, é bruxaria – respondeu o guerreiro de Doria, ficando cada vez mais nervoso e assustado. – Afaste isso de mim!
– A magia está em todo lugar, Vincent. Acalme-se.
Vincent se levantou em impetuosa velocidade. Fez menção de que iria embora, mas seu braço latejou de dor mais uma vez, e logo desistiu. Ele sabia que não sobreviveria muito tempo se continuasse a caminhar sozinho. Quem quer que fossem aquelas pessoas, elas tinham provisões para viagem, além do confortável calor do fogo.
– Vamos, sente-se ao meu lado. Só não faça barulho, pois a menina está muito cansada – disse Jean, serenamente, enquanto acariciava a nuca da garota. – Eu tenho água. Também devo ter algo para comer, em algum lugar por aqui...
Jean permanecia com um leve sorriso convidativo, enquanto procurava algo em sua bolsa e esperava a reação de Vincent.
O guerreiro não conseguiu resistir. Aceitou o convite, deixando o orgulho e o temor de lado.