A Cidadela de Magma
Meu nome é Arjuna. Desde que me considero um ser civilizado e inteligente, guio meus caminhos pela lava. Eu já estava aqui quando a nossa cidade, a fortaleza das fortalezas, Demona, havia sido construída e moldada à imagem do sangue de Brog e da essência de Fafnar. Entretanto, seus segredos não me eram estranhos. Eu conhecia cada canto, cada quina, cada parede moldada por meus mestres e tutores.
Bruxos. Mais impetuosos que Feiticeiros. Mais corajosos que Druidas. Mais poderosos que Paladinos. Mais resistentes que Cavaleiros. Éramos capazes de dobrar as entranhas de Tibia à nossa vontade, ao nosso bel-prazer! Entretanto, por que havia algo estranho pairando no ar sempre quente e fervoroso de nossa cidade. Uma… Inquietude. Uma sensação de conformismo? Talvez… Tédio. Eu não sabia dizer… Talvez fosse muito novo para saber. Ao menos naquela época.
Naquele ano engraçado… Acho que era inverno, por sinal… E eu devia ter o quê, uns trinta anos? Eu era um pirralho… Eu sabia de muita pouca coisa do mundo… Mas eu era um prodígio, eles diziam. Eu moldava a lava com a facilidade que uma criança brincava com lama; eu erigia construções e decorações novas na mesma velocidade que bebia um copo de água. Eu abria túneis, caminhos, possibilidades… Mas não era o bastante.
Sabíamos que não era o bastante.
Os recursos estavam ficando escassos; os túneis não levavam a veios de mineração ou similares a muito tempo. Além disso… Vivíamos escondidos como ratos. Logo nós, tão cheios de conhecimento e poder… Escondidos. Como ratos.
Que diria Ferumbras se nos visse assim?
Ao soar da quinta badalada do dia, o Conclave estava todo reunido. Diante do conselho dos seis maiores Bruxos, incluindo o Ancião Zarabustor, todos nós estávamos presentes no centro da cidade. Bruxos de diferentes idades, vestes, tatuagens feitas da lava solidificada e barbas. Era a primeira vez que eu via tantos de nós juntos. E era a primeira vez em toda a minha vida que eu via o Ancião pessoalmente, a apenas alguns metros de mim.
— Senhores! — O Ancião Zarabustor falou, sério, diante de todo o conclave. — Venho tratar de um assunto que me perturba. E que também deve perturbar vocês: a superfície.
Um burburinho começou perto de mim, somado aos semblantes confusos e cenhos franzidos que custavam a entender o que estava por vir.
— Não é nenhuma novidade para vocês que, por mais fortes que sejamos, por mais que possamos dobrar a lava ao nosso gosto, conjurar todos os recursos de que precisamos, salvo aqueles que a lava solidificada nos traz, que o mundo acima de nossas cabeças é incivilizado demais, bruto demais para compreender um centésimo de nosso poder.
Concordamos. Isso era fato; muitas histórias eram contadas sobre as cidades que permeavam aquele continente. Thais era uma cidade mediana, e as poucas cabeças mágicas ali pareciam ainda crianças, hesitantes quanto aos caminhos que a magia poderia lhes dar, simplesmente para não chatearem o velho e débil “Rei”. Ab’dendriel era aquele muquifo de seres selvagens que se diziam civilizados, os Elfos… Ainda que alguns tivessem de fato algum talento, mas preferiam desperdiçá-lo para fazer caridade com animais. Urgh!
Ainda tinha a cidade de anões, Kazordoon, e as histórias sobre seus Geomagos… A bem da verdade, aquela raça de brutos em miniatura de fato tinha potencial, mas… Sua tendência aos vícios e à violência em horas completamente desnecessárias fazia deles descartáveis.
— Ainda assim, diante de tudo… Estamos aqui, debaixo da terra, sob a desculpa de que o mundo é bruto demais para nos compreender… — Zarabustor soltou um suspiro, inclinando-se em direção à multidão. — E, sinceramente, quando pessoas como nós estavam sendo caçadas por conta da mera citação do nome “Ferumbras”, essa desculpa foi válida para que pudéssemos consolidar a construção de Demona em paz. Agora… Tenho uma proposta aos senhores.
O Ancião olhou para o Conclave, cujos olhares transmitiam tanto surpresa quanto dúvida e, talvez, um pouco de fúria. A figura mais venerada entre todos nós não se abalou; simplesmente pigarreou e continuou o seu discurso.
— Nós vamos tomar uma das cidades desse continente incivilizado e moldá-la à nossa imagem. — Disse o velho bruxo com um sorriso sinistro. — Vamos criar a nossa cidadela, conectada a essa obra-prima que é Demona por meio de ritos e portais que somente nós compreendemos, para que ninguém OUSE invadir nossos preciosos salões.
— Mas qual cidade? — Indagou um dos Anciões. — Não duvidando da capacidade de todos os senhores aqui presentes, mas temos que escolher com cautela. Não podemos errar como Ferumbras errou!
Meu mentor de mais longa data, Asterion, me cutucou, e eu olhei para ele, vendo seu semblante sério e concentrado, focado no Conclave, enquanto direcionava suas palavras para mim.
— Preste muita atenção, Arjuna. — Sussurrou bem baixinho. — Esse pode ser o maior acontecimento de nossa sociedade em muitas décadas.
Assenti e continuei a ouvir o Conclave, prestando atenção em suas informações.
— Você tem razão, Etraeus. — Replicou Zarabustor. — Por mais admirável que Ferumbras seja, atacar Thais como ele fez deu motivos para aquela gente nunca abaixar a guarda. Além disso, Thais está em nosso extremo oposto e protegida pelo mar, o que faria um caminho em túneis impossível, afogando a todos nós quando estivéssemos passando por baixo de…
— Carlin. — Uma voz feminina surgiu no Conclave. Era a voz de Maestra, uma das poucas, porém mais poderosas bruxas de que se tinha notícia em Demona. — O mar nos afogará uma vez que passemos por baixo de Carlin para irmos a Thais.
Maestra, apesar dos cabelos brancos denunciarem sua idade, era uma mulher ainda muito linda e conservada, não aparentando mais que cinquenta anos de idade, com um pigmento roxo sobre os lábios e uma maquiagem forte sobre os olhos, que reforçava sua expressão de desdém, enfado e firmeza ao passar os olhos castanhos pela multidão que contabilizava esmagadoramente homens em detrimento a mulheres, raríssimas em nosso meio, mas notáveis por suas abordagens criativas quanto ao uso de nossa magia.
Um silêncio sepulcral se seguiu, e eu vi confusão nas faces dos bruxos de idades mais avançadas; após tantos anos abaixo da terra, tudo aquilo que era novo não era de conhecimento deles. A cidade de Carlin, cujo nome eu ouvia apenas naquele momento, saído da boca de Maestra, era uma novidade que eu sequer conseguia conceber. Como era aquela cidade?
— Outra alternativa é contornarmos pelas Colinas Femor e seguirmos adiante. — Replicou Etraeus, quebrando o silêncio, fazendo Maestra cruzar os braços, enfadada.
— Não, é um trajeto muito longo e o rio vai fazer o mesmo que o mar, ainda que em menor escala. — Censurou Zarabustor. — Entretanto… O nome que Maestra citou… É bem mais interessante. O que é Carlin, minha senhora?
Maestra entreabriu um sorriso e ajustou sua postura.
— Que bom que perguntou, Ancião. — Replicou a mulher, com seu olhar ferino inalterado, inclinando-se para a multidão. — Carlin é uma cidade nova. Governada por mulheres. Saíram do jugo de Thais para tentar a própria sorte e NUNCA lidaram com NADA na proporção do inferno que Ferumbras causou. Diz a lenda que é uma cidade habitada por druidisas fortes, ensinadas pelos próprios Elfos. Entretanto, a despeito do talento delas, sua inexperiência em lidar com crises arcanas e com o inferno que podemos soltar em Tibia a partir delas é certamente a maior das vantagens que temos.
— Você quer dizer que elas não suspeitam de nossa existência? — A voz do Infernalista do conclave, Dante, foi ouvida.
— No máximo, acham que é lenda. — Replicou Maestra, despreocupada. — Se soubessem da existência de Demona, ou teriam vindo até nós, e seriam aniquiladas por todos aqui presentes, ou teriam abandonado a cidade, já que o nosso Labirinto fica bem perto da colônia costeira delas, Northport.
O Conclave se fechou em um pequeno círculo, deliberando sobre a ideia de Maestra. Nesse meio tempo, peguei-me perdido em meio às deliberações da multidão ao meu redor, tentando imaginar como era a cidade de Carlin atualmente… E como ela ficaria depois que a moldássemos conforme nossos desígnios.
— Bom… Faz algumas décadas que eu não tenho entretenimento de qualidade nesses belos corredores. — Falou Etraeus, com um meio sorriso. — As chances de sucesso são grandes.
A voz de Etraeus trouxe minha atenção de volta para o Conclave; seria aquela nossa oportunidade de enfim domar a superfície?
— Abriremos agora para votação! — Zarabustor. — O Conclave clama por TODAS as vozes de Demona! A votação para a invasão à cidade de Carlin está aberta. Precisamos de um orador para a decisão a favor e um para a decisão contrária. Apressem-se!
******
Provavelmente era crepúsculo na superfície, pois a terra estava mais quente ao nosso redor.
Nem preciso dizer que o resultado foi favorável e quase unânime. Era a chance das nossas vidas! Uma cidadela bem no continente, na cara de Thais e pronta para ameaçar até mesmo Ab’dendriel e Kazordoon de uma vez? Não havia como desperdiçar essa oportunidade!
Os túneis estavam sendo escavados; seguíamos rumo ao sul, confiantes de que nosso plano daria certo. A fim de não deixar Demona desprotegida – e para continuarmos nossas pesquisas para eventuais usos da nova terra que certamente teríamos –, deixamos alguns dos nossos para trás, levando ao todo dez bruxos. De todos, eu era o único novato.
Por horas caminhamos; em um dado ponto, Zarabustor sinalizou para pararmos.
— Maestra, faça as honras.
*****
A brisa fria da noite invernal soprava sob uma Carlin praticamente adormecida. Salvo pela patrulha noturna, comandada pelas destemidas irmãs Quebra-ossos, não havia mais ninguém nas ruas. Estava tudo quieto. Adormecido. Despreparado.
— Hã? — Uma patrulheira ruiva murmurrou, sentindo algo diferente no ar.
Súbito, a terra começou a se aquecer às bases de cada edificação da cidade; o calor parecia até bem vindo… Não fosse o tremor que logo o seguiu. Pedras moveram-se de lugar; vigas foram tensionadas, com a madeira ameaçando romper e o metal retorcido ceder ao trovejar das profundezas.
Com um estrondo, uma enorme coluna de lava rompeu próxima à entrada norte de Carlin; uma patrulheira, com os olhos reluzindo de medo diante da coluna de fogo, apenas teve tempo de soar as trombetas de alarme da cidade antes de ser engolida pelo sangue da terra.
— Bolsão de lava! —Uma das patrulheiras gritou, desesperada, para quem pudesse ouvir. — Evacuem a cidade!
A lava escorreu e engoliu o portão norte, e mais dois bolsões romperam: mais uma coluna de terra e metal ardente reclamou o portão leste, e o segundo bolsão rompeu no meio da cidade; das três crateras abertas, vieram os bruxos. Dos muros de seu castelo, acordada pelo intenso calor e pelo caos que se instalara nas ruas tomadas pela lava, a Rainha, estarrecida, apenas observava o horror flamejante que viera para incendiar sua cidade.
— Lava… Aqui?! — Suas mãos tremiam diante do terrível espetáculo incendiário, incapaz de conceber uma ação. — Não pode ser...
A lava, deslizando e silvando, viva, serpenteou, assumindo a forma de uma enorme naja, abrindo as mandíbulas para devorar qualquer alma incauta que ainda estivesse nas ruas. Aqueles que podiam já estavam em rota de fuga. Dos bolsões de lava, que não mais espirravam o caldo flamejante, saíram os dez bruxos, emergindo da lava como se ela fosse incapaz de feri-los, espalhando as gotas do magma em pleno ar ao aterrissar. Zarabustor sorria um sorriso sinistro diante da turba confusa.
— Esse é um bom tamanho para uma cidadela… — Sussurrou o Ancião, satisfeito.
Um assovio, e a naja magmática foi desfeita, com seus restos silvando por entre as ruas em busca de mais vítimas, fossem vivas, fossem inanimadas. E os demais bruxos, incentivados por seu Ancião, clamaram pelo fogo das profundezas, reativando os bolsões de lava para queimar e moldar Carlin por inteiro. Arjuna conjurou uma longa estaca de lava endurecida e a usou para navegar por entre a lava ardente, a fim de cobrir a parte sul da cidade.
— Arjuna, não seja inconsequente! — Asterion gritou ao longe. — Mate toda a resistência que encontrar!
O jovem bruxo concordou, com um semblante maligno. Com um sopro, ele fez subir a torrente de lava, prestes a engolir as casas da porção sudeste de Carlin em uma enorme onda incendiária.
— CARLIN É NOSSA! — Urrou o jovem bruxo, embevecido pelo orgulho, pela adrenalina e malícia.
A onda de lava quebrou sobre as casas, caindo rapidamente sobre elas. Entretanto, algo ocorreu. Algo fora do esperado. Arjuna, ajoelhado sob a estaca que usara para se orientar, olhava para o fenômeno, incrédulo.
A lava estava toda congelada.
— Mas… Gelo?! — O jovem Bruxo estava estupefato. — Como…?!
— Chega dessa palhaçada. — Uma voz feminina e anciã falou, ecoando pelo vento. — Isso termina aqui.
O gelo começou a se expandir, vivo, matando as chamas da lava que Arjuna controlara; o Bruxo inspirou e exalou chamas contra os cristais gélidos, em vão; a área tomada pelo gelo expandiu rapidamente, e duas estacas empalaram o ombro e a cintura do jovem rapaz, suspendendo-o alto o suficiente para limitar suas ações.
O restante de lava endurecido à força explodiu sob a pressão do gelo, revelando a dona da voz que ousava se levantar contra os filhos de Demona: uma senhora na casa de seus sessenta anos, com os cabelos completamente brancos, longos e trançados, e olhos esverdeados que brilhavam sob o luar. A líder da Guilda dos Druidas de Carlin.
— PADREIA! — Zarabustor rugiu, deslizando sob a lava. — Eu devia ter te matado quando tive a chance!
A mulher retornou ao Ancião um meio sorriso, e o ar ao seu redor baixou de temperatura rapidamente, e o sorriso de Zarabustor começou, aos poucos, a sumir.
— Humpf. — Replicou a mulher. — Você foi incapaz de fazer isso quando éramos jovens… E certamente será incapaz do mesmo hoje! EXEVO GRAN MAS FRIGO!
A velha druida reuniu o ar gelado ao seu redor e criou um tornado, quebrando a rocha endurecida e varrendo seu rastro de destruição; Zarabustor, pego de guarda baixa, teve apenas tempo de desferir tiros de energia pura contra sua adversária e as estacas feitas anteriormente, libertando o jovem Arjuna de uma morte lenta e fria.
O Ancião caiu no chão e bateu suas mãos contra o assoalho, e mais um bolsão de lava erodiu o chão, sendo direcionado à velha Padreia, que revidou erguendo uma enorme parede de gelo.
— IRMÃS, IRMÃOS! VENHAM! — Clamou a velha, cuja parede de gelo começava a ceder à lava de Zarabustor.
Para a surpresa do velho bruxo, druidesas e druidas apareceram das sombras, batendo suas mãos contra paredes e assoalhos, fazendo crescer violentas e espinhosas vinhas, que serpenteavam rapidamente em direção a inimigos para prender e esmagar.
— DRUIDAS ATREVIDOS! CAIAM! EXEVO GRAN MAS FLAM! — Urrou Zarabustor, gerando uma explosão ao seu redor, queimando parte das vinhas.
— EXEVO GRAN MAS FRIGO! — Três druidas gritaram, criando um tornado ainda maior que o feito por Padreia.
A lufada furiosa de ar gelado foi em direção a Zarabustor. Maestra, atenta ao perigo que corria o Ancião, chamou por lava para protegê-lo, mas o magma acabou cristalizado pela força do gelo.
— ANCIÃO, SAIA DAÍ! — Berrou a bruxa, estupefata com a rápida reação de Carlin. — EXEVO GRAN MAS--
— EXEVO TERA HUR! — Um druida gritou ao longe, e Maestra teve tempo apenas de olhar de soslaio em direção à voz.
Um conjunto furioso de vinhas surgiu da terra, arrancando a bruxa do chão e suspendendo-a no ar, interrompendo seu feitiço antes de sua completude. Furiosa, a Bruxa agarrou um dos viços e ateou fogo a ele, espalhando por toda a vegetação.
Arjuna, que estava caído todo aquele tempo, conseguiu, sangrando e com dificuldades de se erguer, ficar de joelhos.
— EVEXO... GRAN... MAS... VIS! — Exclamou o jovem bruxo, furioso.
— ARJUNA, NÃO! — Zarabustor exclamou, em vão.
Os viços aguentaram a tempestade enviada pelo jovem bruxo, ficando mais violentas e reiçadas, chicoteando o corpo dos filhos de Demona; dois dos viços mais grossos suspenderam Arjuna por sua cintura, e o jovem bruxo pode ver a extensão do estrago.
Onde havia lava endurecida, aos poucos começava a vingar viços em meio às rochas magmáticas cristalizadas e sufocadas pelo gelo. Dos dez bruxos de Demona, quatro jaziam mortos. Até onde o jovem pode ver, o número de druidas os superava em três vezes, e possivelmente contando.
Zarabustor e Padreia continuavam a se digladiar, e o rapaz sentiu o ar cada vez mais faltando.
— ISSO NÃO VAI ACABAR ASSIM! — Maestra, furiosa, tentou mais uma vez. — EXEVO GRAN MAS FLAM!
A bruxa conseguiu, com a explosão, libertar-se das vinhas e queimar seu adversário. Chamando pela lava, ela quis abrir espaço para continuar o assalto, e recebeu quatro estacas de gelo em seu ventre, atiradas por dois druidas que ela sequer vira chegando.
Zarabustor novamente chamou pela tempestade e lava, com Padreia e outros quatro druidas contendo seus estragos. Do alto das vinhas que o prendiam, Arjuna via o estrago da batalha e os planos da cidadela se esvaindo em meio à fúria da natureza que os filhos de Carlin clamavam para si.
Suas mãos foram até o viço que o prendiam, mas seu ar faltava. Tentou conjurar as chamas, tal qual Maestra havia feito, mas o ar estava fino demais para a combustão se manter. Olhando uma vez mais para o chão, com o semblante inconformado, viu seu mentor Asterion ser enforcado até a morte, e viu outros dois bruxos sendo empalados pelo gelo e tendo seus corpos violentamente desmembrados pelos viços conjurados.
— A cidadela… Demona… — Sussurrou o rapaz, tentando, em vão, se soltar.
Sua vista se embaçou.
Sua respiração começou a falhar.
Ele desmaiou.
****
Meu nome é Elsa. Não sei nem porque fiz o que fiz.
Naquele dia, vinte anos atrás, salvei um dos filhos de Demona. Ele nunca me disse seu nome, pois o ouvi apenas da boca do Ancião, que conseguiu nocautear Padreia e fugir da cidade por um bolsão de magma. Nós, contra nosso instinto de vingança, não o seguimos. Deixamos que ele fugisse com o rabo entre as pernas para sua terra, sabendo que ele não se atreveria a nos enfrentar de novo.
O mais surpreendente, para mim, foi ele ter abandonado o jovem bruxo para morrer… Como se ele soubesse que aquela empreitada tinha tudo para dar errado. Como se aquele jovem tivesse sido apenas mais uma peça em seu complexo tabuleiro.
Eu cuidei dele. Eu o mantive vivo. Ele foi grato, mas nunca trocou uma única palavra comigo além de “obrigado”. Depois de meses sob meus cuidados, exilou-se em algum canto que desconheço, mas que certamente está a metros abaixo de meus pés, na segurança da terra, e próximo da lava que o sustentou durante todo aquele dia.
Hoje, completou o aniversário de vinte e um anos daquele terrível dia. Estranhamente, me pergunto como Arjuna está, se continuou ou não seus estudos na arte do domínio da lava… Ou se abandonou tudo para esquecer essa falha.
Independente do que escolheu, sei apenas que os filhos de Demona perderam muito mais do que companheiros ali: perderam seu orgulho e sua dignidade. E tal humilhação é pior que uma sentença de morte. Só sei que, algum dia, eles tentarão novamente incutir o terror em nossos corações.
Dessa vez, no entanto, estaremos preparadas para lidar com eles. E erradicá-los se preciso for.
Fim.