O Retorno
Não tem banner porque o autor não tem habilidades artísticas.
Spoiler: Batráquio, o Bonelord (EDIT por Iridium, 31/03/2018)
Spoiler: Sumário
Prefácio
E, naquele instante, havia apenas o fogo. Mas logo surgiu também o crescente medo. O pavor. O pânico. O calor gerado pelo fogo maltratava sua pele mucosa e fina, a luz brilhante produzida pelas chamas que dançavam cegava seus olhos momentaneamente. No fundo da sua mente, ele podia ouvir as gargalhadas sinistras de sua oponente, martelando seu raciocínio e afugentando seu juízo. Seja racional, ele pensou, tentando encontrar uma saída do labirinto de chamas. O esqueleto demoníaco que ele conjurara jazia impassível ao seu lado, completamente alheio ao calor, aguardando por uma ordem que ele não sabia dar. Ela tem que estar aqui em algum lugar.
Um estrondo próximo indicou que alguns galhos que compunham as paredes do recinto estavam se desprendendo devido ao incêndio. Eu tenho que dar um jeito de sair daqui! Em um movimento rápido, ele virou-se e avançou alguns metros em direção ao ponto onde estivera ainda há alguns minutos, evitando por muito pouco um pedaço do teto, que se desprendera e desabara sobre seu esqueleto, arrancando-lhe o crânio, que saiu rolando pelo assoalho agora em chamas.
- Indo a algum lugar? – Chamou uma voz inebriante, fantasmagórica, doce como o um veneno letal. Desviando a atenção do seu servo agora inútil, ele mirou seus olhos, todos os cinco, na direção de onde ouvira a voz. Emoldurada pela parede de fogo, sua oponente encarava-o com ar de riso, sua pele bronzeada brilhando diabolicamente perante às chamas.
Imediatamente, ele disparou uma esfera de energia escura gerada por um feitiço mudo, a qual atingiu o exato ponto onde a mulher estivera. Entretanto, a figura, ágil como uma serpente, saltou para o lado no instante exato e jogou-se para longe do buraco gerado pelo feitiço, que aumentou com o poder das chamas e abriu um rombo no assoalho, por onde agora caíam mais alguns pedaços do teto.
O feiticeiro piscou várias vezes os quatro olhos que tinha na ponta de quatro longos e nodosos tentáculos verdes, e um segundo esqueleto surgiu ao seu lado. Indicando o ponto onde a mulher pousara com um dos tentáculos, o Bonelord afastou-se para trás, flutuando sobre o chão que desabava, enquanto seu lacaio saltava sobre sua vítima, que golpeou-o na cabeça com um dos pés, livrando-se do abraço da morte do morto-vivo.
- Você pode fazer melhor que isso, meu querido! – Caçoou a mulher, sua voz provocando um rebuliço no interior da consciência do Bonelord, arranhando sua mente e impedindo-o de raciocinar.
- Eu não tenho medo de morrer aqui, sua desgraçada! – O Bonelord rugiu, sua voz soando inesperadamente suave e melodiosa, algo deveras incomum para um monstro com aparência tão medonha. Sua pele macilenta suava em excesso graças ao calor, sua respiração ia ficando cada vez mais pesada e sua mente estava em disparada, tentando encontrar uma forma de escapar daquela prisão de fogo. O cheiro de enxofre inebriava-o. – E se eu tiver que arrastar você para o inferno comigo, tanto melhor para mim, tanto pior para você!
A gargalhada sinistra que a mulher soltou ao ouvir suas palavras arrepiou-o, fazendo tremer até o interior de sua alma. Ela combatia seu lacaio com grande habilidade, defendendo-se de seus golpes e atingindo-o nas juntas com uma pequena faca escura que trazia em mãos. Não demorou até que o esqueleto se desmontasse. O som de madeira estalando ali perto chamou a atenção do Bonelord, que enfim percebeu que quase metade do piso já fora consumido pelo buraco aberto pelo seu feitiço. As paredes eram fogo puro, e o estalar do teto sobre sua cabeça indicava que a torre não aguentaria mais muito tempo.
- Pois então que assim seja, Batráquio. – Ela aproximou-se, permitindo que o Bonelord visse seu rosto anguloso, seus longos cabelos negros e lisos caindo pelos ombros como o manto da noite, seus olhos tão frios que pareciam congelar o fogo que consumia o farol.
- Não se atreva a me chamar assim, humana imunda! – O Bonelord grunhiu, seu corpo tremendo, sua mente em polvorosa, mas seu olho central, verde como um esmeralda, cravado em sua oponente enquanto os olhos laterais prestavam atenção à torre que desabava.
As chamas dançavam mais altas do que nunca. O teto parecia prestes a cair. Em algum lugar, talvez muito longe, alguém gritou. O cheiro de enxofre era insuportável. Entretanto, o gelo que emanava dos olhos da mulher parecia consumir o recinto como um todo. Seus lábios moveram-se lentamente, tão lentamente que pareceu que o tempo havia parado.
- Batráquio. – Ela disse, finalizando a palavra com um sorrisinho debochado.
O Bonelord gritou. Seus tentáculos voltaram-se na direção da mulher, seus cinco olhos cravados nela como estacas. O teto vibrou uma última vez, e então tudo explodiu.
Certeira como uma flecha, uma gelada gota de chuva despencou dos céus escuros e acertou-o no topo da cabeça coberta por um capuz, despertando-o de seu devaneio. Seu corpo sacolejava desajeitadamente enquanto o burrinho que montava caminhava vagarosamente pela campina, ofegando seguidamente, demonstrando seu cansaço.
O homem que ele trazia nas costas parecia ser baixo, mas seu tipo físico estava oculto por uma longa capa de viagem verde garrafa, que espalhava-se pelo lombo do bicho, cobrindo parte dele. Suas mãos, apenas uma delas coberta por uma luva de couro, seguravam as rédeas com tanta força que os nós dos dedos da mão visível já estavam brancos. Sua respiração também era ofegante, sinal da longa viagem que ele enfrentara para chegar até ali.
O burro deu mais alguns passos, mas logo seu cavaleiro deu-lhe um breve tapinha na lateral do pescoço, pedindo-lhe para parar. Então, em um gesto que pareceu consumir o que lhe restava de energia, ele saltou de sua montaria e colocou-se de pé ao seu lado enquanto ajeitava sua sacola sobre o corpo do animal, que parecia aliviado de ter enfim recebido permissão de parar. O homem respirou fundo e virou-se para encarar o caminho que estava à sua frente enquanto seus ouvidos captavam o som de mais gotas caindo do céu e molhando a grama rala que havia sob seus pés.
Alguns setenta metros à sua frente, quase no horizonte, erguia-se um suntuoso par de árvores de aparência antiquíssima, talvez mais antiga que o próprio tempo, cujos troncos eram tão largos que poderiam ser confundidos com pequenas montanhas. Ambas as árvores erguiam-se imponentes como as torres de um castelo, delimitando uma pequena passagem de uns seis metros, limitada acima por um aparentemente muito pesado portão de madeira. Além das árvores, existia uma vasta e belíssima florestaverde e cheia de vida, cujas árvores de diversas alturas perdiam-se no horizonte. Poucas edificações destacavam-se em meio àquela floresta, a mais notável delas era uma grande torre localizada na extrema direita da floresta, próxima ao mar, quase no limite da vista do forasteiro. No alto da torre, brilhava fraca a luz do fogo de um farol. O viajante suspirou longamente ao vê-la.
Ele então levou ambas as mãos ao capuz que cobria sua cabeça e baixou-o, deixando seu rosto à mostra. A brisa suave que vinha acompanhando a chuva pareceu acalmá-lo, e as gotas frias agora atingiam seu rosto branco, um branco doentio, tão branco que parecia ser de marfim. Ele passou a mão nua pelos cabelos negros encaracolados, desarrumando-os ainda mais, e depois coçou sua barba espessa igualmente negra. Engolindo em seco, o homem postou seus dois olhos muito verdes no espaço que havia no meio entre as duas grandes árvores mais próximas a ele, observando atentamente a entrada da floresta.
- Ab’Dendriel. – Ele disse, sua voz melodiosa e suave chamando a atenção de seu burrinho, que virou-se para encará-lo, como se o entendesse. O homem pareceu levar uma eternidade para pronunciar as próximas palavras, como se aquela frase lhe doesse a garganta. – Finalmente eu estou de volta.
Olá a todos!
Como acredito que muitos saibam, estamos com um grupo de RP em Luminera, no qual interpreto o deveras carismático e adorado Bonelord-transformado-em-humano Batráquio, um personagem que cresceu em meu imaginário de forma muito mais expressiva do que eu inicialmente previ. A backstory de Batráquio (presente no primeiro post do tópico linkado acima) permite um certo conhecimento geral sobre o personagem, mas ainda há muito a ser explorado, particularmente sobre um capítulo que considero determinante para a formação da sua personalidade e para suas motivações. Assim sendo, resolvi escrever uma ~~breve~~ (ou não) história que servirá tanto para explorar um pequeno pedaço do passado dele (mas um pedaço deveras significativo) quanto para traçar futuras direções ao personagem. Estarei postando esta história aqui; tenho um máximo de 10 capítulos planejados, mas talvez eu os diminua em virtude do tamanho (rs) que muitos terão.
A história, conforme vocês podem ver pelo prefácio, será contada através de momentos narrados no presente intercalados com flashbacks (os quais são trazidos sempre em itálico, a fim de facilitar sua identificação). Sim, eu assistia Lost pra caramba. Nosso ponto de partida é o retorno de Batráquio à sua amada terrinha natal depois de alguns muitos anos de exílio.
Enfim, espero que vocês gostem! Esta história, evidentemente, é muito mais interessante àqueles inseridos no grupo de Luminera, mas espero que outros usuários também possam lê-la e, quem sabe, gostar do que veem x)
Abraços, galere, e até o capítulo um!

