O Arauto do Expurgo
Capítulo II
Ataque
Ao meio dia, Vincent ainda estava desacordado. Aos olhos dos poucos transeuntes – a maioria deles com mochilas nas costas – que passavam e não conseguiam reconhece-lo, parecia um mendigo, sujo e jogado no meio da rua.
Acordou de supetão, com uma leve dor na nuca, e se levantou com incrível velocidade. Levando a mão esquerda ao cabo da espada em suas costas, rosto severo e dentes a mostra, parecia um touro feroz prestes a atacar. Quando percebeu o que se passava, já era tarde demais, uma pequena menina fugia dele em disparada, gritando a plenos pulmões.
“Acho que assustei a garota”, pensou vagarosamente, enquanto observava ela correr de forma desajeitada, com o longo cabelo rabo-de-cavalo balançando freneticamente as suas costas. Sumiu em uma esquina próxima, sem olhar para trás.
Vincent observou o chão e encontrou um galho de árvore, provavelmente o objeto usado para lhe cutucar a cabeça. Lamentou-se por ter espantado o único ser humano que fez questão de lhe acordar.
Andando pelas ruas quase desertas, lembrou-se dos acontecimentos da madrugada anterior e do seu número de azar: sete. Poucas pessoas saíram de suas casas, tornando o lugar um vilarejo fantasma. Muitos ainda se escondiam, aterrorizados com a possível volta do Arauto e seus subordinados das sombras, ou algum outro acontecimento macabro.
Enquanto se encontrava em aparente devaneio e vagava pelas ruas como alma penada, tentando lembrar-se dos sonhos que tivera em seu repouso nada confortável, Vincent foi surpreendido por uma mão ágil em seu ombro e uma voz penetrante.
– O seu espírito guerreiro está fraco, meu amigo. Sempre alerta! Já esqueceu? Se estivéssemos em uma batalha real, você já teria sido morto sem sequer vislumbrar o rosto do seu assassino.
O homem misterioso estava atrás dele e mantinha a mão direita apoiada em seu ombro. Vincent nada disse. Reconheceu a voz e abriu um largo sorriso.
***
– Você tem a minha gratidão eterna – disse Vincent, muito sorridente e brincalhão, depois de limpar o prato. – Não faz idéia de quanto tempo eu fiquei sem uma refeição decente. Você sim tem uma vida que valha a pena!
Sirius, mais conhecido como Garra Negra, tinha abordado o velho amigo na rua para convidá-lo a um almoço digno de um herói. Era um homem poderoso e influente, que conservava uma aparência séria e intelectual.
– Falando sério – continuou Vincent, de forma mais gentil. – Fico feliz em encontrar alguém que não me chame de “herói” o tempo todo. Obrigado pelo convite, sua nova casa é bem bonita.
Vincent se deteve a observar a bela construção rústica. A simplicidade da casa tornava-a um lugar agradável. Estavam sentados, um de frente para o outro, em uma mesa pequena e redonda, totalmente feita de madeira.
Nas paredes, só havia um quadro, que fora um presente de Vincent dado há pelo menos cinco anos atrás. Ele tinha comprado em uma de suas viagens, quando ainda era um adolescente rebelde que pretendia conhecer toda a extensão do mundo. Na pintura, encontrava-se um jovem guerreiro lutando eternamente contra três demônios, em uma bela imagem estática. O guerreiro do quadro empunhava sua espada e mostrava confiança. Vincent reparou como aqueles demônios pareciam O Arauto e seus seguidores, esboçou um sorriso amarelo ao se deparar com ele mesmo tentando derrota-los.
– Por onde andou? – perguntou Sirius, transparecendo preocupação e interrompendo os pensamentos de Vincent. – O que andou fazendo nesses dois anos em que passou fora de Doria? Depois da Grande Guerra, trouxeram noticias de que você estava vivo, ficamos esperando o seu retorno... Mas você nunca reapareceu!
– Eu não queria voltar – respondeu Vincent, ficando inesperadamente sério.
– Eu estou preocupado com você... Olha, sei que não tem muito tempo de vida.
– Como tem tanta certeza?
– Todos os que se encontram com O Arauto acabam loucos! Vivem seus últimos dias envoltos em desgosto e miséria, geralmente se suicidam da maneira mais desonrosa possível! Eu estou impressionado em te ver assim, fisicamente inteiro, depois de tanto tempo! Vincent... Até ontem, eu realmente acreditei que você já tivesse morrido.
Vincent revirou os olhos. Um turbilhão de idéias e memórias desconexas embaralharam sua mente em um rodopio convulso. Acordo. Arauto. Morte. Estava sem chão, a sensação era de uma arma apontada para sua cabeça. Teve um arrepio repentino, seguido de um gemido quase inaudível.
Ele não estava em boa situação, era inegável e não adiantava mais disfarçar. Sirius era esperto, fingir alegria ou despreocupação não iria convencê-lo. Estava diante de um velho amigo, alguém realmente interessado no seu bem estar. Desarmou-se, resolveu contar tudo.
***
Lá fora, tudo ainda estava anormalmente calmo. Não existia criatura entre o céu e a terra que tinha a ousadia de quebrar a quietude daquele ambiente cálido e nostálgico. Um grande furor era pressionado – pelo insólito pavor que as criaturas das sombras conseguiam causar – no coração de cada habitante da região. Todos sentiam a necessidade de fazer ou dizer algo, mas poucos tinham a coragem de sair de suas casas, e os que faziam isso, corriam para muito longe, levando tudo que podiam carregar.
Pouca gente naquele mundo sabia algo de concreto sobre O Arauto. Era fato, para a maioria das pessoas, que ele era vil, cruel e sanguinolento. Acreditava-se que existia apenas para trazer desgraças, e matava ao seu bel prazer, sem se importar com as vidas humanas. Naquele dia ensolarado e triste, Sirius “Garra Negra” se tornou um dos poucos felizardos a descobrir alguns segredos que aquela entidade possuía.
– O Arauto, e os outros demônios que o seguem, não podem matar – decretou Vincent.
– Como? – perguntou Sirius, com uma sincera reação de espanto.
– Ele não mata... Eu não sei por que, mas não mata! É irônico, mas é verdade. Aquela criatura pestilenta não é capaz de derramar uma gota de sangue humano.
– Explique melhor... Como descobriu isso, e afinal, porque ele veio atrás de você? Qual a relação entre vocês dois? Vocês fizeram algum acordo? Eu ouvi falar que ele não é confiável, vai sugar sua alma e...
– Chega de suposições, Garra Negra! Deixe-me contar tudo primeiro!
Sirius parou de falar imediatamente. Estava surpreso, não apenas pelo tom ríspido que o amigo usou para lhe interromper, mas também por ter ouvido, depois de muito tempo, o seu “nome de guerra” ser pronunciado. É verdade que todos o conheciam como “Garra Negra”, mas ninguém o chamava assim há alguns anos.
– Eu era jovem e tolo... Deixei-me levar por uma oportunidade incerta... Fiquei sabendo sobre a existência de um acordo, que eu poderia fazer com O Arauto.
– Quem te informou sobre isso? – perguntou Sirius, sem conseguir se conter.
– Existe gente muito sábia em outras terras, além de Doria – Vincent respondia de maneira quase serena, querendo se desculpar pelo tom arrogante de poucos segundos atrás. – Eu aprendi muito nesses dois anos em que vaguei por aí, tentando me esconder daquele demônio maldito. Conheci gente interessante e coisas que arrepiariam os poucos cabelos que restam em sua cabeça.
Sirius tentou sorrir, o maximo que conseguiu foi algo semelhante a uma careta. Reparou que Vincent vestia roupas estranhas, diferente de tudo que era produzido no vilarejo de Doria. Ele era um homem pouco viajado, e apesar de ser um guerreiro mais hábil que seu jovem amigo, respeitava os conhecimentos que Vincent tinha adquirido em suas inúmeras viagens. Mesmo antes da Grande Guerra, o “herói” já tinha percorrido os quatro cantos do mundo.
– Bem, acontece que eu procurei O Arauto – continuou Vincent, ficando mais nervoso a cada palavra. – Depois de encontrá-lo em seu covil, e conversar com ele, eu aceitei o acordo...
– Que acordo?
– Ele me daria uma segunda vida, e eu seria seu servo eternamente... – Vincent hesitou alguns segundos e depois continuou a falar, tentando se explicar da melhor forma possível. – Eu ia para a Grande Guerra, e temia que não pudesse voltar! Entenda, eu ainda tenho muito para fazer em vida. Todos nessa cidade me tratam como um grande herói, mas eu não sou imortal, Sirius!
Sirius pareceu congelar. Tentou falar algo e não produziu som. O silêncio que se seguiu foi sufocante. Vincent estava cansado, mesmo tendo dormido tanto, não se sentia regenerado. Esperou impacientemente, o que lhe pareceram horas, que o amigo dissesse algo. Quando não suportou mais a invisível pressão daquela situação, resolveu encerrar o assunto de uma vez por todas.
– Eu morri, Sirius. Essa é a verdade, eu morri e renasci. No final da Grande Guerra eu fui abatido pelos soldados de elite de Janour, na tentativa de adentrar no palácio imperial com as tropas principais. Uma punhalada para cada dedo de minhas mãos e pelo menos meia dúzia de flechas cravadas em meu tórax. Lutei bravamente e levei vários inimigos para o inferno... Lutei como nunca haverei de lutar novamente. Naquela época eu era outra pessoa, eu tinha honra...
– Não se deprecie. Vamos, continue – depois do susto inicial, Sirius pareceu capaz de falar novamente. Mas não parecia ser a voz dele, era diferente, uma voz debochada e seca.
– Eu renasci alguns dias depois de minha morte, não sei ao certo quanto tempo... Meu corpo estava um pouco distante do campo de batalha e O Arauto estava ao meu lado. Eu parecia inteiro, não havia sangue e nem cortes. Era um corpo novo, eu até me sentia mais jovem e mais forte...
– E desde aquele dia, você tem sido escravo dessa criatura vil! – Sirius interrompeu, gritando subitamente. – É para isso que ele lhe procura, para lhe designar tarefas, não é? Você esta compactuando com o mensageiro da morte e destruição que apavora o nosso mundo, não é mesmo?!
Sirius parecia explodir em ira. Vincent se sentiu um coelho enjaulado, não imaginava essa reação vinda do amigo.
– Sirius, preste atenção... Eu já te disse que O Arauto não pode matar seres humanos, mas ainda não lhe contei tudo... Têm os dados, nós estamos em um jogo...
Sirius era frio e analítico. De certa forma, estava feliz em rever o amigo, mas o que realmente queria era a confirmação de que existia um acordo entre Vincent e O Arauto. Agora, só estava esperando a hora certa de atacar. Vincent não parecia mais aquele herói imponente, estava em um momento de fraqueza e impotência. A hora tinha chegado, e não poderia ser desperdiçada.
Sirius “Garra Negra” fez jus ao seu apelido. Em uma velocidade sobre-humana, como quem já tivesse feito isso muitas vezes antes, levou a mão direita ao bolso largo de suas vestes e retirou uma pequena caixa marrom. Dentro do compartimento, estavam dois objetos parecidos com soqueiras, cada um com quatro navalhas extremamente afiadas. Sirius acoplou as armas em suas mãos – com incrível habilidade e agilidade – e elas ficaram semelhantes às garras de um felino. Vincent se sentia um animal morto, só conseguiu piscar e observar.
– Você é um verme! Deixe-me dar-lhe uma morte honrosa, na mão de um verdadeiro herói de Doria.
Vincent estava aturdido, nunca tinha visto o seu amigo pronto para o combate, daquele jeito feroz e violento. Finalmente entendeu o porquê do apelido, quando Sirius já tinha saltado sobre ele em um ímpeto admirável, com as quatro garras de sua mão direita indo em direção ao seu coração.