Intrigante, espero pelo próximo!
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Intrigante, espero pelo próximo!
Capítulo 9: Perante o Conclave
Vinte minutos depois de receberem a noticia, todos já estavam prontos. Ao apreciar a vista da cidade auri-verde pela enésima vez desde que chegou, Enriador não conseguia deixar de notar como Ab'Dendriel era bela, apesar de ser bastante intimidante. O sol parecia ser sempre aconchegante, sua luz refletida nas vivas cores das árvores. Até lembrava Carlin, embora o espetáculo, quando a quase cem metros de altura do chão, fosse ligeiramente mais único e especial.
- Enriador - Rudolfo chamou - Vamos logo!
Deixando a vista que tinha da janela de seu quarto, Enriador seguiu seu amigo para fora da pousada. Lá fora, estava Elofor, em um magnifico robe púrpura, e Sven, usando os mesmos trapos de sempre. Olhando a dupla, Enriador refletiu: jamais duas pessoas tão contrastantes estiveram lado a lado.
Elofor parecia bem humorado e radiante; Sven, sombrio e taciturno como sempre esteve desde Northport. Rudolfo estava claramente nervoso.
Enriador não estava exatamente nervoso, mas definitivamente excitado. O que o Conclave poderia querer com eles?
Seus pensamentos foram interrompidos pela voz rouca do guerreiro nórdico: - Vamos logo tratar com esses malditos elfos. Já estou farto do cheiro florido dessa cidade nojenta.
Antes do saque de Northport, Sven intimidava por prazer. Agora, depois da morte de seu irmão, estava sempre em silêncio, apenas ocasionalmente trocando palavras com Elofor. Apesar de tudo, Enriador sentia certa simpatia pelo svargrondiano. Perder um irmão devia ser muito duro, pensou, seu irmão Luke Amatix na cabeça.
Seguindo pelas pontes de madeira, o quarteto teria se perdido no labirinto que era Ab'Dendriel, não fosse pelo conhecimento que Elofor tinha do local. A cidade no alto não tinha ruas, apenas pontes que ligavam uma árvore com a outra. Boa parte dessas árvores tinham casas ou lojas, mas poucas estavam abertas. Sempre que cruzavam com um elfo ou elfa, estes viravam os olhos em outra direção. Muitos mudavam de rota, apenas para não topar com os estranhos.
- Elofor - inquiriu Rudolfo - você faz ideia do porque todo mundo está agindo tão estranhamente?
- Tenho meu palpite - disse o ancião - mas logo todos nós teremos uma resposta definitiva. Normalmente, os elfos são atenciosos, mas algo mudou na política da cidade, e estrangeiros não são mais bem vindos. Curioso, sem dúvida...
Finalmente, chegaram a uma árvore imensa, aonde estava acoplado um palácio excepcionalmente grande. Parecia ser a maior construção de Ab'Dendriel, embora não tivesse metade do tamanho do castelo real em Carlin.
- A cidade pode parecer frágil, por ser de madeira - disse Elofor - mas não se enganem. Madeira é muto mais suscetível a magia que pedra ou ferro, e toda construção de Ab'Dendriel é encantada com poderosas defesas. É a cidade mais antiga do mundo, mas jamais tombou.
Guardas cercavam o perímetro. Ao avista-los, o chefe da guarda, escoltado por outros dois elfos, avançou em direção aos humanos.
Tanto os olhos que os espiavam por trás do elmo ornamentado quanto a voz que saía dele eram bastante familiares.
- Nossos caminhos se encontram novamente, humanos - o tom era desdenhoso, como sempre - O Conclave vos aguarda.
Rudolfo e Enriador reprimiram uma resposta, dado o olhar que Elofor dirigiu para eles. Sven se limitou a bufar.
O portão de madeira tinha cinco metros de altura e quatro de largura. Ao se abrir, um longo corredor, escarvado da própria árvore, se abria diante deles. Tochas iluminavam toda sua extensão.
O antipático chefe da guarda liderava o grupo pelo largo corredor. Muitas portas apareciam a cada passo: todas idênticas uma a outra, todas fechadas. Após alguns minutos de caminhada, o elfo parou repentinamente, virou-se para seu lado esquerdo, e abriu uma das portas.
Chegaram a uma bela antessala de mármore. Era a primeira vez que viam pedra polida usada em arquitetura desde que chegaram na cidade. Uma grande tapeçaria cobria a sala. Todos notaram a história que ela contava: um exército imenso, obviamente anacrônico, de humanos, orcs e anões, cercando Ab'Dendriel e tentando escalar a Muralha Verde. No alto das ameias, elfos belos e altivos cantavam, dançavam e recitavam poemas, desdenhando da fútil tentativa de faze-los dobrar seus joelhos.
Sem dúvida, uma bela mensagem a qualquer embaixador estrangeiro que viesse ter uma audiência com o Conclave.
O chefe da guarda bateu na porta - esta de madeira - por três vezes. Segundos depois, ela foi aberta por mãos desconhecidas, e eles estraram.
Estavam em uma imensa sala circular, toda de mármore branco. Um grande domo estava acima de suas cabeças, frestas de luz entrando por janelas no alto. Um círculo de tronos cercava a sala, e em cada uma delas estava um senhor dos elfos, à exceção de alguns, não mais que cinco, que se encontravam vazios. Enriador notou que vários elfos e elfas olhavam de um jeito estranho para Elofor, alguns trocando cochichos.
O chefe da guarda fez uma saudação em élfico, e se posicionou junto ao quarteto, no centro da sala. Em frente a eles, uma elfa - já com cabelos brancos, mas ainda bela - se ergueu. Sua voz era doce e vigorosa.
- Bem vindos a Ab'Dendriel. Meu nome é Sulva'thar, Grã-Mestre deste Conclave. Vocês não precisam se apresentar, pois já conheço seus nomes. - Ela suspirou - O Conclave dos Elfos os convocou aqui devido aos acontecimentos das últimas semanas. Orcs tem assolado nossas terras há séculos, porém, nunca antes em número tão grande. De alguma maneira, eles parecem saber a rota secreta de nossas patrulhas, informação dada apenas aos membros deste Conclave e aos altos oficiais de nosso exército. Eles usam esta informação para saquear e matar impunemente, sempre a quilômetros de onde nossa patrulha mais próxima está. Está claro, portanto, que temos traidores em nosso meio - A voz dela endureceu, e Enriador podia ver que vários dos senhores elfos estavam mais rígidos em seus tronos de mármore - e não há forma de identifica-los senão fazendo valer de uma investigação rápida e intensa. A presença de estrangeiros em nossa cidade apenas serviria para atrapalhar o trabalho de nossos interrogadores.
- Portanto, o Conclave votou e, por vontade da maioria, decidiu fechar o acesso de não-elfos a cidade. Humanos e anões que aqui estavam foram convidados a se retirarem. Apesar das perdas econômicas, acreditamos que a medida valerá a pena. Esta decisão é soberana, porém, nossos antigos costumes podem apresentar falhas... - o olhar de Sulva'thar caiu sobre o chefe do guarda - Mestre Norea faz parte deste Conclave, mas não tem o poder de subjugar a autoridade deste. Entretanto, ela ainda tem autoridade sobre aqueles que não fazem parte deste conselho. Tenho certeza que o capitão da guarda cumpriu os desígnios de sua superiora de maneira... relutante - o capitão ficou de cabeça baixa -, sob o argumento de que vocês quatro precisavam de ajuda. Bem, vocês a receberam. Agora, em nome deste Conclave, devo pedir para que se retirem de nossa cidade, antes do próximo amanhecer. - A elfa encarou os quatro, postura firme.
- Senhores dos Elfos - disse Elofor, sua voz ressoando de maneira imponente pela sala - Alguns de vocês já me conhecem - Ao dizer isso, cruzou olhares com vários dos presentes - Sou Elofor de Carlin, membro do Alto Conselho de Magia, sediado no Principado de Edron. Compreendo vossa decisão de manter sua cidade livre de estranhos. Porém, permitam-me dizer-lhes uma coisa de extrema importância. - Uma pausa dramática se seguiu.
- A vila de Northport, sob a proteção da Coroa de Carlin, foi atacada, saqueada e queimada por orcs na última semana. - Um murmúrio se seguiu a declaração. - Seu povo foi massacrado e exterminado, sem dó ou piedade. Os mesmos orcs que roubam seus viajantes, invadiram nosso reino - pacifico como o vosso - e realizaram um festival de carnificina e horror. Eles estão bem armados e supridos, como jamais houve registro. Escapamos por muito, muito pouco. Esperamos vir aqui para recuperar nossas forças, graças a lendária hospitalidade dos elfos... - Elofor pigarreou - E conseguimos! Por isso, somos muito gratos... Porém, saibam que não acabou. O Reino de Carlin se feriu devido a fúria dos orcs, mas suas terras e seu povo podem sofrer do mesmo. As antigas tribos orcs se uniram em volta de um rei novamente, se os boatos que ouvi nas tavernas desta cidade forem verdadeiros. Isso explicaria a força e coordenação desses ataques. Por isso, clamo a vocês que se unam aos nossos, para por um fim a essa onda de assaltos e extermínio, marchando unidos contra a fortaleza negra, a fim de descobrir a verdade. Nunca os elfos recusaram uma boa briga... Não é hora de virarem covardes, escondendo-se atrás de sua Muralha Verde.
Muitos elfos e elfas estavam indignados. Muitos estavam em silêncio, Sulva'thar entre eles.
Um elfo se ergueu: - Calúnia! Deveríamos prender esses detratores vis!
- Deveríamos expulsa-los já! - disse uma elfa.
Sulva'thar ergueu uma mão. Silêncio imediato.
Ela refletiu em silêncio por alguns instantes. Finalmente, replicou:
- Nossa história fala por si mesma. Elfos não são covardes, Mestre Elofor... seus anos aqui deveriam te-lo ensinado isso. - Sua voz era dura - O Conclave tomará as medidas cabíveis contra os xamãs que governam a Pedra de Uldereck - ou rei, caso um desses xamãs bárbaros tenha conseguido se sobrepor aos outros e clamar uma coroa de ferro e ossos para si. Muitas vezes sofremos ataques terríveis vindos da fortaleza negra, mas saímos vitoriosos em todos os confrontos - neste não será diferente.
- Vocês tem até a próxima alvorada para deixar a cidade. Elveth - O olhar imperioso de Sulva'thar se dirigiu ao desgraçado capitão da guarda - Você trouxe esses estrangeiros até aqui. É apropriado que os leve embora também. Escolte-os em segurança para fora da cidade até a encruzilhada, como uma demonstração da... lendária hospitalidade dos elfos. Estão dispensados.
Mal deixaram a sala, podiam ouvir sons de discussão por detrás do portão de madeira. O capitão - Elveth - lhes dirigiu um olhar irado.
- Voltem para seus quartos. Recomendo que não saiam de lá. Nos encontramos na Muralha Verde uma hora antes do nascer do sol...
Sem dizer mais nada, Elveth sumiu de vista.
Horas mais tarde, já na pousada, Enriador, assim como os outros, dormia. Mais uma vez, estava tendo um sonho estranho.
De súbito, Enriador acordou. Tinha a estranha sensação de que alguma coisa estava muito, muito errada.Citação:
Estava escuro, muito escuro. Pela vibração do ar, podia sentir que o lugar era realmente imenso. Usando seu cajado para tatear o chão, Enriador avançava lentamente em meio as trevas, coração palpitando. Suava, apesar do frio sobrenatural que afligia o antigo edifício desde tempos imemoriais... Respirando profundamente, tentando deixar de lado o medo, Enriador avançou mais fundo, para o coração da escuridão...
Ainda debaixo do cobertor, olhou ao redor. Seu quarto estava um breu, a não ser pela luz branca que entrava pela janela aberta.
Rudolfo roncava tranquilamente. Os olhos de Enriador ainda lutavam para se acostumarem ao escuro.
A luz da lua não parecia ser suficiente para iluminar o quarto... Mas porque?
Então, uma sensação de medo tomou conta do mago quando ele se lembrou.
Eles haviam deixado a janela fechada antes de irem dormir.
De repente, Enriador ouviu o inconfundível som de passos dentro de seu quarto. Rudolfo dormia.
Eles não estavam sozinhos.
Uooow!
Salve Enriador, parou no momento pra causar aquele suspense! Cada vez melhor, quero mais!