Você, torcedor, é um Idiota
Acho que o nome da matéria publicada no Guardian já diz tudo (retirado do Trivela).
Você, torcedor, é um idiota
Na semana retrasada, o Guardian, jornal que começou em Manchester mas hoje fica em Londres, publicou um sensacional artigo com o seguinte título: “Torcedores de futebol são idiotas (e isso inclui você)”.
No texto, o jornalista Sean Ingle mostrava que, entre outras coisas, o preço dos ingressos no futebol inglês só tem aumentado, a concentração dos títulos na mão de poucos times idem, e cada vez mais o dinheiro, e com isso os bons jogadores, vão ficando com os mesmos poucos.
Ingle faz as seguintes “previsões”: este ano, Manchester, Arsenal ou Chelsea disputarão o título, o Liverpool será o quarto e dez ou onze outros clubes disputarão o resto das vagas para a Europa, enquanto os que subiram para a primeira divisão este ano provavelmente serão rebaixados. Dá pra discordar?
Veja esses dois times: Carlo Cudicini, um dos melhores goleiros da temporada inglesa retrasada, no gol; Glen Johson e Wayne Bridge, há muito tidos como futuros titulares das laterais do English Team, são os laterais; Ricardo Carvalho, titular de Portugal, e Robert Huth, titular da Alemanha, fecham a defesa.
O meio pode começar com a maior promessa da próxima geração inglesa, Shaun Wright-Phillips, junto com a maior negociação da história do futebol francês, Michael Essien, e tem ainda Geremi e Diarra. No ataque pode ficar Didier Drogba ou Hernan Crespo.
Que timaço é esse? Quem acompanha o Inglês sabe: são os reservas do Chelsea. Um time que se jogasse sempre poderia ganhar qualquer liga do mundo, batendo, inclusive, os titulares.
De outro lado, quase podemos montar um time com David James no gol, Glen Johson e Rio Ferdinand na defesa; Joe Cole, Michael Carrick e Frank Lampard no meio; e Jermaine Defoe no ataque. Esses, quem são? Os caras que freqüentaram convocações recentes da Inglaterra e que passaram pelo West Ham. Só David James não foi revelado pelo clube do leste de Londres. Nenhum deles atualmente defende o clube, que acaba de voltar à Premier League depois de duas temporadas na segunda divisão.
O time ficaria completo com Sol Campbell, Wayne Rooney, Scott Parker e o já citado Wright-Phillips, jogadores que representam a mesma realidade: os outros clubes da Inglaterra não conseguem mais competir com os quatro (três? dois?) grandes.
Como o time que se dá melhor na temporada é o que obtém mais dinheiro com premiações e é, portanto, o que pode contratar mais, fortalece-se o time que, em tese, já era o mais forte. A não ser quando surge um Abramovich, a tendência é a concentração.
Não sou inglês
Eu que não sou inglês, o que tenho com isso? Pouco, mesmo que não seja brasileiro. No Italiano e no Espanhol, como se sabe, a concentração é antiga e só se acentua: o título é de Juve ou Milan em um, de Barça ou Madrid no outro. E ninguém parece muito preocupado com isso. Isso pra não falar em Bayern de Munique, claro.
Então eu e você não somos idiotas? Somos também, só que por outros motivos. Se você é italiano ou espanhol pede para alguém no seu país te explicar os porquês. Se for brasileiro, aí vai:
1- Seu time na primeira rodada é um e na última pode ser completamente diferente. Se revelar alguém bom, certamente até o fim do torneio já terá perdido para algum expressivo time de Ucrânia. Que tipo de identificação dá pra criar com os jogadores se só ficam no time os ruins?
2- Você vai ao estádio, não tem onde parar o carro, quando tem é caro, não tem nenhum conforto, nada decente pra comer, e mesmo assim você vai ao estádio. E ainda leva um cartaz escrito “Galvão, filma eu”.
3- Você gosta de ser enganado. “Love no Timão” te diz alguma coisa? Você dá audiência pros caras que divulgam esse tipo de groselha.
4- Você reclama que seu time não ganha dinheiro mas compra tudo quanto é produto pirata com o logotipo dele.
5- Você torce apaixonadamente por uma seleção que não é do seu país, e sim de uma meia-dúzia de mafiosos que ganham muito dinheiro com ela e não devolvem absolutamente nada ao país em troca.
6- O mais importante: você deixa uma meia-dúzia de picaretas tomar conta daquilo que, em importância, perde pra poucas coisas na sua vida: o seu clube.
Quer uma prova? Pra não falar dos vascaínos, vamos falar dos não-vascaínos que viviam dizendo: o Eurico é um picareta mas eu queria um no meu time. Vai ver como tá o Vasco hoje. Outra? A torcida são-paulina que gritava “presidente ladrão/São Paulo campeão”. Não vem ao caso se era verdade ou não, o fato é que, se o cara era ladrão, lesou o clube, que foi campeão e depois esperou mais dez anos pra ser de novo. E a massa só comemora.
Na Inglaterra, onde é comum o cara torcer apaixonadamente para um clube da quarta divisão (que dá mais público do que 90% dos times da Série A do Brasileiro), os torcedores começam a achar que chegar à Premier League não é tudo aquilo. Preferem continuar nas ligas menores, com ingresso mais barato, estádios lotados de torcedores e não de executivos convidados pelos patrocinadores. Em um caso extremo, os torcedores do Wimbledon, que foi comprado e mudou de nome e cidade, fundaram outro clube, com o mesmo nome do anterior, e agora brigam pela história do “falecido”.
No Brasil, talvez por nossa natureza pacata talvez porque ainda não se esgotaram os craques e, bem ou mal, conseguimos assistir jogos decentes no Brasileiro, é pouco provável que alguém vá tomar uma atitude dessas.
O que aconteceria se todos deixassem de ir aos estádios? De dar audiência para as transmissões da Globo e das rádios-tablóides? E de comprar material, oficial ou pirata, dos clubes? Provavelmente nada.
Comentário pessoal: ainda estrou procurando alguma coisa pra contra- argumentar(esse texto me lembrou dos tempos de copa do mundo).