Capítulo 16 - Elenshael
Wiler Benson - Vila élfica
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Ashari – sussurrou Wil para o elfo ao seu lado. O cavaleiro segurava uma lança élfica na mão direita, e tinha o escudo pronto na esquerda. Sua espada bastarda pendia inerte na bainha.
– Você fala nosso idioma? – encantou-se o rapaz de orelhas pontudas e traços delicados, fitando Wil com olhos de puro deleite, nos quais cintilavam duas íris douradas como Suon. O elfo parecia muito sorridente e à vontade, dadas as circunstâncias, pensou Wil.
– Sei apenas alguns cumprimentos – respondeu o cavaleiro, voltando o olhar para frente.
Os oito thaianos, bem como elfos que eram capazes de lutar, estavam agachados por trás de uma barricada improvisada, que separava o vilarejo do exterior. Os elfos arcanistas, como eram chamados os magos daquela espécie, haviam manipulado trechos da densa vegetação que crescia nos arredores, fazendo com que galhos e ramos crescessem até formar uma barreira natural e robusta, de uns dois metros de altura e em formato de semicírculo, do lado leste da vila. Os trechos que não haviam conseguido fechar com a vegetação - seja por falta dela, ou porque a mana dos magos havia acabado - haviam sido fortificados por mãos thaianas com tábuas, barris, mesas e outros objetos diversos. Wil admirara a velocidade com a qual haviam idealizado e construído a proteção. Maxwel carregara metade dos materiais que usaram na barreira sozinho.
Haviam terminado o muro minutos atrás, e os orcs estavam muito próximos.
– Quanto tempo acha que demora até estarem aqui? – perguntou Mart, alguns metros à direita de Wil. Os oito thaianos formavam uma fileira uniforme, com os magos no centro, ladeados pelos paladinos, e os cavaleiros nas extremidades. Wil ficara ao lado do comandante Artos; Maxwel e Trent fechavam o grupo na outra ponta.
– Alguns minutos – respondeu Lucius, entre Artos e Mart, com os olhos semicerrados.
O grupo de orcs bandoleiros era grande; devia conter no mínimo uns vinte integrantes. Wil deu graças aos deuses pelo fato de que, ao menos, eles estavam a pé, e não montados em seus terríveis
wargs. Se aquele tivesse sido o caso, eles teriam alcançado a vila élfica muito antes dos thaianos, e o destino daquele belo povo poderia ter sido muito diferente.
Nos dois lados do grupo thaiano, fechando a fileira de combatentes agachados por trás da barricada, estavam os elfos. Havia dez combatentes, ao todo; alguns retesando as cordas de elegantes arcos longos. Outros, os arcanistas, não dispunham de nada a não ser suas próprias mãos mágicas. Apenas um deles era um guerreiro de corpo a corpo; um belo espécime alto e esguio, de cabelos dourados como o trigo sob o brilho dos sóis, que segurava uma espada longa e esbelta como ele próprio.
Eram todos elfos Deraisim, segundo contaram ao grupo de Wil nas rápidas apresentações que sucederam a chegada dos guerreiros. Os Deraisim eram a casta intermediária daquele povo mágico; os elfos que viviam nas florestas e no campo, e os que mais se afastavam de sua capital, Ab’Dendriel. Também eram os que mais sofriam com os ataques esporádicos dos orcs de Ulderek, por viverem mais distantes.
– Agora, prestem atenção – disse o comandante Artos, para os seus homens. – Eu não quero saber de heroísmos – falou isso olhando especialmente para Maxwel e Trent. – Nós os enfrentaremos por trás de nossa barreira, tanto quanto possível. Nada de pular a cerca e ir bater de frente com eles, se pudermos evitar.
– Mas que pilhéria – disse Maxwel, com um sorriso.
Os orcs finalmente chegaram. Eram muito parecidos com aqueles que haviam encontrado dias atrás, pensou Wil. Faziam um estardalhaço, enquanto se espalhavam em duas direções, circundando a barreira. Wil segurou sua lança com firmeza, e começou a procurar peles expostas de orcs para espetar, como um porco-espinho. Encontrou um braço esverdeado, que jorrou sangue quando penetrado. O orc urrou, e encarou Wil com suas medonhas presas à mostra.
Seus companheiros cavaleiros haviam sangrado outros orcs de maneira similar, mas agora todos corriam para as duas pontas da barreira semicircular, a fim de deter os inimigos que haviam escapado do ataque inicial. Wil deixou a lança de lado e se apossou de sua espada. Artos, Mart e Lucius vieram com ele, assim como cinco elfos. Os guerreiros mágicos e arqueiros ficaram para trás, preparando seus ataques, e Wil e Artos tomaram a frente.
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Utani hur – disseram Artos e Wil, em uníssono. Os dois cavaleiros ficaram lado a lado, com os escudos a postos, aparando os pesados golpes dos machados, maças, lanças ou espadas dos orcs. Impedindo-os de chegar aos companheiros.
– Não deixe que nenhum deles passe por nós, Benson – disse Artos, trançando com elegância e perícia por entre as pernas e braços esverdeados e musculosos dos inimigos. Um golpe do comandante nos joelhos baixos de um orc fê-lo desabar. Menos um, pensou Wil, quando enfiou sua espada no inimigo caído, silenciando-o.
Vários dos orcs caíram antes mesmo que pudessem chegar a combater os dois cavaleiros, vítimas de flechas ou feitiços thaianos e élficos. Wil agradeceu particularmente quando uma flecha, atirada do arco preciso de Lucius, atingiu um orc na testa e impediu-o de cravar sua lâmina no ombro de Wil.
– Não há de quê – exclamou Lucius, com um sorriso e uma piscadela. Wil interceptou um outro orc guerreiro, de espada e broquel circular em mãos, que havia começado a correr furiosamente na direção do paladino.
Todos os orcs pareciam bastante indisciplinados e inexperientes, avaliou Wil. Até mesmo o filho do orc líder, que enfrentara dias atrás, parecera melhor. Logo, as forças thaianas e élficas sagraram-se vitoriosas.
– Alguém ferido? – questionou o comandante Artos, depois que todos se reuniram para avaliar os danos.
– Do nosso lado, Norton levou uma flechada – respondeu Hal. O feiticeiro thaiano de fato tinha um projétil cravado na coxa. – Além disso, Celenna foi alvo dos ataques de um xamã – completou o paladino real, apontando para uma elfa arcanista que se encontrava estirada no chão, aparentemente inconsciente. – Espero que Mart ou alguém dos elfos sejam capazes de cuidar disso.
– Fora isso, Maxwel e Rothilion deram cabo de tudo antes que nós pudéssemos ajudar muito – disse Norton, entre dentes, segurando a perna ferida.
Maxwel e o guerreiro elfo alto que segurava uma espada delgada, apertaram-se as mãos e trocaram um olhar de respeito.
– Você daria um ótimo cavaleiro de Thais – bradou Maxwel. O elfo respondeu com um sorriso suave e uma mesura.
– Honra-me, cavaleiro– ele disse.
Artos assentiu.
– De nossa parte, acho que estamos todos bem, certo? – perguntou ele.
Wil e os guerreiros que lutaram com o comandante confirmaram. Mart e alguns dos elfos correram para acolher os feridos, e todos foram reunir-se em uma ampla clareira central do bosque onde ficava a vila dos elfos, e que aparentemente também servia como praça de reuniões sociais.
Agora que o perigo passara, Wil pôde pousar um olhar mais calmo sobre o vilarejo. Não era nada que já houvesse visto em terras humanas - ao menos, não no reino de Thais. As construções humanas, suas estradas e suas atividades, deixavam uma marca muito profunda e transformadora sobre o ambiente onde surgiam. Os cinzas, marrons, brancos e negros da sociedade thaiana sobressaiam-se contra as cores da natureza, sobrepujando-as.
Com os elfos, era diferente. Aquelas criaturas haviam aprendido a integrar-se à natureza de uma forma que, Wil julgava, jamais poderia ser rivalizada pela humanidade. Suas casas eram todas feitas de madeira; por vezes, eram até mesmo construídas de maneira mágica, fazendo-se árvores, galhos e folhas crescerem de forma tal que criavam cômodos ocos, casebres, ou até verdadeiras mansões naturais. As habitações eram inconspícuas à primeira vista, mas um olhar mais cuidadoso salientava os locais onde alguma casa ou estabelecimento havia sido construído - ou, por falta de palavra melhor,
crescido. Várias das casas eram elevadas, florescendo no alto das árvores - bordos, castanheiras, pinheiros. Aquela era a maneira dos elfos Deraisim.
Além disso, a flora abundava em todos os arredores da pequena vila élfica. WIl suspeitava que a magia élfica também tinha alguma coisa a ver com aquilo. Aquela parte do mundo não deveria abrigar tanta diversidade e matas tão cerradas. Wil duvidava que o reino humano de Carlin, que ficava para o oeste em latitude similar, tivesse a mesma riqueza natural.
– Ficarão para a noite? – perguntou o elfo-guerreiro chamado Rothilion, depois que a bagunça da luta já havia sido limpa, os feridos levados para o interior de um grande carvalho oco que deveria servir de hospital, e todos já estavam reunidos na praça central, ao redor de uma grande fogueira a crepitar. Os elfos sentavam-se sobre a relva, e os thaianos os imitavam.
– Acredito que sim, se sua bondade o permitir – respondeu o comandante Artos.
– Depois de sua ajuda, é o mínimo que podemos oferecer em troca – respondeu uma elfa, de sorriso radiante e cachos azulados que chegavam ao busto e escondiam suas orelhas delicadas e pontudas.
– Isso anda acontecendo com frequência? – perguntou Maxwel, sério.
– Com alguma frequência, sim – respondeu Rothilion. – Este foi o maior grupo que tivemos até então. Os orcs de Ulderek sempre foram inquietos, mas nos últimos tempos, estão se excedendo.
– Acha mesmo que essa corja veio de Ulderek? – questionou Maxwel, com um olhar cético.
Rothilion deu de ombros.
– De Ulderek, ou de algum dos vilarejos adjacentes à Grande Rocha – disse, referindo-se à formação rochosa sobre a qual, dizia-se, assentava-se a grande fortaleza dos orcs. – Embora este grupo de fato parecesse singularmente indisciplinado. Talvez não viessem da fortaleza, e fossem apenas aldeões. Para nossa sorte.
– De qualquer forma – interveio um outro elfo, de cabelos brancos lisos, olhos azul-turquesa e pele escura como a de um daramano, que anteriormente se apresentara como Denarin –, se olharem com afinco para o leste, serão capazes de divisar os contornos de
Elenshael, com seu cume agudo voltado para o céu. A partir dali, ficam os limites das terras orcs. Não é à toa que sejamos sempre os primeiros a enfrentar problemas com eles.
– Desculpe-me – perguntou Hal –, Elenshael?
Denarin abriu um leve sorriso.
– Perdoem-me. Não estamos habituados a receber visitantes humanos. Elenshael é como chamamos aquele pico solitário que eleva-se nas planícies desoladas à leste – disse o elfo, apontando.
Ali, de fato, era possível perceber uma elevação no horizonte longínquo, da cor cinzenta ou azulada que adquirem os relevos quando estão distantes, destacando-se dos arredores planos.
– O pico dos wyverns – disse Artos, lúgubre.
– Assim o é – confirmou Denarin, com um aceno gracioso de cabeça. – Onde vivem os
alyvanor, ou wyverns, em seu idioma.
– De qualquer forma, aconselho-vos a se manterem bem distantes daquele lugar – disse Rothilion. – Se os orcs já não forem problema o suficiente, os
alyvanor com certeza o serão.
– Isso é uma pena – disse Maxwel – , pois é exatamente para lá que nós vamos.
Vários elfos olharam para os thaianos com olhos arregalados, ao ouvirem as palavras de Maxwel.
– Perdoem-me, companheiros – disse Rothilion. – Mesmo com este pequeno combate, pude perceber suas capacidades, que são de fato notáveis. É certo que o reino de Thais produz guerreiros formidáveis, como se diz. No entanto, rogo-vos que reconsiderem esta ideia, que, ouso dizer, parece-me loucura. Ninguém se aproxima de Elenshael. Se os orcs não os abaterem, os
alyvanor certamente o farão.
– Acontece – falou Lucius – que estamos à caça de um sujeitinho que está indo naquela direção.
Trent assentiu.
– Eu já estou ficando com raiva desse Tannous, e nunca nem sequer vi a cor do sujeito. Graças a ele, meu rabo está duro de tanto andar e dormir no chão.
– Tannous? – disse Rothilion, com uma ruga formando-se em sua testa alta. – Um humano, de pele escura e barba comprida como a de um anão?
– O próprio – confirmou Artos. – Ele há de ter passado por aqui, ou próximo daqui.
– Caelos, vá chamar Elashae – disse Rothilion, e um dos elfos presentes na roda, um jovem arqueiro que lutara mais cedo, levantou-se e se afastou.
– Elashae é a dona de nossa… hospedaria, por assim dizer – continuou Rothilion, voltando-se para os thaianos. – O lugar onde ficam viajantes, quando os temos. Um pequeno grupo de humanos de fato passou por aqui, há algumas semanas.
– Só pode ser o maldito! – exclamou Trent.
– Nós não recebemos muitos forasteiros por aqui, então, há boas chances de que seja o homem que procuram – disse Rothilion.
– Ele disse o que queria? Para onde foi assim que partiu? – indagou o comandante Artos.
– Por isso mandei buscar Elashae – respondeu o elfo. – Eu não tenho certeza. Apenas soube que estávamos abrigando forasteiros, mas não sei de detalhes. Eles ficaram na casa de Elashae.
Após mais alguns minutos, o elfo chamado Caelos retornou, com uma elfa nos seus calcanhares. Elashae possuía cabelos grisalhos que lhe chegavam quase aos joelhos, e algumas poucas rugas começavam a aparecer, tímidas, em seu rosto élfico angelical, evidenciando sua idade mais avançada.
– Sim, o humano espalhafatoso – exclamou Elashae, sem precisar de nenhuma deixa. – Moreno. Barbudo. Reluzindo por conta dos inúmeros anéis e colares de metal que usava. Também tinha alguns asseclas, muito parecidos, mas menos enfeitados.
– É Jawad Tannous – confirmou o comandante Artos, com um aceno de cabeça. – O que aconteceu com ele?
Elashae deu de ombros.
– Partiu no meio da noite, sem pagar a hospedagem. Não faço ideia de para onde tenha ido. Ele chegou com uma caravana de elfos do oeste, que ficaram por uma noite. O seu humano parecia ter convencido os elfos mercadores de que nós estávamos interessados em adquirir grandes quantidades de madeira de abeto-aveludado, que eles estavam transportando. Imagine. Nós temos isso aos montes. Quando os pobres coitados descobriram, na manhã seguinte, que haviam sido ludibriados, o homem barbudo já não estava em parte alguma. Se ele foi rumo a Elenshael, não irá durar muito.
– É isso que me preocupa – disse Artos, com as sobrancelhas arqueadas. – Por que Tannous partiria naquela direção? Por que seguiria rumo a Ulderek, de qualquer maneira? Está tentando se matar?
– Ele poderia ter partido para algum outro lugar? – perguntou Lucius. – Há outros povoados élficos próximos?
– Nenhum a leste, sul ou norte – respondeu Rothilion.
– Não se enganem – disse, de repente, outro elfo, entrando na conversa. – Seu alvo partiu para o leste. Batedores perceberam pegadas humanas na direção de Elenshael. Perseguiram o rastro por um bom tempo, até onde se atreviam a ir. As pegadas continuavam constantes naquela direção, sem vacilar.
– Temos um rumo, então – disse Maxwel, com um brilho no olhar.
O resto da noite no povoado élfico passou de maneira relativamente tranquila, pelo menos no que tangia às aparências.
Cada membro da comitiva dos oito thaianos riu, comeu, contou e ouviu histórias ao redor da fogueira, acompanhado dos companheiros élficos, que eram calorosos como as labaredas do fogo que tinham diante de si. Os risos e as conversas foram estimuladas pelo hidromel dos élficos, que era mais doce do que qualquer um produzido por mãos humanas, porém, delicioso e suave.
Em certo momento, quando a noite já havia caído, Hal aparecera com um instrumento de cordas que Wil nunca havia visto, mas que imaginou ser um alaúde. O paladino real sentou-se sobre um toco de árvore e começou a tocar habilmente uma melodia alegre, acompanhada por uma letra que falava sobre as aventuras dos oito thaianos. Aparentemente, viera compondo aquela canção em segredo, ao longo da viagem. Wil reparara como algumas elfas, e até mesmo elfos, olhavam para o paladino real com olhos admirados e sorrisos no rosto, enquanto o ouviam tocar.
– Então, nosso galã paladino sabe manejar outras cordas! – exclamou Trent, em certo momento.
O próprio Wil contou diversas histórias de seu vasto arsenal, reunindo ao redor de si ouvidos atentos e olhos maravilhados. Sentiu-se acanhado pela atenção no início, mas foi se soltando à medida que a noite avançava, o efeito do hidromel se espalhava por seu corpo, como um abraço quente, e ele encontrava sua voz.
A maior surpresa, no entanto, foi quando Trent, aparentemente em um quase-transe causado pela bebida ou pela atmosfera mágica, levantou-se e começou a cantar, em uma alta e bonita voz de barítono, que escapava pela boca do cavaleiro como mel. Estimulado pela cantoria, Mart, o druida, levantou-se em algum momento e começou a dançar, com movimentos ridículos. Todos aplaudiram a cantoria de Trent, que fora realmente boa, e deram risadas da dança de Mart, que fora realmente engraçada.
Wil se perguntou, no entanto, o quanto seus companheiros escondiam dentro de si seus próprios temores, como ele próprio. Ele lançava olhares rápidos para o leste, onde Elenshael ainda se destacava, agudo e sombrio, no horizonte, com um céu de perpétuas nuvens cinzentas pairando acima. Cada vez que o observava, o seu destino parecia se tornar mais próximo, mais sombrio, e mais real.
O jovem cavaleiro thaiano tratou de aproveitar a cálida recepção élfica o melhor que pôde. Imaginou que não teria outras casas amigas sob as quais dormir por um longo tempo.