Resolvi que o capitulo três vai acabar ali mesmo, não vai ter três partes. O que seria a terceira, vou encaixar em um capítulo mais adiante.
(E esse capítulo de hoje será dividido em dois, como era originalmente, mas as partes não estarão juntas.)
Dessa vez vou colocar um capítulo novo antes de passar uma semana. Já estou com ele pronto, e provavelmente ninguém mais vai comentar nada sobre o três. Então aqui está: Um dos meus capítulos preferidos, o primeiro que eu escrevi dessa história se não me engano. Com certeza vocês terão o que falar sobre ele... Hehe.
Ele é um dos antigos, refeito e aperfeiçoado. Espero que gostem.
(Esse cap. é uma história paralela à que vocês viram até agora. De agora em diante quase sempre será assim: Um capítulo na história principal e outro na secundária, revezando.)
(E não se preocupem se o capítulo parecer um pouco confuso. Já deixo claro que três realidades aparecerão nele: A realidade original, o delírio e uma realidade "alternativa".) Fica a cargo de vocês descobrir qual é qual.)
Capítulo Quarto - Modesta Chave de Madeira, Parte Um
Deitado no colchão de penas molhado de suor, um menino maltrapilho e muito pálido sente um imenso calor e ardência no seu corpo inteiro, e por isso clama pela ajuda sua mãe que está na cama ao lado. Não era no humilde quarto da sua casa que ele estava agora, porém, e a sua cama era seguida de uma grande fileira de outras camas rústicas com moribundos deitados. Alguns deles gritavam, tremiam e esbravejavam, alucinados e fora da realidade, enquanto outros apenas mantinham caretas inertes de agonia com o corpo todo enrijecido – mãos crispadas, pernas torcidas. Os gemidos eram horrendos, davam calafrios aos que ainda mantinham a sua consciência e percebiam o que estava à sua volta. Os urros e gritos enchiam o corredor onde estavam os leitos como um gás sufocante.
A mãe do garoto não responde ao seu clamor, nem sente mais a dor e o sofrimento que outrora lhe corroíam as entranhas. No seu semblante mórbido não se encontra nenhuma paz.
Eis que um homem vestido com uma longa e fina túnica alaranjada encardida de sangue passa caminhando apressado pela frente da criança, chacoalhando os muitos colares que carregava no pescoço. Ele pára assim que chega em frente ao corpo da mãe e, olhando com terror para a expressão vazia que estava em seu rosto, a leva para um outro lugar. Assim fica ali sozinho o menino - que sonha acordado agora, em delírios de febril.
Enquanto sofre, ele volta aos muitos momentos da sua vida onde, pedindo esmola na rua, odiou a si mesmo e mais ainda às pessoas a sua volta, que olhavam para ele como se ele fosse alguma espécie de animal digno de pena, um pobre bicho que tivesse fugido de alguma jaula.
As repetidas cenas vindas da sua memória tomavam forma, eram revividas por ele e sumiam, dando lugar a outras. Seus olhos viam tudo como se fosse real. Ele sentia fome, frio e medo - todos os cheiros, sensações e sentimentos que acompanhavam aquelas lembranças ruins também eram revividos. Uma hora, porém, tudo parou. Ele se via sentado no chão de terra da sua vila quando, repentinamente, o ambiente à sua volta começou a ser engolido por uma escuridão crescente. Era como se estivesse anoitecendo muito rápido. Ele achou que estava morrendo afinal, e fechou os olhos.
Mas nada aconteceu. Enxergando novamente, percebeu que estava sentado dentro de uma jaula fantasmagórica: Era quase transparente, porém aparentava ser palpável. O interior da cela era fétido e escuro, pois nem os raios de sol ousavam entrar pelas frestas das barras de ferro e encarar o bicho que dentro delas estava.
Quando se levantou, ficando de pé, a jaula simplesmente se desfez e as barras evaporaram no ar, transformadas em pó. Ao mesmo tempo, paredes brancas adornadas com diversos belos relevos se materializaram ao seu redor, brotando do chão e, por fim, houve calmaria. Tudo parecia estar em seu devido lugar, e o resultado era uma sala oval – parado no centro da sala, completamente abismado e boquiaberto, estava o menino.
Justamente no momento em que ele deveria estar mais confuso, porém, ele sentiu um imenso alívio. De alguma maneira, esse novo e estranho lugar lhe dava uma imensa sensação de aconchego e conforto.
- Finalmente a dor de cabeça passou, não agüentava mais... O que...? Que lugar é este? Essas paredes estão cheias de desenhos...
Ele olhou para as paredes, que eram levemente iluminadas por uma luz que emanava de cima, e viu nelas cenas que não lhe eram estranhas, mas que talvez pela confusão que ele sentia no momento, não se relacionavam com nenhuma coisa conhecida. Mas havia algo de errado, naquele momento ele percebeu que ele estava falando, mas não conseguia pensar em silêncio. Ele tentou forçar a sua cabeça a pensar, sem sucesso – apenas acabou falando mais e mais. Era uma situação inimaginável, bizarra e sem explicação, que começou a lhe deixar desnorteado e ainda mais confuso. Após alguns momentos de agonia, aquela incapacidade de pensar desencadeou um descontrole emocional tamanho que ele correu até uma das paredes e a encheu de socos e chutes, descobrindo também que ele não sentia dor, gosto ou cheiro, e tinha seu tato bem reduzido. Ele olhou apavorado e trêmulo para si mesmo: Examinou suas mãos, braços e pernas em busca de um sinal de que algo estivesse errado, mas nada parecia diferente do normal - ele até estava usando uma veste simples e limpa de couro. Não entendendo nada, e deixando de lado todo e qualquer sentimento de conforto anterior, deixou-se cair no chão de joelhos, a contorcer-se, grunhindo e puxando os cabelos como um animal atingido de súbito por uma dor e estresse inimagináveis.
Após um longo tempo em que permaneceu caído em posição fetal no centro da sala redonda, onde poderiam ter se passado horas ou dias, o momento de euforia passou e a confusão foi se abrandando. Quando finalmente ele se acostumou a não conseguir pensar nem usar vários de seus sentidos, começou a considerar a idéia de estar morto, preso a algum plano espiritual e sem sentido. Falando ininterruptamente, ainda impossibilitado de pensar, lembrou-se da picada dos insetos enormes que invadiram a sua casa enquanto dormia e da nuvem quente que fazia um barulho ensurdecedor, quase sentindo novamente a sensação de queimação e torpor que invadiram o seu corpo após as centenas de picadas doloridas. Lembrou também que a sua mãe estava na mesma situação que ele e que, como ele, poderia estar morta, e teve uma súbita vontade de chorar.
Porém, mesmo com a grande tristeza que tomou conta dele, o choro foi frustrado - de olhos totalmente secos, ele entendeu que naquele lugar seria impossível para ele derramar aquelas tão necessárias lágrimas.
Ele pôs-se de pé novamente, então, e resolveu aceitar a condição miserável em que estava. Falou:
- Não dá pra entender nada disso, mas não quero ficar aqui parado.
Dizendo essas palavras, começou a andar. No segundo em que deu sua primeira passada de mente calma, o chão pareceu tremer levemente e uma estreita porta simples de madeira apareceu entreaberta na parede que estava logo á sua frente: Ela não tinha maçaneta e era lisa como uma tábua rude e não trabalhada, mas atraiu de imediato a atenção do menino, que sentiu uma incontrolável vontade de olhar o que estava além do seu portal, como uma curiosidade avassaladora.
Indo em direção à porta e abrindo-a, pode ver o que estava além: Um imenso lugar aberto quase totalmente escuro, onde se destacavam vários grandes pilares que pareciam feitos totalmente de um mármore tão branco que parecia ter uma rala luminosidade guardada no seu interior. O solo, por sua vez, estava totalmente inundado por um líquido cuja cor verde-escura densa não permitia a ele ver a sua profundidade.
Ao pisar lentamente dentro do líquido, ainda se segurando na porta e com cuidado, descobriu que o fluído que cobria o chão era meio pastoso e estava na altura do seu joelho, ou pelo menos foi o que ele deduziu pela dificuldade que teve em movimentar seus pés. Como o menino pouco enxergava, tropeçou algumas vezes em objetos que estavam sob o líquido. Ao tropeçar pela segunda ou terceira vez, novamente se sentiu totalmente confuso com o tato falho. Era como se ele mesmo não pudesse sentir a sua pele, sem saber se estava nu ou vestido – o garoto sentia como se quase não existisse.
Ele tentou por algumas vezes retirar um dos objetos submersos que atrapalhavam o seu andar e apalpa-lo, a fim de descobrir que coisa era, mas sempre que suas mãos adentravam o líquido não encontravam nada, como se os objetos misteriosos nunca tivesse estado lá. Desistindo, ele simplesmente caminhou em frente. Aquele mundo não poderia ser mais confuso, e ele se acostumava lentamente a isso – começava a não se importar se algo era estranho ou não fazia sentido.
Quanto mais ele andava para perto dos pilares e ia se adaptando à escuridão, mais ele conseguia ver que nas suas superfícies estavam desenhos em espiral, e aqueles grandes objetos eram tão altos que não se podia ver o fim deles - a sala parecia não ter um teto. Outro ponto que ele notara era como uma falha claridade foi aparecendo no fundo da longa sala conforme o menino avançava e, quando chegou mais perto da luz, descobriu que se tratava de uma frase como que escrita em brasa, em letras gigantes, mas que não faziam sentido para ele, em cima de uma porta igualmente grande.
A porta tinha em si muitos desenhos em relevo, como as paredes da sala oval onde todo este estranho sonho, ou o que quer que fosse, começou. Os desenhos mostravam formas geométricas e símbolos de muitas cores vivas, que se assemelhavam muito com os da frase que estava acima. Entretanto, estes desenhos estavam dispostos na vertical, em colunas que formavam um desenho circular em forma de anel, ao passo que a frase acima estava na horizontal. O menino colocou as mãos nos símbolos, com a expressão séria, admirando-os em toda a sua beleza e complexidade, e descobriu que a superfície em si era morna ao toque. A porta tinha como maçaneta um objeto com o formato de um botão negro de uma grande flor, com um buraco adornado para encaixar uma chave logo abaixo, de onde saia uma leve luz dourada.
*****
Fora da realidade paralela onde garoto se encontrava, no lugar onde estava deitado o corpo do garoto, há dias um velho doente estava deitado na cama ao lado, olhando séria e pacientemente para ele como se observasse uma pessoa a passar por um labirinto, esperando ela chegar ao prêmio colocado estrategicamente na saída. O velho estava muito debilitado e sujo, vestido com o que parecia ter sido um dia uma capa bem cortada e trabalhada, e segurava nas mãos um livro igualmente sujo, que tinha como capa uma fina camada de couro. Embora fosse possível perceber alguns traços fortes e joviais no seu rosto e alguns cabelos negros na barba branca e mal feita, o seu presente estado debilitado de saúde dera ao seu semblante um aspecto de cadáver, sinal de que seu tempo de existência estava para acabar. Sobretudo, sua face dava a impressão de ser aquele um homem que envelhecera muito rápido, tendo mais rugas e chagas do que deveria para a sua idade.
O moribundo então se levanta com muita dificuldade, uma perna por vez e apoiando-se na cama, demorando vários minutos para conseguir se erguer. Ele se afasta do seu leito e pára de pé ao lado do menino. Seus olhos encaram profundamente a criança com um ar de compreensão e sabedoria quase suprimidos pelo o resto do seu rosto, que demonstra um grande e desesperado arrependimento. O velho sente a vida lhe escapando tal como a brasa que perde seu último fio de calor, e esfria já desprovida do fogo.
Enquanto isso, em outra realidade, o menino estava sentado perto da porta iluminada como se esperasse, sem esperança, que sua mãe viesse lhe buscar. Qual não foi a sua surpresa quando, sem aviso prévio, aparece na sua frente não a sua genitora, mas um idoso alto de longos cabelos castanhos e olhos muito negros, que tinha ares de gente importante. A sua idade era apenas traída pelas rugas no seu rosto e mãos, e ele usava uma veste cor-de-terra. O senhor segurava em sua mão uma velha chave de madeira e, depois de uma breve olhada na frase acima da porta, disse:
- Aqui está escrito: “Onde a loucura e a sanidade se tornam unas, e a realidade imita a ilusão”.
Sem compreender a situação, o menino olhou atônito para este que agora lhe fitava com um leve sorriso no rosto e um olhar investigativo e, hesitante, perguntou:
- O que está acontecendo aqui, eu estou morto? Quem é você?
O velho soltou uma risada alegre e, logo após, vendo que o interlocutor não achava nenhuma graça na situação, pigarreou rapidamente e respondeu:
- Pequeno, quando você veio para cá... Havia uma sala não havia? Não reconheceste nada familiar nas paredes daquele salão?
- Não... – respondeu o outro com desânimo.
E o velho olhou com um ar compreensivo e ao mesmo tempo desapontado para o garoto, prosseguindo:
- Este lugar é o reflexo das tuas memórias, da tua consciência, e dos teus desejos mais profundos. Você não está morto, mas em tua própria mente, já que seu corpo perde, a cada segundo que passa, a batalha contra a morte. Este é o refúgio da tua sapiência.
O garoto continuou confuso, e perguntou assustado:
- Como assim?! O que é isso tudo?!
Após essas palavras a face do velho mudou, mostrando irritação. Impaciente, ele respondeu secamente e direto:
- O seu tempo está no fim, assim como o meu. No livro que eu carrego comigo está toda a informação que você vai precisar, procure-o no cadáver que encontrarás quando acordares. Mas agora temos que nos apressar, chega de tolices!
Num movimentar de mãos do estranho, que ergueu a chave de madeira no ar, os objetos que antes estavam imersos no líquido começaram a emergir e flutuar, revelando a sua natureza: Eram cristais de muitas cores e formas, e se movimentavam numa velocidade incrivelmente rápida. As pedras cristalinas começaram a se chocar umas contra as outras no ar, se partindo em muitos pedaços, e os fragmentos continuavam a flutuar e se movimentar como se tivessem vida própria: Era um espetáculo impressionante e surreal que o menino não poderia ter sequer concebido em seus mais loucos sonhos.
Envolto nos cristais, que agora rodeavam todo o seu corpo num frenesi espiral, o velho falou em uma voz alta e sombria, dirigindo-se à criança que olhava impressionada para ele:
- Em favor de sua vida lhe entrego a minha, e coloco em suas mãos a chave que abrirá esta porta que está diante de vós, e muitas outras.
Ao pronunciar estas palavras, a chave saiu das mãos enrugadas que a seguravam e entrou na fechadura da porta desenhada, que se abriu com violenta rapidez. Houve um som alto e ameaçador, que era como o de muitas pedras caindo, ventos tragando e todas as águas do mundo em convulsão.
O portal sugou para seu interior, num turbilhão de cores, luz e escuridão tudo o que se encontrava ao seu alcance - o velho, o menino, e todo o resto.
A.E. Melgraon I
