Capítulo 21 - O governo contra-ataca.
Kamus estava sentado em um lugar onde jamais se imaginou: no trono do Rei de Thais. Ele havia posto uma escada de madeira para que os cabeças daquele plano revolucionário pudessem ter acesso a Sala Real, e enquanto eles iam , através de macas, retirando Spiral, Rorc e Nad, o jovem cavaleiro refletia o que acontecera encostado naquele maravilhoso assento de mogno.
Lágrimas escorriam pelo seu rosto, mas não de pena, e sim de angústia e de um certo desespero. Alguém, a quem Kamus não conhecia, ou não fazia esforço para reconhecer naquele momento ainda de tensão avaliou o corpo do Rei e voltou-se para ele:
- Verifiquei seu pulso, e posso afirmar que ele não está morto. Deveremos prestá-lo socorro?
Ele não respondeu. Pensava bastante antes de dizer qualquer coisa, já que, pelo fato de ter sido aquele que lutara pessoalmente com o Rei, deram-lhe uma responsabilidade que ele não gostaria de ter assumido. Os guerreiros, quando precisaram se dirigir a ele, falavam manso, e mesmo aqueles que davam assistência a seus amigos evitavam encará-lo. Kamus não gostava nem um pouco daquela situação. Um turbilhão de emoções varria sua mente, e ele não estava psicologicamente preparado para aquilo; ele era muito jovem e não tinha nenhuma condição de dar ordens a ninguém, principalmente naquele estado. E foi com medo de assumir seus atos posteriormente que ele preferiu responder:
- Sim. Mantenham-no vivo.
O homem comunicou os outros e logo eles arranjaram uma maca para Kiros Fletcher também. Antes de se retirar, o desconhecido fizera outra pergunta:
- E quanto a esse outro? – apontou para o corpo decapitado de Dragulia – O que devemos fazer em relação a ele?
Com um súbito sentimento de perversidade para com o sujeito que matara seu Mestre, Kamus respondeu:
- Joguem seu corpo ao mar, porém quero sua cabeça como prêmio.
O homem concordou com a cabeça e deu mais recados aos outros. O jovem então parou para pensar um pouco sobre Dragulia. “Então ele era filho de Fletcher...Isso explica muita coisa. Os ataques à minha vila, a morte de meu Mestre, e todos os outros fatos estranhos...então era tudo mesmo a mando do Rei.”
E assim, enquanto fazia suas reflexões, sentado na cadeira mais importante de todo o continente, não se deu conta de que Thais havia parado para olhar em seus olhos, e que mesmo longe de ser o herói dos contos de fadas, era o herói dos contos thaienses, e seu nome entraria em todos os livros que tratassem da história de Áurea.
As horas foram se passando, e a movimentação no castelo foi diminuindo. Kamus pedira para que o deixasse sozinho naquela sala, e que não o envolvessem muito no rumo que a cidade levaria. Ele pedira também para que, assim que fossem liberados da enfermaria, Nad e os outros fossem encontrá-lo.
As horas iam se passando, e nenhum dos habitantes da cidade parecia dormir. De um lado, o mais novo herói do povo ainda tentava se dar conta das coisas que haviam ocorrido aquela noite, e de outro, os homens de grande influência debatiam vigorosamente sobre o destino da capital.
Contemplando a imensidão do continente através da janela do castelo Kamus se distraiu pensando quanto tempo levaria para que os primeiros homens que cruzassem os portões – fechados pelos habitantes com a tomada do castelo-, chegassem às outras metrópoles, espalhando para o mundo a notícia que o pararia.
Depois de muito tempo de solidão, batidas na imensa porta levariam Kamus a dividir seus pensamentos com mais alguém, que não Banor. Eram Spiral, Nad e Rorc. O jovem druida era, sem dúvidas, o mais machucado, e ainda usava muletas para locomover-se. Kamus convidou-os a sentar em umas cadeiras que já havia separado, e pediu a opinião de seus amigos sobre o que deveriam fazer dali em diante.
- Eu acho que o mais sensato a fazer – falava Nad ainda sofrendo com as dores de alguns ferimentos – é pegar dinheiro suficiente para restaurar nossa vila e sair daqui o mais rápido possível. Não acredito que os reforços não virão, todos os burgueses tem interesses na permanência de Fletcher, e mesmo que ele não possa mais assumir o cargo, se não o povo não for até o fim para conquistar de vez seu lugar, o mais perverso ditador estará por vir.
- Eu concordo – falou Kamus – Já nos arriscamos demais por Thais, e está na hora de sairmos daqui. Está na hora do povo da cidade decidir seu próprio destino.
- Eu discordo veementemente. – retrucou Spiral – Vocês acham mesmo que o povo vai conseguir segurar os ataques dos burgueses? Não vão durar nem um minuto!
- Como assim? – perguntou Nad – Se você não tinha fé nisso pra que contribuiu?
- Eu contribuí com interesses próprios. Podemos raspar os cofres desse local e sairmos daqui milionários. Fora isso, podemos ter acesso às contas dos nobres nos bancos, e ainda tenho esperança de acharmos informações sobre alguma montanha de ouro ilegal escondida em algum paraíso fiscal.
- Eu não acredito... – disse Kamus perplexo – Spiral, você não vê a gravidade da situação? O que está em jogo é o rumo da capital! O rumo de milhares de vidas!
- O que são milhares de vidas se comparadas às nossas? – perguntou Spiral espumando de raiva – Kamus, essa é a nossa chance de sermos pessoas dignas. É a chance de nos vingarmos desse pessoal que nunca levantou um dedo por nós. Não falo do povo, falo desses políticos miseráveis.
- Eu compreendo sua raiva, porém você tem que ser mais racional. Se pegarmos todo o dinheiro e sumirmos não serão só os aliados de Fletcher que nos perseguirão, mas sim todas as pessoas do mundo!
- Ninguém precisa saber de nada! O castelo foi saqueado, é só fingirmos que alguém fez isso por nós! Podemos pagar alguém para que esconda nosso ouro no convés de um navio, depois damos um sumiço nele e saímos. Ninguém nunca vai saber!
Kamus não podia acreditar no que ouvia. Começou a berrar com o colega:
- SPIRAL, VOCÊ ESTÁ SENDO UM CRIMINOSO DESCARADO! Mais um pouco e não haverá diferença entre você e Fletcher!
- Você está errado! – gritou ele de volta – Todos aqui na cidade agiram como criminosos ao apunhalarem seu rei pelas costas, já que a lei não permite aos cidadãos matar seus governantes quando não vão com a cara deles! E cada um aqui lutou por um ideal, seja ele a liberdade, a felicidade, o amor, a paz...só que eu lutei pelo dinheiro! Ninguém faz nada sem um interesse por trás, acontece que inventaram que ter o dinheiro como ideal é feio; é coisa de bandido.
Kamus não conseguia mais achar argumentos. Sua cabeça estava estourando.
- Agora – continuou Spiral -, se Sua Majestade não se importa, eu vou verificar os arquivos reais na sala ao lado. Estou certo de que acharei coisas interessantíssimas. – e saiu.
Nad deu um olhar de constrangimento para Kamus, e mediu bem as palavras ao falar:
- Bom…por mais que ele esteja errado em seu ponto de vista, devo admitir que seria bom checar os arquivos.
- Vá, vá! – disse Kamus já desistindo de brigar com eles – E vá você também, Rorc.
Antes de sair, o algoz de Dragulia encarou seu companheiro profundamente:
- Você deve ter notado que eu não dei minha opinião em nenhum momento. Mas agora que estamos a sós posso revelar que não acho que Spiral esteja errado.
- Tá, tá…Não me encha você também.
Ele ficara sozinho novamente, tentando encontrar motivos para essa conduta de Spiral, alguém que sempre estivera junto a si. Sem encontrar respostas, decidiu conferir se haviam de fato encontrado algo útil.
- Pra falar a verdade. – disse Spiral, mexendo em uns papéis – Encontrei isto aqui.
Kamus, contrariado, pegou o documento que ele estendeu. Percebeu que era algo de extrema importância, pois tinha vários selos e carimbos, seguidos de montes de assinaturas. Depois de ler, porém, ficou ainda mais surpreso.
- Quer dizer que todo esse dinheiro fora desviado dos cofres públicos para esse local, em Darashia?
- Pois é...eu lhe falei, rapaz. Esse Rei é um belo canalha, e temos que sugar todo seu capital.
- Concordo, mas temos que devolvê-lo aos seus donos, os habitantes de Thais, e não pegá-lo para nós.
- Uma vez desviado o povo não conta mais com esse dinheiro, Kamus. Nós fomos os que batalhamos com o rei em pessoa! Ninguém merece mais do que nós!
- Quem o pagou o merece mais do que nós! Eu não vou concordar com isso nunca!
- Então não concorde! Eu irei sozinho! Só preciso que você colabore não me entregando!
Kamus abaixou a cabeça e falou baixo:
- Eu não te entregarei. Mas quero que fique bem claro que eu sou totalmente contra isso!
- Como água… - disse Spiral rindo – Amanhã mesmo eu partirei!
- Se abrirem os portões, você quer dizer…
- Eu dou um jeito. Nada vai me impedir de meter as mãos nesse dinheiro!
Como prometido, no amanhecer daquele dia Spiral arranjara um jeito de furar o bloqueio e saíra rumo a Darashia. Mesmo não gostando nada da situação, Kamus teve que admitir que tinha um certo fascínio pela capacidade de persuasão do seu amigo.
Ele, Nad e Rorc então explicaram a situação para o pessoal que iria manter-se no comando dali por diante, e conseguiram autorização para levarem uma grande quantia de ouro em prol de reconstruir sua vila. Eles esperaram o meio-dia para fazerem a última refeição em Thais, e já tinham até providenciado um navio com tripulantes, já planejavam sair quando um homem parou Kamus.
- Meu jovem, meu nome é Thomas Crawling, chefe da Aliança, um grupo de apoio à libertação de Thais dessa quadrilha de Kiros Fletcher. – disse estendo a mão que Kamus apertara – Eu quero, em nome de todo o povo, cumprimentá-lo pelo bom trabalho que desempenhou perante o Rei. Apesar de ser tão novo, você já demonstra um bom potencial, e prevejo que terá um grande futuro. Peço-lhe que fique em Thais, onde poderá construir sua vida, e ser um dos melhores guerreiros dessa terra.
- Ah, obrigado, senhor... – disse ele sem jeito – Porém eu já tenho outros planos. Preciso voltar à minha vila.
- E viver uma vida monótona e desinteressante? Você tem potencial; aproveite-o.
- Um dia, quem sabe. No momento quero fazer algo pelos meus companheiros que lá ficaram.
- Você tem um coração bom. – falou botando a mão em seu ombro - Isso será recompensador no futuro!
Kamus não sabia o que falar; nem precisou. Um sujeito entrara correndo no castelo, gritando desesperado:
- OS REFORÇOS! OS REFORÇOS DE FLETCHER CHEGARAM! E ELE MANDOU O EXÉRCITO NEGRO! OS MAIS FORTES!
- Como assim? – perguntou-se Kamus, como todos os outros presentes – Quem abriu os portões?
- SUSPEITA-SE QUE FLETCHER TENHA-OS ENVIADO UM POMBO-CORREIO! – respondeu.
Todos resmungaram e protestaram ao mesmo tempo, e a maioria correu para os seus postos, cada um tentando organizar seu espaço. Thomas virou-se para Kamus e tentou tranqüilizá-lo:
- Muito bem! Mesmo você tendo feito tal proeza é bom que fique afastado. Nós conseguiremos derrotar esses soldados, e depois você poderá partir em paz.
Um estrondoso barulho é ouvido ao longe; o portão fora derrubado.
Correndo para a janela mais próxima, Kamus vê uma infinidade de soldados massacrando os desavisados thaienses. Em pouco tempo eles cercaram o castelo. O governo contra-atacava.