Capítulo IX
O tempo não era o bastante. Quanto mais seria necessário para alcançar Cirnienne? O que uma simples e frágil garota poderia fazer contra milhões de guerreiros? Onde se esconderia naquele território funesto. "Chega de perguntas sem respostas", pensou Ilúvëreg. A noite já se afastava e os primeiros raios solares tocavam a face do destemido homem. Valente e esperançoso era, mas toda sua insistência abafava um passado manchado de sangue e de lágrimas. Ainda pequeno perdera toda a sua família, mãe e irmã. Nunca conhecera seu pai. Os livros o indicaram para um mundo de desejos. As histórias cativantes de duelos inesquecíveis e paixões... Nunca houvera alguma. Sonhava em se casar. Formar a família que nunca teve. Calou-se em meio ao silêncio da vila devastada. Catou armas e proteção para seu corpo e procurou a quem lutar. Após muito tempo de procura, conheceu Fëahelka numa taverna ao oeste da colina de Iarwin. Era o que tentava acreditar. Discípulo do eremita desde sua infância, Fëahelka ensinou tudo o que aprendera para o novo amigo, e, inseparavelmente, sob instrução do seu mestre, seguiram para lutar pela justiça, pelo conveniente. Juntos durante dias incontáveis, esqueceram dos valores humanos. Seus sonhos eram outros, tudo servia para enterrar o passado de Ilúvëreg. Muitas donzelas encontrou pelo caminho. Chegou até a ter uma certa atração por uma delas, por sinal, muito bela e delicada, dotada da destreza de uma jovem da nobreza. Suas flechas eram certeiras e sua habilidade com o arco tinha um valor incalculável para sua família, descendentes diretos de elfos e homens. Mas também não vinha ao caso lembrar. Suas tentativas de convencê-la de suas intenções foram em vão. Logo esta encontrou alguém que melhor lhe serviria e abandonou a idéia de fugir com seu suposto amado. Já havia se cansado da vida de batalhas e ensinamentos. Nunca fôra seu sonho. O que ganharia matando milhares de seres sem nenhuma necessidade, sem motivo, sem razão? Nunca poderia responder as suas próprias questões. Buscava melhores valores e muitas soluções. Buscava um corpo que o aqueceria até mesmo longe, nas noites mais frias, nos dias mais quentes aliviaria suas tensões. Buscava um amor a quem dedicar cada luta, cada timbre da espada, cada choque com os escudos, cada gota de suor e de sangue. Seus lamentos eram apenas uma forma de buscar o espírito que garantia o seu sentir, o seu viver, o seu pensar. Queria encontrá-lo, poder desvendar seus próprios mistérios e angústias. Trabalhar em cima dos seus problemas e esquecer... Esquecer todo o resto, tudo o que o incomoda, que o faz lembrar da sua felicidade inalcançável. Só desejava um lar. Alguém a quem amar seria bem vindo naquela terra de ilusões e silêncio que era seu coração. Sempre recordava seus pontos baixos, e acabava esquecendo dos altos e da sua missão. Exterminar Cirnienne seria uma tarefa fácil, só precisava encontrá-la.
Vagando em pensamentos, conseguiu logo alcançar a árvore em que a garota havia passado a noite. Alguns de seus pertences jaziam sobre a relva. Suas chances de encontrá-la cresceram de um orgulho em seu peito quando reconheceu o pisar de um cavalo. Toda aquela situação passava pela sua mente. Estava sendo mais simples do que parecia. Só precisava seguir o rastro. Os cavalos também cansavam. Apenas mais um dia de árdua caminhada para alcançar o animal. Os outros três levaria para descansar e chegar até Tumrómen.
Seu tempo demorava a passar. Cada passo era doloroso para suas pernas cansadas. Nenhuma de suas buscas fôra tão cansativa. Com aquela menina havia algo de diferente. Matá-la seria inconveniente. Teve uma idéia.
Capítulo X
Cirnienne sentia-se segura enquanto envolvia o corpo do cavaleiro misterioso em seus braços. Desde seu encontro nenhuma palavra fôra pronunciada, mas, tentando cada vez mais arduamente esquecer Cerdain, deixou-se levar. O que a impressionava era como conseguia amar alguém sem ao menos ter visto seu rosto, escutado sua voz, entendido sua mente, sonhado com seu toque. Ao apoiar em sua mão sentiu algo novo, sentiu que ainda tinha o que aprender, o que viver. O quanto seria feliz se soubesse a próxima palavra, a próxima página do livro, o próximo olhar... O passo. Se pudesse caminhar em meio aos desejos mais profundos, aos pensamentos mais longínquos. Queria poder saber para onde iria, mas, não conseguia falar. Fechou seus olhos e tentou sentir o calor do corpo de seu companheiro e a força do vento. O som dos pássaros passava rapidamente e o farfalhar das folhas no chão contribuía para um sono tranqüilo, sem sonhos.
-O sol raia desde o leste e tu dormiste graciosamente em teu leito silvestre antes daquele reinar. Temo em acordar a ti com minha voz sem tom, mas sinto que já passara a hora de descansar. Esqueceremos este dom! A estrada é longa e muitos são os galhos... Muitos querem a ti, pequena. Acorde e junte-se a mim no lago para nos refrescarmos e iniciarmos o desjejum. -Sua expressão era magnificamente bela, reconfortante, embora ainda embaçada pelos olhos cansados de Cirnienne. Vira o jovem entrando no vale com uma pequena cesta nas mãos. Levantou-se vagarosamente, espreguiçou-se e solou um longo bocejo. Tentou se acostumar com a claridade e o seguiu.
O lago era cristalino em toda a sua borda e escurecia quando longe. Cirnienne, pela primeira vez envergonhada, tirou apenas parte de suas vestes e entrou na água gélida. O tempo estava, mas o sol reinava quando a neblina se dissipava. Viu o rapaz retirar seu manto escuro e suas vestes superiores, que, por incrível que possa parecer, estavam indiscutivelmente limpas. Ele não era forte, mas aparentava resistência e ternura em seus atos. Entrou na água e foi se aproximando da garota. Não era muito alto. Seus olhos brilhavam, tornando sua cor castanha mais acentuada. Seu cabelo era liso e curto e suas feições delicadas ao máximo.
-Bem, eu deveria me apresentar.- Dizia o homem com um sorriso inocente estampado em seu rosto.- Sou Meldûr, senhor das corridas, das planícies, das árvores, das colinas... Assim me identifico. Procuro entender o que vejo. Aprendi muito durante minha vida... Tão sozinho... Desculpe... Sinto que queres perguntar algo. Fique à vontade.- O sorriso parecia perpétuo. Era como se seus lábios não se movessem.
-O que pretendes comigo? -Estava incrédula.
-Na realidade, é uma longa história. Passei longos anos baseando minhas aventuras em livros de mestres antigos, aqueles ainda mais antigos que estes. Explicavam desde a primeira semente até o último fruto que cairá, podre, ao chão. Li sobre ti. Curiosamente fiquei impressionado e minha sede por mais detalhes, mais informações, se tornou insaciável. Um sonho me indicou Iarwin e este me explicou o que está ocorrendo. Gostaria de ajudar a ti, mas o destino controla o tempo e o tempo não está mais ao nosso lado. -Fez uma breve pausa. -Se estou aqui, a culpa é dele. Apenas te guiarei até onde ele possa emergir e transformar letras e promessas em ações. Já te acostumaste com a vida solitária, pelo que sei. Não nos separaremos por muito tempo. -Mergulhou e nadou até o centro do lago. Cirnienne se sentia fora de seu mundo enquanto dentro daquela água... Estranha. Saiu e se secou ao sol, que já estava quente. Vestiu-se e procurou a cesta com os alimentos.
A garota dormira. O sol já se punha. Não havia sinais de que Meldûr voltara da refrescante atividade oferecida pelo lago. Suas roupas não estavam no lugar onde as pusera, nem seu belo cavalo. Só poderia estar sonhando. Sozinha e desprotegida, como se sentia, em um lugar completamente desconhecido. Meldûr nunca sumiria daquela maneira. Encostou-se em algumas das muitas pedras, que, quentes após o banho solar, pareciam convidativas. Adormeceu novamente.
Movia-se em um ritmo constante. Não sentia as pedras sob suas costas. Estava sentada de maneira confortável sob o dorso do grande animal negro, recostada no peito de seu jovem amado. Sentia-se segura novamente. Abria e fechava os olhos ao mesmo tempo dos passos do cavalo. Parou. Abriu-os por completo. Ouviu a voz doce e clara de Meldûr.
-Te deixarei aqui. Há muitas clareiras em meio às árvores do bosque naquela região. -Apontou para o oeste.- Frutas podem ser encontradas em abundância. Um rio percorre o lado norte e fogueiras podem ser feitas facilmente. Não precisarás aguardar meu retorno. Siga o caminho que lhe parecer mais conveniente. -Por fim beijou-lhe a testa, virou-se e cavalgou agilmente na planície límpida, logo desaparecendo no horizonte.
e miro, eu n levo fe msm n =] qm dera, ne? so escrevo pra desabafar ^^
