- O que fizeste, criança inconsequente? Acreditavas que não seguíamos vossos passos? E que um guerreiro é forjado na mentira, esgueirando-se pelas sendas menos tortuosas? Maldito seja, espartano! Esta não é mais tua polis, traidor! Irás vagar eternamente carregando a vergonha consigo!
- Por favor, meu senhor, tirai minha vida imediatamente! Mas não condena-me a uma existência tão penosa! Ai de mim, que sucumbi à desonra!
- Morrer rápida e honradamente seria uma dádiva para alguém como tu, Dilios. Mas não negaste o mesmo para Licurgo e os demais? Morrerás, mas lentamente...
"Eu já não ouvi isto em algum lugar?"
- ...vítima de tua vergonha, que te roubará as forças para lutar. É isto que os deuses reservam àqueles que derramaram o sangue de seus irmãos. Conhecer o pleno significado da dor. E seus nomes serão eternamente lembrados por seus companheiros, e serão sinônimo de vergonha. Seus ancestrais cairão em opóbrio, seus parentes, exilados. E no mundo dos mortos, serão açoitados por todos aqueles que envergonharam, e que perderam sua vida...
"Vivenciarão eternamente o momento, em que por um mísero pedaço de carne, tingiram de lama a reputação dos descendentes de Héracles!"
- ...Vivenciarão eternamente o momento, em que por um mísero pedaço de carne, tingiram de lama a reputação dos descendentes de Héracles!
"Por Zeus, o que está acontecendo?!"
CAPÍTULO III: Dilios, o assassino
Enquanto retornava às montanhas para as quais fora exilado, Dilios tentou organizar as idéias. Suas lembranças vieram à tona. Era verdade que assassinara covardemente vários de seus companheiros. A expressão de seus rostos no momento em que sua lança os atravessava era tão nítida... Sim, por míseros pedaços de carne tornou-se uma criatura desonrada. Mas sua fome era tanta!
- Por que disputaste minha caça, Licurgo? - Balbuciou, entre prantos.
- Que os deuses o amaldiçoem, Dilios! O que pensa que está fazendo?
- Hehe... Cada um faz o que pode para sobreviver, Theron. Quero garantir meu retorno para casa. E se este imprestável não foi capaz de defender-se do meu ataque, não será de muita serventia... Mas você não. É habilidoso. Dê-me sua caça, e permitirei que parta.
Foi assim que aconteceu? Mas porque suas lembranças pareciam estar embaralhadas? A vida de Licurgo equiparava-se mesmo a de um esquelético roedor? Jogara mesmo o bravo Theron desfiladeiro abaixo, sepultando-o com uma grande rocha?
- Lisandro!
Os dois jovens voltaram-se para Dilios, mas infelizmente para Lisandro, ele só teve tempo de ver a lança penetrando seu tórax. Ágis mal teve tempo de reagir, pois seu inimigo já corria em sua direção, como uma serpente preparando o bote. Em poucos segundos, Dilios já estava sobre ele, socando seu rosto.
- Insetos! Que a vergonha cubra vossos nomes, e que o medo desperte em suas almas! Pois estou aqui para mostrá-los o que é um verdadeiro bebedor de sangue! Agora, vermes, onde está o alimento que caçaram?!
- P-Por favor... Não... E-ele está na c-caverna! Poupe...
O pescoço de Ágis emitiu um ruído característico. Dilios retomou sua lança e dirigiu-se à pequena caverna à sua frente.
- Espero que a caça tenha valido a pena, Dilios. Porque sua fétida carcaça alimentará as feras deste lugar. Quanto à sua alma, não preciso falar sobre seu destino, não é?
Era a voz de Cleômenes, um dos paidónomos, que o aguardava na caverna. Por um instante pensou ter ouvido a própria voz.
- Deuses, deuses todos, dispo-me de todo o orgulho e honra que me restam, e vos imploro! Piedade! Dizei-me o que acontece em meu pensamentos! Serei eu um traidor, ou aquele que foi traído?! Respondam-me!
O desespero se apossa de Dilios, que tomba sobre o chão gelado das montanhas. Lágrimas escorrem por sua face ainda imberbe, seu corpo nem parece sentir o cansaço e as intempéries. Seus dedos, enterrados na neve, sangravam, tamanha a força por eles aplicada ao chão pedregoso. O mesmo ocorria aos joelhos, fustigados pelo atrito contra o solo.
Arrastou-se alguns metros, e por um momento recobrou a razão. Tinha sido exatamente naquele lugar que a vida de Licurgo por ele fora arrancada. E logo acima, Theron, um dos mais vigorosos jovens espartanos fora lançado no frio abismo do esquecimento.
Só havia uma maneira de extinguir tanto sofrimento. Já que penaria eternamente no Hades, não havia mais motivos para continuar vivendo. Reuniu forças para levantar-se, e cambaleou até a borda do abismo. Sua mente foi tomada por diversas visões, oferecendo diversos pontos de vista sobre o que havia ocorrido. "Os espíritos me castigam. Enlouquecem-me. Tenho que acabar com tudo antes que perca completamente a razão".
Observou o fundo do abismo e ouviu risadas. Estava louco, definitivamente. Ou os espíritos riam de sua lastimável condição. Não se permitiu pensar a respeito. Mergulhou na escuridão.
- És digno de tua arrogância agora, Dilios?
- ...
Toth ergue o cambaleante Dilios pelos cabelos. Aperta sua face coberta de lágrimas e sorri de sua desgraça.
- O que acha que aconteceu, traidor? É preferível ouvir as palavras da velha bruxa, e esconder a vergonha do teu passado, não é mesmo? Ilusões, meu caro. Afinal, a velha precisa convencê-lo a acompanhar-me! É disso que ela vive, de ludibriar criaturas indignas como tu!
O Senhor dos Vermes lança o desolado jovem a seus pés.
- Te dou uma nova chance, Dilios. Podeis recomeçar tua vida, e ter histórias agradáveis para contar. Esquece as mentiras daquela mercadora de almas, e ajoelha-te aos verdadeiros deuses.
Dilios vomita sobre os pés de Toth, que recua um passo após refrear o impulso de chutar seu crânio.
- As leis que regem estes locais exigem que a escolha seja tua. Salva tua alma, portanto, não há tempo a perder!
- Os falsos deuses, os devoradores de almas, o enviarão a Grimera. É lá que contarás as histórias que aqui ouviste, mas acautelai-vos. Eles tudo farão para que o destino do multiverso não se concretize. Em hipótese alguma negligenciarás a busca pelos escolhidos, mesmo que estes nem desconfiem do próprio passado. Conte-lhes a história de Zarathustra, e de suas visões. Do vilarejo que se levantará contra o império corrupto. Ensine-os que a maior glória não está no poder e nos bens conquistados, mas em sacrificar-se em prol do que se acredita...
- Sim, eu o farei, Odessa.
- Sim, eu o farei, Odessa... - Dilios murmura para si mesmo.
- Toth, meu senhor, estou pronto para partir.
- Então finalmente reconheces teus verdadeiros senhores? Os verdadeiros deuses?
- Decerto! - O sorriso de Dilios contrastou-se com seu rosto debilitado. - Como poderei blasfemar se não admitir sua existência?
- Enlouqueceste?!
- Toth, maldito Toth, se sou uma criatura tão nefasta, não esperaria que eu me ajoelhasse diante de ti, não é?
- És um ser desonrado, Dilios! Estás abrindo mão da redenção que te oferecemos!
- Não há salvação para mim. O que espera de quem traiu a própria polis e os próprios deuses? - Dilios levanta-se, em posição de combate. - Fizeste bem em mostrar-me a verdade, Verme dos Vermes. Porque agora conheço meu destino. Serei aquele que desafiará os próprios deuses! Por Zeus e Mnemósine, farei um belo requiem em teu nome!
Com uma expressão demoníaca no rosto, Toth arremessou o jovem na escuridão. E enquanto perdia os sentidos, o contador de histórias lamentou profundamente. A verdade sobre sua morte seria o segredo mais bem guardado por seu novo inimigo.