Postado originalmente por Luckaz
Capitulo XXV: O Fim?
- Epsilon! – Exclamou Luckaz – Guitano, Water, Lee, vocês vieram! – Continuou ele.
Epsilon sorriu, e piscou para seu irmão.
- Vejam, são os amigos dele – Zombou Zathroth.
Johann e Zefyr riram.
- Enfrente-me, besta! – Desafiou Guitano, a Johann.
- Como quiser. – Respondeu o minotauro, e andou até o lado esquerdo da sala, como se procurasse espaço para batalhar.
Guitano o seguiu com o olhar, e posicionou-se ao lado esquerdo da sala também.
A gritaria dos orcs e elfos na cidade era ensurdecedora, embora os presentes na sala real não lhe dessem importância.
- Lutarei com Zefyr – Sussurrou Epsilon – Concentrem-se em Zathroth.
Os arqueiros apenas olharam para Epsilon, como se fosse um sinal de que estavam de acordo.
O guerreiro retirou seu machado das costas. Era grande, prateado, embora fosco. Parecia velho. Milenar. Possuía lâminas duplas. Era um Machado Corta-Rocha. Segurou-o com a mão direita, e retirou seu escudo das costas também. Equipou-o, e disse:
- Zefyr, desejo lutar com você!
Zefyr parou de apreciar o aroma da rosa em suas mãos. Olhou Epsilon pelo canto dos olhos, e soltou a rosa, que caiu em seus pés. Encarou Epsilon uma vez, e em seguida, abaixou os olhos.
- Mate-o. – Ordenou Zathroth a Zefyr.
Zefyr nada respondeu, apenas andou em direção ao lado direito da sala, da mesma maneira que Johann, procurando espaço para a sua batalha.
- Tolos! – Berrou Zathroth, e esferas negras saltaram de suas mãos, em direção a Luckaz, Water e Lee.
Os arqueiros foram ágeis, e abaixaram-se instintivamente.
Os olhos de Zathroth se estreitaram, como se fossem os olhos de um gato. E um sorriso despontou em seus lábios frios.
- Prometi a você que colocaria a sua cabeça em minha sala quando era jovem, Johann. Chegou a hora de vir fazer essa promessa se tornar realidade.
Johann escutou cada palavra que Guitano dizia lentamente.
Feixes elétricos voaram em direção a Guitano, vindos das runas nas mãos do minotauro. Guitano bloqueou-os com o escudo e avançou até o minotauro, com a espada em mãos. A expressão de pavor na face de Johann ficaria marcada na mente de Guitano para o resto de sua vida, se não fosse...
Zathroth apenas assistia a luta do minotauro com o guerreiro pelo canto dos olhos. Viu que seu servo era incapaz, e o desgosto tomou conta de sua mente.
Levantou a mão direita repentinamente e lançou uma esfera negra, uma runa de morte súbita em direção à Johann e Guitano, atracados no chão, lutando desesperadamente. Foi tudo tão rápido que apenas ouviu-se um grito à esquerda da sala real. Um grito de pavor, e dois corpos estavam caídos ao chão, imóveis. Zathroth atacara seu próprio servo.
- Matei dois inúteis com um feitiço, vejo que estou ficando cada vez melhor – Vociferou o deus – Como vê, não preciso de runas para lançar meus feitiços. Ora mas é claro, eu sou o deus da magia – e gargalhou.
Zefyr olhava para Zathroth espantado, com medo de que seu mestre poderia fazer o mesmo com ele. A adrenalina corria em suas veias, o medo deturpava a sua mente.
- Sua luta é comigo e aqui, Zefyr! – Desafiou Epsilon.
- Perdoe a minha desatenção, belo guerreiro. – Desculpou-se o arqueiro.
Retirou uma rosa de seu bolso, e colocou-a entre os lábios. Era uma rosa vermelha, contrastava muito com os lábios maquiados cor de lilás de Zefyr.
- AHHHHH!!!! – Gritou Epsilon, e investiu como um rinoceronte desembestado para cima de Zefyr.
Rapidamente, seu adversário retirou seu sabre da bainha, e colocou-se em posição de defesa. O primeiro impacto do machado do guerreiro com o sabre do arqueiro foi muito violento. Zefyr quase foi lançado ao chão, embora tenha conseguido se equilibrar e desviar-se dos ataques seguintes.
O som do sabre dando-se de encontro ao machado formava uma melodia ensurdecedora, e disforme. Era visível que Zefyr não possuía a habilidade com a espada tão bem quanto Epsilon com seu machado; isto estava claro, pois Zefyr é um arqueiro como todos sabemos. Finalmente, depois de alguns minutos de batalha, Epsilon surpreendeu Zefyr atacando-o com seu escudo, e jogando-lhe a metros de distancia.
Zefyr caiu ao chão como uma moça indefesa; sua espada voou alguns metros e era impossível recuperá-la. Em seu rosto, lágrimas misturavam-se com o sangue que saía de seus lábios. Seu rosto maquiado estava pálido, e seus cabelos, antes impecáveis, embaraçados.
Epsilon veio andando calmamente em direção ao homem caído. Parou em seguida, de frente a Zefyr. Hesitou por um instante, e ficou sem reação.
A imagem de uma moça caída aos pés de Epsilon sempre fora um de seus desejos mais obscuros. Sempre desejou ser um herói, e salvar donzelas indefesas, com lágrimas nos olhos. Embora aquilo não fosse exatamente o que Epsilon esperava, já era algo. Mas não deveria ser assim;
- Levante-se, e lute comigo. Use seu arco. Você é inútil com uma espada em mãos. – Disse calmamente ao efeminado jogado a seus pés.
Zefyr retirou o arco de suas costas, e levantou-se como havia sido ordenado.
Afastou-se e carregou uma flecha em seu arco, apontado em direção a Epsilon.
“Não posso atacá-lo...” – Pensou – “Ele é diferente dos outros...”
- Atire Zefyr. Atire essa flecha em mim – Bradou Epsilon.
Ao mesmo tempo em que Epsilon e Zefyr lutavam, Zathroth lançava feitiços contra os seus oponentes, que não passavam de desviar-se. Era claro que Zathroth estava apenas brincando e se divertindo com aquilo. Não tinha a intenção de matar. Ainda.
- Vocês me divertem – Disse o deus – Principalmente você, Luckaz, mas chega de brincarmos. – Vociferou ele, marcando bem as últimas palavras.
Luckaz e seus companheiros com o arco e bestas, respectivamente, apontados para o deus.
- Utana Vid – Sibilou Zathroth, e desapareceu.
Os olhos dos garotos esgueiraram-se instantaneamente e em várias direções, procurando encontrar o deus, invisível.
Não precisaram procurar por muito tempo, pois o deus se revelou da invisibilidade, gargalhando como se alguém tivesse contado a piada mais engraçada que ele teria ouvido. Estava próximo a uma das pilastras que seguravam o teto da sala.
- Adana Ani! – Disse ele, e os três arqueiros ficaram paralisados, imóveis.
Luckaz tentou se mover, mas seus músculos estavam enrijecidos, duros como pedra.
Em seguida, o deus fez um movimento rápido com as mãos, como se quisesse expulsar alguém dali, e assim o fez. Water e Lee voaram para fora da sala, pelas portas de mármore abertas, ainda paralisados pelo feitiço do deus. As portas fecharam-se no instante em que eles foram lançados para fora.
- Adevo Mas Grav Flam! Adevo Mas Grav Pox! Adevo Mas Grav Vis! – Balbuciou ele, e paredes de fogo, veneno, e eletricidade, respectivamente, lacraram as portas. Ninguém poderia nem entrar nem sair da sala real.
- Enfim, um contra um. – Falou o deus, em meio a sorrisos cínicos e irônicos.
Finalmente a paralisia de Luckaz havia acabado, e ele caiu de joelhos no chão frio. Estava ofegante.
Escutaram-se batidas de murros nas portas reais, mas sem sucesso.
- Eu já disse, atire essa flecha em mim! – Bradou Epsilon mais uma vez – Quero ter um motivo para começar a atacar-lhe até morrer.
- Não, não posso – Gaguejou Zefyr, mas percebeu que suas palavras foram um erro. Zathroth, que havia acabado de selar as portas, escutou-as, e encarou Zefyr.
- Traidor! – Bradou o deus – Morra! Adori vita vis! – E uma esfera negra saiu de sua mão em direção a Zefyr.
Mais uma vez, tudo aconteceu muito rápido. Epsilon correu para proteger Zefyr, com o escudo em suas mãos. Jogou-se na frente de Zefyr, com o escudo, mas recebeu ainda assim, grande impacto da runa de morte súbita.
Epsilon voou alguns metros pra longe, e caiu desacordado.
E o som do ar sendo cortado foi ouvido pelos presentes na sala. Com uma flecha cravada em sua perna direita, Zathroth voltou sua atenção para o rei.
Luckaz estava de pé, com o arco apontado para Zathroth, e uma nova flecha já apontada para o deus.
- Insolente! – Gritou Zathroth, mas suas palavras foram interrompidas mais uma vez pelo som do ar sendo cortado. Agora, o dono da flecha atirada fora Zefyr.
Kaon e Algiz, arcos de Luckaz e Zefyr respectivamente, tinham sido feitos com a madeira do deus Ent, Crunor. Ambos tinham poderes especiais, e o mais notável deles, que poderiam acertar até mesmo os deuses. Muito útil nesse instante.
Zathroth estava sendo dominado por uma saraivada de flechas de ambos os lados, embora, assim como todos os deuses, era imortal. Uma hora as flechas iriam acabar dos alforjes dos garotos, e o deus estaria apto para liquidar com eles.
A sinfonia das flechas foi cortada pelo som das portas reais sendo abertas.
- Adito Grav! – Disse uma voz rouca, conhecida por Luckaz, mas a muito tempo sem ouvi-la. Era seu tutor, Ivanhoeh.
Ivanhoeh, Lee e Water adentraram as salas reais.No momento que avistaram Zathroth, ambos os arqueiros começaram a atirar seus projéteis contra o deus, mas os dardos lançados adquiriam nova direção e não acertavam o deus. Eram armas comuns.
- Ad...Adana Ani – Balbuciou Zathroth, e em seguida, Lee, Watershed e Ivanhoeh foram paralisados. Um som metálico foi ouvido, e uma pequena ânfora dourada caíra das mãos do druida, quando foi paralisado.
Era uma ânfora pequena, dourada, rústica e fosca. Possuía inscrições rúnicas, e duas asas, para que fosse empunhada com as duas mãos.
Luckaz sabia o que fazer. Nos devaneios de sua mente, a profecia era recitada por Shiris, assim como ela havia recitado daquela vez: “O garoto nascido com o brilho do sol, será o acorde inicial de toda uma extensa melodia, cantada pelos demônios e orcs, comandados pelos deuses, o garoto virá como um aviso, e na ânfora ele prenderá todo o mal.”
Parou instantaneamente de atirar suas flechas, largou seu arco e pulou para agarrar a ânfora.
- Não! – O grito de Zathroth foi rouco e prolongado, apesar de muito alto.
Toda a superfície tibiana o ouviu.
- Chegou a sua hora, monstro! – Luckaz agarrou a ânfora com as duas mãos, pelas asas, e a apontou em direção ao deus, e abriu sua tampa.
Até a luz daquela sala apagou-se naquele instante. Uma ventania muito forte saiu de dentro da ânfora, e quebrou os vitrais da sala, tamanha a sua força.
Zathroth lentamente era puxado, sugado para dentro da ânfora. Suas feições estavam disformes e parecia estar passando de sólido para gasoso, uma cena realmente estranha.
- Adori Mas Gran Vita Vis! – Bradou ele, e inúmeras esferas negras voaram contra Luckaz.
O rei não se importou em desviar, sua missão estaria completa dali a alguns instantes. O deus da magia seria preso na ânfora, pouco se importava se morreria.
As esferas atingiram Luckaz no peito. Tirando-lhe a vida, e varrendo a alma de seu corpo. Apenas o que restava ali agora, era um corpo inerte, segurando a ânfora em que o deus da magia finalmente fora lacrado.
Caiu por fim, estatelado no chão. Inerte. Morto.
Luckaz se encontrava em frente a uma porta. Era branca, lisa, com uma maçaneta reluzente. Abriu-a.
Entrou em uma sala, branca também. Iluminada, porém não havia velas nem archotes de luz presentes. Havia apenas uma mesa comprida, e por volta de trinta cadeiras, sendo que apenas uma estava vazia.
- Sente-se – Disse Fardos.
Luckaz prontamente obedeceu, e sentou-se na cadeira vazia.
- Aqui estamos, deuses, heróis e entidades do Tibia. Temos o prazer de receber um novo membro entre nós. Luckaz, o príncipe perdido – Continuou Fardos.
Luckaz estava sem palavras.
- Fez um belo trabalho prendendo Zathroth na ânfora. Ele é um deus que, digamos, age mais do que os deuses deveriam, portanto decidimos dar alguns anos de sossego para ele. Como se fosse um castigo. – Comentou Fardos.
Ouviu-se pigarros de descontentamento e desacordo de alguns deuses presentes, mas não disseram uma palavra.
- Quanto tempo ele ficará preso? – Arriscou Luckaz a perguntar.
- Por volta de quinhentos anos. – Comentou uma moça com a face deformada. Seu nome era Bastesh, a soberana dos mares.
- Enfim – recomeçou Fardos, com um ar de que não se importava em ter sido interrompido, mas não gostaria que isso se repetisse – Sua morte foi uma tragédia. Destino, porém. Deixaste pra trás, muitos que o amavam, mas isso não será um problema. Poderá zelar pelos que ama aqui conosco. Seja bem vindo ao panteão.
- O que aconteceu com os meus amigos? – Perguntou exasperado.
- Ah sim – Respondeu Fardos, sorrindo – Bem, vamos ver, por partes, Guitano sobreviveu ao ataque de Zathroth defendendo-se com Johann, como se fosse um escudo. Irá se recuperar do trauma. Lee e Watershed sobreviveram também. Os bons amigos ainda têm muito que aprontar. Ivanhoeh saiu dali, após sua morte. Vaga pela esfera tibiana a procura de algo para aliviar-lhe a dor da morte de seu pupilo. Pobre mortal. Sofreu muito com a sua partida.
- E Epsilon? – Perguntou Luckaz mais uma vez. Estava curioso pra saber como o irmão estava.
Os deuses se entreolharam por um instante, mas Luckaz imaginou que poderia ser apenas impressão sua.
- Epsilon está bem. Até demais, eu diria. Ele descobriu algo que nunca sentira antes. Amor.A partir do dia em que você morreu, ele partiu, e uma nova razão foi criada para viver, o amor. Mudou de nome até, para não ser encontrado, mas digamos, que está, feliz. – E sorriu.
- E o que aconteceu com Zefyr? – Perguntou mais uma vez, o curioso rei.
Os deuses entreolharam-se de novo. Dessa vez Luckaz tinha certeza de que fora impressão sua – Por que ele me ajudou?
- Zefyr se arrepender de seus atos insanos e maléficos no momento em que viu Johann ser morto. Alguns dizem que foi por medo, outros que foi por coragem. Não sabemos ao certo, mas ele foi uma peça chave naquela noite.
- Ele é finalmente o rei de Ab’Dendriel, não é? Comigo morto, ele passa a ser o herdeiro... – Afirmou Luckaz, em tom de dúvida.
- Pois é, Zefyr seria o novo rei, se não tivesse abdicado ao trono, e partido.
- Mas, por que ele fez isso?
- Pois ele ama alguém. E deve ficar junto dessa pessoa até que a morte os separe. Ele também achou uma razão para viver.Alguém que você também ama. – Disse Fardos calmamente.
O silêncio predominou na sala por alguns instantes.
- E há alguém que quer ver você... – Disse Fardos, e apontou para um portal, em forma de arco, no fundo da sala, coberto por um véu branco.
Luckaz levantou-se e caminhou até o portal. Levantou o véu, e adentrou. Estava em um tipo de coliseu, e milhares, mais precisamente, milhões de pessoas o aguardavam nas arquibancadas, aplaudindo. Finalmente, quem gostaria de vê-lo veio em sua direção.
Com os olhos verdes como esmeraldas, e os cabelos negros como a noite, Ivone aproximou-se de seu esposo, e beijou-lhe. Um beijo que ficou marcado por toda a eternidade...
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Amei escrever essa historia. Muito obrigado a todos que leram, e a todos que possam vir a ler. Seus minutos aqui foram muito importante para mim. Muito obrigado pelo seu carinho, e atenção.
Obra dedicada à Bruno, meu amigo e irmão, presente na história.
Obrigado por todo o tempo comigo. Você ficará marcado em meu coração por toda a eternidade.