Destrui-los
Ou me tornar um deles
Qual seria o caminho certo a seguir?
Omrabas afirma que é todo-poderoso, mas seria mesmo verdade? pensava Batráquio enquanto percorria velozmente as planícies ao norte de Thais em direção ao lago Alatar, montado no lombo de Silêncio.
Será que ele é mesmo capaz de me ensinar o que jura que pode? Só havia um jeito de saber.
Anexo 5688
- Você está me ameaçando, Azrael? - Lugri cerrou os punhos e falou em um tom vagamente ameaçador.
- Estou te avisando. - Batráquio respondeu cordialmente, sem vacilar.
- Você precisa perder esse hábito de ficar ameaçando seus aliados...
- Não somos aliados, Lugri. - Batráquio o cortou antes que ele tivesse tempo de concluir sua frase. Lugri encarou-o longamente, sua expressão facial permanecendo encoberta pela caveira em sua cabeça.
- É claro que não. - Ele disse por fim, parecendo soar estranhamente derrotado. Algo em sua vez perturbava Batráquio profundamente. - Volte para Drefia e termine o que começou. Se for da sua digníssima vontade, é claro...
***
Omrabas. O nome tornara-se uma obsessão para ele.
Preciso descobrir exatamente quem ele e foi e o que ele fez... Só assim poderei ter certeza de que ele pode me ajudar a ter o que preciso. Desde então, Batráquio passou a vasculhar sua vasta biblioteca particular, particularmente a parcela do acervo que afanara de Drefia, em busca de alguma pista sobre o passado do suposto famigerado necromante.
Seus novos hábitos, entretanto, pareciam não agradar a todos. Particularmente ao seu colega de quarto.
Anexo 5689
Tem alguma coisa errada. Leonel podia se orgulhar de ser uma caixinha de surpresas para suas vítimas, mas o caçador nunca soube blindar suas emoções e pensamentos da mente perceptiva de Batráquio.
Faz alguns dias que ele está com a cara amarrada. Desde antes de eu obrigá-lo a ir até a Catedral com a Aurelia. O que pode ser? Batráquio sabia, entretanto, que a seu tempo Leonel acabaria falando.
Não demorou muito.
Anexo 5680
- Me falou bastante sobre a vida dele... Me contou umas histórias aí... - Leonel ia falando pausadamente, como se estivesse buscando as melhores palavras para dizer o que quer que tivesse a dizer.
- Você está enrolando. Diga logo o que você quer, estou ocupado aqui. - Retrucou Batráquio levemente impaciente.
Não estou com tempo para seus joguinhos agora, Leonel. Preciso estudar isso aqui!
Leonel se calou subitamente, erguendo um pouco as sobrancelhas e cruzando os braços.
- Vocês tiveram um caso.
Anexo 5681
- Isso foi literalmente em outra vida, Leonel. Não achei que tivesse qualquer pertinência em nossa relação. - Respondeu Batráquio calmamente.
- Ah não achou? O que mais você anda me escondendo por que não acha que é pertinente me contar? - Leonel começou a caminhar nervosamente em círculos enquanto falava sem parar.
Há quanto tempo ele está segurando isso? - Há quanto tempo nós nos conhecemos, Batráquio? Há quanto tempo eu venho te ajudando, venho sendo seus olhos e seus ouvidos por aí? Achei que a essa altura, depois de todo esse tempo... Achei que você teria confiado mais em mim. Especialmente depois que eu te contei que conheci o Ireas e que ele veio atrás de mim em busca de notícias suas. Você devia ter me falado!
Anexo 5682
- Nós não somos amigos, Leonel. - Disse Batráquio, alterando levemente a voz enquanto fechava o livro e o deixava pousado sobre seu colo. O feiticeiro cravou seus olhos verdes no caçador antes de prosseguir. - Eu o contratei para me auxiliar com alguns afazeres e o pago periodicamente pelo seu serviço.
Loenel ficou encarando Batráquio por alguns segundos, com a expressão de quem acabara de levar uma bofetada na cara. Foi só quando ele abriu a boca para falar que Batráquio se deu conta do que havia dito.
- Entendi. - O caçador deixou aquela palavra flutuar no ar entre os dois por alguns segundos antes de continuar. Sua voz já não trazia a irritação de antes, mas algo que lembrava muito mágoa. - Peço desculpas se me equivoquei e pensei que éramos qualquer coisa além de parceiros de negócios.
- Você está exagerando, Leonel. Seja razoável...
- EU SALVEI A SUA VIDA! - O caçador gritou inesperadamente, fazendo o feiticeiro se sobressaltar. - Eu te achei desacordado na porcaria do pântano e te tirei de lá antes que uma aranha gigante te comesse! Eu cuidei de você! Eu espionei por você, eu corri risco de vida por você! EU DEFENDI VOCÊ! Eu esperei pacientemente você voltar sem nunca questionar os seus motivos pra ter sumido!
- Você foi pago pra fazer quase tudo isso...
- AH VOCÊ ME PAGOU POR SALVAR SUA PELE TAMBÉM?
- Eu teria eventualmente acordado e ido embora de lá...
- AH, TERIA? - Leonel voltou a dar um forte murro no armário ao seu lado, fazendo com que a louça guardada lá dentro tremesse levemente. Em seguida, voltou a se virar para o feiticeiro, encarando-o com uma chama nos olhos. - Eu aceitei a porcaria do seu dinheiro, sim, mas achei que a essa altura você já teria percebido que eu te considerava mais do que meu "chefe". A essa altura, depois de tudo, eu achei que você seria honesto comigo.
- Esse drama todo por causa de uma coisa dessas...?
- Como é que eu posso confiar em você, Batráquio? - Leonel atirava as palavras tão rápido quanto disparava flechas.
Qual é o problema dele, afinal? Batráquio não conseguia compreender o drama do caçador.
Ele está me distraindo, estou perdendo tempo que poderia estar dedicando a descobrir a verdade sobre Omrabas! - Você anda muito esquisito ultimamente. Se metendo em Drefia, sumindo por longos períodos de tempo... O que você quer eu pense?
- Você não é pago pra perguntar sobre os meus motivos...
- O que mais você esconde, Batráquio? - Leonel deu um passo para frente e continuou a fulminar o feiticeiro com o olhar. Batráquio, por sua vez, começou a sentir uma irritação que há muito não sentia crescendo no seu peito. - O que é que você anda tramando, hein? No que mais você está metido?? Vamos, seja honesto comigo! Tem mais algum segredinho seu que eu deva saber?
Finalmente, Batráquio explodiu.
Anexo 5683
A situação toda era surreal demais.
No que ele está pensando? Pensou Batráquio quando começou a se acalmar. O olhar enfurecido de Leonel era um enigma.
Eu não deveria ter explodido. Eu não deveria... Não deveria ter dito isso a ele. Não assim. Mas agora era tarde. Por alguma razão, pensou em Lugri.
Inesperadamente, Leonel avançou. Por uma fração de segundo, Batráquio achou que o caçador fosse pular sobre ele e atacá-lo ali mesmo, mas, ao invés disso, Leonel passou a passos largos ao seu lado, como um raio, e antes que o feiticeiro se desse conta, ele já estava parado junto à porta, com a mão firmemente agarrada à maçaneta.
Anexo 5684
No segundo seguinte, Leonel abriu a porta e rapidamente atravessou o portal, fechando-o de imediato com um baque surdo. Batráquio, por sua vez, ficou a fitar a porta, atônito, sentindo no peito um peso que há muito desconhecia.
***
Naquela noite, dormiu mal.
Em seus sonhos, Leonel aparecia para apunhalá-lo durante a noite, mas logo se transformava em Lugri, que arrancava a caveira da cabeça e a acertava no rosto com ela. Em seguida, a caveira começava a falar com a voz de Omrabas.
"Traga os pedaços que eu lhe pedi, necromante!" ele dizia, um vapor fétido de morte saindo de sua boca ossuda.
Me deixe em paz! Ele queria gritar, mas uma porção de flechas parecia estar entalando sua garganta e impedindo sua voz de sair. Então, uma infinidade de necromantes aparecia do nada e começava a puxá-lo para uma cova escura.
"Você perderá tudo que tem e tudo que é, Batráquio" dizia-lhe uma voz que lembrava assustadoramente a de Desdêmona.
"Tudo que eu ainda não lhe tirei, eu hei de tirar!"
Quando abriu os olhos, estava em outro lugar.
Anexo 5685
Havia uma paz inerente ao lugar. De alguma forma, Batráquio sentia como se estivesse a salvo ali. A salvo de Lugri, de Omrabas, de Desdêmona... A salvo de si.
Mesmo assim, ele não conseguia se livrar da inquietante sensação de que alguém o observava.
Ao longe, ele parecia ouvir uma voz que o chamava. Uma voz que ele achava conhecer.
Anexo 5686
O aroma, a voz... Uma estranha sensação se apossou de Batráquio naquele instante.
Não é possível. Não pode ser verdade. Ainda assim, ele tinha quase certeza do que ouvira.
Sentando na cama, com os olhos fixos na escuridão à sua frente, Batráquio chamou por um nome, um que havia anos que ele não chamava mais, um que ele sabia que não o atenderia mais.
Mas um que ele tinha certeza que estivera com ele ainda há pouco.
Anexo 5687
Continua...