Citação:
Einstein e o problema de Deus
1. Não seria inútil notar aqui, em primeiro lugar, o traço marcante da personalidade de Einstein, a saber: a sua independência de caráter. Esta se manifestava principalmente pelo desejo de se emancipar das convenções e dos hábitos, por vezes avassaladores, da vida social. Diz-se que o sábio não se intimidava por andar de sandálias, sem meias, com a cabeleira em desordem, prestes a mostrar a língua a um fotógrafo indiscreto; chegou a declarar: «Nunca pertenci de todo o coração a algum pais ou Estado, nem a um círculo de amigos, nem mesmo à minha própria família». —
Casou-se com antiga colega sua na Escola Politécnica de Zurich, tornando-se pai de dois filhos, que ele muito amava; divorciou-se, porém, e em conseqüência separou-se também dos filhos, contraindo novas núpcias com sua prima Elza. Este foi o episódio mais doloroso da vida de Einstein.
2. A tal independência de caráter associou-se outro fator importante para a configuração do pensamento do estudioso israelita. Filho de pai que zombava da Religião, Alberto re*cebeu sua primeira formação numa época em que mestres e livros costumavam apregoar oposição frontal entre um evolucionismo exagerado, de tendências monistas, e a tradicional fé em Deus; ainda ressoava nos ouvidos de muitos a sátira de Haeckel, que afirmara ter conseguido transformar o Deus dos cristãos em um «vertebrado gasoso». — Influenciado pela mentalidade da época, o jovem Einstein desde cedo abandonou a sinagoga; não se tornou ateu, mas passou a professar uma religião «cósmica», de caráter panteísta e vago; como ele mesmo dizia, acreditava na «existência de uma força pensante superior que se manifesta pelo insondável universo».
Significativo é o episódio seguinte: em 1919 ou 1920, tendo o Cardeal de Boston assinalado Einstein entre os ateus da época, um rabino de Nova Iorque telegrafou ao cientista nos seguintes termos: «Crê V. S. em Deus? Resposta paga, 50 palavras». Ao que Einstein respondeu: «Creio no Deus de Spinoza, que se manifesta na harmonia dos seres... Não em um Deus que se importe com as sortes e as ações dos homens».
De passagem diga-se que Baruque de Spinoza foi um filósofo judeu do séc. XVII (†1677), o qual professou o panteísmo ou a identificação de Deus com o mundo.
A ideologia de Einstein, como a de Spinoza, negava a liberdade de arbítrio do homem, como se este fosse habitualmente impelido a agir por uma necessidade interior. — Negando que a Divindade se importe com o destino e os atos do homem, Einstein estava naturalmente bem longe do conceito de Deus revelado pelas Escrituras de Israel, as quais descrevem a Providência Divina a zelar carinhosamente pela sorte das criaturas.
3. Contudo o pensamento de Einstein não se fixou definitivamente em tão pálidas noções religiosas. Em 1950, numa entrevista à imprensa, declarava :
«A opinião comum de que sou ateu, repousa sobre grave erro. Quem a pretende deduzir de minhas teorias científicas, não as entendeu... Creio num Deus pessoal, e posso dizer com sinceridade que nunca em minha vida cedi a uma ideologia ateia».
Na mesma entrevista, Einstein fazia observar, outrossim, que os homens de ciência concordam em afirmar que não há oposição entre Ciência e Religião; reconheceu contudo haver cientistas que ainda em nossos dias abraçam os pontos de vista de seus predecessores em 1880. E, para firmar bem sua oposição radical ao ateísmo, Einstein em 1950 não hesitava em asseverar que já aos 18 anos «considerava as teorias evolucionistas de Darwin, Haeckel e Huxley como teorias irreme*diavelmente antiquadas».
Entre parênteses seja lícito notar: não é o evolucionismo como tal que se opõe à crença em Deus, mas é o evolucionismo mecanicista ou casualista, que abstrai da ação de um Deus Criador e Providente.
4. A verificação desse roteiro espiritual suscita espon*taneamente a questão: poder-se-iam indicar os fatores que levaram Einstein a trocar o panteísmo pela profissão de fé num Deus pessoal, distinto do mundo?
Schauder, nos estudos citados, assinala dois elementos que terão feito amadurecer de tal modo o pensamento do mestre:
a) a percepção adquirida nos últimos anos por Einstein e pelos cientistas em geral, percepção de que no interior do átomo não reinam a harmonia e a regularidade que os estu*diosos costumavam pressupor. Com efeito, no átomo apenas se depreendem leis prováveis, formuladas na base de esta*tísticas. Ora essa indeterminação ou essas lacunas no plano da matéria abrem lugar à intervenção de uma causa extrínseca, diferente da matéria, causa que equilibra e harmoniza as reações dissemelhantes ou contraditórias da matéria. Assim Einstein terá considerado as lacunas da ordem dentro da matéria como o ponto de encontro do finito com o Infinito, da criatura com o Criador, sendo Este essencialmente distinto daquela.
b) A bomba atômica também concorreu poderosamente para abalar o pensamento de Einstein. Tendo colaborado para a fabricação dessa arma, o grande cientista impressionou-se profundamente com as conseqüências da mesma. Avivou-se nele o senso da responsabilidade moral. Schauder julga mesmo que nos dizeres do velho Einstein se encontram esparsos os indícios de consciência do pecado e de atitude de oração. A idéia de Deus, em conseqüência, deixou de ser pálida e vaga na mente de Einstein, como fora outrora, para tornar-se muito viva. Ele reconheceu que, junto ao mistério do mundo (que, aliás, Einstein sempre respeitou), existe o mistério de Deus, mistério que requer fé da parte do homem.
São, sem dúvida, palavras do sábio consignadas em carta à sua irmã: «O fundamento de todos os valores humanos é a moralidade».
Em outra missiva, dirigida a Max Born, detentor do prêmio Nobel, escrevia Einstein:
«O que cada indivíduo pode fazer, é dar o exemplo da retidão de vida, e conceber a coragem de sustentar seriamente as suas convicções éticas em meio a uma sociedade de cínicos. Há muito tempo que, com sucesso desigual, procuro comportar-me desse modo».
Ora não resta dúvida de que o fundamento de toda a moralidade, tão vivamente apregoada por Einstein, é Deus, e Deus distinto do homem, Providente e Solícito para com a sua criatura.
5. Quanto a Jesus Cristo em particular, perguntaram certa vez ao sábio se acreditava na existência d'Ele. Ao que respondeu:
«Sem dúvida. Ninguém se pode iludir a respeito desses fatos: Jesus viveu, e suas palavras são admiráveis. Ainda que um ou outro pensador da antigüidade se tenha manifestado de maneira semelhante à de Jesus, nenhum deles se exprimiu de modo tão divino».
«Ninguém pode ler os Evangelhos sem tomar consciência da realidade de Jesus. A sua personalidade vibra em cada uma das suas palavras. Fábula nenhuma se apresentaria tão penetrada de vida. Muito diferente é a impressão que colhemos das narrativas de heróis legendários de tempos remotos, como, por exemplo, Teseu; todos esses carecem do fidedigno dinamismo de Jesus».
«Sou judeu. Contudo a figura brilhante do Nazareno exerceu extraordinária influência sobre mim».
Fato notável: quarenta anos antes de se exprimir de tal modo, Einstein costumava colocar Jesus no mesmo plano que Kant e Goethe!