Capítulo 2 - Uma magnífica criatura
Estava ainda sentado à sombra do cacto. Havia separado algumas poucas joias para vender assim que chegasse a Darashia. Por enquanto guardaria a maior parte, lhe doía se desfazer do belíssimo presente do djinn. Com o dinheiro compraria alguma roupa e passagem para Venore. Seu sofrimento como prisioneiro havia deixado a lembrança das crianças no fundo de sua mente, escondida atrás de preocupações mais imediatas. Não morrer, por exemplo. Mas agora, liberto e alimentado, o orfanato não saia de sua cabeça por mais que alguns minutos.
Estariam bem? Todos vivos? Sua madrinha? O pássaro? Tinha saudades de todos, mas quem lhe fazia falta era a ave. Tinha sido sua carta na manga em inúmeras aventuras, mas não ousara trazê-la para o deserto. Tinha ficado nas árvores de Venore. Talvez já tivesse lhe esquecido. O pensamento veio com pesar, mas foi interrompido por uma mão esquelética em seu pescoço.
- Que a maldição de Horestis caia sobre você!
A mão pertencera a uma espécie de guarda, mas isso foi há muito tempo. A carne já havia deixado aqueles ossos, somente mágica poderia explicar a força sem músculos daquele braço apertando o pescoço do bardo. Ao seu lado outro esqueleto bradava por vingança. Contra o que ele não sabia, mas também não importava. Não tinha armas, mas não iria morrer ali, depois de fugir das minas de sal, sem voltar para casa.
O trabalho forçado maltratara o seu corpo, mas também o deixara mais forte. Usou as mãos ainda livres para segurar firme nas costelas expostas do esqueleto. Com um impulso único empurrou com ambos os pés no peito da criatura, arrancando os ossos e caindo de costas no chão. Usou as armas improvisadas para alavancar o joelho do outro oponente, dividindo sua perna e o derrubando. Aproveitando a surpresa causada se jogou sobre a maça que o guarda caído segurava e arrancou-a de sua mão. De joelhos golpeou repetidamente o crânio exposto até que só restassem fragmentos misturados a areia do deserto. O primeiro oponente, já meio recuperado, meio desengonçado pela falta de simetria no peito, vinha em sua direção balançando incerto. Em outra época poderia representar um real perigo ao bardo. Agora estava morto (em definitivo) depois de dois golpes.
O bardo acalmou a respiração e escrutinou a sua volta. O deserto, antes vazio, oscilava com centenas de outros esqueletos vagando. Não tinha ideia de como teriam surgido assim, de repente. Ao longe, uma caravana de Ankrahmun dava seus últimos suspiros. Precisava chegar a Darashia logo e escapar desse inferno. Juntou o pequeno saco de joias e a maça. Não era sua arma favorita, mas era adequada para quebrar ossos. Não havia como se esconder nas areias, então seguiu seu caminho em linha reta, desviando dos grupos maiores e esmagando os esqueletos erráticos que cruzavam a sua frente. Calculava que estaria na cidade em uma hora. Se nada o atrasasse.
Já perto da passagem pelas montanhas viu um homem batendo com um tipo de cetro no que parecia uma escultura de areia. Chegando mais perto percebeu que tinha o formato de um escorpião gigante e se movia. O homem, roupas nobres apesar de um pouco sujas, suava pelo calor e esforço. Parecia acostumado ao deserto, mas não a fazer força. Puxava a "estátua" por uma espécie de cabresto, e batia em sua cabeça com o cetro dourado.
- Vamos sua besta! Parece uma mula! Ande, ande, sou seu mestre!
A criatura era movida por magia, certamente, mas quem visse suas feições teria certeza que estava viva. Tinha em seu rosto uma expressão de tristeza e incerteza, até onde o bardo conseguia decifrar um ser tão diferente. Foi chegando mais perto, verificando a ausência de esqueletos.
- Boa tarde, meu senhor. Posso me aproximar?
O aparente nobre notou a presença do bardo com um sobressalto.
- Hein? Oh, que susto me deu, rapaz... essas roupas!
Puxou sua cimitarra. O bardo notou que a empunhadura estava errada e a mão tremia. Estendeu as mãos em gesto de paz.
- Calma, não quero lutar e nem pretendo. Já estive preso, é verdade, mas fui liberto. Esta maça é tão somente para me defender de esqueletos.
O homem pareceu incerto por um instante, mas logo deu de ombros.
- Sim... não esperava que isso fosse acontecer – apontou em volta com um gesto amplo, sem direção definida - Mas eu precisava desta maravilhosa criatura da magia. Só não achei que fosse ser tão cabeça dura. Me disseram que iria obedecer ao cetro. Paguei caro por ele.
Olhava desconsolado o objeto em sua mão. Após alguns segundos pareceu ter uma ideia.
- Escute, quer ganhar algum dinheiro? Me ajude a levar esse construto até o barco.
- E o que vai fazer com ele?
Estufou o peito com orgulho.
- Será a nova atração de minha arena particular. Testará os maiores gladiadores de Tibia. E quando for derrotada sua sucata enfeitará um de meus jardins.
Sparrow escondeu seu horror e falou de forma casual.
- Mas não é só um construto. Pode ver a inteligência em seus olhos. Vai condenar tal maravilha a morte?
- Não se engane, meu rapaz. Esse é um produto de magia, pura e simplesmente. Por mais ancestral que seja tal magia, não merece melhor tratamento que um golem. Vamos, me ajude aqui.
- Se é tão rico para ter uma arena particular e jardins... onde estão seus guardas?
Hesitação. Torceu as mãos, indeciso. Por fim falou.
- Não quero morrer no deserto. Trouxe magos poderosos e guerreiros valentes. Todos mortos, na tumba de Horestis. Já ouviu falar? Bem, não importa. Eu mesmo só sobrevivi por milagre e magia de teleporte. Não me olhe assim, eles foram bem pagos pelo serviço. E suas famílias serão compensadas. Aquelas que me procurarem, pelo menos.
- Você tem alguma participação nessa infestação de esqueletos?
- Consequência da morte de Horestis, acho. Nada que qualquer guerreiro não possa resolver no seu caminho normal.
- Pessoas estão morrendo! Há pouco vi uma caravana ser atacada.
O nobre deu de ombros.
- Deveriam ter contratado guardas. Mas esqueça, aqui estamos livres deles. Venha, me ajude logo.
O bardo tocou de leve a cabeça do escorpião. A criatura pareceu sentir algum conforto, o olhou nos olhos, na alma. Implorava ajuda ou a clemência de uma morte rápida. Ele não podia ignorar. Não queria matar o homem, mas sentia certo nojo da sua indiferença com a morte de inocentes. Tampouco podia abandonar o magnífico animal a seu futuro terrível. Iria ajudar, por enquanto. Seus pensamentos foram interrompidos.
- Qual seu nome estranho? Para quem deposito o pagamento?
- Não tenho conta. Mas aceito que me pague em ouro, quando chegarmos a cidade. Quem devo cobrar?
- Adim Al Katiff, ao seu dispor.
- Olhe, esse bicho não parece querer te obedecer, mas acho que gostou de mim. Me empreste o cetro.
Inseguro, ponderou as opções.
- Mas que droga, sozinho não vou mesmo conseguir. Pegue.
Com o cetro nas mãos do bardo a criatura mudou prontamente sua atitude. Baixou o corpo a frente e esperou seu cavaleiro. Ele olhou para Adim com um meio sorriso.
- Precisa de uma carona?
Adim abriu a boca entre um assombro e um sorriso. Deu um tapa no ombro do bardo.
- Seu canalha! Venha trabalhar para mim. Pode ser mestre de feras na arena.
Um sorriso, cabeça baixa.
- Talvez, talvez. Mas agora temos de nos apressar. Suba.
E subiram. Com a direção do bardo chegaram rapidamente a Darashia. Contaram suas histórias durante a viagem. Como Adim havia nascido em Darashia, mas preferia os ares mais amenos de Edron. Filho de rico comerciante, herdara fortuna e vivia uma vida de prazeres. Mas como tudo na vida lhe era fácil, logo veio o tédio. Assim teve a ideia de uma arena. A princípio com guerreiros aos quais prometia muitos lucros. Logo mais com outras criaturas. Por fim buscando as bestas mais exóticas. Nas últimas vezes estava indo junto com o grupo que capturava as criaturas, estava pegando gosto pela caçada. O bardo falou um pouco de sua infância humilde em Thais, como filho de oleiro e costureira. Como tinha pegado gosto pela música e viajava cantando em tavernas por todo o mundo, ou pretendia fazê-lo, pois até agora só passara por Carlin, Darashia e Ankrahmun. Contou de sua aventura com uma princesa e por isso fora injustamente preso nas minas de sal. Havia sido libertado após cumprir sua pena, mas inconformado com a recusa do bardo em morrer, o pretendente da princesa arranjou para que fosse liberto no meio do deserto. Por milagre sobrevivera e por destino encontrara Adim.
- Chegamos ao banco. Cuide da criatura mais um pouco para mim, sim? Vou pegar seu dinheiro e depois podemos discutir melhor a ideia de você ser meu novo mestre de feras. Pode inclusive cantar na arena, será uma boa novidade para meus convidados.
Entrou no banco, feliz. Finalmente tinha aquele raro espécime, havia encontrado alguém que poderia substituir o último mestre, morto em um acidente com a hidra. E sabia cantar, poderia entreter as senhoras de seus clientes quando os verdadeiros negócios fossem tratados em particular. A arena escondia um segredo bem mais sombrio.
Saiu do banco. Olhou para um lado. Olhou para o outro. Ninguém além dos habituais. Aos poucos foi percebendo sua estupidez. Deixara um completo desconhecido tomar conta de uma relíquia. Levou a mão a testa como pudera ser tão burro! E agora notava que ele nem ao menos respondeu qual era seu nome. Dirigiu-se ao porto irritado, mas planejando. Assim que chegasse em Edron acionaria seus contatos. Acharia aquele homem nem que fosse a última coisa que fizesse. Sabia de seu passado. O acharia, não poderia haver tantos filhos de oleiro e costureira em Thais. Por fim um sorriso quase caricato. Havia pegado gosto por caçadas e agora iria caçar.