Ressurreição
Ela era uma linda e encantadora donzela. Um sublime vestido branco caía graciosamente por sobre seu corpo e eu quase pude ver o contorno de seus seios. Ela sentava-se no alto de uma colina verdejante, acolhida na sombra de um enorme carvalho, e carregava uma harpa dourada. A musicista, com tremenda maestria, fazia seus dedos passearem suavemente de lá para cá através das cordas do instrumento angelical — assim como um navio que acompanha o balançar do oceano —, ressoando notas doces e absolutas pelo ar. Raios de luz que atravessavam a copa da árvore pontilhavam-na por todo seu corpo e abrilhantavam sua pele. A brisa serena que brincava com seus longos e voláteis cabelos dourados também varria as folhas caídas do carvalho, enriquecendo sua apresentação solitária. Aquela refinada melodia que embebia meus ouvidos era, seguramente, uma obra de arte. Entretanto, quando eu quase pude ouvir seu próximo tom, a harpista congelou suas notas. Os dedos que carinhosamente dedilhavam as cordas do instrumento findaram seus movimentos quando perceberam a aproximação de um homem.
A donzela, até aquele momento protegida por sua concentração, perturbou-se com a presença do estranho. No entanto, ao perceber que aquele se tratava de alguém benquisto, suas bochechas rosaram. Vestindo modestamente uma toga marrom, o homem ofereceu-lhe sua mão e ela levantou-se com sua ajuda. Ambos eram quase parelhos na altura — poucos dedos os desigualavam, fazendo com que ela alcançasse seu queixo —, mas, ao passo que ela tinha cabelos loiros e rosto oval, ele possuía aparados cabelos negros e seu rosto era retangular. Qualquer um dos dois poderia, facilmente, se passar por príncipe ou princesa de qualquer reino distante, e até mesmo Crunor se alegraria de vê-los juntos. Sorrisos cresceram nos rostos do casal e um abraço caloroso se seguiu. A brisa macia que soprava balançou o tecido das roupas dos dois como se fossem um só, consolidando sua união, e, enquanto o homem a envolvia em seus braços, um beijo íntimo selou seu encontro.
Em um dado momento, eu pude perceber, em meio às suas carícias, que o homem propôs à donzela algum tipo de convite. O sorriso que aflorava naquele rosto oval desapareceu no mesmo instante e, com um balançar de cabeça e olhar de amargura, a donzela o recusou. Entristecido, porém consciente de que aquilo não poderia ter acontecido de outra maneira, seu companheiro desceu a colina a pontuados passos e a deixou somente com a companhia de sua harpa. Abandonada sem quaisquer palavras de seu amante, a donzela sentou-se aos pés do carvalho e pôs-se a chorar, iniciando um lamento espontâneo e doloroso. O arrependimento por haver recusado o convite de seu amado havia, sem sombra de dúvidas, batido às portas de seu coração. Naquele momento, assim como o humor dos dois amantes, o ambiente também havia mudado.
A brisa agradável que soprava transformou-se, inexplicavelmente, num vendaval incontrolável. O vento uivante, orquestrando uma dança macabra, fez com que as folhas caídas rodopiassem ao redor da donzela, e que ela, desesperada, gritasse num pedido de socorro. Eu sabia que precisaria agir, e, assim, deixando de lado meu papel de observador, eu assoviei em sua direção e acenei, esperando haver tido sucesso na minha tentativa de chamar sua atenção. Desde o início eu havia desconfiado, mesmo que ingenuamente, que existia algo de errado naquela situação, mas foi somente quando seus olhos fantasmagóricos encontraram com os meus que eu soube que aquilo era um sonho.
Apesar de eu ter acordado durante um espasmo terrível, ter conseguido abrir os olhos foi um presente. Eu suava muitíssimo quando me dei conta que estava, simplesmente, dentro de minha sala em Kazordoon. Aquele teria sido um bom descanso se eu não houvesse levado um susto dolorido ao acordar e, sobretudo, se aquele sonho não houvesse acontecido. Minha respiração estava perturbada por consequência do sonho, e quando eu consegui, com muito custo, controlá-la, eu me levantei da cama. Eu estava fraco e minhas pernas vacilavam, mas, mesmo tendo de me apoiar nas paredes por várias vezes, eu vesti minha armadura e posicionei minha espada em sua bainha. Aquela não era a primeira vez que eu presenciava o encontro dos dois amantes enquanto dormia, e, provavelmente, não seria a última. Sonhar sistematicamente com as mesmas coisas vinha me inquietando, mas, por sorte, eu conhecia alguém que poderia me ajudar. Se aquilo tivesse acontecido por, pelo menos, mais uma vez, eu estava certo que enlouqueceria; portanto, logo que me vi pronto para a viagem, eu atravessei os letárgicos corredores de Kazordoon e segui a estrada, ainda escura, que avançava para o norte. Meu destino era Ab’dendriel e o nome que eu buscava era o de Leon.
Enquanto eu ainda galopava ruidosamente pelo caminho, rápidos devaneios sobre quem eram as duas figuras com quem eu havia me encontrando nos sonhos passavam pela minha cabeça. Haver guardado segredo sobre tudo aquilo havia me castigado tão duramente quanto as palavras chicoteadas por Costello castigaram o orgulho thaiano de Henricus. O inquisidor de Thais tinha a sorte de, pelo menos, ter trabalhado com casos como aquele há muitos anos — criando, portanto, uma couraça dura o bastante para que meras palavras não pudessem atravessá-la —, enquanto os sonhos que eu havia tendo com o casal apaixonado duravam apenas algumas semanas. Leon, não muito habituado às alturas, mantinha uma casa modesta próxima ao depósito da cidade, e, quando me aproximei, bati três vezes na porta de madeira como sempre costumava fazer. Os primeiros raios de luz do dia chocaram-se com o rosto do druida quando ele apareceu na porta, ainda sonolento e incomodado com a luminosidade estranha aos olhos, para me receber. Imaginei que ele me perguntaria sobre Costello, e, por isso, logo expliquei a ele que não era nada relacionado à prisão do abade. Meu companheiro, então, ofereceu-me comida e a atenção que eu tanto havia precisado.
Eu contei a Leon desde as minuciosidades do sonho — os amantes, o afeto e o dissentimento final dos dois — até o número de noites que eu passei sendo perturbado por ele. Eu havia, finalmente, encontrado conforto em sua boa vontade de me ouvir. O comprido manto verde de Leon não escondia quem ele era: um homem atencioso e disposto a escutar o que as pessoas tinham a lhe dizer. Eu tinha certeza que poderia contar com o druida para qualquer problema que me ocorresse, e naquela vez não poderia ter sido diferente. Com enorme paciência ele me escutou, e, depois de eu ter terminado, ele deu suas opiniões.
— Essa é uma situação complicada — ele disse, e hesitou em dizer meu nome. — Eu temo pelas palavras que você terá de ouvir agora, mas, por favor, seja resiliente, certo? — Leon perguntou, olhando firmemente para mim com seus arregalados olhos castanhos, e eu concordei com um balançar de cabeça. — Nós precisaremos voltar àquelas terras amaldiçoadas de Costello. Receio que a Rainha das Banshees busca por você.
— A Rainha das Banshes? Você está louco, Leon? Como você sabe que ela procura por mim? — eu perguntei, incrédulo e extasiado pelo conhecimento do druida.
— Eu já estive frente a frente com ela uma vez — o druida categorizou, colocando intensidade na voz. — Muito além de sua aparência, ela tem propósitos imensamente maiores do que somente colocar seu exército de criaturas repugnantes, cada qual com suas próprias intenções, para trabalhar. Lembra-se de quando Costello mencionou um beijo enquanto respondia Henricus? — ele me indagou, e eu respondi afirmativamente. — Pois acredito que ele sabia do que estava falando. A Rainha das Banshees busca, há muito tempo, o beijo de seu amante perdido. Não tenho muito conhecimento sobre toda a história, uma vez que minha passagem pelos seus domínios foi rápida, mas sei que até um dos porcos do chiqueiro dos McRonald está envolvido nessa bagunça — ele disse, com ar cômico, disfarçando a gravidade da situação. — Impressiona-me o fato dela ter poder dentro do reino dos sonhos, porém, melhor do que nos impressionarmos com sua engenhosidade, precisamos ir até ela e descobrir quais são seus planos com você, amigo. Acredito que ela precisa de nossa ajuda — Leon terminou.
— Ah, Costello! Veja onde você nos meteu — suspirei, impressionado com as proporções que todo esse assunto havia tomado. — Pois que assim seja — eu disse, levantando-me do apoio em que eu estava recostado. — As coisas realmente não mudam, não é mesmo? O amor complica sua vida mesmo tendo você vinte e cinco ou incontáveis anos de idade — eu brinquei, e nós dois rimos. — Você tem tudo o que precisa, Leon?
— Eu sempre tenho. Aliás — ele interrompeu a si mesmo —, permita-me pegar meu outro livro de feitiços. Eu tive certa dificuldade em colocar as mãos em um exemplar desses, então, talvez, ele nos seja útil — o druida completou, alcançando, dentro de um de seus armários, um estranho livro de arestas retalhadas, que, preso por uma cinta de couro, era impedido de revelar seus segredos.
Nós partimos, assim, para Carlin. Ao longo do caminho, o druida contou-me que, daquela vez, nós não iríamos até a Ilha dos Reis, mas sim às Terras dos Fantasmas. O domínio sobrenatural da Rainha das Banshees cobria toda aquela área, e, como dito por ele, nós poderíamos pegar o caminho pelas terras amaldiçoadas do oeste da cidade para encontrá-la. Eu não quis perguntar a ele quais eram seus motivos por tê-la visitado, já que Leon vestia uma máscara extremamente irritadiça quando se lembrava das mortes causadas pelas Banshees. Entretanto, quando estávamos no limite entre Carlin e as Terras dos Fantasmas, eu o fiz. Ao contrário do que pensei, Leon explicou-me pausadamente que, certa vez, ele, fazendo parte de um grupo de entusiastas pelo conhecimento ali guardado, já havia se esgueirado pelos corredores macabros que corriam por debaixo daquelas terras. O motivo por não haver dito nada a respeito da rainha era porque, ao contrário do que os bardos cantavam, as atrocidades que aconteciam naquele lugar partiam de seus servos, e não dela mesma. A Rainha das Banshees guardava uma história muito mais profunda, e, acima de tudo, ela era uma das poucas entidades naquele lugar que possuía a sanidade preservada. Meu companheiro de batalha relatou-me, também, que ela buscava por ajuda há muito tempo, e que seu apelo através dos meus sonhos era sua última súplica por socorro.
Após atravessarmos a cerca viva que encarcerava — ou deveria ter encarcerado — os espíritos ruins de uma das maiores cidades do continente, nós avançamos por sobre aquele terreno maldito rumo ao sul da península. Queimadas árvores tortas nos observavam e, repetidamente, ratos nos atropelavam pelo caminho. Os que fugiam dos meus pontapés, Leon os executava com mínimas sílabas de feitiço. Com a condução do druida, eu e ele adentramos numa sala de pedra e descemos por um buraco feito no chão. Continuamos por mais um, dois e três andares, todos eles apinhados de esqueletos lamuriantes e morcegos repulsivos. Através do ar pútrido eu fazia minha espada sibilar, fragmentando o que quer que seja que mantinha aqueles ossos em pé. Em um dado momento, Leon me pediu, enquanto lançava um feitiço de velocidade, para que eu o esperasse junto à uma das paredes da caverna, permitindo, assim, que ele acionasse algumas alavancas — as quais eu não fazia ideia de onde estavam. Eu percebi algo de estranho por perto e, num som seco e grave, algo se desfez atrás de mim. O que chamou minha atenção era uma parede mágica que havia perdido sua forma, deixando que o ar pestilento preenchesse instantaneamente o vão deixado. Ouvi Leon passar por mim uma segunda vez, disparando na direção contrária à anterior, e, pouco tempo depois, uma segunda parede, a qual guardava as costas da outra, se desfez.
Esperei até que meu amigo voltasse para que nós violássemos a gruta recém-aberta. Aguardavam-nos ali um campo de força mágico e um buraco aberto no chão. Leon disse-me que, após descermos, estaríamos na entrada dos domínios da Rainha das Banshees. Parei por um momento e ponderei sobre nossa decisão e, acima de tudo, por que estaríamos indo tão longe assim. No entanto, era difícil pensar quando a felicidade de uma rainha estava nas mãos de, somente, dois homens. Sem mais protelações, o druida pediu-me que eu descesse primeiro e que fosse cauteloso. Infelizmente, num movimento descuidado, desci através da fenda e caí ruidosamente sobre o chão, sentindo terra fazer seu caminho por entre minhas botas. Dei meu sinal e, rapidamente, Leon escorregou pelo rasgo entre os andares, dilatando a escuridão com seu recém lançado feitiço de luz. Enquanto eu tomava a dianteira, um barulho afiado encheu o ambiente quando eu pisei, com minhas botas de aço, em um piso de mármore negro. Aquilo fez eu perceber que estávamos, realmente, penetrando em uma parte importante daquele lugar.
A postura de Leon enrijeceu-se e eu o senti preparar-se para a batalha. Uma enchente de gritos estridentes soprou da direção que estávamos olhando e, de dentro da escuridão, uma horda de seres abomináveis avançou sobre nós. Posicionei-me à frente do druida e ofereci a lâmina da minha espada à toda sorte de entidades sujas — fantasmas, mortos-vivos, múmias e esqueletos demoníacos — que apareciam aos montes. Leon, como um especialista em feitiços de gelo, fez o ar assoviar em nossa volta, lançando ondas de ar congelante. Quando eram atingidos, aqueles seres estalavam e retorciam-se, abrindo espaço para que eu os terminasse com rápidos cortes de espada. Após constatarmos não haver mais criaturas, avançamos sobre os corpos deixados no chão e entramos num salão excentricamente desenhado. Um longo carpete vermelho desdobrava-se ao longo daquele aposento e terminava aos pés de um par de pedras de sacrifício, as quais, por sua vez, eram encimadas por pontuais campos de fogo. Em ambos os lados éramos esbarrados por extensas mesas de madeira envelhecida e, logo que distinguimos um trono na parte superior da sala, um corpo nos chamou a atenção. Aquele não aparentava ser nenhum morto-vivo ou correspondente: era um homem como qualquer outro. Seu corpo, acinzentado e quintessencialmente morto, repousava em frente à cadeira elevada, como se houvesse sido subjugado pelas forças malignas que ali existiam.
Leon aproximava-se de um dos cantos do aposento quando eu o ordenei que parasse. Certamente ele não havia notado o pobre homem que jazia aos nossos pés — assim como tantos outros corpos que ali se reuniam. Entretanto, quando eu me acerquei do homem e pude olhar seu rosto, meu sangue congelou por um longo e doloroso instante. Aquele era, indubitavelmente, o homem de toga marrom que havia me visitado nos sonhos. Suas feições não poderiam mentir: aquele rosto retangular que sorria para a donzela dos meus sonhos era o mesmíssimo que dormia no chão à minha frente, branco e sem vida. Narrei novamente a Leon sobre aquele homem e pedi para que ele me ajudasse a levantá-lo. Eu haveria de carregá-lo, mesmo que fosse às minhas costas, e apresentá-lo à rainha. Aquele era, e precisava ser, seu amante perdido. Portanto, assim que o druida ouviu minhas palavras, ele o levantou, e ao descansar o cadáver sobre mim, um livro caiu de um de seus bolsos. Pedi a que Leon o lesse para termos a mínima ideia do nome quem eu carregava nas costas e, quando ele findou sua leitura frequentemente atrapalhada por borrões e trechos sem sentido, concluímos que aquele tratava-se de Fugio.
O irmão desaparecido de Costello era certamente o amante da Rainha das Banshees, mas, o que realmente pungia meu inconsciente era o salto temporal que a situação havia dado. Como era possível a Rainha das Banshees, ao lado de seu homem, mostrar-se uma bela jovem nos meus sonhos mesmo tendo incontáveis anos de existência? Fugio era pouco mais velho do que nós, somente, e a coexistência dos fatos não poderia acontecer de forma alguma. Leon, mesmo vendo meu semblante de dúvida, pediu para eu descesse algumas escadas, cujo mecanismo ele havia acabado de acionar. Pé por pé eu desci pela madeira rangente, e assim fez o druida, logo atrás. Então, quando o último de meus pés alcançou o chão de terra, uma pequena câmara nos recebeu e apresentou a nós a tímida luz de um campo de força mágico. Parei à frente do globo pulsante, fazendo com que Leon também parasse atrás de mim, e me indaguei sobre o ponto que ainda me angustiava. O druida, improvisadamente, lançou-me algumas palavras de conforto, mas, o que eu realmente pude sentir em sua sentença, era a sensação de que não poderíamos mais voltar atrás.
— Tudo o que precisamos fazer agora é passar pelos domínios da rainha e provar a ela que somos capazes de receber sua palavra. Nosso caminho, na verdade, começa aqui. Você pode ir primeiro — Leon articulou, esperando meu movimento pioneiro. Ajeitei o corpo de Fugio às minhas costas e avancei sobre o globo piscante, com os olhos fechados. Senti meu corpo transportar-se pelo espaço e somente voltei a abrir meus olhos quando ouvi novamente a voz de Leon. — O que está acontecendo?
O feitiço de iluminação havia se desfeito e nós estávamos imersos na escuridão. A julgar pelo espanto de Leon, algo não havia corrido bem. Quase instintivamente, aproximei-me de onde sua voz veio, mas, apesar daquilo, eu não era capaz de identificar se estávamos sozinhos ou não. Constatei, no entanto, quando nossos pés se tocaram lateralmente, que nós estávamos olhando para a mesma direção, e, ao mesmo tempo que nos esforçávamos para enxergar algo, nada refletia aos nossos olhos. Diante daquilo, eu murmurejei quase inaudivelmente as palavras que, a princípio, trariam luz ao ambiente, mas que, por resultado, nada iluminaram. Eu me senti impotente, assim como eu estava certo de que Leon também se sentia daquela maneira. Por fim eu percebi que, inconscientemente, eu havia aberto os portões da minha alma e deixado que o medo se escondesse dentro dos meus ossos.
— Vocês precisam de luz? — disse uma voz trêmula. — Pois que haja luz.
Palmas secas foram batidas na escuridão à nossa frente e, gradativamente, a iluminação tomou seu espaço. Em poucos instantes um salão tomou forma ao nosso redor e um carpete vermelho aconchegou nossos pés. Os mesmos pisos de mármore negro que cobriam a sala em que havíamos achado o corpo de Fugio revestiam quase totalmente nossa nova acomodação, elevando seu prestígio assombroso. Não muito demorei para que eu levantasse meu olhar aterrorizado e encontrasse a peça central daquele tabuleiro negro: cercada por sua corte, estava a Rainha das Banshees, que se debulhava em lágrimas desesperadas quando nosso primeiro encontro se concretizou. Suas vestes e aparência eram incrivelmente similares às de suas de suas súditas, mas, o que me assegurou de que aquela era mesmo a rainha havia sido sua postura: seus olhos fantasmagóricos, idênticos aos olhos da donzela dos meus sonhos, desfizeram-se em choro quando encontraram os meus. Havia autenticidade em seu pranto.
— Eu sabia que você viria — a rainha disse com sua voz cavernosa, consolando-se. — Eu sabia! Você o trouxe de volta para mim, como eu havia lhe dito nos sonhos! Entretanto, eu peço a você, meu guerreiro, e a seu druida, um último favor — ela completou, secando as lágrimas em sua túnica podre. O sentimento de culpa correu-me por toda a extensão do meu corpo por haver sentido, mesmo que por um momento, medo de uma entidade tão pura e verdadeira quanto a Rainha das Banshees, ignorando a personagem que Leon tentou me construir dela. Um imediato balançar de cabeça marcou minha concordância, e assim também seguiu Leon — Eu estava certa de que vocês concordariam! Agora, por favor, eu preciso que o druida pegue seu livro de feitiços e traga de volta à vida este que o guerreiro traz às costas. Leon é seu nome, certo? — ela direcionou a pergunta ao druida, que assustou-se com a constatação de que ele era capaz de trazer alguém de volta à vida. — Pegue seu livro de feitiços e eu lhe ensinarei os passos. Eu antevi que vocês não se esqueceriam dele!
Aos calafrios, Leon abriu sua mochila e retirou seu livro de feitiços. A Rainha das Banshees aproximou-se dele e agarrou, entusiasmada, o livro com seus dedos magros. Enquanto ela comentava o quão bem cuidado aquele exemplar era, ela virou o volume de cabeça para baixo e marcou quatro páginas entre seus dedos. Ao entregar o livro de feitiços a Leon, ela criou quatro orbes de luz e as conduziu para as lacunas que havia deixado no volume, fazendo com que uma dúzia de palavras do nosso idioma comum se destacassem ante seu brilho. Voltando sua atenção a mim, a rainha pediu-me para que eu colocasse o corpo de Fugio no chão e ordenou que Leon prosseguisse com o ritual lendo as palavras de trás para frente na ordem que apareciam. Para isso, ela nos explicou que, antes de começarmos, o livro que meu amigo carregava era especial. Ao contrário dos livros comum de feitiços, o volume que Leon trazia consigo era um exemplar do Livro de Feitiços das Almas Perdidas, o qual, se manipulado da maneira correta, conduzia de volta do vazio, por um determinado período de tempo, as almas que haviam deixado esse mundo.
O druida, impaciente, leu as palavras como a rainha havia pedido, primeiro lentamente e depois apressadamente, mas o corpo de Fugio permanecia imóvel e sem cor. Eu temia pelo sucesso do ritual porque nós não poderíamos falhar com os sentimentos de nossa majestade. Tudo o que eu poderia fazer, naquele momento, já havia sido feito, e nosso êxito dependia das habilidades de Leon. Diante daquela situação, ele novamente enunciou as palavras — as quais brilhavam tanto que eu pensei, por um momento, que elas estivessem fora das páginas do livro — aos rugidos. A corte da Rainha das Banshees manteve-se taciturna por todo o ritual, e foi com a ajuda daquele silêncio fúnebre que pudemos ouvir a primeira batida descompassada que se rompeu no peito de Fugio. Seguida por mais uma e, novamente, outra batida, a vida havia voltado a pulsar dentro daquele homem. Leon, por sua vez, exausto e consumido pela força que nem ele sabia que possuía, caiu de joelhos, ofegante. A rainha prometeu-me que ele ficaria bem e pediu que eu fosse rápido ao ajudá-la naquele momento. Eu ofereci a Fugio meus ombros e o ajudei a levantar-se. O monge, ainda vulnerável pelo sopro sobrenatural que havia o trazido de volta à existência, mantinha uma respiração desregrada e apresentava ânsia pela vida. Passando velozmente os olhos trêmulos pelo salão, Fugio fixou-os em sua rainha, abrindo-se em um genuíno sorriso. Suas mãos fracas buscaram as dela e os dois se viram juntos novamente.
Recuei alguns passos para dar apoio a Leon enquanto os dois reconheciam-se, após quase uma vida separados. Seu incomumente desenhado livro de feitiços dançava energicamente pelo piso de mármore à sua frente como se nada pudesse pará-lo. Olhei para os dois amantes e não mais vi aquela figura fraca e sacolejante de Fugio, tampouco vi a envelhecida Rainha das Banshees em sua mortalha, mas vi a mesma cena que aparecia nos meus sonhos. Aquele dia ensolarado encheu o salão onde estávamos e a estonteante donzela, com sua harpa, beijava o homem de poucos dedos mais alto que ela em sua toga marrom. A expressão de vislumbre no rosto de Leon era espantosa — uma vez que foi ele o precursor do ritual — e a imagem que tínhamos era quase como uma miragem dos desertos de Darama. No entanto, inesperadamente, nossa atenção voltou-se para o livro que piruetava no chão: ele havia encerrado sua manifestação iluminada até o ponto de fechar-se por si mesmo e amarrar-se com sua cinta de couro. O ritual havia acabado e o aperto que Leon sentia encontrou seu fim.
— Acredito que devemos explicações a vocês, não é mesmo? — disse a Rainha das Banshees, ainda assumindo a forma que eu a via nos sonhos, bela e incólume — O homem que vocês chamam de Fugio não é o mesmo que eu apresentei a você em seus sonhos, guerreiro — ela revelou, olhando brilhantemente para mim —, e sim sua reencarnação. A morte de meu amante por mãos de alguns de meus servos — ela rosnou, fazendo referência à sua corte de Banshees — havia quebrado esse ciclo, e eu temi não mais poder ver, pelo resto da eternidade, o único elo que me ligava à vida mortal que eu tive. Leon já havia provado, há tempos atrás, que era digno de minha palavra por meio de sua passagem através cada um dos selos que se espalham pela minha morada. Entretanto, meu guerreiro, quando eu senti sua presença em meus domínios, decidi desarranjar toda essa sucessão de testes fúteis, os quais tomariam seu tempo, e trazê-lo diretamente até mim.
— Isso é... — eu disse, com as palavras abandonando espontaneamente meus lábios — incrível. Fico feliz em ter ajudado vossa majestade na busca de seu... rei. Eu e Leon nos sentimos extremamente gratificados por isso. Entretanto, minha rainha, posso perguntar-lhe por que nos escolheu? O que havia de especial em nós? — eu perguntei, enquanto ela aninhava-se nos braços de seu amante.
— Vocês guardam potencial, e, sobretudo, um coração bom. Ambos, sem exceção — ela respondeu, ajeitando seu vestido branco. — Muitos vêm até mim, derramando sangue das almas infelizes que tiveram o mesmo destino que o meu, com o intuito de somente minerarem riquezas à custa de uma alma infeliz. Vocês, no entanto, entregaram-se à uma jornada que não lhes traziam benefícios. Corrigir um erro que eu cometi enquanto eu ainda vivia não era um trabalho de mais ninguém, senão meu, mas vocês se dispuseram a ajudar-me. O fato de Leon ter trazido um Livro de Feitiços das Almas Perdidas facilitou ainda mais nosso encontro. Os magos de hoje somente carregam livros de feitiços porque se esquecem das palavras em combate; poucos deles sabem que cada volume desses carrega porções de conhecimento que valem uma existência inteira — a rainha disse, e olhou para seu amante em seguida. — Agora que você conhece essa técnica, Leon, use-a com sabedoria. Os vínculos entre o seu livro e o homem que vocês chamam de Fugio foram dissociados. A vida dele estará sob meus cuidados daqui em diante, assim como a minha esteve sendo cuidada por ele durante todo esse tempo. Obrigada, garotos, por tudo o que vocês fizeram e pelo que eu fui incapaz de fazer.
Terminada sua fala, a rainha aproximou-se de nós e, levantando graciosamente seu vestido, acocorou-se à frente de Leon, que continuava de joelhos. Eu pude sentir, naquele momento, o que não me foi permitido ter sentido nos sonhos: seu perfume, espantosamente doce e deleitante. Com um gesto espirituoso, ela beijou sua testa em agradecimento, e instantes depois ele desapareceu, deixando somente seu livro para trás. Cuidadosamente, ela o pegou e dirigiu-se a mim. Suas mãos delicadas tocaram as minhas e as abriram, entregando o pertence de Leon. Ela sussurrou em meus ouvidos que seria eternamente grata a nós pelos feitos e, acidentalmente, derramou uma de suas lágrimas jubilosas em meus braços. Não pude fazer nada senão desmoronar aos seus pés, como qualquer súdito faria diante de sua rainha. A princesa que havia me visitado nos sonhos era, na verdade, uma bela rainha, cujo rei havia acabado de ascender ao trono. Antes de beijar-me a testa, como fez com Leon, a rainha verdadeiramente sorriu para mim, espelhando a felicidade de sua alma completa pelo amor.